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Rothschild revela o papel crucial que seus antepassados ​​tiveram na Declaração Balfour e na criação de Israel

Rothschild revela o papel crucial que seus antepassados ​​tiveram na Declaração Balfour e na criação de Israel

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Rothschild revela o papel crucial que seus antepassados ​​tiveram na Declaração Balfour e na criação de Israel

Times de Israel relata que Lord Jacob Rothschild revelou recentemente novos detalhes sobre o papel crucial que seus ancestrais desempenharam na obtenção da Declaração Balfour, que “ajudou a pavimentar o caminho para a criação de Israel”.

O Rothschild, de 80 anos, é o atual chefe da família bancária e um forte defensor de Israel.

A Declaração de Balfour (texto abaixo) era uma carta oficial de 1917 do Ministro Britânico de Relações Exteriores, Lord Balfour, dirigida a Lord Rothschild, um líder sionista na Grã-Bretanha na época e atual tio de Rothschild.

Durante uma entrevista televisiva, o Times de Israel relata que Balfour revelou pela primeira vez o papel de sua prima Dorothy de Rothschild.

Rothschild descreveu Dorothy, que na época era adolescente, como “devotada a Israel”, e disse: “O que ela fez, o que era crucialmente importante”.

Rothschild disse que Dorothy ligou o líder sionista Chaim Weizmann ao establishment britânico.Dorothy “disse Weizmann como integrar, como inserir-se na vida estabelecimento britânico, que ele aprendeu muito rapidamente.”

Rothschild disse que a forma como a declaração foi adquirida foi extraordinária. “Foi o mais incrível oportunismo.”

“[Weizmann] chega a Balfour”, descreveu Rothschild, “e inacreditavelmente, ele convence Lord Balfour, e Lloyd George, o primeiro-ministro, ea maioria dos ministros, que esta idéia de um lar nacional para judeus deve ser permitida . Quero dizer que é tão, tão improvável.

 

A entrevista foi realizada pelo ex-embaixador israelense Daniel Taub como parte do projeto Balfour 100. Taub entrevistou Rothschild em Waddeston Manor, em Buckinghamshire, uma mansão legada à nação pela família Rothschild em 1957, onde a Declaração é mantida.

Segundo o embaixador Taub, a declaração “mudou o curso da história para o Oriente Médio”.

O Times relata que Rothschild disse que sua família no momento estava dividida sobre a idéia de Israel, observando que alguns membros “não achavam que era uma coisa boa que esta casa nacional fosse estabelecida lá”.

As cartas de Dorothy também são armazenadas em Waddeston. Eles descrevem suas relações posteriores com diversos líderes sionistas e seu conselho sobre a organização da Conferência Sionista, de acordo com o Times .

Rothschild disse que a Declaração passou por cinco rascunhos antes de finalmente ser emitido em 2 de novembro de 1917.

Alison Weir relata em seu livro, Against Our Better Judgement: The Hidden History of How the US foi usado para criar Israel , que os rascunhos da declaração foram para frente e para trás aos sionistas nos Estados Unidos antes que o documento fosse finalizado. O principal escritor foi o segredo sionista Leopold Amery .

Declaração Balfour Texto:

Ministério dos Negócios Estrangeiros
2 de Novembro de 1917

Caro Lorde Rothschild,

Tenho muito prazer em transmitir-lhe. Em nome do Governo de Sua Majestade, a seguinte declaração de simpatia pelas aspirações sionistas judaicas que foi submetida e aprovada pelo Gabinete

O Governo de Sua Majestade considera favorável o estabelecimento, na Palestina, de um lar nacional para o povo judeu, e fará todos os esforços para facilitar a realização deste objeto, entendendo-se claramente que nada poderá ser feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos Das comunidades não judaicas existentes na Palestina ou dos direitos e status político de que gozam os judeus em qualquer outro país.

Gostaria de agradecer se quisesse apresentar esta declaração ao conhecimento da Federação Sionista.

Sua,

Arthur James Balfour

Entrevista a Liliane Cordova Kaczerginski, da Rede Internacional de Judeus Anti-sionistas

Entrevista a Liliane Cordova Kaczerginski, da Rede Internacional de Judeus Anti-sionistas

20/10/2011

 

Faz algum tempo que começou a circular por internet uma “Carta aberta da Rede Internacional de Judeus Anti-sionistas” contra as matanças de Israel em Gaza, escrita pela organização de Judeus Anti-sionistas  International Jewish Anti-Zionist Network (IJAN)Contactei com um membro desta organização, a coordenadora europeia do IJAN, Liliane Cordova Kaczerginski, e coloquei-lhe algumas perguntas sobre a posição da sua organização sobre o que está ocorrendo na Faixa de Gaza. As respostas são muito interessantes, porque ajudam a desmentir alguns dos dogmas que formam parte da ideologia sionista e que têm como objetivo justificar com falsos argumentos históricos a colonização da Palestina, verdadeira origem dos crimes que está cometendo Israel. Na Europa, praticamente desconhecemos a existência de judeus opostos à política racista do estado israelita (br. israelense) para com os palestinianos (br. palestinos).

1. Quem são e quais são os vossos objetivos como organização?

Somos um polo judaico anti-sionista dentro de um grande movimento internacional que desafia o racismo, o colonialismo, o imperialismo e o sionismo.

Liliane Cordova Kaczerginski - Associação de Judeus Anti-sionistas

Liliane Kaczerginski – Associação de Judeus Anti-sionistas

2. Vocês se apresentam como anti-sionistas, apesar de serem judeus. Seguramente que muitas pessoas não entendem isso, ou lhes parecerá uma contradição.

O sionismo usurpou a identidade judaica, a historia dos judeus e a sua representatividade. Ser judeu, ser sionista, não é uma equação. O sionismo é um movimento político surgido no meio das conquistas coloniais europeias do século XIX; não tem nada que ver com a religião judaica, nem com a sua história; note-se que foi um movimento bastante impopular entre as massas de judeus da Europa Oriental até a segunda guerra mundial.

3. Acreditas que é possível que algum dia exista um estado não sionista em Israel-Palestina?

Não podemos vê-lo numa bola de cristal. Seria o justo. De qualquer forma, um estado judaico sionista, baseado na supremacia dos judeus não tem futuro [curiosamente, um palestino, Usama Khaldy, disse-me o mesmo alguns dias atrás].

4. Que pensas quanto à  ideia de criar dois estados separados: um palestiniano e outro judeu? Será a única solução possível?

Devemos deixar atrás essa página. Israel tem feito todo o possível para minar essa perspectiva, a qual os Palestinianos aceitaram (e muitos acreditaram nela, honestamente). Outras perspectivas são possíveis, como una integração regional do Médio Oriente tendo em conta a diversidade étnica, religiosa, linguística….

5. Que podes dizer  acerca do aproveitamento por parte do estado e dos mídia israelenses do Holocausto, como forma de justificar la opressão sobre o povo palestino?

É a pior manipulação da história trágica dos nossos pais e avós e da história europeia em geral. É uma desprezível utilização  desse genocídio realizado pelo regime nazista (pt – nazi) e seus colaboradores. O sionismo também utiliza premissas antissemitas, ao afirmar que os não-judeus sempre odiarão, despreciarão e nunca poderão aceitar os judeus como vizinhos com a mesma igualdade que deve ter qualquer cidadão de um estado.

6. Que tem que ver la Nakba com o que está sucedendo em Gaza? Qual a vossa opinião?

Parece-me um prolongamento do projeto colonial, a continuação da limpeza étnica, além de formar parte dos interesses geopolíticos do império e seus lacaios na região do Médio-Oriente.

Em Israel existem poucos Judeus Anti-sionistas.

7. Existe atualmente, em Israel, algum movimento de judeus a favor da paz com os palestinos? Que estão fazendo para acabar com a violência e lograr uma negociação a favor da paz?

Em Israel existem poucos Judeus Anti-sionistas ou não sionistas; uns 2 ou 3 mil, muito ativos, simbolicamente importantes, mas não no plano do balanço de forças. É Israel quem despreza qualquer interlocutor palestino, exepto se aceita o programa proposto por Israel, que são as teses do sionismo e a sua realização na Palestina.

8. Quem são os judeus “mizrahim” e que diferem dos “ashkenazes”? Na Europa, temos a ideia de que a comunidade judaica é um só bloco e que todos estão mais ou menos de acordo com o estado de Israel, Isso é certo?

Os mizrahim foram extraídos dos seus países [de Oriente  e Norte de África], sem que se lhes dera muito espaço, nem para preguntas, nem para escutá-los. O poder sionista necessitava gente para construir um estado… Com o desprezo racial próprio dos europeus, o poder tomou as decisões que afetavan a toda essa massa de imigrantes sem os consultar: lugares de residência, hierarquia profissional, educação, desintegração cultural. Atualmente os ashkenazes [judeus de procedência europeia] ganham uns 40% mais de dinheiro que os mizrahim. A atual geraçãomizrahim, que se educou em Israel, pode ser tão antiárabe como a ashkenazi, apesar de terem um agudo sentimento de serem discriminados pelo poder nas mãos dos(judeus) europeus.

9. Que relações vocês mantêm com a comunidade palestina, dentro e fora das fronteiras do estado de Israel?

Bastante estreitas. Acompanhamos o apelo ao boicote, desinvestimentos e sanções[Campanha BDS] e o processo de Durban [refere-se à Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Conexas de Intolerância celebrada em 2001, em Durban, África do Sul, em que se denunciou o racismo israelense  para com os palestinos], o que nos aproxima a grupos como BadilAbna Al Balad , PACBI e outros.

10. Conheces a Azmi Bishara e ao seu movimento político? Qual a vossa opinião dele?

Aqui darei a minha opinião pessoal, uma vez que não foi discutido por todos no IJAN. Penso que Bishara é um intelectual brilhante, que conhece profundamente o sionismo, a mentalidade israelense e a política europeia e árabe. [Azmi Bishara é um político palestino com nacionalidade israelense, deputado do parlamento de Israel, alvo de uma persecução estatal para destruir o seu movimento político a favor da criação de um estado não sionista].

11. Que papel consideram que têm os Estados Unidos e a União Europeia na manutenção da política israelense relativamente aos territórios ocupados e para com os palestinos em geral?

Na luta concreta, ou imaginada, contra o “terrorismo”, as potências ocidentais continuam a desempenhar o seu papel de representar a “civilização” contra a “barbárie” (como se viu como fazem no Guantánamo ou como fizeram com Pinochet, etc.). E as multinacionais estão muito contentes.

12. Veem alguma relação entre a islamofobia que existe na Europa e nos EUA o a questão da Palestina?

Absolutamente. Demonizar os árabes e os muçulmanos é um dos fundamentos da luta “antiterrorista”.

13. Qual é a vossa posição relativamente à resistência palestina violenta?

Não existe concordância relativamente a esse assunto na nossa rede. Temos militantes orientados para uma luta não-violenta e outros que defendem todo o gênero de resistência, incluídas as formas violentas.

14. Qual creem vocês que será a solução do “conflito” existente entre palestinos e judeus? Como se alcançará a paz? Como se derrubará um dia o Muro que divide -ou pretende dividir- comunidade da outra?

Não é um conflito. É uma conquista e uma ocupação colonial programada por um segmento da população judaica da Europa, com o impulso e apoio da Europa e dos Estados Unidos, para desarticular a integração de uma região árabe independente. A paz chegará quando esse empreendimento colonial racista se desintegre, nunca antes.

15. Que pensam que podemos fazer nós, os Judeus Anti-sionistas europeus,  para contribuir na luta contra o sionismo?

Denunciar as suas falácias, embustes e manipulações da opinião pública e exigir o isolamento de Israel, como aconteceu com a África do Sul do apartheid. Romper com qualquer laço econômico e político com Israel e fechar as suas embaixadas em Europa.

Autor: Oscar Martínez

Tradução: sionismo.net

Fonte: http://elproblemadeorwell.wordpress.com/2009/01/13/entrevista-con-liliane-cordova-kaczerginski-coordinadora-en-europa-de-ijan-organizacion-internacional-de-judios-antisionistas/

O Lobby de Israel1 John MearsheimerI; Stephen WaltII Dois académicos Americanos, John Mearsheimer, da Universidade de Chicago Stephen Walt, de Harvard, fizeram um trabalho para tentar responder a estas questões e levantaram uma enorme controvérsia com os resultados apurados. O seu livro denomina-se “O Lobby Israelita e a Política Externa dos Estado Unidos” … [leia a notícia na íntegra]

O Lobby de Israel1  John MearsheimerI; Stephen WaltII  Dois académicos Americanos, John Mearsheimer, da Universidade de Chicago Stephen Walt, de Harvard, fizeram um trabalho para tentar responder a estas questões e levantaram uma enorme controvérsia com os resultados apurados. O seu livro denomina-se “O Lobby Israelita e a Política Externa dos Estado Unidos” … [leia a notícia na íntegra]

data de publicação:  abril 27, 2014em:  Estudo e Pesquisas, Sionismo

O Lobby de Israel1

John MearsheimerI; Stephen WaltII

IProfessor Wendell Harrison de Ciência Política em Chicago e autor de The tragedy of great power politics IIProfessor Robert and Renee Belfer de Assuntos Internacionais na Kennedy School of Government em Harvard. Seu livro mais recente é Taming American power: the global response to US primacy


RESUMO

O cerne da política dos Estados Unidos no Oriente Médio deriva das atividades do “Lobby de Israel”, que conseguiu desviá-la para longe do interesse nacional e convencer os americanos de que os interesses dos Estados Unidos e os de Israel são idênticos. O artigo sustenta que estratégias comuns ou imperativos morais inarredáveis não são explicações suficientes para explicar o notável nível de apoio material e diplomático fornecido pelos Estados Unidos.

Palavras-chave: Israel; Estados Unidos; Oriente Médio; relações internacionais.


SUMMARY

The thrust of US Middle Eastern policy derives from the activities of the “Israel Lobby”, which has managed to divert it as far from what the national interest would suggest, convincing Americans that US interests and those of Israel are identical. The article states that neither shared strategic interests nor compelling moral imperatives can account for the remarkable level of material and diplomatic support provided to Israel by US government.

Keywords: Israel; United States; Middle East; foreign affairs.


Nas últimas décadas, e especialmente desde a Guerra dos Seis dias em 1967, o componente mais importante da política dos Estados Unidos para o Oriente Médio tem sido sua relação com Israel. A combinação de apoio resoluto a Israel com o esforço a ele relacionado de disseminar a “democracia” por toda a região inflamou a opinião árabe e islâmica e pôs em risco não só a segurança dos Estados Unidos, mas também a de grande parte do resto do mundo. Essa situação não tem equivalente na história política americana. Por que os Estados Unidos se dispuseram a deixar de lado sua própria segurança e a de muitos de seus aliados para promover os interesses de outro Estado? Poder-se-ia supor que o vínculo entre os dois países se baseava em interesses estratégicos comuns ou em imperativos morais inarredáveis, mas nenhuma dessas explicações é suficiente para explicar o notável nível de apoio material e diplomático fornecido pelos Estados Unidos.

O cerne da política dos Estados Unidos na região deriva, antes, quase inteiramente da política interna, em especial das atividades do “Lobby de Israel”. Outros grupos de interesse específicos conseguiram influenciar a política externa, mas nenhum lobby conseguiu desviá-la para tão longe do que o interesse nacional indicaria, ao mesmo tempo convencendo os americanos de que os interesses dos Estados Unidos e os do outro país — no caso, Israel — são essencialmente idênticos.

Desde a Guerra de Outubro, em 1973, Washington deu a Israel um nível de apoio imensamente maior do que a qualquer outro Estado. Israel foi o maior receptor anual de assistência direta, econômica e militar, desde 1976, e é o maior receptor no total desde a Segunda Guerra Mundial, no montante de bem mais de US$ 140 bilhões (em dólares de 2004). Israel recebe por ano cerca de US$ 3 bilhões em assistência direta, aproximadamente um quinto do orçamento de ajuda externa, e cerca de US$ 500 por ano para cada israelense. Essa prodigalidade é chocante em particular porque Israel é hoje um Estado industrial rico com uma renda per capita mais ou menos igual à da Coréia do Sul ou à da Espanha. Outros países que recebem ajuda americana obtêm o dinheiro em prestações quadrimestrais, mas Israel recebe sua dotação inteira no início de cada ano fiscal e pode portanto ganhar juros sobre ela. A maioria dos que recebem ajuda para propósitos militares deve gastá-la toda nos Estados Unidos, mas Israel é autorizado a usar cerca de 25% de sua dotação para subsidiar sua própria indústria de defesa. É o único país a receber ajuda americana que não precisa explicar como o dinheiro é gasto, o que torna virtualmente impossível evitar que ele seja usado para propósitos aos quais os Estados Unidos se opõem, como construir assentamentos na Cisjordânia. Além disso, os Estados Unidos forneceram a Israel quase US$ 3 bilhões para o desenvolvimento de sistemas de armamentos, e deram ao país acesso a artefatos avançados como helicópteros Blackhawk e jatos F-16. Finalmente, os Estados Unidos dão a Israel acesso a informações que negam a seus aliados da Otan, e fecharam os olhos para a aquisição por Israel de armas nucleares.

Washington também dá a Israel um apoio diplomático permanente. Desde 1982, os Estados Unidos vetaram 32 resoluções do Conselho de Segurança da ONU críticas a Israel, mais do que o número total de vetos de todos os outros membros do Conselho de Segurança. Eles obstruem os esforços de Estados árabes para incluir o arsenal nuclear de Israel na agenda da AIEA. Os Estados Unidos socorrem Israel em tempo de guerra e tomam seu partido quando negociam a paz. O governo Nixon protegeu Israel da ameaça de intervenção soviética e o reabasteceu durante a Guerra de Outubro. Washington se envolveu profundamente nas negociações que terminaram aquela guerra, assim como no demorado processo “passo a passo” que se seguiu, além de ter cumprido um papel decisivo nas negociações que antecederam e se seguiram aos Acordos de Oslo de 1993. Em todos os casos houve sempre atritos ocasionais entre representantes dos Estados Unidos e de Israel, mas os Estados Unidos sempre apoiaram a posição israelense. Um dos participantes americanos em Camp David em 2000 disse depois: “Com demasiada freqüência, nós funcionamos […] como advogado de Israel”. Por fim, a ambição do governo Bush de transformar o Oriente Médio tem como objetivo, pelo menos em parte, melhorar a situação estratégica de Israel.

Essa extraordinária generosidade talvez fosse compreensível se Israel fosse um ativo estratégico vital ou se houvesse um argumento moral inarredável em favor do apoio dos Estados Unidos. Mas nenhuma dessas explicações é convincente. Poder-se-ia argumentar que Israel era um ativo durante a Guerra Fria. Atuando como substituto dos Estados Unidos depois de 1967, Israel ajudou a conter a expansão soviética na região e infligiu derrotas humilhantes a clientes soviéticos como o Egito e a Síria. Ocasionalmente, ajudou e protegeu outros aliados dos Estados Unidos (como o rei Hussein, da Jordânia), e seus feitos militares obrigaram Moscou a gastar mais para apoiar seus Estados-clientes. Israel também forneceu informações úteis sobre a capacidade militar dos soviéticos. No entanto, sustentar Israel não era barato, e complicava as relações dos Estados Unidos com o mundo árabe. Por exemplo, a decisão de dar US$ 2,2 bilhões em assistência militar de emergência durante a Guerra de Outubro provocou um embargo de petróleo da Opep que causou danos consideráveis a economias ocidentais. Por tudo isso, as forças armadas de Israel não tinham condições de proteger os interesses americanos na região. Os Estados Unidos não puderam, por exemplo, recorrer a Israel quando, em 1979, a Revolução Iraniana suscitou preocupações sobre a segurança do fornecimento de petróleo, e tiveram de criar sua própria Força de Ação Rápida.

A primeira Guerra do Golfo revelou em que medida Israel estava se tornando um fardo estratégico. Os Estados Unidos não podiam usar bases israelenses sem romper a coalizão anti-Iraque, e tiveram de desviar recursos (por exemplo, baterias de mísseis Patriot) para evitar que Tel-Aviv fizesse algo que prejudicasse a aliança contra Saddam Hussein. A história se repetiu em 2003: embora Israel estivesse ansioso para que os Estados Unidos atacassem o Iraque, Bush não podia pedir ajuda israelense sem provocar a oposição dos árabes. Assim, Israel mais uma vez ficou à parte.

Desde a década de 1990, e ainda mais depois do 11 de Setembro, o apoio americano foi justificado pela afirmação de que os dois Estados são ameaçados por grupos terroristas que têm origem no mundo árabe e muçulmano, e por rogue states2 que sustentam esses grupos e procuram obter armas de destruição em massa. Considera-se que isso significa não só que Washington deve dar a Israel liberdade para lidar com os palestinos e não pressioná-lo a fazer concessões até que todos os terroristas palestinos estejam presos ou mortos, mas também que os Estados Unidos devem perseguir países como o Irã e a Síria. Israel é visto, portanto, como um aliado decisivo na guerra contra o terror, porque seus inimigos são inimigos dos Estados Unidos. De fato, Israel é um fardo na guerra contra o terror e no esforço mais amplo de lidar com “Estados patifes”. O “terrorismo” não é um adversário único, mas uma tática empregada por um amplo conjunto de grupos políticos. As organizações terroristas que ameaçam Israel não ameaçam os Estados Unidos, a não ser quando estes intervêm contra elas (como no Líbano em 1982). Além disso, o terrorismo palestino não é uma violência aleatória dirigida contra Israel ou “o Ocidente”; é basicamente uma resposta à prolongada campanha de Israel para colonizar a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.

E o mais importante: dizer que Israel e os Estados Unidos estão unidos por uma ameaça terrorista comum inverte a relação causal: os Estados Unidos têm um problema terrorista em boa parte porque estão intimamente aliados a Israel, e não o contrário. O apoio a Israel não é a única fonte do terrorismo antiamericano, mas é uma fonte importante, que torna mais difícil vencer a guerra contra o terror. Não há dúvida de que muitos líderes da Al-Qaeda, entre eles Osama bin Laden, são motivados pela presença de Israel em Jerusalém e pela difícil situação dos palestinos. O apoio incondicional a Israel torna mais fácil aos extremistas obter apoio popular e atrair recrutas.

Quanto aos chamados rogue states do Oriente Médio, eles não são uma ameaça muito séria a interesses americanos vitais, a não ser na medida em que são uma ameaça a Israel. Mesmo que esses Estados adquiram armas nucleares — o que é obviamente indesejável —, nem os Estados Unidos nem Israel poderiam ser chantageados, porque o chantageador não poderia levar a cabo a ameaça sem sofrer retaliações devastadoras. O perigo de uma transferência de armas nucleares aos terroristas é igualmente remoto, porque um rogue state não poderia ter certeza de que ela passaria despercebida ou de que ele não seria culpado e punido depois. A relação com Israel na verdade torna mais difícil para os Estados Unidos lidar com esses Estados. O arsenal nuclear de Israel é uma das razões pelas quais alguns de seus vizinhos querem armas nucleares, e ameaçá-los com a mudança de regime só faz aumentar esse desejo. Uma última razão para questionar o valor estratégico de Israel é que ele não se comporta como um aliado leal. Os representantes de Israel freqüentemente ignoram os pedidos dos Estados Unidos e descumprem promessas (entre elas compromissos de parar de construir assentamentos e de se abster de “assassinatos planejados” de líderes palestinos). Israel forneceu tecnologia militar sofisticada a rivais potenciais como a China, no que o inspetor-geral do Departamento de Estado americano chamou de “um padrão sistemático e crescente de transferências não autorizadas”. Segundo o General Accounting Office, Israel também “executa as mais agressivas operações de espionagem contra os Estados Unidos feitas por qualquer um de seus aliados”. Além do caso de Jonathan Pollard, que passou a Israel grande quantidade de material secreto no começo da década de 1980 (que Israel teria passado para a URSS em troca de mais vistos de saída para judeus soviéticos), uma nova controvérsia surgiu em 2004 quando foi revelado que um importante funcionário do Pentágono chamado Larry Franklin tinha passado informações secretas para um diplomata israelense. Dificilmente Israel é o único país que espiona os Estados Unidos, mas sua disposição para espionar seu principal patrono levanta ainda mais dúvidas sobre seu valor estratégico.

E o valor estratégico de Israel não é a única questão. Seus apoiadores também argumentam que ele merece um apoio irrestrito porque é fraco e está cercado por inimigos; é uma democracia; o povo judeu foi vítima de crimes no passado e portanto merece tratamento especial; e a conduta de Israel tem sido moralmente superior à de seus adversários. Analisados em detalhe, nenhum desses argumentos é convincente. Há um forte argumento moral para apoiar a existência de Israel, mas ela não está em risco. Vista objetivamente, sua conduta passada e presente não oferece nenhuma base moral para privilegiar Israel em relação aos palestinos.

Israel costuma ser retratado como Davi confrontado por Golias, mas o inverso está mais próximo da verdade. Ao contrário da crença popular, os sionistas tinham forças maiores e mais bem equipadas durante a Guerra de Independência de 1947-49, e as forças armadas de Israel obtiveram vitórias rápidas e fáceis contra o Egito em 1956 e contra o Egito, a Jordânia e a Síria em 1967 — tudo isso antes de se iniciar a ajuda em grande escala por parte dos Estados Unidos. Hoje, Israel é a potência militar mais forte do Oriente Médio. Suas forças convencionais são muito superiores às de seus vizinhos, e ele é o único Estado na região que possui armas nucleares. O Egito e a Jordânia assinaram tratados de paz com Israel, e a Arábia Saudita se propôs a fazer o mesmo. A Síria perdeu seu patrono soviético, o Iraque foi devastado por três guerras desastrosas e o Irã está a centenas de quilômetros de distância. Os palestinos mal têm uma força policial eficaz, muito menos um exército que pudesse ameaçar Israel. Segundo uma avaliação feita em 2005 pelo Centro de Estudos Estratégicos Jaffee, da Universidade de Tel-Aviv, “o balanço estratégico decididamente favorece Israel, que continuou a aumentar o hiato qualitativo entre sua capacidade militar e as forças de dissuasão de seus vizinhos”. Se apoiar o lado mais fraco fosse um motivo obrigatório, os Estados Unidos estariam apoiando os adversários de Israel. O fato de Israel ser uma democracia amiga cercada por ditaduras hostis não é suficiente para explicar o atual nível de ajuda: há muitas democracias no mundo, mas nenhuma recebe o mesmo apoio generoso. Os Estados Unidos derrubaram governos democráticos no passado e sustentaram ditadores quando julgaram que isso serviria a seus interesses — e têm hoje boas relações com algumas ditaduras. Alguns aspectos da democracia israelense estão em choque com valores americanos. Diferentemente dos Estados Unidos, onde as pessoas devem desfrutar de direitos iguais independentemente de raça, religião ou etnia, Israel foi fundado explicitamente como um Estado judeu e sua cidadania é baseada no princípio do parentesco sanguíneo. Em vista disso, não é de surpreender que seus 1,3 milhão de árabes sejam tratados como cidadãos de segunda classe, ou que uma recente comissão governamental israelense tenha concluído que Israel se comporta de maneira “negligente e discriminatória” em relação a eles. O status democrático de Israel é prejudicado também por sua recusa a conceder aos palestinos um Estado próprio viável ou direitos políticos plenos. Uma terceira justificativa é a história do sofrimento dos judeus no Ocidente cristão, especialmente durante o Holocausto. Como os judeus foram perseguidos durante séculos e só podiam se sentir seguros numa pátria judaica, muitas pessoas acreditam hoje que Israel merece tratamento especial por parte dos Estados Unidos. A criação do país foi sem dúvida uma resposta apropriada ao longo histórico de crimes contra os judeus, mas também acarretou crimes contra uma terceira parte, basicamente inocente: os palestinos.

Isso era bem entendido pelos primeiros líderes de Israel. David Ben-Gurion disse a Naum Goldmann, presidente do Congresso Mundial Judaico:

Se eu fosse um líder árabe, nunca faria um acordo com Israel. Isso é natural: nós tomamos a pátria deles […] Nós nascemos em Israel, mas isso foi há 2 mil anos, e o que isso significa para eles? Houve anti-semitismo, os nazistas, Hitler, Auschwitz, mas que culpa eles tiveram nisso? Eles só vêem uma coisa: nós viemos para cá e roubamos sua pátria. Por que eles têm de aceitar isso?

Desde então, os líderes israelenses têm buscado repetidamente negar as ambições nacionais dos palestinos. Quando era primeira-ministra, Golda Meir declarou que “não existe palestino”. A pressão da violência extremista e o crescimento da população palestina forçaram líderes israelenses subseqüentes a se retirar da Faixa de Gaza e a considerar outros compromissos territoriais, mas nem mesmo Yitzhak Rabin se dispôs a oferecer aos palestinos um Estado viável. A oferta supostamente generosa de Ehud Barak em Camp David teria dado a eles só um conjunto desarmado de bantustões controlados de fato pelos israelenses. A trágica história do povo judeu não obriga os Estados Unidos a ajudar Israel hoje independentemente do que ele faça. Os apoiadores de Israel também o apresentam como um país que sempre buscou a paz e mostrou grande contenção mesmo quando provocado. Os árabes, ao contrário, teriam agido com grande maldade. Contudo, no campo de batalha, o histórico de Israel não é distinguível do de seus adversários. Ben-Gurion reconheceu que os primeiros sionistas estavam longe de ser benevolentes em relação aos árabes palestinos, que resistiam a seus abusos — o que não é de surpreender, dado que os sionistas estavam tentando criar seu próprio Estado em terra árabe. Da mesma forma, a criação de Israel em 1947-48 envolveu ações de limpeza étnica, inclusive execuções, massacres e estupros por parte de judeus, e a conduta subseqüente de Israel foi muitas vezes brutal, contradizendo qualquer reivindicação de superioridade moral. Entre 1940 e 1956, por exemplo, as forças de segurança israelenses mataram entre 2700 e 5 mil árabes infiltrados, cuja esmagadora maioria estava desarmada. As forças armadas israelenses mataram centenas de prisioneiros de guerra egípcios nas guerras de 1956 e 1967, e em 1967 Israel expulsou entre 100 mil e 260 mil palestinos da recém-conquistada Cisjordânia, e obrigou 80 mil sírios a deixar as colinas de Golan.

Durante a primeira intifada, as forças armadas israelenses distribuíram bastões a suas tropas e as estimularam a quebrar os ossos dos manifestantes palestinos. A filial sueca da Save the Children estimou que “entre 23.600 e 29.900 crianças precisaram de tratamento médico para ferimentos de pancadas nos primeiros dois anos da intifada”. Quase um terço dessas crianças tinha dez anos de idade ou menos. A resposta à segunda intifada foi ainda mais violenta, levando o Ha’aretz a declarar que “as forças armadas israelenses […] estão se transformando em uma máquina de matar cuja eficiência é admirável, mas chocante”. As forças armadas israelenses dispararam 1 milhão de balas nos primeiros dias do levante. Desde então, para cada israelense perdido, Israel matou 3,4 palestinos, na maioria observadores inocentes; a relação entre crianças palestinas e israelenses mortas é ainda mais alta (5,7:1). Vale a pena lembrar também que os sionistas recorreram a bombas terroristas para tirar os ingleses da Palestina, e que Yitzhak Shamir, ex-terrorista que mais tarde se tornou primeiro-ministro israelense, declarou que “nem a ética judaica nem a tradição judaica podem desqualificar o terrorismo como um meio de combate”.

O recurso palestino ao terrorismo é errado, mas não é de surpreender. Os palestinos acreditam que não têm nenhuma outra forma de obrigar Israel a fazer concessões. Como admitiu certa vez Ehud Barak, se tivesse nascido palestino, ele “teria ingressado em uma organização terrorista”.

Então, se nem argumentos estratégicos nem argumentos morais justificam o apoio dos Estados Unidos a Israel, como podemos explicá-lo?

A explicação é o poder sem igual do Lobby de Israel. Usamos “o Lobby” como uma forma abreviada de identificar a frouxa coalizão de indivíduos e organizações que trabalham ativamente para empurrar a política externa dos Estados Unidos numa direção pró-Israel. Com isso não queremos sugerir que “o Lobby” seja um movimento unificado com uma liderança central, nem que as pessoas que participam dele não discordam em certas questões. Nem todos os judeus americanos fazem parte do Lobby, porque para muitos deles Israel não é uma questão relevante. Segundo um levantamento feito em 2004, por exemplo, cerca de 36% dos judeus americanos disseram que “não eram muito” ou “não eram nada” ligados emocionalmente a Israel.

Os judeus americanos também diferem a respeito de políticas israelenses específicas. Muitas das principais organizações do Lobby, como o American-Israel Public Affairs Committee (Aipac) e a Conference of Presidents of Major Jewish Organisations, são dirigidas por linha-duras que em geral apóiam as políticas expansionistas do Partido Likud, entre elas a hostilidade ao processo de paz de Oslo. O grosso dos judeus americanos, no entanto, está mais inclinado a fazer concessões aos palestinos, e alguns grupos — como o Jewish Voice for Peace — defendem fortemente esses passos. Apesar dessas diferenças, tanto os moderados quanto os linha-duras aprovam um apoio firme a Israel. Como seria previsível, líderes judeus americanos costumam consultar representantes israelenses, para se certificar de que suas ações contribuem para os objetivos israelenses. Um ativista de uma importante organização judaica escreveu: “para nós é rotineiro dizer: ‘Esta é nossa política em certa questão, mas devemos verificar o que os israelenses pensam’. Como comunidade, fazemos isso o tempo todo”. Há um forte preconceito contra criticar a política israelense, e pressionar Israel é considerado inaceitável. Edgar Bronfman, presidente do Congresso Judaico Mundial, foi acusado de “perfídia” quando escreveu uma carta ao presidente Bush em meados de 2003 instando-o a convencer Israel a interromper a construção de sua controvertida “cerca de segurança”. Os críticos de Bronfman diziam que “seria obsceno que em qualquer momento o presidente do Congresso Mundial Judaico tentasse convencer o presidente dos Estados Unidos a resistir a políticas promovidas pelo governo de Israel”. Da mesma forma, quando o presidente do Israel Policy Forum, Seymour Reich, aconselhou Condoleezza Rice, em novembro de 2005, a pedir a Israel que reabrisse uma passagem de fronteira crítica na Faixa de Gaza, seu ato foi denunciado como “irresponsável”: “Não há”, diziam os críticos, “absolutamente nenhum espaço no mainstream judaico para que se aja vigorosamente contra políticas relacionadas à segurança […] de Israel”. Recuando diante desses ataques, Reich anunciou que “a palavra ‘pressão’ não faz parte de meu vocabulário quando se trata de Israel”.

Os judeus americanos criaram um conjunto impressionante de organizações para influenciar a política externa americana, das quais o Aipac é a mais poderosa e mais conhecida. Em 1997, a revista Fortune pediu a membros do Congresso e a suas equipes que listassem os lobbies mais poderosos de Washington. O Aipac ficou em segundo lugar, atrás da American Association of Retired People mas à frente da AFL-CIO e da National Rifle Association. Um estudo do National Journal de março de 2005 chegou a conclusão semelhante, situando o Aipac em segundo lugar (empatada com a American Association of Retired People) na “lista dos mais influentes” de Washington.

O Lobby também inclui destacados cristãos evangélicos como Gary Bauer, Jerry Falwell, Ralph Reed e Pat Robertson, além de Dick Armey e Tom DeLay, ex-líderes da maioria na Câmara dos Deputados, e todos eles acreditam que o renascimento de Israel é o cumprimento de uma profecia bíblica e apóiam a agenda expansionista de Israel; agir de outro modo, acreditam eles, seria contrariar a vontade de Deus. Gentios neoconservadores como John Bolton; Robert Bartley, ex-editor do Wall Street Journal; William Bennett, ex-secretário de Educação; Jeane Kirkpatrick, ex-embaixadora dos Estados Unidos na ONU; e o influente colunista George Will, também são apoiadores firmes.

A forma de governo dos Estados Unidos oferece aos ativistas muitas maneiras de influenciar o processo político. Grupos de interesse podem pressionar deputados eleitos e membros do Executivo, fazer doações para campanha, votar nas eleições, tentar moldar a opinião pública etc. Eles dispõem de um grau exagerado de influência quando estão comprometidos com uma questão à qual o grosso da população é indiferente. Os responsáveis pelas decisões políticas tendem a contentar aqueles que se importam com a questão, mesmo que o número deles seja pequeno, confiando em que o resto da população não vai penalizá-los por agirem assim.

Em suas operações básicas, o Lobby de Israel não é diferente do lobby da agricultura, do lobby do aço ou dos sindicatos de trabalhadores da indústria têxtil, nem dos lobbies étnicos. Não há nada de impróprio na tentativa dos judeus americanos e de seus aliados cristãos de controlar a política dos Estados Unidos: as atividades do Lobby não são uma conspiração do tipo descrito em tratados como os Protocolos dos Sábios do Sião. Na maioria, os indivíduos e grupos que o compõem estão fazendo apenas o que outros grupos de interesse especial fazem, só que fazem muito melhor. Em contraste, os grupos de interesse pró-árabes, quando existem, são fracos, o que torna ainda mais fácil a tarefa do Lobby de Israel.

O Lobby adota duas estratégias amplas. Primeiro, ele exerce sua influência significativa em Washington, pressionando tanto o Congresso quanto o Executivo. Sejam quais forem as visões políticas de um legislador ou responsável por decisões políticas, o Lobby tenta tornar o apoio a Israel a escolha “inteligente”. Em segundo lugar, ele se esforça para assegurar que o discurso público retrate Israel de forma positiva, repetindo mitos sobre sua fundação e promovendo seu ponto de vista nos debates sobre políticas. O objetivo é evitar que comentários críticos obtenham audiência imparcial na arena política. Controlar o debate é essencial para garantir o apoio dos Estados Unidos, porque uma discussão franca das relações entre Estados Unidos e Israel poderia levar os americanos a preferir uma política diferente.

Um dos principais pilares da eficiência do Lobby é sua influência no Congresso, onde Israel é virtualmente imune à crítica. Isso é por si só notável, porque o Congresso raramente evita questões contenciosas. No que diz respeito a Israel, no entanto, críticos potenciais silenciam. Uma das razões para isso é que alguns membros importantes do Congresso são sionistas cristãos, como Dick Armey, que disse em setembro de 2002: “Minha prioridade número um em política externa é proteger Israel”. Poder-se-ia pensar que a prioridade número um de qualquer congressista fosse proteger os Estados Unidos. Há também senadores e deputados judeus que trabalham para garantir que a política externa dos Estados Unidos apóie os interesses de Israel. Outra fonte do poder do Lobby é o uso que ele faz de funcionários do Congresso. Como admitiu certa vez Morris Amitay, ex-presidente do Aipac, “há muitas pessoas trabalhando aqui” — no Capitólio — “que são judeus, que estão dispostas […] a considerar certas questões em termos de sua judaicidade […] São todas pessoas que têm condições de tomar a decisão nessas áreas pelos senadores […] É possível fazer um trabalho incrível apenas no nível dos funcionários”.

É o próprio Aipac, no entanto, que constitui o núcleo da influência do Lobby no Congresso. Seu sucesso se deve à capacidade de recompensar legisladores e candidatos ao Congresso que apóiam sua agenda, e de punir aqueles que a contestam. O dinheiro cumpre um papel decisivo nas eleições dos Estados Unidos (como nos lembra o escândalo sobre as negociações obscuras do lobista Jack Abramoff), e o Aipac assegura a seus amigos um forte apoio financeiro dos muitos comitês de ação política pró-Israel. Quem for visto como hostil a Israel pode ter certeza de que o Aipac direcionará contribuições de campanha para seus adversários políticos. O Aipac também organiza campanhas de redação de cartas e estimula editores de jornais a apoiar candidatos pró-Israel.

Não há dúvida sobre a eficácia dessas táticas. Eis um exemplo: nas eleições de 1984, o Aipac ajudou a derrotar o senador Charles Percy, de Illinois, o qual, de acordo com uma destacada figura do Lobby, tinha “demonstrado insensibilidade e mesmo hostilidade em relação a nossas preocupações”. Thomas Dine, presidente do Aipac na época, explicou o que aconteceu: “Todos os judeus nos Estados Unidos, de costa a costa, se juntaram para expulsar Percy. E os políticos americanos — aqueles que hoje ocupam cargos políticos e aqueles que aspiram a eles — captaram a mensagem”.

A influência do Aipac no Capitólio chega ainda mais longe. Segundo Douglas Bloomfield, ex-funcionário do Aipac, “é comum que membros do Congresso e suas equipes recorram primeiro ao Aipac quando precisam de informação, antes de ir à Biblioteca do Congresso, ao Serviço de Pesquisa do Congresso, aos funcionários da comissão ou a especialistas do governo”. E o mais importante, ele observa que o Aipac “é solicitado muitas vezes a escrever discursos, elaborar legislação, dar conselhos sobre tática, fazer pesquisas, conseguir co-patrocinadores e angariar votos”.

O fundamental é que o Aipac, de fato um agente que trabalha para um governo estrangeiro, tem uma mordaça sobre o Congresso, e o resultado é que a política dos Estados Unidos em relação a Israel não é debatida ali, embora tenha conseqüências importantes para o mundo inteiro. Em outras palavras, um dos três principais ramos do governo está firmemente comprometido com o apoio a Israel. Como observou um ex-senador democrata, Ernest Hollings, ao deixar o cargo, “não se pode ter nenhuma política em relação a Israel que não seja a que o Aipac propõe aqui”. Ou, como disse Ariel Sharon a uma platéia americana, “quando as pessoas me perguntam como podem ajudar Israel, eu digo a elas: ‘ajudem o Aipac’”.

Graças em parte à influência que os eleitores judeus exercem nas eleições presidenciais, o Lobby tem também um efeito importante sobre o Executivo. Embora constituam pouco mais de 3% da população, esses eleitores fazem grandes doações de campanha a candidatos de ambos os partidos. O Washington Post estimou certa vez que os candidatos democratas à Presidência “dependem de apoiadores judeus para obter 60% do dinheiro”. E como os eleitores judeus têm altas taxas de comparecimento nas votações e estão concentrados em estados importantes como Califórnia, Flórida, Illinois, Nova York e Pensilvânia, os candidatos à Presidência fazem de tudo para não desagradá-los.

Organizações importantes do Lobby se dedicam a assegurar que críticos de Israel não obtenham cargos importantes na área de política externa. Jimmy Carter queria fazer de George Ball seu primeiro secretário de Estado, mas sabia que Ball era visto como crítico de Israel e que o Lobby se oporia à indicação. Dessa forma, qualquer aspirante a um cargo no governo é encorajado a se tornar um franco apoiador de Israel, e é por esse motivo que os que criticam abertamente a política israelense se tornaram uma espécie em extinção noestablishment da política externa.

Quando Howard Dean pediu que os Estados Unidos assumissem um papel mais “imparcial” no conflito árabe-israelense, o senador Joseph Lieberman o acusou de trair Israel e disse que sua declaração era “irresponsável”. Praticamente todos os democratas importantes na Câmara assinaram uma carta criticando as observações de Dean, e o Chicago Jewish Star relatou que “atacantes anônimos […] estão entupindo as caixas de entrada de e-mail de líderes judeus em todo o país, advertindo — sem muitas provas — que Dean seria de alguma forma ruim para Israel”.

Essa preocupação era absurda; Dean é de fato bastante truculento quando se trata de Israel: um dos chefes de sua campanha era um ex-presidente do Aipac, e Dean dizia que suas visões sobre o Oriente Médio refletiam mais as do Aipac do que as da mais moderada Americans for Peace Now. Ele havia sugerido simplesmente que para “conciliar os dois lados”, Washington devia agir como um intermediário honesto. Essa dificilmente é uma idéia radical, mas o Lobby não tolera a imparcialidade.

Durante o governo Clinton, a política para o Oriente Médio era basicamente elaborada por funcionários que tinham laços estreitos com Israel ou com organizações notoriamente pró-Israel; entre eles, Martin Indyk, ex-vice-diretor de pesquisa do Aipac e co-fundador do pró-israelita Washington Institute for Near East Policy (Winep); Dennis Ross, que ingressou no Winep depois de deixar o governo em 2001; e Aaron Miller, que viveu em Israel e costuma visitar o país. Esses homens estavam entre os conselheiros mais íntimos de Clinton na reunião de cúpula de Camp David em julho de 2000. Embora os três apoiassem o processo de paz de Oslo e a criação de um Estado palestino, faziam isso apenas nos limites do que seria aceitável para Israel. A delegação americana seguiu a orientação de Ehud Barak, coordenou previamente com Israel as posições que adotaria na negociação e não apresentou propostas independentes. Como era de esperar, os negociadores palestinos se queixaram de que estavam “negociando com duas equipes israelenses — uma empunhando uma bandeira israelense, a outra, uma bandeira americana”. A situação é ainda mais pronunciada no governo Bush, em cujas fileiras se incluíram defensores tão ardorosos da causa israelense como Elliot Abrams, John Bolton, Douglas Feith, I. Lewis (“Scooter”) Libby, Richard Perle, Paul Wolfowitz e David Wurmser. Como veremos, esses funcionários sempre defenderam políticas apoiadas por Israel e sustentadas por organizações do Lobby. É claro que o Lobby não quer um debate aberto, porque isso poderia levar os americanos a questionar o nível de apoio que dão a Israel. Da mesma forma, as organizações pró-Israel se esforçam para influenciar as instituições que têm mais peso na moldagem da opinião popular.

A perspectiva do Lobby prevalece na mídia convencional: o debate entre especialistas em Oriente Médio, escreve o jornalista Eric Alterman, é “dominado por pessoas que não conseguem imaginar criticar Israel”. Ele lista 61 “colunistas e comentaristas com quem se pode contar para apoiar Israel de forma reflexiva e irrestrita”. Por outro lado, ele encontrou apenas cinco especialistas que sempre criticam as ações israelenses ou endossam posições árabes. Os jornais publicam ocasionalmente textos de articulistas convidados contestando a política israelense, mas o balanço das opiniões favorece claramente o outro lado. É difícil imaginar qualquer órgão da mídia convencional nos Estados Unidos publicando um artigo como este.

“Shamir, Sharon, Bibi — qualquer coisa que esses caras queiram está ótimo para mim”, observou uma vez Robert Bartley. Previsivelmente, seu jornal, o Wall Street Journal, ao lado de outros jornais de destaque como o Chicago Sun-Times e o Washington Times, publicam regularmente editoriais que apóiam solidamente Israel. Revistas comoCommentary, New Republican e Weekly Standard defendem Israel em todas as ocasiões.

A parcialidade editorial pode ser encontrada também em jornais como o New York Times, que critica ocasionalmente políticas israelenses e às vezes admite que os palestinos têm queixas legítimas, mas não é imparcial. Em suas memórias, Max Frenkel, ex-editor executivo do jornal, reconhece o impacto de sua atitude sobre as decisões editoriais que tomou: “Eu estava muito mais profundamente dedicado a Israel do que ousava declarar […] Baseado em meu conhecimento de Israel e em meus amigos lá, eu próprio escrevia a maioria de nossos comentários sobre o Oriente Médio. Como mais eleitores árabes do que judeus reconheciam, na época eu adotava uma perspectiva favorável a Israel”.

Os relatos dos noticiários são mais imparciais, em parte porque os repórteres se esforçam para ser objetivos, mas também porque é difícil cobrir os acontecimentos nos Territórios Ocupados sem reconhecer as ações de Israel no campo de batalha. Para desestimular relatos desfavoráveis, o Lobby organiza campanhas de redação de cartas, manifestações e boicotes a órgãos noticiosos cujo conteúdo considera contrário a Israel. Um executivo da CNN disse que às vezes recebe 6 mil mensagens de e-mail em um único dia reclamando de uma história. Em maio de 2003, o Committee for Accurate Middle East Reporting in America (Camera) organizou manifestações do lado de fora de estações da National Public Radio em 33 cidades; e tentou também persuadir contribuintes a retirar o apoio à NPR até que sua cobertura do Oriente Médio se torne mais simpática a Israel. A WBUR, estação da NPR em Boston, teria perdido mais de 1 milhão de dólares em contribuições em conseqüência desses esforços. Outras pressões sobre a NPR vêm dos amigos de Israel no Congresso, que pediram, além de mais supervisão, uma auditoria internacional de sua cobertura sobre o Oriente Médio.

O lado israelense também domina os think tanks que cumprem um papel importante na formulação do debate público assim como das políticas. O Lobby criou seu próprio think tank em 1985, quando Martin Indyk ajudou a fundar o Winep. Embora tente menosprezar sua ligação com Israel, afirmando fornecer uma perspectiva “equilibrada e realista” sobre questões do Oriente Médio, o Winep é financiado e dirigido por pessoas profundamente comprometidas com a promoção da agenda de Israel.

Mas a influência do Lobby se estende para muito além do Winep. Nos últimos 25 anos, as forças pró-Israel estabeleceram uma presença poderosa no American Enterprise Institute, na Brookings Institution, no Center For Security Policy, no Foreign Policy Research Institute, na Heritage Foundation, no Hudson Institute, no Institute for Foreign Policy Analysis e no Jewish Institute for National Security Affairs (Jinsa). Esses think tanks empregam, se tanto, poucos críticos do apoio dos Estados Unidos a Israel.

Consideremos a Brookings Institution. Durante muitos anos, seu principal especialista em Oriente Médio foi William Quandt, um ex-funcionário do Conselho de Segurança Nacional com uma merecida reputação de imparcialidade. Hoje, a cobertura da Brookings é feita por meio do Saban Center for Middle East Studies, que é financiado por Haim Saban, um empresário israelita-americano e sionista ardoroso. O diretor do centro é o ubíquo Martin Indyk. O que era antes um instituto de políticas apartidário é hoje parte do coro pró-Israel.

Onde o Lobby tem tido a maior dificuldade é no debate em campi universitários. Na década de 1990, quando estava em curso o processo de paz de Oslo, havia apenas uma crítica moderada a Israel, mas ela ficou mais forte com o colapso de Oslo e a ascensão de Sharon ao poder, tornando-se bastante incisiva quando as forças armadas israelenses reocuparam a Cisjordânia na primavera de 2002 e empregaram forças maciças para dominar a segunda intifada. O Lobby passou imediatamente a “recuperar os campi”. Surgiram novos grupos, como a Caravan for Democracy, que levou porta-vozes israelenses para faculdades dos Estados Unidos. Grupos estabelecidos como o Jewish Council for Public Affairs e o Hillel se juntaram, e um novo grupo, Israel on Campus Coalition, foi formado para coordenar os muitos agrupamentos que agora buscavam defender o ponto de vista de Israel. Por fim, o Aipac mais que triplicou seus gastos em programas para monitorar atividades universitárias e treinar jovens defensores, com o objetivo de “expandir enormemente o número de estudantes envolvidos no campus […] no esforço nacional em favor de Israel”.

O Lobby também monitora o que os professores escrevem e ensinam. Em setembro de 2002, Martin Kramer e Daniel Pipes, dois neoconservadores passionalmente pró-Israel, criaram um website (Campus Watch) que postava dossiês sobre acadêmicos suspeitos e estimulava os estudantes a relatar observações sobre comportamento que pudesse ser considerado hostil a Israel. Essa tentativa transparente de chantagear e intimidar acadêmicos provocou uma reação dura, e mais tarde Pipes e Kramer removeram os dossiês, mas o website ainda convida os estudantes a relatar atividades “anti-Israel”.

Grupos que fazem parte do Lobby pressionam determinados acadêmicos e universidades. Um dos alvos freqüentes foi Columbia, sem dúvida em razão da presença do falecido Edward Said em seu corpo docente. “Pode-se ter certeza de que qualquer declaração pública em apoio ao povo palestino feita pelo proeminente crítico literário Edward Said provoca centenas de e-mails, cartas e artigos jornalísticos que nos convocam a denunciar Said e a aplicar a ele sanções ou demiti-lo”, relatou Jonathan Cole, ex-superintendente de Columbia. Quando a Columbia contratou o historiador Rashid Khalidi, de Chicago, aconteceu a mesma coisa. Esse também foi um problema enfrentado por Princeton alguns anos depois, quando considerou a possibilidade de trazer Khalidi de Columbia.

Uma ilustração clássica do esforço para policiar a academia ocorreu perto do final de 2004, quando o David Project produziu um filme alegando que membros do corpo docente do programa Middle East Studies, de Columbia, eram anti-semitas e estavam intimidando estudantes judeus que apoiavam Israel. Columbia recebeu críticas severas, mas uma comissão docente incumbida de investigar as acusações não encontrou nenhuma prova de anti-semitismo, e o único incidente possivelmente digno de nota constatado foi que um professor tinha “reagido com raiva” à pergunta de um estudante. A comissão também descobriu que os acadêmicos em questão tinham sido alvo de uma franca campanha de intimidação.

Talvez o aspecto mais perturbador de tudo isso sejam os esforços de grupos judeus para forçar o Congresso a estabelecer mecanismos para monitorar o que os professores dizem. Se eles conseguirem aprovar isso, universidades julgadas como adotando um viés anti-Israel deixariam de receber financiamento federal. Os esforços desses grupos ainda não alcançaram sucesso, mas são uma indicação da importância que é dada ao controle do debate.

Alguns filantropos judeus criaram recentemente programas de Estudos Israelenses (que vieram se somar aos cerca de 130 programas de Estudos Judaicos já existentes), de modo a aumentar o número de acadêmicos simpáticos a Israel no campus. Em maio de 2003, a New York University anunciou a criação do Taub Center for Israel Studies; programas semelhantes foram criados em Berkeley, Brandeis e Emory. Administradores acadêmicos ressaltam o valor pedagógico desses programas, mas a verdade é que eles pretendem em grande parte promover a imagem de Israel. Fred Laffer, presidente da Taub Foundation, deixa claro que sua fundação financiou o centro da NYU para ajudar a rechaçar o “ponto de vista arábico [sic]” que ele julga prevalecer nos programas de Oriente Médio da NYU.

Nenhuma discussão sobre o Lobby estaria completa sem um exame de uma de suas armas mais poderosas: a acusação de anti-semitismo. Qualquer pessoa que critique as ações de Israel ou argumente que os grupos pró-Israel exercem uma influência significativa sobre a política dos Estados Unidos para o Oriente Médio — influência esta que o Aipac comemora — tem boas chances de ser rotulada de anti-semita. Na verdade, qualquer pessoa que simplesmente declare que existe um Lobby de Israel corre o risco de ser acusado de anti-semitismo, embora a mídia israelense se refira ao “Lobby Judeu” dos Estados Unidos. Em outras palavras, o Lobby primeiro se gaba de sua influência e depois ataca qualquer um que chame a atenção para ela. É uma tática muito eficaz: o anti-semitismo é algo de que ninguém quer ser acusado.

Os europeus têm mostrado mais disposição do que os americanos para criticar a política israelense, o que algumas pessoas atribuem a um ressurgimento do anti-semitismo na Europa. Estamos “chegando a um ponto”, disse no começo de 2004 o embaixador americano na União Européia, “em que ele é tão ruim quanto na década de 1930″. Medir o anti-semitismo é uma questão complicada, mas o peso das evidências aponta na direção oposta. Na primavera de 2004, quando acusações de anti-semitismo na Europa inundaram os Estados Unidos, levantamentos separados de opinião pública européia feitos pela Anti-Defamation League, baseada nos Estados Unidos, e pelo Pew Research Center for the People and the Press concluíram que ele estava de fato declinando. Na década de 1930, ao contrário, o anti-semitismo era não apenas disseminado entre europeus de todas as classes, mas considerado bastante aceitável.

O Lobby e seus amigos costumam retratar a França como o país mais anti-semita da Europa. Mas em 2003, o presidente da comunidade judaica francesa disse que “A França não é mais anti-semita do que os Estados Unidos”. De acordo com um artigo publicado recentemente no Ha’aretz, a polícia francesa relatou que os incidentes anti-semitas sofreram uma redução de quase 50% em 2005; e isso apesar de a França ter a maior população muçulmana de todos os países europeus. Finalmente, quando um judeu francês foi assassinado em Paris no mês passado3 por uma gangue muçulmana, dezenas de milhares de manifestantes saíram às ruas para condenar o anti-semitismo. Jacques Chirac e Dominique Villepin compareceram à cerimônia em memória da vítima para demonstrar solidariedade.

Ninguém negaria que há anti-semitismo entre os muçulmanos europeus, parte dele provocada pela conduta de Israel em relação aos palestinos e parte francamente racista. Mas esse é outro assunto, que pesa pouco na avaliação de se a Europa de hoje é semelhante à Europa da década de 1930. Ninguém negaria também que ainda há alguns anti-semitas autóctones virulentos na Europa (como há nos Estados Unidos), mas o número deles é pequeno e suas visões são rejeitadas pela vasta maioria dos europeus.

Os defensores de Israel, quando pressionados a ir além da mera declaração, afirmam que há um “novo anti-semitismo”, que eles igualam à crítica a Israel. Em outras palavras, criticar a política israelense torna alguém por definição um anti-semita. Quando o sínodo da Igreja da Inglaterra aprovou recentemente vender sua participação acionária na Caterpillar Inc baseado no fato de que ela fabrica os tanques usados pelos israelenses para demolir casas palestinas, o Rabino Chefe reclamou que isso teria “as repercussões mais adversas sobre […] as relações judaico-cristãs na Inglaterra”, enquanto o rabino Tony Bayfield, chefe do movimento de Reforma, disse: “Há um problema claro de atitudes anti-sionistas — que beiram o anti-semitismo — surgindo nas bases, e mesmo nos escalões intermediários da Igreja”. Mas a igreja era culpada simplesmente de protestar contra a política do governo israelense.

Os críticos também são acusados de enquadrar Israel em um padrão injusto ou de questionar seu direito à existência. Mas essas acusações também são falsas. Os críticos ocidentais de Israel praticamente nunca questionam seu direito a existir: eles questionam seu comportamento em relação aos palestinos, como fazem os próprios israelenses. E Israel não está sendo julgado injustamente. O tratamento israelense dos palestinos suscita críticas porque é contrário a noções amplamente aceitas de direitos humanos, à legislação internacional e ao princípio de autodeterminação nacional. E certamente Israel não é o único Estado que enfrentou críticas severas por causa disso.

No outono de 2001, e especialmente na primavera de 2002, o governo Bush tentou reduzir o sentimento antiamericano no mundo árabe e solapar o apoio a grupos terroristas como a Al-Qaeda detendo as políticas expansionistas de Israel nos Territórios Ocupados e defendendo a criação de um Estado palestino. Bush tinha à disposição meios muito importantes de persuasão. Ele podia ter ameaçado reduzir o apoio econômico e diplomático a Israel, e é quase certo que o povo americano o teria apoiado. Uma pesquisa de maio de 2003 constatou que mais de 60% dos americanos estavam dispostos a suspender a ajuda se Israel resistisse às pressões americanas para resolver o conflito, e esse número subia para 70% entre os “politicamente ativos”. Na verdade, 73% diziam que os Estados Unidos não deveriam favorecer nenhum dos lados.

Mas o governo não conseguiu mudar a política israelense e Washington terminou por apoiá-la. Com o passar do tempo, o governo também adotou as justificativas de Israel para sua posição, de maneira que a retórica dos Estados Unidos começou a imitar a retórica israelense. Em fevereiro de 2003, uma manchete do Washington Postresumiu a situação: “Bush e Sharon quase idênticos sobre a política para o Oriente Médio”. A principal razão para essa mudança foi o Lobby. A história começa no final de setembro de 2001, quando Bush começou a pressionar Sharon para afrouxar as rédeas nos Territórios Ocupados. Ele também o pressionou a permitir que o primeiro-ministro de Israel, Shimon Peres, se encontrasse com Yasser Arafat, embora ele (Bush) fosse extremamente crítico da liderança de Arafat. Bush chegou a dizer publicamente que apoiava a criação de um Estado palestino. Alarmado, Sharon o acusou de tentar “satisfazer os árabes à nossa custa”, advertindo que Israel “não será a Tchecoslováquia”.

Bush teria ficado furioso ao ser comparado a Chamberlain, e o secretário de imprensa da Casa Branca chamou as declarações de Sharon de “inaceitáveis”. Sharon ofereceu uma desculpa pró-forma, mas logo juntou forças com o Lobby para convencer o governo e o povo americano de que os Estados Unidos e Israel enfrentavam uma ameaça comum do terrorismo. Membros do governo israelense e representantes do Lobby insistiram que não havia nenhuma diferença real entre Arafat e Osama bin Laden: os Estados Unidos e Israel, diziam eles, deviam isolar o líder eleito dos palestinos e não ter nada a ver com ele.

O Lobby também trabalhou no Congresso. Em 16 de novembro, 89 senadores mandaram a Bush uma carta elogiando-o por se recusar a encontrar-se com Arafat, mas também exigindo que os Estados Unidos não impedissem Israel de fazer retaliações contra os palestinos; o governo, escreveram eles, devia declarar publicamente que apoiava Israel. Segundo o New York Times, a carta “teve origem” em uma reunião duas semanas antes entre “líderes da comunidade judaica americana e senadores importantes”, acrescentando que o Aipac estava “particularmente ativo no fornecimento de conselhos para a carta”.

No final de novembro, as relações entre Tel-Aviv e Washington tinham melhorado consideravelmente. Isso se deu em parte graças aos esforços do Lobby, mas também à vitória inicial dos Estados Unidos no Afeganistão, que aparentemente reduziu a necessidade de apoio árabe para lidar com a Al-Qaeda. Sharon visitou a Casa Branca no começo de dezembro e teve uma reunião amistosa com Bush.

Em abril de 2002 surgiram novos problemas, depois que as forças armadas israelenses lançaram a Operação Escudo de Defesa e retomaram o controle de praticamente todas as áreas palestinas importantes na Cisjordânia. Bush sabia que as ações de Israel causariam danos à imagem dos Estados Unidos no mundo islâmico e minariam a guerra ao terrorismo, portanto ele exigiu que Sharon “interrompesse as incursões e começasse a retirada”. Ele sublinhou essa mensagem dois dias depois, dizendo que queria que Israel “se retirasse sem demora”. Em 7 de abril, Condoleezza Rice, na época conselheira de Segurança Nacional de Bush, disse aos repórteres: “‘sem demora’ significa sem demora. Significa agora”. No mesmo dia, Colin Powell partiu para o Oriente Médio para persuadir todos os lados a parar de lutar e começar a negociar.

Israel e o Lobby agiram sem demora. Funcionários favoráveis a Israel no gabinete do vice-presidente e no Pentágono, assim como especialistas neoconservadores como Robert Kagan e William Kristol, intimidaram Powell. Eles chegaram mesmo a acusá-lo de ter “praticamente apagado a distinção entre terroristas e aqueles que combatem os terroristas”. O próprio Bush foi pressionado por líderes judeus e cristãos evangélicos. Tom DeLay e Dick Armey foram particularmente francos sobre a necessidade de apoiar Israel, e DeLay e o líder na minoria do senado, Trent Lott, visitaram a Casa Branca e aconselharam Bush a recuar.

O primeiro sinal de que Bush estava cedendo veio em 11 de abril — uma semana depois de ele ter dito a Sharon para retirar suas forças —, quando o secretário de imprensa da Casa Branca disse que o presidente acreditava que Sharon era “um homem de paz”. Bush repetiu essa declaração publicamente por ocasião da volta de Powell de sua malsucedida missão, e disse aos repórteres que Sharon tinha reagido satisfatoriamente a sua exigência de uma retirada total e imediata. Sharon não fizera nada disso, mas Bush não estava mais disposto a insistir nessa questão.

No meio-tempo, o Congresso também se movimentava para apoiar Sharon. Em 2 de maio, ele sobrepujou as objeções do governo e aprovou duas resoluções reafirmando o apoio a Israel. (A votação no Senado foi de 94 a 2; a versão da Câmara dos Deputados foi aprovada por 352 a 21.) As duas resoluções sustentavam que os Estados Unidos “mantêm a solidariedade a Israel” e que os dois países, citando a resolução da Câmara, estavam “agora envolvidos em uma luta comum contra o terrorismo”. A versão da Câmara também condenava “o permanente apoio ao terror e sua coordenação por parte de Yasser Arafat”, que era retratado como uma peça central do problema do terrorismo. As duas resoluções foram redigidas com a ajuda do Lobby. Alguns dias depois, uma delegação bipartidária do Congresso enviada a Israel em missão de levantamento de informações declarou que Sharon devia resistir à pressão dos Estados Unidos para que negociasse com Arafat. Em 9 de maio, uma subcomissão de dotações da Câmara se reuniu para discutir a concessão a Israel de mais US$ 200 milhões para o combate ao terrorismo. Powell se opôs ao pacote, mas o Lobby o apoiou e Powell perdeu.

Em resumo, Sharon e o Lobby jogaram contra o presidente dos Estados Unidos e ganharam. Hemi Shalev, um jornalista do jornal israelense Ma’ariv, relatou que os auxiliares de Sharon “não conseguiam esconder sua satisfação em vista do fracasso de Powell. Sharon esperou o melhor momento para agir, eles se gabaram, e o presidente piscou primeiro”. Mas foram os defensores de Israel nos Estados Unidos, não Sharon nem Israel, que desempenharam o papel principal na derrota de Bush.

A situação mudou pouco desde então. O governo Bush se recusou repetidas vezes a fazer acordos com Arafat. Depois de sua morte, o governo americano aceitou o novo líder palestino, Mahmoud Abbas, mas pouco fez para ajudá-lo. Sharon continuou a desenvolver seu plano de impor uma solução unilateral aos palestinos, baseado numa “desocupação” de Gaza combinada a uma expansão contínua na Cisjordânia. Ao se recusar a negociar com Abbas e tornar impossível para ele apresentar benefícios palpáveis ao povo palestino, a estratégia de Sharon contribuiu diretamente para a vitória eleitoral do Hamas. Com o Hamas no poder, no entanto, Israel tem mais uma desculpa para não negociar. O governo americano apoiou as ações de Sharon (e as de seu sucessor, Ehud Olmert). Bush endossou até mesmo as anexações israelenses unilaterais dos Territórios Ocupados, invertendo a política declarada de todos os presidentes desde Lyndon Johnson.

Os representantes americanos dirigiram críticas moderadas a algumas das ações israelenses, mas pouco fizeram para ajudar a criar um Estado palestino viável. Sharon consegue que Bush “faça tudo que ele quer”, disse o ex-conselheiro de segurança nacional Brent Scowcroft em outubro de 2004. Se Bush tentar distanciar os Estados Unidos de Israel, ou mesmo criticar as ações israelenses nos Territórios Ocupados, certamente enfrentará a ira do Lobby e de seus apoiadores no Congresso. Os candidatos democratas à Presidência entendem isso como ossos do ofício, e é essa a razão pela qual John Kerry fez de tudo para exibir apoio irrestrito a Israel em 2004, e Hillary Clinton está fazendo o mesmo hoje. Manter o apoio dos Estados Unidos às políticas de Israel contra os palestinos é essencial para o Lobby, mas suas ambições não param aí. Ele quer também que os Estados Unidos ajudem Israel a continuar sendo a potência regional dominante. O governo israelense e grupos pró-Israel nos Estados Unidos trabalharam juntos para moldar a política do governo americano em relação ao Iraque, à Síria e ao Irã, assim como seu grandioso esquema para reordenar o Oriente Médio.

As pressões de Israel e do Lobby não foram o único fator responsável pela decisão de atacar o Iraque em março de 2003, mas foram um fator decisivo. Alguns americanos acreditam que aquela foi uma guerra por petróleo, mas dificilmente há uma evidência direta que sustente essa afirmação. Antes, a guerra foi motivada em boa parte por um desejo de tornar Israel mais seguro. Segundo Philip Zelikow, ex-membro do Foreign Intelligence Advisory Board do presidente, diretor executivo da Comissão do 11 de Setembro, e hoje assessor de Condoleezza Rice, a “ameaça real” do Iraque não era uma ameaça aos Estados Unidos. A “ameaça não declarada” era a “ameaça contra Israel”, disse Zelikow a uma platéia na Universidade da Virginia em setembro de 2002. “O governo americano”, ele acrescentou, “não quer insistir demais nisso retoricamente, porque não é algo que tenha muita aceitação popular”.

Em 16 de agosto de 2002, onze dias antes de Dick Cheney iniciar a campanha pela guerra com um discurso linha-dura aos Veterans of Foreign Wars, o Washington Post relatou que “Israel está exigindo que os representantes americanos não adiem um ataque militar contra Saddam Hussein, do Iraque”. Nessa altura, de acordo com Sharon, a coordenação estratégica entre Israel e os Estados Unidos alcançou “dimensões sem precedentes”, e funcionários da inteligência israelense passaram a Washington uma variedade de relatos alarmantes sobre programas de desenvolvimento de armas de destruição em massa do Iraque. Como disse mais tarde um general israelense aposentado, “a inteligência israelense teve participação plena na elaboração do quadro apresentado pela inteligência americana e britânica em relação à capacidade militar não-convencional do Iraque”.

Os líderes israelenses estavam profundamente tensos quando Bush decidiu seguir os termos da autorização do Conselho de Segurança para a guerra, e se preocuparam ainda mais quando Saddam concordou em permitir o retorno ao país dos inspetores da ONU. “A campanha contra Saddam Hussein é inevitável”, disse Shimon Peres aos repórteres em setembro de 2002. “Inspeções e inspetores são bons para pessoas decentes, mas pessoas desonestas conseguem enganar facilmente inspeções e inspetores.”

Ao mesmo tempo, Ehud Barak escreveu um artigo para o New York Times advertindo que “o maior risco agora é a inação”. Seu antecessor como primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, publicou um artigo semelhante no Wall Street Journal, intitulado: “O argumento para derrubar Saddam”. “Hoje nada menos do que desmontar seu regime funcionará”, ele declarou. “Creio que falo pela esmagadora maioria dos israelenses ao apoiar um ataque preventivo contra o regime de Saddam.” Ou, como relatou o Ha’aretz em fevereiro de 2003, “a liderança militar e política anseia pela guerra no Iraque”.

Como sugeriu Netanyahu, no entanto, o desejo de guerra não se restringia aos líderes de Israel. Além do Kuwait, que Saddam invadiu em 1990, Israel era o único país no mundo onde tanto os políticos como o público apoiavam a guerra. Como observou na época o jornalista Gideon Levy, “Israel é o único país no Ocidente cujos líderes apóiam irrestritamente a guerra e onde nenhuma opinião alternativa é expressada”. De fato, os israelenses estavam tão animados que seus aliados nos Estados Unidos disseram a eles para moderarem sua retórica, senão pareceria que a guerra seria travada em benefício de Israel.

Nos Estados Unidos, a principal força propulsora da guerra era um pequeno bando de neoconservadores, muitos com ligações com o Likud. Mas líderes das principais organizações do Lobby emprestaram suas vozes à campanha. “Quando o presidente Bush tentou vender a […] guerra no Iraque”, relatou o Forward, “as organizações judaicas mais importantes dos Estados Unidos se manifestaram em uníssono em sua defesa. Numa declaração atrás da outra os líderes da comunidade enfatizaram a necessidade de livrar o mundo de Saddam Hussein e de suas armas de destruição em massa”. O editorial diz ainda que “a preocupação com a segurança de Israel influenciou justificadamente as deliberações dos principais grupos judeus”.

Embora os neoconservadores e outros líderes do Lobby estivessem ansiosos para invadir o Iraque, a comunidade judaica americana em geral não estava. Logo depois do início da guerra, Samuel Freedman relatou que “uma compilação de pesquisas de opinião de âmbito nacional feita pelo Research Center mostra que os judeus apóiam menos a guerra do Iraque do que a população em geral, 52% a 62%”. Evidentemente, seria errado atribuir a culpa pela guerra no Iraque à “influência judaica”. Antes, ela se deveu em grande parte à influência do Lobby, especialmente à dos neoconservadores que fazem parte dele.

Os neoconservadores estavam determinados a derrubar Saddam mesmo antes de Bush se tornar presidente. Eles causaram alvoroço no início de 1998 ao publicar duas cartas abertas a Clinton, exigindo a remoção de Saddam do poder. Os signatários, muitos deles com laços estreitos com grupos pró-Israel como o Jinsa e o Winep, e entre os quais estavam Elliot Abrams, John Bolton, Douglas Feith, William Kristol, Bernard Lewis, Donald Rumsfeld, Richard Perle e Paul Wolfowitz, não tiveram dificuldade para persuadir o governo Clinton a adotar a meta geral de desalojar Saddam. Mas eles não conseguiram vender a idéia de uma guerra para alcançar esse objetivo. E nos primeiros meses do governo Bush foram igualmente incapazes de gerar entusiasmo pela invasão do Iraque. Eles precisavam de ajuda para alcançar seu objetivo, e ela chegou com o 11 de Setembro. Especificamente, os acontecimentos daquele dia levaram Bush e Cheney a inverter o curso e tornar-se fortes proponentes de uma guerra preventiva.

Numa reunião decisiva com Bush em Camp David, em 15 de setembro, Wolfowitz defendeu atacar o Iraque antes do Afeganistão, embora não houvesse nenhuma prova de que Saddam estava envolvido nos ataques aos Estados Unidos e se soubesse que bin Laden estava no Afeganistão. Bush rejeitou o conselho e preferiu atacar o Afeganistão, mas a guerra ao Iraque era agora considerada uma possibilidade séria, e em 21 de novembro o presidente encarregou planejadores militares de desenvolver planos concretos para uma invasão.

Enquanto isso, outros neoconservadores trabalhavam nos corredores do poder. Ainda não dispomos da história completa, mas pesquisadores como Bernard Lewis, de Princeton, e Fouad Ajami, da Johns Hopkins, teriam cumprido papéis importantes no convencimento de Cheney de que a guerra era a melhor opção, embora neoconservadores da equipe dele — Eric Edelman, John Hannah e Scooter Libby, chefe de gabinete de Cheney e uma das pessoas mais poderosas do governo — também tenham cumprido seu papel. No começo de 2002, Cheney tinha convencido Bush; e com o engajamento de Bush e Cheney a guerra era inevitável.

Fora do governo, especialistas neoconservadores apressaram-se a apresentar o argumento de que invadir o Iraque era essencial para ganhar a guerra contra o terrorismo. Seus esforços se destinavam em parte a manter a pressão sobre Bush, e em parte a superar a oposição à guerra dentro e fora do governo. Em 20 de setembro, um grupo de importantes neoconservadores e seus aliados publicou mais uma carta aberta: “Mesmo que as evidências não liguem diretamente o Iraque ao ataque,” dizia ela, “qualquer estratégia que tenha por objetivo a erradicação do terrorismo e de seus patrocinadores deve incluir um esforço determinado para remover Saddam Hussein do poder no Iraque”. A carta também lembrava a Bush que “Israel tem sido e continua a ser o aliado leal dos Estados Unidos contra o terrorismo internacional”. No número de 1º de outubro da Weekly Standard, Robert Kagan e William Kristol exigiam a mudança do regime no Iraque tão logo o Talibã fosse derrotado. No mesmo dia, Charles Krauthammer argumentou no Washington Post que, depois que os Estados Unidos tivessem terminado com o Afeganistão, o próximo deveria ser a Síria, seguida pelo Irã e pelo Iraque: “A guerra contra o terrorismo vai se concluir em Bagdá”, quando pusermos fim ao “regime terrorista mais perigoso do mundo”.

Esse foi o começo de uma campanha implacável de relações públicas para conquistar apoio a uma invasão do Iraque, que tinha como uma de suas partes cruciais a manipulação de informações de modo a fazer parecer que Saddam era uma ameaça iminente. Por exemplo, Libby pressionou analistas da CIA a encontrar provas que sustentassem o argumento em favor da guerra e ajudassem a preparar o hoje desacreditado relato de Colin Powell ao Conselho de Segurança da ONU. Dentro do Pentágono, o Policy Counterterrorism Evaluation Group foi encarregado de encontrar ligações entre a Al-Qaeda e o Iraque que a comunidade de inteligência supostamente deixara escapar. Seus dois principais membros eram David Wurmser, um neoconservador empedernido, e Michael Maloof, um libanês-americano estreitamente ligado a Perle. Outro grupo do Pentágono, o chamado Office of Special Plans, recebeu a tarefa de descobrir provas que pudessem ser usadas para vender a guerra. Ele era chefiado por Abram Shulsky, um neoconservador com laços antigos com Wolfowitz, e tinha entre seus membros pessoas recrutadas de think tanks pró-Israel. Esses órgãos foram criados depois do 11 de Setembro e se reportavam diretamente a Douglas Feith. Como praticamente todos os neoconservadores, Feith está profundamente comprometido com Israel e também tem laços antigos com o Likud. Ele escreveu artigos na década de 1990 apoiando os assentamentos e argumentando que Israel devia manter os Territórios Ocupados. Mais importante, juntamente com Perle e Wurmser, ele redigiu em junho de 1996 o famoso relatório “Clean Break” para Netanyahu, que acabara de se tornar primeiro-ministro. Entre outras coisas, o relatório recomendava que Netanyahu “se concentrasse em remover Saddam Hussein do poder no Iraque — um objetivo estratégico israelense importante por si só”. Também exigia que Israel tomasse medidas para reordenar todo o Oriente Médio. Netanyahu não seguiu o conselho deles, mas Feith, Perle e Wurmser logo estavam pressionando o governo Bush para que adotasse os mesmos objetivos. O colunista Akiva Eldar, do Ha’aretz, advertiu que Feith e Perle “estão caminhando sobre uma linha estreita entre sua lealdade aos governos americanos […] e aos interesses israelenses”.

Wolfowitz está igualmente comprometido com Israel. O Forward o descreveu uma vez como “a mais belicosa voz pró-Israel no governo”, e o escolheu em 2002 como o primeiro entre cinqüenta notáveis que “adotaram conscientemente o ativismo judeu”. Mais ou menos na mesma época, o Jinsa concedeu a Wolfowitz o “Henry M. Jackson Distinguished Award” por ele ter promovido uma forte parceria entre Israel e os Estados Unidos; e oJerusalem Post, descrevendo-o como “fortemente pró-Israel”, o indicou como “Homem do Ano” em 2003.

Finalmente, cabe um breve comentário sobre o apoio dado antes da guerra pelos neoconservadores a Ahmed Chalabi, o inescrupuloso exilado iraquiano que dirigia o Iraqi National Congress (INC). Eles apoiaram Chalabi porque ele tinha estabelecido laços estreitos com grupos judeu-americanos e prometido fomentar boas relações com Israel quando conquistasse o poder. Isso era precisamente o que os proponentes da mudança de regime favoráveis a Israel queriam ouvir. Matthew Berger expôs a essência do pacto no Jewish Journal: “O INC via uma melhora das relações como um modo de tirar proveito da influência judaica em Washington e Jerusalém e ganhar maior apoio para sua causa. De sua parte, os grupos judeus viam uma oportunidade de criar condições para melhorar as relações entre Israel e o Iraque, se e quando o INC estiver envolvido na substituição do regime de Saddam Hussein”.

Dada a dedicação dos neoconservadores a Israel, sua obsessão com o Iraque e sua influência no governo Bush, não é de surpreender que muitos americanos suspeitassem que a guerra tinha por objetivo promover interesses israelenses. No mês de março passado, Barry Jacobs, do American Jewish Committee, reconheceu que a crença de que Israel e os neoconservadores tinham conspirado para levar os Estados Unidos a uma guerra no Iraque estava “disseminada” na comunidade de inteligência. Mas poucas pessoas diriam isso em público, e a maioria das que o fizeram — entre elas o senador Ernest Hollings e o deputado James Moran — foi condenada por levantar a questão. Michael Kinsley escreveu no final de 2002 que “a falta de discussão pública sobre o papel de Israel […] é o proverbial elefante na sala”. A razão para a relutância a falar sobre isso, observou ele, era o medo de ser rotulado de anti-semita. Há pouca dúvida de que Israel e o Lobby foram fatores fundamentais na decisão de ir à guerra. Trata-se de uma decisão que os Estados Unidos teriam muito menos probabilidade de tomar sem os esforços desenvolvidos por eles. E se pretendia que a guerra fosse só o primeiro passo. Uma manchete de primeira página do Wall Street Journal logo depois do início da guerra diz tudo: “O sonho do presidente: mudar não só o regime mas uma região: uma área democrática pró-EUA é uma meta que tem raízes israelenses e neoconservadoras”.

As forças pró-Israel estão há muito tempo interessadas em que as forças armadas dos Estados Unidos se envolvam mais diretamente no Oriente Médio. Mas tiveram pouco sucesso durante a Guerra Fria, porque os Estados Unidos agiram como um “equilibrador off-shore” na região. A maioria das forças criadas para o Oriente Médio, como a Rapid Deployment Force, foi mantida “no horizonte” e fora de alcance. A idéia era jogar potências locais uma contra a outra — e foi por isso que o governo Reagan apoiou Saddam contra o Irã revolucionário durante a guerra Irã-Iraque — com o objetivo de manter um balanço favorável aos Estados Unidos.

Essa política mudou depois da Guerra do Golfo, quando o governo Clinton adotou uma estratégia de “contenção dual”. Forças americanas substanciais ficavam estacionadas na região para conter tanto o Irã como o Iraque, em vez de um ser usado para controlar o outro. O pai da contenção dual foi ninguém menos que Martin Indyk, o primeiro a esboçar a estratégia em maio de 1993 no Winep e quem depois a implementou como diretor do Near East and South Asian Affairs no Conselho de Segurança Nacional. Em meados da década de 1990 havia uma considerável insatisfação com a contenção dual, porque ela tornava os Estados Unidos o inimigo mortal de dois países que se odiavam, e obrigava Washington a carregar o peso de conter ambos. Mas era uma estratégia que o Lobby apoiava e trabalhava ativamente no Congresso para preservar. Pressionado pelo Aipac e por outras forças pró-Israel, Clinton endureceu a política na primavera de 1995 ao impor um embargo econômico ao Irã. Mas o Aipac e os outros queriam mais. O resultado foi o Iran and Libya Sanctions Act, de 1996, que impôs sanções a qualquer empresa estrangeira que investisse mais de US$ 40 milhões para desenvolver recursos petrolíferos no Irã ou na Líbia. Como notou na época Ze’ev Schiff, correspondente militar do Ha’aretz, “Israel é apenas um minúsculo elemento do grande esquema, mas não se deve concluir que ele não é capaz de influenciar aqueles que estão em Washington”.

No entanto, no final da década de 1990, os neoconservadores argumentavam que a contenção dual não era suficiente e que a mudança de regime no Iraque era essencial. Ao derrubar Saddam e transformar o Iraque em uma democracia, eles argumentavam, os Estados Unidos deflagrariam um processo de mudança de longo alcance em todo o Oriente Médio. A mesma linha de raciocínio era evidente no estudo “Clean Break”, que os neoconservadores redigiram para Netanyahu. Em 2002, quando uma invasão do Iraque estava na ordem do dia, a transformação regional era um artigo de fé em círculos neoconservadores. Charles Krauthammer descreve esse esquema grandioso como fruto da imaginação de Natan Sharansky, mas israelenses de todo o espectro político acreditavam que derrubar Saddam alteraria o Oriente Médio em favor de Israel. Aluf Benn relatou no Ha’aretz (17 de fevereiro de 2003):

Oficiais de alto escalão das forças armadas israelenses e aqueles próximos do primeiro-ministro Ariel Sharon, como o conselheiro de Segurança Nacional Ephraim Halevy, pintam um quadro cor-de-rosa do maravilhoso futuro que Israel pode esperar depois da guerra. Eles imaginam um efeito-dominó, com a queda de Saddam Hussein seguida pela de outros inimigos de Israel […] Com o desaparecimento desses líderes, desaparecerão o terror e as armas de destruição em massa.

Quando Bagdá caiu em meados de abril de 2003, Sharon e seus tenentes começaram a pressionar Washington para se voltar contra Damasco. Em 16 de abril, Sharon, entrevistado no Yedioth Ahronoth, pediu que os Estados Unidos fizessem uma pressão “muito forte” sobre a Síria, enquanto Shaul Mofaz, seu ministro da Defesa, entrevistado pelo Ma’ariv, disse: “Temos uma longa lista de questões que pensamos em exigir do sírios, e é adequado que isso seja feito por meio dos americanos”. Ephraim Halevy disse a uma platéia da Winep que agora era importante que os Estados Unidos endurecessem com a Síria, e o Washington Post relatou que Israel estava “alimentando a campanha” contra a Síria ao fornecer à inteligência americana relatórios sobre as ações de Bashar Assad, o presidente sírio.

Membros importantes do Lobby usaram os mesmos argumentos. Wolfowitz declarou que “é preciso haver uma mudança de regime na Síria”, e Richard Perle disse a um jornalista que “uma mensagem curta, de poucas palavras” podia ser enviada a outros regimes hostis no Oriente Médio: “Vocês são os próximos”. No começo de abril, a Winep divulgou um comunicado bipartidário declarando que a Síria “não deve esquecer a mensagem de que países que adotam o comportamento temerário, irresponsável e desafiador de Saddam podem ter o mesmo destino que ele”. Em 15 de abril, Yossi Klein Halavi escreveu um artigo no Los Angeles Times intitulado “Depois, apertar a Síria”, enquanto no dia seguinte Zev Chafets escreveu um artigo para o New York Daily News intitulado “A Síria, amiga do terror, também precisa de uma mudança”. Insuperável, Lawrence Kaplan escreveu na New Republic em 21 de abril que Assad era uma séria ameaça aos Estados Unidos.

No Capitólio, o congressista Eliot Engel havia reapresentado o Syria Accountability and Lebanese Sovereignty Restoration Act. Ele ameaçava com sanções contra a Síria se o país não se retirasse do Líbano, desistisse de suas armas de destruição em massa e parasse de apoiar o terrorismo, e também exigia que a Síria e o Líbano tomassem medidas concretas para fazer as pazes com Israel. Essa legislação era fortemente apoiada pelo Lobby — especialmente pelo Aipac — e “arquitetada”, segundo a Jewish Telegraph Agency, “por alguns dos melhores amigos de Israel no Congresso”. O governo Bush tinha pouco entusiasmo por ela, mas o decreto anti-Síria foi aprovado por uma maioria esmagadora (398 a 4 na Câmara; 89 a 4 no Senado), e Bush o sancionou em 12 de dezembro de 2003.

O governo ainda estava dividido a respeito da sensatez de atacar a Síria. Embora os neoconservadores estivessem ansiosos para começar uma briga com Damasco, a CIA e o Departamento de Estado se opunham à idéia. E mesmo depois de Bush ter sancionado a nova lei, ele enfatizou que a implementaria lentamente. Sua ambivalência é compreensível. Primeiro, o governo sírio não só estava fornecendo informações importantes sobre a Al-Qaeda desde o 11 de Setembro: tinha também avisado Washington sobre um possível ataque terrorista no Golfo e dado a interrogadores da CIA acesso a Mohammed Zamar, o suposto recrutador de alguns dos seqüestradores do 11 de Setembro. Visar o regime de Assad poria em risco essas valiosas ligações, e portanto prejudicaria a guerra geral contra o terrorismo. Em segundo lugar, as relações da Síria com Washington antes da guerra do Iraque não eram ruins (o país tinha até votado a favor da resolução 1441 da ONU), e ela não era uma ameaça aos Estados Unidos. Jogar pesado com ela faria os Estados Unidos parecerem um valentão com uma propensão insaciável por derrotar Estados árabes. Em terceiro lugar, colocar a Síria na lista de alvos daria a Damasco um poderoso incentivo para criar problemas no Iraque. Mesmo que se quisesse pressionar, era melhor primeiro terminar o trabalho no Iraque. Mas o Congresso insistia em apertar Damasco, basicamente em resposta à pressão de representantes israelenses e grupos como o Aipac. Se não houvesse o Lobby, não teria havido o Syria Accountability Act, e a política dos Estados Unidos para Damasco estaria mais alinhada com o interesse nacional.

Os israelenses tendem a descrever qualquer ameaça nos termos mais tenebrosos, mas o Irã é visto em geral como seu inimigo mais perigoso, porque é o que tem maior probabilidade de adquirir armas nucleares. Praticamente todos os israelenses consideram um país islâmico do Oriente Médio com armas nucleares uma ameaça à sua existência. “O Iraque é um problema […] mas você deve entender que, em minha opinião, hoje o Irã é mais perigoso que o Iraque”, observou o ministro da Defesa, Binyamin Ben-Eliezer, um mês antes da guerra do Iraque.

Sharon começou a empurrar os Estados Unidos para o confronto com o Irã em novembro de 2002, em uma entrevista ao Times. Descrevendo o Irã como “centro do terror mundial”, e propenso a adquirir armas nucleares, ele declarou que o governo Bush devia se voltar contra o Irã “no dia seguinte” à conquista do Iraque. No final de abril de 2003, o Ha’aretz relatou que o embaixador israelense em Washington estava exigindo uma mudança de regime no Irã. A derrubada de Saddam, ele observou, “não é suficiente”. Em suas palavras, os Estados Unidos “têm de continuar. Ainda temos grandes ameaças da mesma magnitude vindas da Síria, vindas do Irã”.

Também os neoconservadores se apressaram a argumentar em favor da mudança de regime em Teerã. Em 6 de maio, o American Enterprise Institute co-patrocinou uma conferência de dia inteiro sobre o Irã com a Foundation for the Defense of Democracies e o Hudson Institute, ambos defensores de Israel. Os conferencistas eram todos muito favoráveis a Israel, e muitos exigiram que os Estados Unidos substituíssem o regime iraniano por uma democracia. Como sempre, um grande número de artigos de neoconservadores proeminentes apresentou argumentos para atacar o Irã. “A libertação do Iraque foi a primeira grande batalha pelo futuro do Oriente Médio […] mas a próxima grande batalha — não, esperamos, uma batalha militar — será pelo Irã”, escreveu William Kristol na Weekly Standard em 12 de maio.

O governo reagiu à pressão do Lobby trabalhando exaustivamente para interromper o programa nuclear do Irã. Mas Washington tem tido pouco sucesso, e o Irã parece determinado a criar um arsenal nuclear. Em conseqüência, o Lobby intensificou sua pressão. Artigos de opinião e outros artigos agora chamam a atenção para os perigos iminentes de um Irã nuclear, advertem contra qualquer conciliação com um regime “terrorista”, e insinuam sombriamente uma ação preventiva se a diplomacia fracassar. O Lobby está pressionando o Congresso para a aprovação do Iran Freedom Support Act, que ampliaria as sanções existentes. Representantes israelenses também advertem que podem empreender a ações dissuasivas caso o Irã continue no caminho nuclear, ameaças que pretendem em parte manter a atenção de Washington sobre o assunto.

Poder-se-ia argumentar que Israel e o Lobby não tiveram muita influência na política para o Irã, porque os Estados Unidos têm suas próprias razões para evitar que o Irã adquira armamentos nucleares. Há alguma verdade nisso, mas as ambições nucleares do Irã não são uma ameaça direta aos Estados Unidos. Se Washington conseguiu viver com uma União Soviética nuclear, uma China nuclear ou mesmo uma Coréia do Norte nuclear, pode também viver com um Irã nuclear. E é por isso o que o Lobby precisa manter uma pressão constante para que os políticos confrontem Teerã. O Irã e os Estados Unidos dificilmente seriam aliados mesmo que o Lobby não existisse, mas a política dos Estados Unidos seria mais moderada e a guerra preventiva não seria uma opção séria. Não é de surpreender que Israel e seus defensores americanos queiram que os Estados Unidos lidem com toda e qualquer ameaça à segurança de Israel. Se seus esforços para moldar a política dos Estados Unidos forem bem-sucedidos, os inimigos de Israel serão enfraquecidos ou derrubados, Israel terá liberdade para fazer o que quiser com os palestinos, e os Estados Unidos travarão a maioria dos combates, morrendo, reconstruindo e pagando. Mas mesmo que os Estados Unidos não consigam transformar o Oriente Médio e se vejam em conflito com um mundo árabe e islâmico cada vez mais radicalizado, Israel terminará protegido pela única superpotência do mundo. Esse não é um resultado perfeito do ponto de vista do Lobby, mas é obviamente preferível ao distanciamento de Washington, ou ao uso pelos Estados Unidos de sua influência para obrigar Israel a fazer a paz com os palestinos.

O poder do Lobby pode ser reduzido? Seria de se pensar que sim, dadas a derrocada do Iraque, a óbvia necessidade de reconstruir a imagem dos Estados Unidos no mundo árabe e islâmico e as recentes revelações sobre a passagem a Israel, por funcionários do Aipac, de informações secretas do governo americano. Poder-se-ia pensar também que a morte de Arafat e a eleição do mais moderado Mahmoud Abbas levariam Washington a pressionar vigorosamente e de forma mais isenta por um acordo de paz. Em resumo, há amplas bases para que os líderes se distanciem do Lobby e adotem uma política para o Oriente Médio mais coerente com os interesses americanos gerais. Em particular, usar o poder americano para alcançar uma paz justa entre Israel e os palestinos ajudaria a avançar a causa da democracia na região.

Mas isso não vai acontecer — de qualquer maneira, não logo. O Aipac e seus aliados (entre eles os sionistas cristãos) não têm oponentes sérios no mundo do lobby. Eles sabem que ficou mais difícil defender Israel hoje, e reagem contratando pessoal e expandindo suas atividades. Além disso, os políticos americanos permanecem extremamente sensíveis a contribuições de campanha e outras formas de pressão política, e os órgãos mais importantes da mídia provavelmente continuarão a ser simpáticos a Israel independentemente do que Israel faça.

A influência do Lobby causa problemas em várias frentes. Aumenta o perigo terrorista que todos os Estados enfrentam — inclusive os aliados europeus dos Estados Unidos. Tornou impossível pôr fim ao conflito israelense-palestino, uma situação que dá aos extremistas uma poderosa ferramenta de recrutamento, aumenta a reserva de potenciais terroristas e simpatizantes, e contribui para o radicalismo islâmico na Europa e na Ásia. Igualmente preocupante, a campanha do Lobby em favor da mudança de regime no Irã e na Síria pode levar os Estados Unidos a atacar esses países, com efeitos potencialmente desastrosos. Não precisamos de mais um Iraque. No mínimo, a hostilidade do Lobby em relação à Síria e ao Irã torna quase impossível para Washington recrutá-los para a luta contra a Al-Qaeda e a insurgência iraquiana, na qual a ajuda deles é extremamente necessária.

Há aqui também uma dimensão moral. Graças ao Lobby, os Estados Unidos se tornaram na prática o capacitador da expansão israelense nos Territórios Ocupados, o que fez deles cúmplices nos crimes perpetrados contra os palestinos. Essa situação debilita os esforços do governo americano para promover a democracia no exterior e o faz parecer hipócrita quando pressiona outros Estados a respeitar os direitos humanos. Os esforços americanos para limitar a proliferação nuclear parecem igualmente hipócritas dada a sua disposição de aceitar o arsenal nuclear de Israel, o que só estimula o Irã e outros a buscar uma capacidade semelhante.

Ademais, a campanha do Lobby para reprimir o debate sobre Israel é perniciosa para a democracia. Silenciar os céticos organizando listas negras e boicotes — ou sugerindo que os críticos são anti-semitas — viola o princípio do debate aberto do qual a democracia depende. A incapacidade do Congresso para conduzir um debate genuíno dessas questões importantes paralisa todo o processo de deliberação democrática. Os apoiadores de Israel devem ter liberdade para apresentar seus argumentos e contestar aqueles que discordam deles, mas os esforços para abafar o debate por meio de intimidação devem ser vigorosamente condenados.

Por fim, a influência do Lobby tem sido ruim para Israel. Sua capacidade de convencer Washington a apoiar uma agenda expansionista desestimulou Israel a aproveitar oportunidades — entre elas um tratado de paz com a Síria e uma pronta e plena implementação dos acordos de Oslo — que teriam poupado vidas israelenses e encolhido as fileiras de extremistas palestinos. Negar aos palestinos seus direitos políticos legítimos por certo não tornou Israel mais seguro, e a longa campanha para matar ou marginalizar uma geração de líderes palestinos reforçou grupos extremistas como o Hamas, e reduziu o número de líderes palestinos dispostos a aceitar um acordo justo e capazes de pô-lo em prática. Até Israel estaria provavelmente melhor se o Lobby fosse menos poderoso e a política dos Estados Unidos mais imparcial.

Contudo, há um raio de esperança. Embora o Lobby continue sendo uma força poderosa, os efeitos adversos de sua influência são cada vez mais difíceis de esconder. Estados poderosos podem manter políticas errôneas por muito tempo, mas a realidade não pode ser ignorada para sempre. O que é necessário é uma discussão franca da influência do Lobby e um debate mais aberto sobre os interesses dos Estados Unidos nessa região vital. O bem-estar de Israel é um desses interesses, mas sua ocupação continuada da Cisjordânia e sua agenda regional mais ampla não são. O debate aberto exporá os limites do argumento estratégico e moral em favor do apoio americano unilateral e poderia levar os Estados Unidos a uma posição mais coerente com seus interesses nacionais, com os interesses de outros Estados da região e também com os interesses de longo prazo de Israel.

tradução do inglês de Otacílio Nunes Jr. [1] Artigo publicado na London Review of Books em 23 de março de 2006.         [ Links ] [2] Rogue states (Estados “patifes” ou “vis”): expressão usada pelo governo dos Estados Unidos para se referir a Estados governados por regimes autoritários que restringem fortemente os direitos humanos, acusados de patrocinar o terrorismo e de buscar obter armas de destruição em massa. O governo Clinton, durante seus últimos seis meses, a substituiu pela expressão “states of concern” (Estados preocupantes, que merecem atenção), e no governo Bush os Estados considerados rogue pelo governo americano (Coréia do Norte, Iraque, Irã, Afeganistão e Líbia) passaram a ser caracterizados pelo presidente como “Eixo do Mal”. Depois da invasão americana do Afeganistão e do Iraque, evidentemente, e de acertos diplomáticos entre o governo americano e a Líbia, esses três países foram excluídos da lista. (N. T.) [3] Os autores se referem ao assassinato de Ilan Halimi, em fevereiro de 2006. (N. E.)

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“O Sionismo não é só o problema de Israel,é o maior problema do mundo!
Nunca houve problemas entre Islamismo e judaísmo.Foi o sionismo que os criou;temos de avançarpara a reconcialiação.
O Judeu da diáspora no século XIX tinha a ordem simbólica(o gueto)e o imaginário(o gentio).Havia uma espécie de sentimento esquizofrénico.Logo que o judeu foi para a Palestina,com a obsessão depovo escolhido,perdeu o imaginário.Teve de reinventar esse sentimento esquizofrénico.Isso é o estado de Israel:maníaco-depressivo,num momento estão a chorar porque se consideram vitímas;no seguinte,são capazes de arrasar uma aldeia.A América está a agir da mesma forma.Ainda não decidiram se são a vitíma ou o invasor.Na minha música ou no meu livro,quando falo de Israel,penso num macro-cosmos de um sentimento esquizofrénico muito destrutivo.
Pergunta do DN-Os sionistas usam a cultura da vitíma e a má consciência do Ocidente?
Existe uma diferença entre ser vitíma e ter a mentalidade da vitíma.A mentalidade é quando a vitíma se encara a si própria como inocente,independentemente das circunstâncias.Quando seadquire tal mentalidade perde-se a capacidade de olhar para si próprio em termos racionais.Hannah Arendt,que foi sionista durante algum tempo,no seu livro após o julgamento de Eichman,faz a pergunta nunca feita:porque nos fizeram isto?Quando adquires a mentalidade de vitíma deixas de te questionar.Os fundamentalistas são apresentados como estúpidos,mas são muito inteligentes na escolha dos alvos.
A ideia de que Israel é uma democracia é uma total anedota.É uma democracia que controla cerca de 45% da população

sem

lhe dar o direito de voto,é uma espécie de democracia colonialista.A única democracia no Médio Oriente é a Palestina.A minha missão não é mudar Israel politicamente,porque penso que é impossivel por causa de Maimónides–a identidade judaica não é pacifica,é uma identidade que envolve segregação.A minha missão é dizer o que Israel significa e alertar para que se não tivermos cuidado e ajudarmos a demolir esta identidade,esta transformará o nosso planeta numa realidade sangrenta.E penso que a América,ou se quiser,a Judeumérica,já está.”
(Extractos da entrevista de Gilad Atzmon,músico e escritor israelita,ao DN de 4 de Fevereiro de 2004,Atzmon é filho de Judeus Russos,nasceu em 1963 perto de Telavive.Foi um dos milhares de soldados israelitas que invadiram o Libano nos anos 80.)

O sionismo do ponto de vista de alguns grupos ortodoxos,os quais prostestam contra o Estado de Israel: www.jewsagainstzionism.com
www.jewsnotzionists.org

O que é o Zionismo e quem está por trás da sua criação?: www.marxists.de/middleast/schoenman

Que é isto?O simbolo zionista na Policia de Portugal??: www.psp.pt
Também o simbolo zionista que figura na bandeira de Israel é simbolo de sociedades secretas e esotéricas: www.hermanubis.com.br

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O sionismo pode ser considerado uma forma de racismo? SIM Dois pesos e duas medidas EMIR SADER

O sionismo pode ser considerado uma forma de racismo?

SIM 

Dois pesos e duas medidas

EMIR SADER

Segundo a Comissão Internacional pela Eliminação de Todo Tipo de Discriminação Racial, esta se define por “qualquer distinção, exclusão, restrição ou prejuízo baseado em raça, cor, descendência ou em origem étnica ou nacional que tem como objetivo ou efeito anular ou prejudicar o reconhecimento, o gozo ou o exercício, em bases iguais, dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos planos político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida pública”.
O sionismo, como doutrina do Estado de Israel, assim como a ação desse Estado na ocupação dos territórios palestinos, corresponde plenamente a essa ampla e reconhecida definição da discriminação racial. A minoria de palestinos -cerca de 20%- residente em Israel é considerada cidadãos de segunda categoria.
Já na sua constituição, Israel possui leis que patrocinam o retorno dos judeus, reservando terras exclusivamente para eles, financiando escolas sionistas, assumindo-se efetivamente como um Estado confessional e baseado em critérios biológicos, que excluem -discriminam- por definição os não-judeus.
A instalação do Estado de Israel se deu mediante um vasto processo de limpeza étnica, com todos os tipos de crimes contra a então majoritária população palestina: se em 1947 os judeus possuíam 7% das terras da Palestina, em 1950 se haviam apropriado de 92%, dando início a um processo de colonização, forma que assumiu a opressão aos palestinos, num novo modo de colonialismo.
A resolução da ONU determina a existência de dois Estados. O Estado de Israel existe há mais de 50 anos, enquanto a existência de um Estado Palestino é bloqueada pela ocupação militar israelense e pelo veto dos Estados Unidos no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
A inexistência do Estado palestino já configura uma discriminação, pela expropriação de um direito político fundamental. Os acordos de Oslo ou as propostas do governo de Ehud Barak nunca aceitaram o direito a um Estado palestino com as mesmas condições do Estado de Israel: com continuidade territorial -cerca de 200 mil colonos judeus foram conscientemente instalados em território palestino-, com o retorno dos milhões de refugiados palestinos -direitos de que gozaram os judeus e que são negados aos palestinos.
Ao considerar os judeus “povo escolhido”, o massacre que sofreram não é similar aos que sofreram e sofrem outros povos ou ao que infligem aos palestinos, o que, por si só, funciona como fundamento doutrinário da discriminação racial. Não se consideram cidadãos do mundo, indignados e revoltados com toda e qualquer injustiça que se cometa contra qualquer ser humano.
O sionismo se constituiu assim como uma forma específica da discriminação racial fundada no colonialismo ocidental contra todos os outros povos, amparado na oposição entre civilização e barbárie, em que os brancos, ocidentais e cristãos representariam aquela e os “outros” -negros, asiáticos e árabes entre eles- personificariam a barbárie, imagem discriminatória consolidada por Hollywood.
Israel se considera uma espécie de “ilha de civilização” cercada pela barbárie, o que lhe reforçaria o suposto “direito” aos privilégios que se atribuem, mas que negam aos palestinos. A forma violenta, opressiva e humilhante como tratam os palestinos em seus territórios é uma prova cotidiana da discriminação aos mesmos (não por acaso, Israel foi aliado estratégico ativo do regime de apartheid da África do Sul).
Sem dois Estados com igualdade de condições -território delimitado, retorno dos refugiados, Exército, acesso a fontes de água-, isto é, sem discriminação de nenhum tipo, não haverá justiça nem paz duradoura no Oriente Médio. A pátria dos humanistas é a humanidade e o seu mundo é aquele em que caibam todos os mundos.


Emir Sader, 58, é professor de sociologia da USP (Universidade de São Paulo) e da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e autor de “Século 20 – uma Biografia Não-Autorizada” (Perseu Abramo), entre outras obras.

O Lobby de Israel1 John MearsheimerI; Stephen WaltII Dois académicos Americanos, John Mearsheimer, da Universidade de Chicago Stephen Walt, de Harvard, fizeram um trabalho para tentar responder a estas questões e levantaram uma enorme controvérsia com os resultados apurados. O seu livro denomina-se “O Lobby Israelita e a Política Externa dos Estado Unidos” … [leia a notícia na íntegra]

O Lobby de Israel1

 

 

John MearsheimerI; Stephen WaltII

IProfessor Wendell Harrison de Ciência Política em Chicago e autor de The tragedy of great power politics
IIProfessor Robert and Renee Belfer de Assuntos Internacionais na Kennedy School of Government em Harvard. Seu livro mais recente é Taming American power: the global response to US primacy

 

 


RESUMO

O cerne da política dos Estados Unidos no Oriente Médio deriva das atividades do “Lobby de Israel”, que conseguiu desviá-la para longe do interesse nacional e convencer os americanos de que os interesses dos Estados Unidos e os de Israel são idênticos. O artigo sustenta que estratégias comuns ou imperativos morais inarredáveis não são explicações suficientes para explicar o notável nível de apoio material e diplomático fornecido pelos Estados Unidos.

Palavras-chave: Israel; Estados Unidos; Oriente Médio; relações internacionais.


SUMMARY

The thrust of US Middle Eastern policy derives from the activities of the “Israel Lobby”, which has managed to divert it as far from what the national interest would suggest, convincing Americans that US interests and those of Israel are identical. The article states that neither shared strategic interests nor compelling moral imperatives can account for the remarkable level of material and diplomatic support provided to Israel by US government.

Keywords: Israel; United States; Middle East; foreign affairs.


 

 

Nas últimas décadas, e especialmente desde a Guerra dos Seis dias em 1967, o componente mais importante da política dos Estados Unidos para o Oriente Médio tem sido sua relação com Israel. A combinação de apoio resoluto a Israel com o esforço a ele relacionado de disseminar a “democracia” por toda a região inflamou a opinião árabe e islâmica e pôs em risco não só a segurança dos Estados Unidos, mas também a de grande parte do resto do mundo. Essa situação não tem equivalente na história política americana. Por que os Estados Unidos se dispuseram a deixar de lado sua própria segurança e a de muitos de seus aliados para promover os interesses de outro Estado? Poder-se-ia supor que o vínculo entre os dois países se baseava em interesses estratégicos comuns ou em imperativos morais inarredáveis, mas nenhuma dessas explicações é suficiente para explicar o notável nível de apoio material e diplomático fornecido pelos Estados Unidos.

O cerne da política dos Estados Unidos na região deriva, antes, quase inteiramente da política interna, em especial das atividades do “Lobby de Israel”. Outros grupos de interesse específicos conseguiram influenciar a política externa, mas nenhum lobby conseguiu desviá-la para tão longe do que o interesse nacional indicaria, ao mesmo tempo convencendo os americanos de que os interesses dos Estados Unidos e os do outro país — no caso, Israel — são essencialmente idênticos.

Desde a Guerra de Outubro, em 1973, Washington deu a Israel um nível de apoio imensamente maior do que a qualquer outro Estado. Israel foi o maior receptor anual de assistência direta, econômica e militar, desde 1976, e é o maior receptor no total desde a Segunda Guerra Mundial, no montante de bem mais de US$ 140 bilhões (em dólares de 2004). Israel recebe por ano cerca de US$ 3 bilhões em assistência direta, aproximadamente um quinto do orçamento de ajuda externa, e cerca de US$ 500 por ano para cada israelense. Essa prodigalidade é chocante em particular porque Israel é hoje um Estado industrial rico com uma renda per capita mais ou menos igual à da Coréia do Sul ou à da Espanha. Outros países que recebem ajuda americana obtêm o dinheiro em prestações quadrimestrais, mas Israel recebe sua dotação inteira no início de cada ano fiscal e pode portanto ganhar juros sobre ela. A maioria dos que recebem ajuda para propósitos militares deve gastá-la toda nos Estados Unidos, mas Israel é autorizado a usar cerca de 25% de sua dotação para subsidiar sua própria indústria de defesa. É o único país a receber ajuda americana que não precisa explicar como o dinheiro é gasto, o que torna virtualmente impossível evitar que ele seja usado para propósitos aos quais os Estados Unidos se opõem, como construir assentamentos na Cisjordânia. Além disso, os Estados Unidos forneceram a Israel quase US$ 3 bilhões para o desenvolvimento de sistemas de armamentos, e deram ao país acesso a artefatos avançados como helicópteros Blackhawk e jatos F-16. Finalmente, os Estados Unidos dão a Israel acesso a informações que negam a seus aliados da Otan, e fecharam os olhos para a aquisição por Israel de armas nucleares.

Washington também dá a Israel um apoio diplomático permanente. Desde 1982, os Estados Unidos vetaram 32 resoluções do Conselho de Segurança da ONU críticas a Israel, mais do que o número total de vetos de todos os outros membros do Conselho de Segurança. Eles obstruem os esforços de Estados árabes para incluir o arsenal nuclear de Israel na agenda da AIEA. Os Estados Unidos socorrem Israel em tempo de guerra e tomam seu partido quando negociam a paz. O governo Nixon protegeu Israel da ameaça de intervenção soviética e o reabasteceu durante a Guerra de Outubro. Washington se envolveu profundamente nas negociações que terminaram aquela guerra, assim como no demorado processo “passo a passo” que se seguiu, além de ter cumprido um papel decisivo nas negociações que antecederam e se seguiram aos Acordos de Oslo de 1993. Em todos os casos houve sempre atritos ocasionais entre representantes dos Estados Unidos e de Israel, mas os Estados Unidos sempre apoiaram a posição israelense. Um dos participantes americanos em Camp David em 2000 disse depois: “Com demasiada freqüência, nós funcionamos […] como advogado de Israel”. Por fim, a ambição do governo Bush de transformar o Oriente Médio tem como objetivo, pelo menos em parte, melhorar a situação estratégica de Israel.

Essa extraordinária generosidade talvez fosse compreensível se Israel fosse um ativo estratégico vital ou se houvesse um argumento moral inarredável em favor do apoio dos Estados Unidos. Mas nenhuma dessas explicações é convincente. Poder-se-ia argumentar que Israel era um ativo durante a Guerra Fria. Atuando como substituto dos Estados Unidos depois de 1967, Israel ajudou a conter a expansão soviética na região e infligiu derrotas humilhantes a clientes soviéticos como o Egito e a Síria. Ocasionalmente, ajudou e protegeu outros aliados dos Estados Unidos (como o rei Hussein, da Jordânia), e seus feitos militares obrigaram Moscou a gastar mais para apoiar seus Estados-clientes. Israel também forneceu informações úteis sobre a capacidade militar dos soviéticos. No entanto, sustentar Israel não era barato, e complicava as relações dos Estados Unidos com o mundo árabe. Por exemplo, a decisão de dar US$ 2,2 bilhões em assistência militar de emergência durante a Guerra de Outubro provocou um embargo de petróleo da Opep que causou danos consideráveis a economias ocidentais. Por tudo isso, as forças armadas de Israel não tinham condições de proteger os interesses americanos na região. Os Estados Unidos não puderam, por exemplo, recorrer a Israel quando, em 1979, a Revolução Iraniana suscitou preocupações sobre a segurança do fornecimento de petróleo, e tiveram de criar sua própria Força de Ação Rápida.

A primeira Guerra do Golfo revelou em que medida Israel estava se tornando um fardo estratégico. Os Estados Unidos não podiam usar bases israelenses sem romper a coalizão anti-Iraque, e tiveram de desviar recursos (por exemplo, baterias de mísseis Patriot) para evitar que Tel-Aviv fizesse algo que prejudicasse a aliança contra Saddam Hussein. A história se repetiu em 2003: embora Israel estivesse ansioso para que os Estados Unidos atacassem o Iraque, Bush não podia pedir ajuda israelense sem provocar a oposição dos árabes. Assim, Israel mais uma vez ficou à parte.

Desde a década de 1990, e ainda mais depois do 11 de Setembro, o apoio americano foi justificado pela afirmação de que os dois Estados são ameaçados por grupos terroristas que têm origem no mundo árabe e muçulmano, e por rogue states2 que sustentam esses grupos e procuram obter armas de destruição em massa. Considera-se que isso significa não só que Washington deve dar a Israel liberdade para lidar com os palestinos e não pressioná-lo a fazer concessões até que todos os terroristas palestinos estejam presos ou mortos, mas também que os Estados Unidos devem perseguir países como o Irã e a Síria. Israel é visto, portanto, como um aliado decisivo na guerra contra o terror, porque seus inimigos são inimigos dos Estados Unidos. De fato, Israel é um fardo na guerra contra o terror e no esforço mais amplo de lidar com “Estados patifes”. O “terrorismo” não é um adversário único, mas uma tática empregada por um amplo conjunto de grupos políticos. As organizações terroristas que ameaçam Israel não ameaçam os Estados Unidos, a não ser quando estes intervêm contra elas (como no Líbano em 1982). Além disso, o terrorismo palestino não é uma violência aleatória dirigida contra Israel ou “o Ocidente”; é basicamente uma resposta à prolongada campanha de Israel para colonizar a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.

E o mais importante: dizer que Israel e os Estados Unidos estão unidos por uma ameaça terrorista comum inverte a relação causal: os Estados Unidos têm um problema terrorista em boa parte porque estão intimamente aliados a Israel, e não o contrário. O apoio a Israel não é a única fonte do terrorismo antiamericano, mas é uma fonte importante, que torna mais difícil vencer a guerra contra o terror. Não há dúvida de que muitos líderes da Al-Qaeda, entre eles Osama bin Laden, são motivados pela presença de Israel em Jerusalém e pela difícil situação dos palestinos. O apoio incondicional a Israel torna mais fácil aos extremistas obter apoio popular e atrair recrutas.

Quanto aos chamados rogue states do Oriente Médio, eles não são uma ameaça muito séria a interesses americanos vitais, a não ser na medida em que são uma ameaça a Israel. Mesmo que esses Estados adquiram armas nucleares — o que é obviamente indesejável —, nem os Estados Unidos nem Israel poderiam ser chantageados, porque o chantageador não poderia levar a cabo a ameaça sem sofrer retaliações devastadoras. O perigo de uma transferência de armas nucleares aos terroristas é igualmente remoto, porque um rogue state não poderia ter certeza de que ela passaria despercebida ou de que ele não seria culpado e punido depois. A relação com Israel na verdade torna mais difícil para os Estados Unidos lidar com esses Estados. O arsenal nuclear de Israel é uma das razões pelas quais alguns de seus vizinhos querem armas nucleares, e ameaçá-los com a mudança de regime só faz aumentar esse desejo. Uma última razão para questionar o valor estratégico de Israel é que ele não se comporta como um aliado leal. Os representantes de Israel freqüentemente ignoram os pedidos dos Estados Unidos e descumprem promessas (entre elas compromissos de parar de construir assentamentos e de se abster de “assassinatos planejados” de líderes palestinos). Israel forneceu tecnologia militar sofisticada a rivais potenciais como a China, no que o inspetor-geral do Departamento de Estado americano chamou de “um padrão sistemático e crescente de transferências não autorizadas”. Segundo o General Accounting Office, Israel também “executa as mais agressivas operações de espionagem contra os Estados Unidos feitas por qualquer um de seus aliados”. Além do caso de Jonathan Pollard, que passou a Israel grande quantidade de material secreto no começo da década de 1980 (que Israel teria passado para a URSS em troca de mais vistos de saída para judeus soviéticos), uma nova controvérsia surgiu em 2004 quando foi revelado que um importante funcionário do Pentágono chamado Larry Franklin tinha passado informações secretas para um diplomata israelense. Dificilmente Israel é o único país que espiona os Estados Unidos, mas sua disposição para espionar seu principal patrono levanta ainda mais dúvidas sobre seu valor estratégico.

E o valor estratégico de Israel não é a única questão. Seus apoiadores também argumentam que ele merece um apoio irrestrito porque é fraco e está cercado por inimigos; é uma democracia; o povo judeu foi vítima de crimes no passado e portanto merece tratamento especial; e a conduta de Israel tem sido moralmente superior à de seus adversários. Analisados em detalhe, nenhum desses argumentos é convincente. Há um forte argumento moral para apoiar a existência de Israel, mas ela não está em risco. Vista objetivamente, sua conduta passada e presente não oferece nenhuma base moral para privilegiar Israel em relação aos palestinos.

Israel costuma ser retratado como Davi confrontado por Golias, mas o inverso está mais próximo da verdade. Ao contrário da crença popular, os sionistas tinham forças maiores e mais bem equipadas durante a Guerra de Independência de 1947-49, e as forças armadas de Israel obtiveram vitórias rápidas e fáceis contra o Egito em 1956 e contra o Egito, a Jordânia e a Síria em 1967 — tudo isso antes de se iniciar a ajuda em grande escala por parte dos Estados Unidos. Hoje, Israel é a potência militar mais forte do Oriente Médio. Suas forças convencionais são muito superiores às de seus vizinhos, e ele é o único Estado na região que possui armas nucleares. O Egito e a Jordânia assinaram tratados de paz com Israel, e a Arábia Saudita se propôs a fazer o mesmo. A Síria perdeu seu patrono soviético, o Iraque foi devastado por três guerras desastrosas e o Irã está a centenas de quilômetros de distância. Os palestinos mal têm uma força policial eficaz, muito menos um exército que pudesse ameaçar Israel. Segundo uma avaliação feita em 2005 pelo Centro de Estudos Estratégicos Jaffee, da Universidade de Tel-Aviv, “o balanço estratégico decididamente favorece Israel, que continuou a aumentar o hiato qualitativo entre sua capacidade militar e as forças de dissuasão de seus vizinhos”. Se apoiar o lado mais fraco fosse um motivo obrigatório, os Estados Unidos estariam apoiando os adversários de Israel. O fato de Israel ser uma democracia amiga cercada por ditaduras hostis não é suficiente para explicar o atual nível de ajuda: há muitas democracias no mundo, mas nenhuma recebe o mesmo apoio generoso. Os Estados Unidos derrubaram governos democráticos no passado e sustentaram ditadores quando julgaram que isso serviria a seus interesses — e têm hoje boas relações com algumas ditaduras. Alguns aspectos da democracia israelense estão em choque com valores americanos. Diferentemente dos Estados Unidos, onde as pessoas devem desfrutar de direitos iguais independentemente de raça, religião ou etnia, Israel foi fundado explicitamente como um Estado judeu e sua cidadania é baseada no princípio do parentesco sanguíneo. Em vista disso, não é de surpreender que seus 1,3 milhão de árabes sejam tratados como cidadãos de segunda classe, ou que uma recente comissão governamental israelense tenha concluído que Israel se comporta de maneira “negligente e discriminatória” em relação a eles. O status democrático de Israel é prejudicado também por sua recusa a conceder aos palestinos um Estado próprio viável ou direitos políticos plenos. Uma terceira justificativa é a história do sofrimento dos judeus no Ocidente cristão, especialmente durante o Holocausto. Como os judeus foram perseguidos durante séculos e só podiam se sentir seguros numa pátria judaica, muitas pessoas acreditam hoje que Israel merece tratamento especial por parte dos Estados Unidos. A criação do país foi sem dúvida uma resposta apropriada ao longo histórico de crimes contra os judeus, mas também acarretou crimes contra uma terceira parte, basicamente inocente: os palestinos.

Isso era bem entendido pelos primeiros líderes de Israel. David Ben-Gurion disse a Naum Goldmann, presidente do Congresso Mundial Judaico:

Se eu fosse um líder árabe, nunca faria um acordo com Israel. Isso é natural: nós tomamos a pátria deles […] Nós nascemos em Israel, mas isso foi há 2 mil anos, e o que isso significa para eles? Houve anti-semitismo, os nazistas, Hitler, Auschwitz, mas que culpa eles tiveram nisso? Eles só vêem uma coisa: nós viemos para cá e roubamos sua pátria. Por que eles têm de aceitar isso?

Desde então, os líderes israelenses têm buscado repetidamente negar as ambições nacionais dos palestinos. Quando era primeira-ministra, Golda Meir declarou que “não existe palestino”. A pressão da violência extremista e o crescimento da população palestina forçaram líderes israelenses subseqüentes a se retirar da Faixa de Gaza e a considerar outros compromissos territoriais, mas nem mesmo Yitzhak Rabin se dispôs a oferecer aos palestinos um Estado viável. A oferta supostamente generosa de Ehud Barak em Camp David teria dado a eles só um conjunto desarmado de bantustões controlados de fato pelos israelenses. A trágica história do povo judeu não obriga os Estados Unidos a ajudar Israel hoje independentemente do que ele faça. Os apoiadores de Israel também o apresentam como um país que sempre buscou a paz e mostrou grande contenção mesmo quando provocado. Os árabes, ao contrário, teriam agido com grande maldade. Contudo, no campo de batalha, o histórico de Israel não é distinguível do de seus adversários. Ben-Gurion reconheceu que os primeiros sionistas estavam longe de ser benevolentes em relação aos árabes palestinos, que resistiam a seus abusos — o que não é de surpreender, dado que os sionistas estavam tentando criar seu próprio Estado em terra árabe. Da mesma forma, a criação de Israel em 1947-48 envolveu ações de limpeza étnica, inclusive execuções, massacres e estupros por parte de judeus, e a conduta subseqüente de Israel foi muitas vezes brutal, contradizendo qualquer reivindicação de superioridade moral. Entre 1940 e 1956, por exemplo, as forças de segurança israelenses mataram entre 2700 e 5 mil árabes infiltrados, cuja esmagadora maioria estava desarmada. As forças armadas israelenses mataram centenas de prisioneiros de guerra egípcios nas guerras de 1956 e 1967, e em 1967 Israel expulsou entre 100 mil e 260 mil palestinos da recém-conquistada Cisjordânia, e obrigou 80 mil sírios a deixar as colinas de Golan.

Durante a primeira intifada, as forças armadas israelenses distribuíram bastões a suas tropas e as estimularam a quebrar os ossos dos manifestantes palestinos. A filial sueca da Save the Children estimou que “entre 23.600 e 29.900 crianças precisaram de tratamento médico para ferimentos de pancadas nos primeiros dois anos da intifada”. Quase um terço dessas crianças tinha dez anos de idade ou menos. A resposta à segunda intifada foi ainda mais violenta, levando o Ha’aretz a declarar que “as forças armadas israelenses […] estão se transformando em uma máquina de matar cuja eficiência é admirável, mas chocante”. As forças armadas israelenses dispararam 1 milhão de balas nos primeiros dias do levante. Desde então, para cada israelense perdido, Israel matou 3,4 palestinos, na maioria observadores inocentes; a relação entre crianças palestinas e israelenses mortas é ainda mais alta (5,7:1). Vale a pena lembrar também que os sionistas recorreram a bombas terroristas para tirar os ingleses da Palestina, e que Yitzhak Shamir, ex-terrorista que mais tarde se tornou primeiro-ministro israelense, declarou que “nem a ética judaica nem a tradição judaica podem desqualificar o terrorismo como um meio de combate”.

O recurso palestino ao terrorismo é errado, mas não é de surpreender. Os palestinos acreditam que não têm nenhuma outra forma de obrigar Israel a fazer concessões. Como admitiu certa vez Ehud Barak, se tivesse nascido palestino, ele “teria ingressado em uma organização terrorista”.

Então, se nem argumentos estratégicos nem argumentos morais justificam o apoio dos Estados Unidos a Israel, como podemos explicá-lo?

A explicação é o poder sem igual do Lobby de Israel. Usamos “o Lobby” como uma forma abreviada de identificar a frouxa coalizão de indivíduos e organizações que trabalham ativamente para empurrar a política externa dos Estados Unidos numa direção pró-Israel. Com isso não queremos sugerir que “o Lobby” seja um movimento unificado com uma liderança central, nem que as pessoas que participam dele não discordam em certas questões. Nem todos os judeus americanos fazem parte do Lobby, porque para muitos deles Israel não é uma questão relevante. Segundo um levantamento feito em 2004, por exemplo, cerca de 36% dos judeus americanos disseram que “não eram muito” ou “não eram nada” ligados emocionalmente a Israel.

Os judeus americanos também diferem a respeito de políticas israelenses específicas. Muitas das principais organizações do Lobby, como o American-Israel Public Affairs Committee (Aipac) e a Conference of Presidents of Major Jewish Organisations, são dirigidas por linha-duras que em geral apóiam as políticas expansionistas do Partido Likud, entre elas a hostilidade ao processo de paz de Oslo. O grosso dos judeus americanos, no entanto, está mais inclinado a fazer concessões aos palestinos, e alguns grupos — como o Jewish Voice for Peace — defendem fortemente esses passos. Apesar dessas diferenças, tanto os moderados quanto os linha-duras aprovam um apoio firme a Israel. Como seria previsível, líderes judeus americanos costumam consultar representantes israelenses, para se certificar de que suas ações contribuem para os objetivos israelenses. Um ativista de uma importante organização judaica escreveu: “para nós é rotineiro dizer: ‘Esta é nossa política em certa questão, mas devemos verificar o que os israelenses pensam’. Como comunidade, fazemos isso o tempo todo”. Há um forte preconceito contra criticar a política israelense, e pressionar Israel é considerado inaceitável. Edgar Bronfman, presidente do Congresso Judaico Mundial, foi acusado de “perfídia” quando escreveu uma carta ao presidente Bush em meados de 2003 instando-o a convencer Israel a interromper a construção de sua controvertida “cerca de segurança”. Os críticos de Bronfman diziam que “seria obsceno que em qualquer momento o presidente do Congresso Mundial Judaico tentasse convencer o presidente dos Estados Unidos a resistir a políticas promovidas pelo governo de Israel”. Da mesma forma, quando o presidente do Israel Policy Forum, Seymour Reich, aconselhou Condoleezza Rice, em novembro de 2005, a pedir a Israel que reabrisse uma passagem de fronteira crítica na Faixa de Gaza, seu ato foi denunciado como “irresponsável”: “Não há”, diziam os críticos, “absolutamente nenhum espaço no mainstream judaico para que se aja vigorosamente contra políticas relacionadas à segurança […] de Israel”. Recuando diante desses ataques, Reich anunciou que “a palavra ‘pressão’ não faz parte de meu vocabulário quando se trata de Israel”.

Os judeus americanos criaram um conjunto impressionante de organizações para influenciar a política externa americana, das quais o Aipac é a mais poderosa e mais conhecida. Em 1997, a revista Fortune pediu a membros do Congresso e a suas equipes que listassem os lobbies mais poderosos de Washington. O Aipac ficou em segundo lugar, atrás da American Association of Retired People mas à frente da AFL-CIO e da National Rifle Association. Um estudo do National Journal de março de 2005 chegou a conclusão semelhante, situando o Aipac em segundo lugar (empatada com a American Association of Retired People) na “lista dos mais influentes” de Washington.

O Lobby também inclui destacados cristãos evangélicos como Gary Bauer, Jerry Falwell, Ralph Reed e Pat Robertson, além de Dick Armey e Tom DeLay, ex-líderes da maioria na Câmara dos Deputados, e todos eles acreditam que o renascimento de Israel é o cumprimento de uma profecia bíblica e apóiam a agenda expansionista de Israel; agir de outro modo, acreditam eles, seria contrariar a vontade de Deus. Gentios neoconservadores como John Bolton; Robert Bartley, ex-editor do Wall Street Journal; William Bennett, ex-secretário de Educação; Jeane Kirkpatrick, ex-embaixadora dos Estados Unidos na ONU; e o influente colunista George Will, também são apoiadores firmes.

A forma de governo dos Estados Unidos oferece aos ativistas muitas maneiras de influenciar o processo político. Grupos de interesse podem pressionar deputados eleitos e membros do Executivo, fazer doações para campanha, votar nas eleições, tentar moldar a opinião pública etc. Eles dispõem de um grau exagerado de influência quando estão comprometidos com uma questão à qual o grosso da população é indiferente. Os responsáveis pelas decisões políticas tendem a contentar aqueles que se importam com a questão, mesmo que o número deles seja pequeno, confiando em que o resto da população não vai penalizá-los por agirem assim.

Em suas operações básicas, o Lobby de Israel não é diferente do lobby da agricultura, do lobby do aço ou dos sindicatos de trabalhadores da indústria têxtil, nem dos lobbies étnicos. Não há nada de impróprio na tentativa dos judeus americanos e de seus aliados cristãos de controlar a política dos Estados Unidos: as atividades do Lobby não são uma conspiração do tipo descrito em tratados como os Protocolos dos Sábios do Sião. Na maioria, os indivíduos e grupos que o compõem estão fazendo apenas o que outros grupos de interesse especial fazem, só que fazem muito melhor. Em contraste, os grupos de interesse pró-árabes, quando existem, são fracos, o que torna ainda mais fácil a tarefa do Lobby de Israel.

O Lobby adota duas estratégias amplas. Primeiro, ele exerce sua influência significativa em Washington, pressionando tanto o Congresso quanto o Executivo. Sejam quais forem as visões políticas de um legislador ou responsável por decisões políticas, o Lobby tenta tornar o apoio a Israel a escolha “inteligente”. Em segundo lugar, ele se esforça para assegurar que o discurso público retrate Israel de forma positiva, repetindo mitos sobre sua fundação e promovendo seu ponto de vista nos debates sobre políticas. O objetivo é evitar que comentários críticos obtenham audiência imparcial na arena política. Controlar o debate é essencial para garantir o apoio dos Estados Unidos, porque uma discussão franca das relações entre Estados Unidos e Israel poderia levar os americanos a preferir uma política diferente.

Um dos principais pilares da eficiência do Lobby é sua influência no Congresso, onde Israel é virtualmente imune à crítica. Isso é por si só notável, porque o Congresso raramente evita questões contenciosas. No que diz respeito a Israel, no entanto, críticos potenciais silenciam. Uma das razões para isso é que alguns membros importantes do Congresso são sionistas cristãos, como Dick Armey, que disse em setembro de 2002: “Minha prioridade número um em política externa é proteger Israel”. Poder-se-ia pensar que a prioridade número um de qualquer congressista fosse proteger os Estados Unidos. Há também senadores e deputados judeus que trabalham para garantir que a política externa dos Estados Unidos apóie os interesses de Israel. Outra fonte do poder do Lobby é o uso que ele faz de funcionários do Congresso. Como admitiu certa vez Morris Amitay, ex-presidente do Aipac, “há muitas pessoas trabalhando aqui” — no Capitólio — “que são judeus, que estão dispostas […] a considerar certas questões em termos de sua judaicidade […] São todas pessoas que têm condições de tomar a decisão nessas áreas pelos senadores […] É possível fazer um trabalho incrível apenas no nível dos funcionários”.

É o próprio Aipac, no entanto, que constitui o núcleo da influência do Lobby no Congresso. Seu sucesso se deve à capacidade de recompensar legisladores e candidatos ao Congresso que apóiam sua agenda, e de punir aqueles que a contestam. O dinheiro cumpre um papel decisivo nas eleições dos Estados Unidos (como nos lembra o escândalo sobre as negociações obscuras do lobista Jack Abramoff), e o Aipac assegura a seus amigos um forte apoio financeiro dos muitos comitês de ação política pró-Israel. Quem for visto como hostil a Israel pode ter certeza de que o Aipac direcionará contribuições de campanha para seus adversários políticos. O Aipac também organiza campanhas de redação de cartas e estimula editores de jornais a apoiar candidatos pró-Israel.

Não há dúvida sobre a eficácia dessas táticas. Eis um exemplo: nas eleições de 1984, o Aipac ajudou a derrotar o senador Charles Percy, de Illinois, o qual, de acordo com uma destacada figura do Lobby, tinha “demonstrado insensibilidade e mesmo hostilidade em relação a nossas preocupações”. Thomas Dine, presidente do Aipac na época, explicou o que aconteceu: “Todos os judeus nos Estados Unidos, de costa a costa, se juntaram para expulsar Percy. E os políticos americanos — aqueles que hoje ocupam cargos políticos e aqueles que aspiram a eles — captaram a mensagem”.

A influência do Aipac no Capitólio chega ainda mais longe. Segundo Douglas Bloomfield, ex-funcionário do Aipac, “é comum que membros do Congresso e suas equipes recorram primeiro ao Aipac quando precisam de informação, antes de ir à Biblioteca do Congresso, ao Serviço de Pesquisa do Congresso, aos funcionários da comissão ou a especialistas do governo”. E o mais importante, ele observa que o Aipac “é solicitado muitas vezes a escrever discursos, elaborar legislação, dar conselhos sobre tática, fazer pesquisas, conseguir co-patrocinadores e angariar votos”.

O fundamental é que o Aipac, de fato um agente que trabalha para um governo estrangeiro, tem uma mordaça sobre o Congresso, e o resultado é que a política dos Estados Unidos em relação a Israel não é debatida ali, embora tenha conseqüências importantes para o mundo inteiro. Em outras palavras, um dos três principais ramos do governo está firmemente comprometido com o apoio a Israel. Como observou um ex-senador democrata, Ernest Hollings, ao deixar o cargo, “não se pode ter nenhuma política em relação a Israel que não seja a que o Aipac propõe aqui”. Ou, como disse Ariel Sharon a uma platéia americana, “quando as pessoas me perguntam como podem ajudar Israel, eu digo a elas: ‘ajudem o Aipac'”.

Graças em parte à influência que os eleitores judeus exercem nas eleições presidenciais, o Lobby tem também um efeito importante sobre o Executivo. Embora constituam pouco mais de 3% da população, esses eleitores fazem grandes doações de campanha a candidatos de ambos os partidos. O Washington Post estimou certa vez que os candidatos democratas à Presidência “dependem de apoiadores judeus para obter 60% do dinheiro”. E como os eleitores judeus têm altas taxas de comparecimento nas votações e estão concentrados em estados importantes como Califórnia, Flórida, Illinois, Nova York e Pensilvânia, os candidatos à Presidência fazem de tudo para não desagradá-los.

Organizações importantes do Lobby se dedicam a assegurar que críticos de Israel não obtenham cargos importantes na área de política externa. Jimmy Carter queria fazer de George Ball seu primeiro secretário de Estado, mas sabia que Ball era visto como crítico de Israel e que o Lobby se oporia à indicação. Dessa forma, qualquer aspirante a um cargo no governo é encorajado a se tornar um franco apoiador de Israel, e é por esse motivo que os que criticam abertamente a política israelense se tornaram uma espécie em extinção noestablishment da política externa.

Quando Howard Dean pediu que os Estados Unidos assumissem um papel mais “imparcial” no conflito árabe-israelense, o senador Joseph Lieberman o acusou de trair Israel e disse que sua declaração era “irresponsável”. Praticamente todos os democratas importantes na Câmara assinaram uma carta criticando as observações de Dean, e o Chicago Jewish Star relatou que “atacantes anônimos […] estão entupindo as caixas de entrada de e-mail de líderes judeus em todo o país, advertindo — sem muitas provas — que Dean seria de alguma forma ruim para Israel”.

Essa preocupação era absurda; Dean é de fato bastante truculento quando se trata de Israel: um dos chefes de sua campanha era um ex-presidente do Aipac, e Dean dizia que suas visões sobre o Oriente Médio refletiam mais as do Aipac do que as da mais moderada Americans for Peace Now. Ele havia sugerido simplesmente que para “conciliar os dois lados”, Washington devia agir como um intermediário honesto. Essa dificilmente é uma idéia radical, mas o Lobby não tolera a imparcialidade.

Durante o governo Clinton, a política para o Oriente Médio era basicamente elaborada por funcionários que tinham laços estreitos com Israel ou com organizações notoriamente pró-Israel; entre eles, Martin Indyk, ex-vice-diretor de pesquisa do Aipac e co-fundador do pró-israelita Washington Institute for Near East Policy (Winep); Dennis Ross, que ingressou no Winep depois de deixar o governo em 2001; e Aaron Miller, que viveu em Israel e costuma visitar o país. Esses homens estavam entre os conselheiros mais íntimos de Clinton na reunião de cúpula de Camp David em julho de 2000. Embora os três apoiassem o processo de paz de Oslo e a criação de um Estado palestino, faziam isso apenas nos limites do que seria aceitável para Israel. A delegação americana seguiu a orientação de Ehud Barak, coordenou previamente com Israel as posições que adotaria na negociação e não apresentou propostas independentes. Como era de esperar, os negociadores palestinos se queixaram de que estavam “negociando com duas equipes israelenses — uma empunhando uma bandeira israelense, a outra, uma bandeira americana”. A situação é ainda mais pronunciada no governo Bush, em cujas fileiras se incluíram defensores tão ardorosos da causa israelense como Elliot Abrams, John Bolton, Douglas Feith, I. Lewis (“Scooter”) Libby, Richard Perle, Paul Wolfowitz e David Wurmser. Como veremos, esses funcionários sempre defenderam políticas apoiadas por Israel e sustentadas por organizações do Lobby. É claro que o Lobby não quer um debate aberto, porque isso poderia levar os americanos a questionar o nível de apoio que dão a Israel. Da mesma forma, as organizações pró-Israel se esforçam para influenciar as instituições que têm mais peso na moldagem da opinião popular.

A perspectiva do Lobby prevalece na mídia convencional: o debate entre especialistas em Oriente Médio, escreve o jornalista Eric Alterman, é “dominado por pessoas que não conseguem imaginar criticar Israel”. Ele lista 61 “colunistas e comentaristas com quem se pode contar para apoiar Israel de forma reflexiva e irrestrita”. Por outro lado, ele encontrou apenas cinco especialistas que sempre criticam as ações israelenses ou endossam posições árabes. Os jornais publicam ocasionalmente textos de articulistas convidados contestando a política israelense, mas o balanço das opiniões favorece claramente o outro lado. É difícil imaginar qualquer órgão da mídia convencional nos Estados Unidos publicando um artigo como este.

“Shamir, Sharon, Bibi — qualquer coisa que esses caras queiram está ótimo para mim”, observou uma vez Robert Bartley. Previsivelmente, seu jornal, o Wall Street Journal, ao lado de outros jornais de destaque como o Chicago Sun-Times e o Washington Times, publicam regularmente editoriais que apóiam solidamente Israel. Revistas comoCommentary, New Republican e Weekly Standard defendem Israel em todas as ocasiões.

A parcialidade editorial pode ser encontrada também em jornais como o New York Times, que critica ocasionalmente políticas israelenses e às vezes admite que os palestinos têm queixas legítimas, mas não é imparcial. Em suas memórias, Max Frenkel, ex-editor executivo do jornal, reconhece o impacto de sua atitude sobre as decisões editoriais que tomou: “Eu estava muito mais profundamente dedicado a Israel do que ousava declarar […] Baseado em meu conhecimento de Israel e em meus amigos lá, eu próprio escrevia a maioria de nossos comentários sobre o Oriente Médio. Como mais eleitores árabes do que judeus reconheciam, na época eu adotava uma perspectiva favorável a Israel”.

Os relatos dos noticiários são mais imparciais, em parte porque os repórteres se esforçam para ser objetivos, mas também porque é difícil cobrir os acontecimentos nos Territórios Ocupados sem reconhecer as ações de Israel no campo de batalha. Para desestimular relatos desfavoráveis, o Lobby organiza campanhas de redação de cartas, manifestações e boicotes a órgãos noticiosos cujo conteúdo considera contrário a Israel. Um executivo da CNN disse que às vezes recebe 6 mil mensagens de e-mail em um único dia reclamando de uma história. Em maio de 2003, o Committee for Accurate Middle East Reporting in America (Camera) organizou manifestações do lado de fora de estações da National Public Radio em 33 cidades; e tentou também persuadir contribuintes a retirar o apoio à NPR até que sua cobertura do Oriente Médio se torne mais simpática a Israel. A WBUR, estação da NPR em Boston, teria perdido mais de 1 milhão de dólares em contribuições em conseqüência desses esforços. Outras pressões sobre a NPR vêm dos amigos de Israel no Congresso, que pediram, além de mais supervisão, uma auditoria internacional de sua cobertura sobre o Oriente Médio.

O lado israelense também domina os think tanks que cumprem um papel importante na formulação do debate público assim como das políticas. O Lobby criou seu próprio think tank em 1985, quando Martin Indyk ajudou a fundar o Winep. Embora tente menosprezar sua ligação com Israel, afirmando fornecer uma perspectiva “equilibrada e realista” sobre questões do Oriente Médio, o Winep é financiado e dirigido por pessoas profundamente comprometidas com a promoção da agenda de Israel.

Mas a influência do Lobby se estende para muito além do Winep. Nos últimos 25 anos, as forças pró-Israel estabeleceram uma presença poderosa no American Enterprise Institute, na Brookings Institution, no Center For Security Policy, no Foreign Policy Research Institute, na Heritage Foundation, no Hudson Institute, no Institute for Foreign Policy Analysis e no Jewish Institute for National Security Affairs (Jinsa). Esses think tanks empregam, se tanto, poucos críticos do apoio dos Estados Unidos a Israel.

Consideremos a Brookings Institution. Durante muitos anos, seu principal especialista em Oriente Médio foi William Quandt, um ex-funcionário do Conselho de Segurança Nacional com uma merecida reputação de imparcialidade. Hoje, a cobertura da Brookings é feita por meio do Saban Center for Middle East Studies, que é financiado por Haim Saban, um empresário israelita-americano e sionista ardoroso. O diretor do centro é o ubíquo Martin Indyk. O que era antes um instituto de políticas apartidário é hoje parte do coro pró-Israel.

Onde o Lobby tem tido a maior dificuldade é no debate em campi universitários. Na década de 1990, quando estava em curso o processo de paz de Oslo, havia apenas uma crítica moderada a Israel, mas ela ficou mais forte com o colapso de Oslo e a ascensão de Sharon ao poder, tornando-se bastante incisiva quando as forças armadas israelenses reocuparam a Cisjordânia na primavera de 2002 e empregaram forças maciças para dominar a segunda intifada. O Lobby passou imediatamente a “recuperar os campi”. Surgiram novos grupos, como a Caravan for Democracy, que levou porta-vozes israelenses para faculdades dos Estados Unidos. Grupos estabelecidos como o Jewish Council for Public Affairs e o Hillel se juntaram, e um novo grupo, Israel on Campus Coalition, foi formado para coordenar os muitos agrupamentos que agora buscavam defender o ponto de vista de Israel. Por fim, o Aipac mais que triplicou seus gastos em programas para monitorar atividades universitárias e treinar jovens defensores, com o objetivo de “expandir enormemente o número de estudantes envolvidos no campus […] no esforço nacional em favor de Israel”.

O Lobby também monitora o que os professores escrevem e ensinam. Em setembro de 2002, Martin Kramer e Daniel Pipes, dois neoconservadores passionalmente pró-Israel, criaram um website (Campus Watch) que postava dossiês sobre acadêmicos suspeitos e estimulava os estudantes a relatar observações sobre comportamento que pudesse ser considerado hostil a Israel. Essa tentativa transparente de chantagear e intimidar acadêmicos provocou uma reação dura, e mais tarde Pipes e Kramer removeram os dossiês, mas o website ainda convida os estudantes a relatar atividades “anti-Israel”.

Grupos que fazem parte do Lobby pressionam determinados acadêmicos e universidades. Um dos alvos freqüentes foi Columbia, sem dúvida em razão da presença do falecido Edward Said em seu corpo docente. “Pode-se ter certeza de que qualquer declaração pública em apoio ao povo palestino feita pelo proeminente crítico literário Edward Said provoca centenas de e-mails, cartas e artigos jornalísticos que nos convocam a denunciar Said e a aplicar a ele sanções ou demiti-lo”, relatou Jonathan Cole, ex-superintendente de Columbia. Quando a Columbia contratou o historiador Rashid Khalidi, de Chicago, aconteceu a mesma coisa. Esse também foi um problema enfrentado por Princeton alguns anos depois, quando considerou a possibilidade de trazer Khalidi de Columbia.

Uma ilustração clássica do esforço para policiar a academia ocorreu perto do final de 2004, quando o David Project produziu um filme alegando que membros do corpo docente do programa Middle East Studies, de Columbia, eram anti-semitas e estavam intimidando estudantes judeus que apoiavam Israel. Columbia recebeu críticas severas, mas uma comissão docente incumbida de investigar as acusações não encontrou nenhuma prova de anti-semitismo, e o único incidente possivelmente digno de nota constatado foi que um professor tinha “reagido com raiva” à pergunta de um estudante. A comissão também descobriu que os acadêmicos em questão tinham sido alvo de uma franca campanha de intimidação.

Talvez o aspecto mais perturbador de tudo isso sejam os esforços de grupos judeus para forçar o Congresso a estabelecer mecanismos para monitorar o que os professores dizem. Se eles conseguirem aprovar isso, universidades julgadas como adotando um viés anti-Israel deixariam de receber financiamento federal. Os esforços desses grupos ainda não alcançaram sucesso, mas são uma indicação da importância que é dada ao controle do debate.

Alguns filantropos judeus criaram recentemente programas de Estudos Israelenses (que vieram se somar aos cerca de 130 programas de Estudos Judaicos já existentes), de modo a aumentar o número de acadêmicos simpáticos a Israel no campus. Em maio de 2003, a New York University anunciou a criação do Taub Center for Israel Studies; programas semelhantes foram criados em Berkeley, Brandeis e Emory. Administradores acadêmicos ressaltam o valor pedagógico desses programas, mas a verdade é que eles pretendem em grande parte promover a imagem de Israel. Fred Laffer, presidente da Taub Foundation, deixa claro que sua fundação financiou o centro da NYU para ajudar a rechaçar o “ponto de vista arábico [sic]” que ele julga prevalecer nos programas de Oriente Médio da NYU.

Nenhuma discussão sobre o Lobby estaria completa sem um exame de uma de suas armas mais poderosas: a acusação de anti-semitismo. Qualquer pessoa que critique as ações de Israel ou argumente que os grupos pró-Israel exercem uma influência significativa sobre a política dos Estados Unidos para o Oriente Médio — influência esta que o Aipac comemora — tem boas chances de ser rotulada de anti-semita. Na verdade, qualquer pessoa que simplesmente declare que existe um Lobby de Israel corre o risco de ser acusado de anti-semitismo, embora a mídia israelense se refira ao “Lobby Judeu” dos Estados Unidos. Em outras palavras, o Lobby primeiro se gaba de sua influência e depois ataca qualquer um que chame a atenção para ela. É uma tática muito eficaz: o anti-semitismo é algo de que ninguém quer ser acusado.

Os europeus têm mostrado mais disposição do que os americanos para criticar a política israelense, o que algumas pessoas atribuem a um ressurgimento do anti-semitismo na Europa. Estamos “chegando a um ponto”, disse no começo de 2004 o embaixador americano na União Européia, “em que ele é tão ruim quanto na década de 1930”. Medir o anti-semitismo é uma questão complicada, mas o peso das evidências aponta na direção oposta. Na primavera de 2004, quando acusações de anti-semitismo na Europa inundaram os Estados Unidos, levantamentos separados de opinião pública européia feitos pela Anti-Defamation League, baseada nos Estados Unidos, e pelo Pew Research Center for the People and the Press concluíram que ele estava de fato declinando. Na década de 1930, ao contrário, o anti-semitismo era não apenas disseminado entre europeus de todas as classes, mas considerado bastante aceitável.

O Lobby e seus amigos costumam retratar a França como o país mais anti-semita da Europa. Mas em 2003, o presidente da comunidade judaica francesa disse que “A França não é mais anti-semita do que os Estados Unidos”. De acordo com um artigo publicado recentemente no Ha’aretz, a polícia francesa relatou que os incidentes anti-semitas sofreram uma redução de quase 50% em 2005; e isso apesar de a França ter a maior população muçulmana de todos os países europeus. Finalmente, quando um judeu francês foi assassinado em Paris no mês passado3 por uma gangue muçulmana, dezenas de milhares de manifestantes saíram às ruas para condenar o anti-semitismo. Jacques Chirac e Dominique Villepin compareceram à cerimônia em memória da vítima para demonstrar solidariedade.

Ninguém negaria que há anti-semitismo entre os muçulmanos europeus, parte dele provocada pela conduta de Israel em relação aos palestinos e parte francamente racista. Mas esse é outro assunto, que pesa pouco na avaliação de se a Europa de hoje é semelhante à Europa da década de 1930. Ninguém negaria também que ainda há alguns anti-semitas autóctones virulentos na Europa (como há nos Estados Unidos), mas o número deles é pequeno e suas visões são rejeitadas pela vasta maioria dos europeus.

Os defensores de Israel, quando pressionados a ir além da mera declaração, afirmam que há um “novo anti-semitismo”, que eles igualam à crítica a Israel. Em outras palavras, criticar a política israelense torna alguém por definição um anti-semita. Quando o sínodo da Igreja da Inglaterra aprovou recentemente vender sua participação acionária na Caterpillar Inc baseado no fato de que ela fabrica os tanques usados pelos israelenses para demolir casas palestinas, o Rabino Chefe reclamou que isso teria “as repercussões mais adversas sobre […] as relações judaico-cristãs na Inglaterra”, enquanto o rabino Tony Bayfield, chefe do movimento de Reforma, disse: “Há um problema claro de atitudes anti-sionistas — que beiram o anti-semitismo — surgindo nas bases, e mesmo nos escalões intermediários da Igreja”. Mas a igreja era culpada simplesmente de protestar contra a política do governo israelense.

Os críticos também são acusados de enquadrar Israel em um padrão injusto ou de questionar seu direito à existência. Mas essas acusações também são falsas. Os críticos ocidentais de Israel praticamente nunca questionam seu direito a existir: eles questionam seu comportamento em relação aos palestinos, como fazem os próprios israelenses. E Israel não está sendo julgado injustamente. O tratamento israelense dos palestinos suscita críticas porque é contrário a noções amplamente aceitas de direitos humanos, à legislação internacional e ao princípio de autodeterminação nacional. E certamente Israel não é o único Estado que enfrentou críticas severas por causa disso.

No outono de 2001, e especialmente na primavera de 2002, o governo Bush tentou reduzir o sentimento antiamericano no mundo árabe e solapar o apoio a grupos terroristas como a Al-Qaeda detendo as políticas expansionistas de Israel nos Territórios Ocupados e defendendo a criação de um Estado palestino. Bush tinha à disposição meios muito importantes de persuasão. Ele podia ter ameaçado reduzir o apoio econômico e diplomático a Israel, e é quase certo que o povo americano o teria apoiado. Uma pesquisa de maio de 2003 constatou que mais de 60% dos americanos estavam dispostos a suspender a ajuda se Israel resistisse às pressões americanas para resolver o conflito, e esse número subia para 70% entre os “politicamente ativos”. Na verdade, 73% diziam que os Estados Unidos não deveriam favorecer nenhum dos lados.

Mas o governo não conseguiu mudar a política israelense e Washington terminou por apoiá-la. Com o passar do tempo, o governo também adotou as justificativas de Israel para sua posição, de maneira que a retórica dos Estados Unidos começou a imitar a retórica israelense. Em fevereiro de 2003, uma manchete do Washington Postresumiu a situação: “Bush e Sharon quase idênticos sobre a política para o Oriente Médio”. A principal razão para essa mudança foi o Lobby. A história começa no final de setembro de 2001, quando Bush começou a pressionar Sharon para afrouxar as rédeas nos Territórios Ocupados. Ele também o pressionou a permitir que o primeiro-ministro de Israel, Shimon Peres, se encontrasse com Yasser Arafat, embora ele (Bush) fosse extremamente crítico da liderança de Arafat. Bush chegou a dizer publicamente que apoiava a criação de um Estado palestino. Alarmado, Sharon o acusou de tentar “satisfazer os árabes à nossa custa”, advertindo que Israel “não será a Tchecoslováquia”.

Bush teria ficado furioso ao ser comparado a Chamberlain, e o secretário de imprensa da Casa Branca chamou as declarações de Sharon de “inaceitáveis”. Sharon ofereceu uma desculpa pró-forma, mas logo juntou forças com o Lobby para convencer o governo e o povo americano de que os Estados Unidos e Israel enfrentavam uma ameaça comum do terrorismo. Membros do governo israelense e representantes do Lobby insistiram que não havia nenhuma diferença real entre Arafat e Osama bin Laden: os Estados Unidos e Israel, diziam eles, deviam isolar o líder eleito dos palestinos e não ter nada a ver com ele.

O Lobby também trabalhou no Congresso. Em 16 de novembro, 89 senadores mandaram a Bush uma carta elogiando-o por se recusar a encontrar-se com Arafat, mas também exigindo que os Estados Unidos não impedissem Israel de fazer retaliações contra os palestinos; o governo, escreveram eles, devia declarar publicamente que apoiava Israel. Segundo o New York Times, a carta “teve origem” em uma reunião duas semanas antes entre “líderes da comunidade judaica americana e senadores importantes”, acrescentando que o Aipac estava “particularmente ativo no fornecimento de conselhos para a carta”.

No final de novembro, as relações entre Tel-Aviv e Washington tinham melhorado consideravelmente. Isso se deu em parte graças aos esforços do Lobby, mas também à vitória inicial dos Estados Unidos no Afeganistão, que aparentemente reduziu a necessidade de apoio árabe para lidar com a Al-Qaeda. Sharon visitou a Casa Branca no começo de dezembro e teve uma reunião amistosa com Bush.

Em abril de 2002 surgiram novos problemas, depois que as forças armadas israelenses lançaram a Operação Escudo de Defesa e retomaram o controle de praticamente todas as áreas palestinas importantes na Cisjordânia. Bush sabia que as ações de Israel causariam danos à imagem dos Estados Unidos no mundo islâmico e minariam a guerra ao terrorismo, portanto ele exigiu que Sharon “interrompesse as incursões e começasse a retirada”. Ele sublinhou essa mensagem dois dias depois, dizendo que queria que Israel “se retirasse sem demora”. Em 7 de abril, Condoleezza Rice, na época conselheira de Segurança Nacional de Bush, disse aos repórteres: “‘sem demora’ significa sem demora. Significa agora”. No mesmo dia, Colin Powell partiu para o Oriente Médio para persuadir todos os lados a parar de lutar e começar a negociar.

Israel e o Lobby agiram sem demora. Funcionários favoráveis a Israel no gabinete do vice-presidente e no Pentágono, assim como especialistas neoconservadores como Robert Kagan e William Kristol, intimidaram Powell. Eles chegaram mesmo a acusá-lo de ter “praticamente apagado a distinção entre terroristas e aqueles que combatem os terroristas”. O próprio Bush foi pressionado por líderes judeus e cristãos evangélicos. Tom DeLay e Dick Armey foram particularmente francos sobre a necessidade de apoiar Israel, e DeLay e o líder na minoria do senado, Trent Lott, visitaram a Casa Branca e aconselharam Bush a recuar.

O primeiro sinal de que Bush estava cedendo veio em 11 de abril — uma semana depois de ele ter dito a Sharon para retirar suas forças —, quando o secretário de imprensa da Casa Branca disse que o presidente acreditava que Sharon era “um homem de paz”. Bush repetiu essa declaração publicamente por ocasião da volta de Powell de sua malsucedida missão, e disse aos repórteres que Sharon tinha reagido satisfatoriamente a sua exigência de uma retirada total e imediata. Sharon não fizera nada disso, mas Bush não estava mais disposto a insistir nessa questão.

No meio-tempo, o Congresso também se movimentava para apoiar Sharon. Em 2 de maio, ele sobrepujou as objeções do governo e aprovou duas resoluções reafirmando o apoio a Israel. (A votação no Senado foi de 94 a 2; a versão da Câmara dos Deputados foi aprovada por 352 a 21.) As duas resoluções sustentavam que os Estados Unidos “mantêm a solidariedade a Israel” e que os dois países, citando a resolução da Câmara, estavam “agora envolvidos em uma luta comum contra o terrorismo”. A versão da Câmara também condenava “o permanente apoio ao terror e sua coordenação por parte de Yasser Arafat”, que era retratado como uma peça central do problema do terrorismo. As duas resoluções foram redigidas com a ajuda do Lobby. Alguns dias depois, uma delegação bipartidária do Congresso enviada a Israel em missão de levantamento de informações declarou que Sharon devia resistir à pressão dos Estados Unidos para que negociasse com Arafat. Em 9 de maio, uma subcomissão de dotações da Câmara se reuniu para discutir a concessão a Israel de mais US$ 200 milhões para o combate ao terrorismo. Powell se opôs ao pacote, mas o Lobby o apoiou e Powell perdeu.

Em resumo, Sharon e o Lobby jogaram contra o presidente dos Estados Unidos e ganharam. Hemi Shalev, um jornalista do jornal israelense Ma’ariv, relatou que os auxiliares de Sharon “não conseguiam esconder sua satisfação em vista do fracasso de Powell. Sharon esperou o melhor momento para agir, eles se gabaram, e o presidente piscou primeiro”. Mas foram os defensores de Israel nos Estados Unidos, não Sharon nem Israel, que desempenharam o papel principal na derrota de Bush.

A situação mudou pouco desde então. O governo Bush se recusou repetidas vezes a fazer acordos com Arafat. Depois de sua morte, o governo americano aceitou o novo líder palestino, Mahmoud Abbas, mas pouco fez para ajudá-lo. Sharon continuou a desenvolver seu plano de impor uma solução unilateral aos palestinos, baseado numa “desocupação” de Gaza combinada a uma expansão contínua na Cisjordânia. Ao se recusar a negociar com Abbas e tornar impossível para ele apresentar benefícios palpáveis ao povo palestino, a estratégia de Sharon contribuiu diretamente para a vitória eleitoral do Hamas. Com o Hamas no poder, no entanto, Israel tem mais uma desculpa para não negociar. O governo americano apoiou as ações de Sharon (e as de seu sucessor, Ehud Olmert). Bush endossou até mesmo as anexações israelenses unilaterais dos Territórios Ocupados, invertendo a política declarada de todos os presidentes desde Lyndon Johnson.

Os representantes americanos dirigiram críticas moderadas a algumas das ações israelenses, mas pouco fizeram para ajudar a criar um Estado palestino viável. Sharon consegue que Bush “faça tudo que ele quer”, disse o ex-conselheiro de segurança nacional Brent Scowcroft em outubro de 2004. Se Bush tentar distanciar os Estados Unidos de Israel, ou mesmo criticar as ações israelenses nos Territórios Ocupados, certamente enfrentará a ira do Lobby e de seus apoiadores no Congresso. Os candidatos democratas à Presidência entendem isso como ossos do ofício, e é essa a razão pela qual John Kerry fez de tudo para exibir apoio irrestrito a Israel em 2004, e Hillary Clinton está fazendo o mesmo hoje. Manter o apoio dos Estados Unidos às políticas de Israel contra os palestinos é essencial para o Lobby, mas suas ambições não param aí. Ele quer também que os Estados Unidos ajudem Israel a continuar sendo a potência regional dominante. O governo israelense e grupos pró-Israel nos Estados Unidos trabalharam juntos para moldar a política do governo americano em relação ao Iraque, à Síria e ao Irã, assim como seu grandioso esquema para reordenar o Oriente Médio.

As pressões de Israel e do Lobby não foram o único fator responsável pela decisão de atacar o Iraque em março de 2003, mas foram um fator decisivo. Alguns americanos acreditam que aquela foi uma guerra por petróleo, mas dificilmente há uma evidência direta que sustente essa afirmação. Antes, a guerra foi motivada em boa parte por um desejo de tornar Israel mais seguro. Segundo Philip Zelikow, ex-membro do Foreign Intelligence Advisory Board do presidente, diretor executivo da Comissão do 11 de Setembro, e hoje assessor de Condoleezza Rice, a “ameaça real” do Iraque não era uma ameaça aos Estados Unidos. A “ameaça não declarada” era a “ameaça contra Israel”, disse Zelikow a uma platéia na Universidade da Virginia em setembro de 2002. “O governo americano”, ele acrescentou, “não quer insistir demais nisso retoricamente, porque não é algo que tenha muita aceitação popular”.

Em 16 de agosto de 2002, onze dias antes de Dick Cheney iniciar a campanha pela guerra com um discurso linha-dura aos Veterans of Foreign Wars, o Washington Post relatou que “Israel está exigindo que os representantes americanos não adiem um ataque militar contra Saddam Hussein, do Iraque”. Nessa altura, de acordo com Sharon, a coordenação estratégica entre Israel e os Estados Unidos alcançou “dimensões sem precedentes”, e funcionários da inteligência israelense passaram a Washington uma variedade de relatos alarmantes sobre programas de desenvolvimento de armas de destruição em massa do Iraque. Como disse mais tarde um general israelense aposentado, “a inteligência israelense teve participação plena na elaboração do quadro apresentado pela inteligência americana e britânica em relação à capacidade militar não-convencional do Iraque”.

Os líderes israelenses estavam profundamente tensos quando Bush decidiu seguir os termos da autorização do Conselho de Segurança para a guerra, e se preocuparam ainda mais quando Saddam concordou em permitir o retorno ao país dos inspetores da ONU. “A campanha contra Saddam Hussein é inevitável”, disse Shimon Peres aos repórteres em setembro de 2002. “Inspeções e inspetores são bons para pessoas decentes, mas pessoas desonestas conseguem enganar facilmente inspeções e inspetores.”

Ao mesmo tempo, Ehud Barak escreveu um artigo para o New York Times advertindo que “o maior risco agora é a inação”. Seu antecessor como primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, publicou um artigo semelhante no Wall Street Journal, intitulado: “O argumento para derrubar Saddam”. “Hoje nada menos do que desmontar seu regime funcionará”, ele declarou. “Creio que falo pela esmagadora maioria dos israelenses ao apoiar um ataque preventivo contra o regime de Saddam.” Ou, como relatou o Ha’aretz em fevereiro de 2003, “a liderança militar e política anseia pela guerra no Iraque”.

Como sugeriu Netanyahu, no entanto, o desejo de guerra não se restringia aos líderes de Israel. Além do Kuwait, que Saddam invadiu em 1990, Israel era o único país no mundo onde tanto os políticos como o público apoiavam a guerra. Como observou na época o jornalista Gideon Levy, “Israel é o único país no Ocidente cujos líderes apóiam irrestritamente a guerra e onde nenhuma opinião alternativa é expressada”. De fato, os israelenses estavam tão animados que seus aliados nos Estados Unidos disseram a eles para moderarem sua retórica, senão pareceria que a guerra seria travada em benefício de Israel.

Nos Estados Unidos, a principal força propulsora da guerra era um pequeno bando de neoconservadores, muitos com ligações com o Likud. Mas líderes das principais organizações do Lobby emprestaram suas vozes à campanha. “Quando o presidente Bush tentou vender a […] guerra no Iraque”, relatou o Forward, “as organizações judaicas mais importantes dos Estados Unidos se manifestaram em uníssono em sua defesa. Numa declaração atrás da outra os líderes da comunidade enfatizaram a necessidade de livrar o mundo de Saddam Hussein e de suas armas de destruição em massa”. O editorial diz ainda que “a preocupação com a segurança de Israel influenciou justificadamente as deliberações dos principais grupos judeus”.

Embora os neoconservadores e outros líderes do Lobby estivessem ansiosos para invadir o Iraque, a comunidade judaica americana em geral não estava. Logo depois do início da guerra, Samuel Freedman relatou que “uma compilação de pesquisas de opinião de âmbito nacional feita pelo Research Center mostra que os judeus apóiam menos a guerra do Iraque do que a população em geral, 52% a 62%”. Evidentemente, seria errado atribuir a culpa pela guerra no Iraque à “influência judaica”. Antes, ela se deveu em grande parte à influência do Lobby, especialmente à dos neoconservadores que fazem parte dele.

Os neoconservadores estavam determinados a derrubar Saddam mesmo antes de Bush se tornar presidente. Eles causaram alvoroço no início de 1998 ao publicar duas cartas abertas a Clinton, exigindo a remoção de Saddam do poder. Os signatários, muitos deles com laços estreitos com grupos pró-Israel como o Jinsa e o Winep, e entre os quais estavam Elliot Abrams, John Bolton, Douglas Feith, William Kristol, Bernard Lewis, Donald Rumsfeld, Richard Perle e Paul Wolfowitz, não tiveram dificuldade para persuadir o governo Clinton a adotar a meta geral de desalojar Saddam. Mas eles não conseguiram vender a idéia de uma guerra para alcançar esse objetivo. E nos primeiros meses do governo Bush foram igualmente incapazes de gerar entusiasmo pela invasão do Iraque. Eles precisavam de ajuda para alcançar seu objetivo, e ela chegou com o 11 de Setembro. Especificamente, os acontecimentos daquele dia levaram Bush e Cheney a inverter o curso e tornar-se fortes proponentes de uma guerra preventiva.

Numa reunião decisiva com Bush em Camp David, em 15 de setembro, Wolfowitz defendeu atacar o Iraque antes do Afeganistão, embora não houvesse nenhuma prova de que Saddam estava envolvido nos ataques aos Estados Unidos e se soubesse que bin Laden estava no Afeganistão. Bush rejeitou o conselho e preferiu atacar o Afeganistão, mas a guerra ao Iraque era agora considerada uma possibilidade séria, e em 21 de novembro o presidente encarregou planejadores militares de desenvolver planos concretos para uma invasão.

Enquanto isso, outros neoconservadores trabalhavam nos corredores do poder. Ainda não dispomos da história completa, mas pesquisadores como Bernard Lewis, de Princeton, e Fouad Ajami, da Johns Hopkins, teriam cumprido papéis importantes no convencimento de Cheney de que a guerra era a melhor opção, embora neoconservadores da equipe dele — Eric Edelman, John Hannah e Scooter Libby, chefe de gabinete de Cheney e uma das pessoas mais poderosas do governo — também tenham cumprido seu papel. No começo de 2002, Cheney tinha convencido Bush; e com o engajamento de Bush e Cheney a guerra era inevitável.

Fora do governo, especialistas neoconservadores apressaram-se a apresentar o argumento de que invadir o Iraque era essencial para ganhar a guerra contra o terrorismo. Seus esforços se destinavam em parte a manter a pressão sobre Bush, e em parte a superar a oposição à guerra dentro e fora do governo. Em 20 de setembro, um grupo de importantes neoconservadores e seus aliados publicou mais uma carta aberta: “Mesmo que as evidências não liguem diretamente o Iraque ao ataque,” dizia ela, “qualquer estratégia que tenha por objetivo a erradicação do terrorismo e de seus patrocinadores deve incluir um esforço determinado para remover Saddam Hussein do poder no Iraque”. A carta também lembrava a Bush que “Israel tem sido e continua a ser o aliado leal dos Estados Unidos contra o terrorismo internacional”. No número de 1º de outubro da Weekly Standard, Robert Kagan e William Kristol exigiam a mudança do regime no Iraque tão logo o Talibã fosse derrotado. No mesmo dia, Charles Krauthammer argumentou no Washington Post que, depois que os Estados Unidos tivessem terminado com o Afeganistão, o próximo deveria ser a Síria, seguida pelo Irã e pelo Iraque: “A guerra contra o terrorismo vai se concluir em Bagdá”, quando pusermos fim ao “regime terrorista mais perigoso do mundo”.

Esse foi o começo de uma campanha implacável de relações públicas para conquistar apoio a uma invasão do Iraque, que tinha como uma de suas partes cruciais a manipulação de informações de modo a fazer parecer que Saddam era uma ameaça iminente. Por exemplo, Libby pressionou analistas da CIA a encontrar provas que sustentassem o argumento em favor da guerra e ajudassem a preparar o hoje desacreditado relato de Colin Powell ao Conselho de Segurança da ONU. Dentro do Pentágono, o Policy Counterterrorism Evaluation Group foi encarregado de encontrar ligações entre a Al-Qaeda e o Iraque que a comunidade de inteligência supostamente deixara escapar. Seus dois principais membros eram David Wurmser, um neoconservador empedernido, e Michael Maloof, um libanês-americano estreitamente ligado a Perle. Outro grupo do Pentágono, o chamado Office of Special Plans, recebeu a tarefa de descobrir provas que pudessem ser usadas para vender a guerra. Ele era chefiado por Abram Shulsky, um neoconservador com laços antigos com Wolfowitz, e tinha entre seus membros pessoas recrutadas de think tanks pró-Israel. Esses órgãos foram criados depois do 11 de Setembro e se reportavam diretamente a Douglas Feith. Como praticamente todos os neoconservadores, Feith está profundamente comprometido com Israel e também tem laços antigos com o Likud. Ele escreveu artigos na década de 1990 apoiando os assentamentos e argumentando que Israel devia manter os Territórios Ocupados. Mais importante, juntamente com Perle e Wurmser, ele redigiu em junho de 1996 o famoso relatório “Clean Break” para Netanyahu, que acabara de se tornar primeiro-ministro. Entre outras coisas, o relatório recomendava que Netanyahu “se concentrasse em remover Saddam Hussein do poder no Iraque — um objetivo estratégico israelense importante por si só”. Também exigia que Israel tomasse medidas para reordenar todo o Oriente Médio. Netanyahu não seguiu o conselho deles, mas Feith, Perle e Wurmser logo estavam pressionando o governo Bush para que adotasse os mesmos objetivos. O colunista Akiva Eldar, do Ha’aretz, advertiu que Feith e Perle “estão caminhando sobre uma linha estreita entre sua lealdade aos governos americanos […] e aos interesses israelenses”.

Wolfowitz está igualmente comprometido com Israel. O Forward o descreveu uma vez como “a mais belicosa voz pró-Israel no governo”, e o escolheu em 2002 como o primeiro entre cinqüenta notáveis que “adotaram conscientemente o ativismo judeu”. Mais ou menos na mesma época, o Jinsa concedeu a Wolfowitz o “Henry M. Jackson Distinguished Award” por ele ter promovido uma forte parceria entre Israel e os Estados Unidos; e oJerusalem Post, descrevendo-o como “fortemente pró-Israel”, o indicou como “Homem do Ano” em 2003.

Finalmente, cabe um breve comentário sobre o apoio dado antes da guerra pelos neoconservadores a Ahmed Chalabi, o inescrupuloso exilado iraquiano que dirigia o Iraqi National Congress (INC). Eles apoiaram Chalabi porque ele tinha estabelecido laços estreitos com grupos judeu-americanos e prometido fomentar boas relações com Israel quando conquistasse o poder. Isso era precisamente o que os proponentes da mudança de regime favoráveis a Israel queriam ouvir. Matthew Berger expôs a essência do pacto no Jewish Journal: “O INC via uma melhora das relações como um modo de tirar proveito da influência judaica em Washington e Jerusalém e ganhar maior apoio para sua causa. De sua parte, os grupos judeus viam uma oportunidade de criar condições para melhorar as relações entre Israel e o Iraque, se e quando o INC estiver envolvido na substituição do regime de Saddam Hussein”.

Dada a dedicação dos neoconservadores a Israel, sua obsessão com o Iraque e sua influência no governo Bush, não é de surpreender que muitos americanos suspeitassem que a guerra tinha por objetivo promover interesses israelenses. No mês de março passado, Barry Jacobs, do American Jewish Committee, reconheceu que a crença de que Israel e os neoconservadores tinham conspirado para levar os Estados Unidos a uma guerra no Iraque estava “disseminada” na comunidade de inteligência. Mas poucas pessoas diriam isso em público, e a maioria das que o fizeram — entre elas o senador Ernest Hollings e o deputado James Moran — foi condenada por levantar a questão. Michael Kinsley escreveu no final de 2002 que “a falta de discussão pública sobre o papel de Israel […] é o proverbial elefante na sala”. A razão para a relutância a falar sobre isso, observou ele, era o medo de ser rotulado de anti-semita. Há pouca dúvida de que Israel e o Lobby foram fatores fundamentais na decisão de ir à guerra. Trata-se de uma decisão que os Estados Unidos teriam muito menos probabilidade de tomar sem os esforços desenvolvidos por eles. E se pretendia que a guerra fosse só o primeiro passo. Uma manchete de primeira página do Wall Street Journal logo depois do início da guerra diz tudo: “O sonho do presidente: mudar não só o regime mas uma região: uma área democrática pró-EUA é uma meta que tem raízes israelenses e neoconservadoras”.

As forças pró-Israel estão há muito tempo interessadas em que as forças armadas dos Estados Unidos se envolvam mais diretamente no Oriente Médio. Mas tiveram pouco sucesso durante a Guerra Fria, porque os Estados Unidos agiram como um “equilibrador off-shore” na região. A maioria das forças criadas para o Oriente Médio, como a Rapid Deployment Force, foi mantida “no horizonte” e fora de alcance. A idéia era jogar potências locais uma contra a outra — e foi por isso que o governo Reagan apoiou Saddam contra o Irã revolucionário durante a guerra Irã-Iraque — com o objetivo de manter um balanço favorável aos Estados Unidos.

Essa política mudou depois da Guerra do Golfo, quando o governo Clinton adotou uma estratégia de “contenção dual”. Forças americanas substanciais ficavam estacionadas na região para conter tanto o Irã como o Iraque, em vez de um ser usado para controlar o outro. O pai da contenção dual foi ninguém menos que Martin Indyk, o primeiro a esboçar a estratégia em maio de 1993 no Winep e quem depois a implementou como diretor do Near East and South Asian Affairs no Conselho de Segurança Nacional. Em meados da década de 1990 havia uma considerável insatisfação com a contenção dual, porque ela tornava os Estados Unidos o inimigo mortal de dois países que se odiavam, e obrigava Washington a carregar o peso de conter ambos. Mas era uma estratégia que o Lobby apoiava e trabalhava ativamente no Congresso para preservar. Pressionado pelo Aipac e por outras forças pró-Israel, Clinton endureceu a política na primavera de 1995 ao impor um embargo econômico ao Irã. Mas o Aipac e os outros queriam mais. O resultado foi o Iran and Libya Sanctions Act, de 1996, que impôs sanções a qualquer empresa estrangeira que investisse mais de US$ 40 milhões para desenvolver recursos petrolíferos no Irã ou na Líbia. Como notou na época Ze’ev Schiff, correspondente militar do Ha’aretz, “Israel é apenas um minúsculo elemento do grande esquema, mas não se deve concluir que ele não é capaz de influenciar aqueles que estão em Washington”.

No entanto, no final da década de 1990, os neoconservadores argumentavam que a contenção dual não era suficiente e que a mudança de regime no Iraque era essencial. Ao derrubar Saddam e transformar o Iraque em uma democracia, eles argumentavam, os Estados Unidos deflagrariam um processo de mudança de longo alcance em todo o Oriente Médio. A mesma linha de raciocínio era evidente no estudo “Clean Break”, que os neoconservadores redigiram para Netanyahu. Em 2002, quando uma invasão do Iraque estava na ordem do dia, a transformação regional era um artigo de fé em círculos neoconservadores. Charles Krauthammer descreve esse esquema grandioso como fruto da imaginação de Natan Sharansky, mas israelenses de todo o espectro político acreditavam que derrubar Saddam alteraria o Oriente Médio em favor de Israel. Aluf Benn relatou no Ha’aretz (17 de fevereiro de 2003):

Oficiais de alto escalão das forças armadas israelenses e aqueles próximos do primeiro-ministro Ariel Sharon, como o conselheiro de Segurança Nacional Ephraim Halevy, pintam um quadro cor-de-rosa do maravilhoso futuro que Israel pode esperar depois da guerra. Eles imaginam um efeito-dominó, com a queda de Saddam Hussein seguida pela de outros inimigos de Israel […] Com o desaparecimento desses líderes, desaparecerão o terror e as armas de destruição em massa.

Quando Bagdá caiu em meados de abril de 2003, Sharon e seus tenentes começaram a pressionar Washington para se voltar contra Damasco. Em 16 de abril, Sharon, entrevistado no Yedioth Ahronoth, pediu que os Estados Unidos fizessem uma pressão “muito forte” sobre a Síria, enquanto Shaul Mofaz, seu ministro da Defesa, entrevistado pelo Ma’ariv, disse: “Temos uma longa lista de questões que pensamos em exigir do sírios, e é adequado que isso seja feito por meio dos americanos”. Ephraim Halevy disse a uma platéia da Winep que agora era importante que os Estados Unidos endurecessem com a Síria, e o Washington Post relatou que Israel estava “alimentando a campanha” contra a Síria ao fornecer à inteligência americana relatórios sobre as ações de Bashar Assad, o presidente sírio.

Membros importantes do Lobby usaram os mesmos argumentos. Wolfowitz declarou que “é preciso haver uma mudança de regime na Síria”, e Richard Perle disse a um jornalista que “uma mensagem curta, de poucas palavras” podia ser enviada a outros regimes hostis no Oriente Médio: “Vocês são os próximos”. No começo de abril, a Winep divulgou um comunicado bipartidário declarando que a Síria “não deve esquecer a mensagem de que países que adotam o comportamento temerário, irresponsável e desafiador de Saddam podem ter o mesmo destino que ele”. Em 15 de abril, Yossi Klein Halavi escreveu um artigo no Los Angeles Times intitulado “Depois, apertar a Síria”, enquanto no dia seguinte Zev Chafets escreveu um artigo para o New York Daily News intitulado “A Síria, amiga do terror, também precisa de uma mudança”. Insuperável, Lawrence Kaplan escreveu na New Republic em 21 de abril que Assad era uma séria ameaça aos Estados Unidos.

No Capitólio, o congressista Eliot Engel havia reapresentado o Syria Accountability and Lebanese Sovereignty Restoration Act. Ele ameaçava com sanções contra a Síria se o país não se retirasse do Líbano, desistisse de suas armas de destruição em massa e parasse de apoiar o terrorismo, e também exigia que a Síria e o Líbano tomassem medidas concretas para fazer as pazes com Israel. Essa legislação era fortemente apoiada pelo Lobby — especialmente pelo Aipac — e “arquitetada”, segundo a Jewish Telegraph Agency, “por alguns dos melhores amigos de Israel no Congresso”. O governo Bush tinha pouco entusiasmo por ela, mas o decreto anti-Síria foi aprovado por uma maioria esmagadora (398 a 4 na Câmara; 89 a 4 no Senado), e Bush o sancionou em 12 de dezembro de 2003.

O governo ainda estava dividido a respeito da sensatez de atacar a Síria. Embora os neoconservadores estivessem ansiosos para começar uma briga com Damasco, a CIA e o Departamento de Estado se opunham à idéia. E mesmo depois de Bush ter sancionado a nova lei, ele enfatizou que a implementaria lentamente. Sua ambivalência é compreensível. Primeiro, o governo sírio não só estava fornecendo informações importantes sobre a Al-Qaeda desde o 11 de Setembro: tinha também avisado Washington sobre um possível ataque terrorista no Golfo e dado a interrogadores da CIA acesso a Mohammed Zamar, o suposto recrutador de alguns dos seqüestradores do 11 de Setembro. Visar o regime de Assad poria em risco essas valiosas ligações, e portanto prejudicaria a guerra geral contra o terrorismo. Em segundo lugar, as relações da Síria com Washington antes da guerra do Iraque não eram ruins (o país tinha até votado a favor da resolução 1441 da ONU), e ela não era uma ameaça aos Estados Unidos. Jogar pesado com ela faria os Estados Unidos parecerem um valentão com uma propensão insaciável por derrotar Estados árabes. Em terceiro lugar, colocar a Síria na lista de alvos daria a Damasco um poderoso incentivo para criar problemas no Iraque. Mesmo que se quisesse pressionar, era melhor primeiro terminar o trabalho no Iraque. Mas o Congresso insistia em apertar Damasco, basicamente em resposta à pressão de representantes israelenses e grupos como o Aipac. Se não houvesse o Lobby, não teria havido o Syria Accountability Act, e a política dos Estados Unidos para Damasco estaria mais alinhada com o interesse nacional.

Os israelenses tendem a descrever qualquer ameaça nos termos mais tenebrosos, mas o Irã é visto em geral como seu inimigo mais perigoso, porque é o que tem maior probabilidade de adquirir armas nucleares. Praticamente todos os israelenses consideram um país islâmico do Oriente Médio com armas nucleares uma ameaça à sua existência. “O Iraque é um problema […] mas você deve entender que, em minha opinião, hoje o Irã é mais perigoso que o Iraque”, observou o ministro da Defesa, Binyamin Ben-Eliezer, um mês antes da guerra do Iraque.

Sharon começou a empurrar os Estados Unidos para o confronto com o Irã em novembro de 2002, em uma entrevista ao Times. Descrevendo o Irã como “centro do terror mundial”, e propenso a adquirir armas nucleares, ele declarou que o governo Bush devia se voltar contra o Irã “no dia seguinte” à conquista do Iraque. No final de abril de 2003, o Ha’aretz relatou que o embaixador israelense em Washington estava exigindo uma mudança de regime no Irã. A derrubada de Saddam, ele observou, “não é suficiente”. Em suas palavras, os Estados Unidos “têm de continuar. Ainda temos grandes ameaças da mesma magnitude vindas da Síria, vindas do Irã”.

Também os neoconservadores se apressaram a argumentar em favor da mudança de regime em Teerã. Em 6 de maio, o American Enterprise Institute co-patrocinou uma conferência de dia inteiro sobre o Irã com a Foundation for the Defense of Democracies e o Hudson Institute, ambos defensores de Israel. Os conferencistas eram todos muito favoráveis a Israel, e muitos exigiram que os Estados Unidos substituíssem o regime iraniano por uma democracia. Como sempre, um grande número de artigos de neoconservadores proeminentes apresentou argumentos para atacar o Irã. “A libertação do Iraque foi a primeira grande batalha pelo futuro do Oriente Médio […] mas a próxima grande batalha — não, esperamos, uma batalha militar — será pelo Irã”, escreveu William Kristol na Weekly Standard em 12 de maio.

O governo reagiu à pressão do Lobby trabalhando exaustivamente para interromper o programa nuclear do Irã. Mas Washington tem tido pouco sucesso, e o Irã parece determinado a criar um arsenal nuclear. Em conseqüência, o Lobby intensificou sua pressão. Artigos de opinião e outros artigos agora chamam a atenção para os perigos iminentes de um Irã nuclear, advertem contra qualquer conciliação com um regime “terrorista”, e insinuam sombriamente uma ação preventiva se a diplomacia fracassar. O Lobby está pressionando o Congresso para a aprovação do Iran Freedom Support Act, que ampliaria as sanções existentes. Representantes israelenses também advertem que podem empreender a ações dissuasivas caso o Irã continue no caminho nuclear, ameaças que pretendem em parte manter a atenção de Washington sobre o assunto.

Poder-se-ia argumentar que Israel e o Lobby não tiveram muita influência na política para o Irã, porque os Estados Unidos têm suas próprias razões para evitar que o Irã adquira armamentos nucleares. Há alguma verdade nisso, mas as ambições nucleares do Irã não são uma ameaça direta aos Estados Unidos. Se Washington conseguiu viver com uma União Soviética nuclear, uma China nuclear ou mesmo uma Coréia do Norte nuclear, pode também viver com um Irã nuclear. E é por isso o que o Lobby precisa manter uma pressão constante para que os políticos confrontem Teerã. O Irã e os Estados Unidos dificilmente seriam aliados mesmo que o Lobby não existisse, mas a política dos Estados Unidos seria mais moderada e a guerra preventiva não seria uma opção séria. Não é de surpreender que Israel e seus defensores americanos queiram que os Estados Unidos lidem com toda e qualquer ameaça à segurança de Israel. Se seus esforços para moldar a política dos Estados Unidos forem bem-sucedidos, os inimigos de Israel serão enfraquecidos ou derrubados, Israel terá liberdade para fazer o que quiser com os palestinos, e os Estados Unidos travarão a maioria dos combates, morrendo, reconstruindo e pagando. Mas mesmo que os Estados Unidos não consigam transformar o Oriente Médio e se vejam em conflito com um mundo árabe e islâmico cada vez mais radicalizado, Israel terminará protegido pela única superpotência do mundo. Esse não é um resultado perfeito do ponto de vista do Lobby, mas é obviamente preferível ao distanciamento de Washington, ou ao uso pelos Estados Unidos de sua influência para obrigar Israel a fazer a paz com os palestinos.

O poder do Lobby pode ser reduzido? Seria de se pensar que sim, dadas a derrocada do Iraque, a óbvia necessidade de reconstruir a imagem dos Estados Unidos no mundo árabe e islâmico e as recentes revelações sobre a passagem a Israel, por funcionários do Aipac, de informações secretas do governo americano. Poder-se-ia pensar também que a morte de Arafat e a eleição do mais moderado Mahmoud Abbas levariam Washington a pressionar vigorosamente e de forma mais isenta por um acordo de paz. Em resumo, há amplas bases para que os líderes se distanciem do Lobby e adotem uma política para o Oriente Médio mais coerente com os interesses americanos gerais. Em particular, usar o poder americano para alcançar uma paz justa entre Israel e os palestinos ajudaria a avançar a causa da democracia na região.

Mas isso não vai acontecer — de qualquer maneira, não logo. O Aipac e seus aliados (entre eles os sionistas cristãos) não têm oponentes sérios no mundo do lobby. Eles sabem que ficou mais difícil defender Israel hoje, e reagem contratando pessoal e expandindo suas atividades. Além disso, os políticos americanos permanecem extremamente sensíveis a contribuições de campanha e outras formas de pressão política, e os órgãos mais importantes da mídia provavelmente continuarão a ser simpáticos a Israel independentemente do que Israel faça.

A influência do Lobby causa problemas em várias frentes. Aumenta o perigo terrorista que todos os Estados enfrentam — inclusive os aliados europeus dos Estados Unidos. Tornou impossível pôr fim ao conflito israelense-palestino, uma situação que dá aos extremistas uma poderosa ferramenta de recrutamento, aumenta a reserva de potenciais terroristas e simpatizantes, e contribui para o radicalismo islâmico na Europa e na Ásia. Igualmente preocupante, a campanha do Lobby em favor da mudança de regime no Irã e na Síria pode levar os Estados Unidos a atacar esses países, com efeitos potencialmente desastrosos. Não precisamos de mais um Iraque. No mínimo, a hostilidade do Lobby em relação à Síria e ao Irã torna quase impossível para Washington recrutá-los para a luta contra a Al-Qaeda e a insurgência iraquiana, na qual a ajuda deles é extremamente necessária.

Há aqui também uma dimensão moral. Graças ao Lobby, os Estados Unidos se tornaram na prática o capacitador da expansão israelense nos Territórios Ocupados, o que fez deles cúmplices nos crimes perpetrados contra os palestinos. Essa situação debilita os esforços do governo americano para promover a democracia no exterior e o faz parecer hipócrita quando pressiona outros Estados a respeitar os direitos humanos. Os esforços americanos para limitar a proliferação nuclear parecem igualmente hipócritas dada a sua disposição de aceitar o arsenal nuclear de Israel, o que só estimula o Irã e outros a buscar uma capacidade semelhante.

Ademais, a campanha do Lobby para reprimir o debate sobre Israel é perniciosa para a democracia. Silenciar os céticos organizando listas negras e boicotes — ou sugerindo que os críticos são anti-semitas — viola o princípio do debate aberto do qual a democracia depende. A incapacidade do Congresso para conduzir um debate genuíno dessas questões importantes paralisa todo o processo de deliberação democrática. Os apoiadores de Israel devem ter liberdade para apresentar seus argumentos e contestar aqueles que discordam deles, mas os esforços para abafar o debate por meio de intimidação devem ser vigorosamente condenados.

Por fim, a influência do Lobby tem sido ruim para Israel. Sua capacidade de convencer Washington a apoiar uma agenda expansionista desestimulou Israel a aproveitar oportunidades — entre elas um tratado de paz com a Síria e uma pronta e plena implementação dos acordos de Oslo — que teriam poupado vidas israelenses e encolhido as fileiras de extremistas palestinos. Negar aos palestinos seus direitos políticos legítimos por certo não tornou Israel mais seguro, e a longa campanha para matar ou marginalizar uma geração de líderes palestinos reforçou grupos extremistas como o Hamas, e reduziu o número de líderes palestinos dispostos a aceitar um acordo justo e capazes de pô-lo em prática. Até Israel estaria provavelmente melhor se o Lobby fosse menos poderoso e a política dos Estados Unidos mais imparcial.

Contudo, há um raio de esperança. Embora o Lobby continue sendo uma força poderosa, os efeitos adversos de sua influência são cada vez mais difíceis de esconder. Estados poderosos podem manter políticas errôneas por muito tempo, mas a realidade não pode ser ignorada para sempre. O que é necessário é uma discussão franca da influência do Lobby e um debate mais aberto sobre os interesses dos Estados Unidos nessa região vital. O bem-estar de Israel é um desses interesses, mas sua ocupação continuada da Cisjordânia e sua agenda regional mais ampla não são. O debate aberto exporá os limites do argumento estratégico e moral em favor do apoio americano unilateral e poderia levar os Estados Unidos a uma posição mais coerente com seus interesses nacionais, com os interesses de outros Estados da região e também com os interesses de longo prazo de Israel.

 

 

tradução do inglês de Otacílio Nunes Jr.
[1] Artigo publicado na London Review of Books em 23 de março de 2006.         [ Links ]
[2Rogue states (Estados “patifes” ou “vis”): expressão usada pelo governo dos Estados Unidos para se referir a Estados governados por regimes autoritários que restringem fortemente os direitos humanos, acusados de patrocinar o terrorismo e de buscar obter armas de destruição em massa. O governo Clinton, durante seus últimos seis meses, a substituiu pela expressão “states of concern” (Estados preocupantes, que merecem atenção), e no governo Bush os Estados considerados rogue pelo governo americano (Coréia do Norte, Iraque, Irã, Afeganistão e Líbia) passaram a ser caracterizados pelo presidente como “Eixo do Mal”. Depois da invasão americana do Afeganistão e do Iraque, evidentemente, e de acertos diplomáticos entre o governo americano e a Líbia, esses três países foram excluídos da lista. (N. T.)
[3] Os autores se referem ao assassinato de Ilan Halimi, em fevereiro de 2006. (N. E.)

O poder do “lobby judaico” dos Estados Unidos está a ser dito lendária. John Mearsheimer, da Universidade de Chicago Stephen Walt, de Harvard, fizeram um trabalho para tentar responder a estas questões e levantaram uma enorme controvérsia com os resultados apurados. O seu livro denomina-se “O Lobby Israelita e a Política Externa dos Estado Unidos” … [leia a notícia na íntegra]

Tempestade nos EUA sobre o livro em Israel átrio
Por Henri Astier
BBC News

EUA Vice-presidente Dick Cheney aborda uma reunião Aipac março 2007

O governo Bush – como seus antecessores – ficou com Israel

O poder do “lobby judaico” dos Estados Unidos está a ser dito lendária.

Os comentapodristas de todo o mundo se referem a ele, como se fosse um fato bem estabelecido que os judeus norte-americanos exercem muito mais influência do que os seus números (2% da população) poderiam sugerir.

Mas esta suposta influência também é uma questão delicada em os EUA, e raramente é analisado.

Como é que o lobby funciona? É o seu poder verdadeiramente lendário, ou apenas uma lenda?

Dois acadêmicos dos Estados Unidos, John Mearsheimer, da Universidade de Chicago e Stephen Walt, de Harvard, se propôs a responder a essas perguntas, e desencadeou uma tempestade de controvérsias, como resultado.

Seu livro The Israel Lobby e Política Externa dos EUA, que se baseia em um artigo de 2006 na London Review of Books, diz que as razões para o apoio dos EUA a Israel precisam ser explicadas.

 [Muitos críticos] tentaram nos difamar por um ou outro dizendo ou insinuando que nós somos anti-semita 
Stephen Walt

América gasta US $ 3 bilhões por ano em ajuda militar em grande parte – um sexto do seu orçamento de ajuda direta – para ajudar, um país com armas nucleares próspera, e apoia fortemente Israel nas negociações sobre a paz no Oriente Médio.

Mas de acordo com Mearsheimer e Walt, os EUA recebe muito pouco em troca.

Eles rejeitam o argumento de que Israel é um aliado-chave na “guerra contra o terror” dos Estados Unidos.

Pelo contrário, eles afirmam, patrocínio de Israel combustíveis raiva militante EUA – bem como promover ressentimento nos países árabes que controlam o fornecimento de petróleo vitais.

Unilateral

Os autores também rejeitam a visão comum de Israel como um posto avançado democrático que precisa de proteção contra inimigos mortais.

Na verdade, é uma democracia vibrante, dizem eles, mas também um gigante regional, pronto para usar seu poder de fogo considerável contra civis.

Soldado dos EUA e helicóptero no Iraque

Quais interesses que os soldados dos EUA no Iraque defender?

Se ambos os argumentos são fracos, dizem eles, a verdadeira razão por trás do apoio dos EUA a Israel é nacional – as atividades do Comitê da American Israel Public Affairs (Aipac), a Liga Anti-Difamação (ADL), e os grupos afins e pensar tanques.

Mearsheimer e Walt não falam de um “lobby judaico”, uma vez que estes grupos não falam por todos os judeus norte-americanos e incluem muitos não-judeus, mas de um “lobby israelense”, que tem como principal objetivo, dizem, é convencer América que seus interesses estão alinhados com os do Estado de Israel.

O livro analisa as fontes do lobby de influência – nomeadamente o seu músculo financeiro ea relutância dos críticos de falar.

Contribuições Pro-israelenses para campanhas americanas anão os de árabes-americanos ou grupos muçulmanos.

À semelhança de outros grupos de interesse, o lobby de Israel também influencia debate pelo arredondamento em políticos e comentadores que tomam posições que não gosta – mas ele faz isso de maneira muito eficiente, de acordo com Mearsheimer e Walt.

Aqueles que poderia pensar em questionar o apoio dos EUA a Israel sabe que eles estão em uma luta, tornando-se mais problemas do que vale a pena.

A consequente falta de discussão, o livro diz, tem distorcido as políticas dos EUA em todo o Oriente Médio.

Mais controversa, ele argumenta que o lobby teve um papel importante na guerra do Iraque.

Sem conspiração

Talvez não surpreendentemente, Mearsheimer e Walt já desencadeou uma torrente de críticas – embora não de Aipac, que não fez nenhum comentário.

 Para qualquer anedota que venha com, você pode vir até com uma anedota que demonstra o contrário 
Robert Lieberman
Columbia University

“Suas conclusões são clássicos canards anti-semitas – tais como controle da política externa contra o interesse de os EUA, os judeus controlando os meios de comunicação e obter a América em guerra”, o diretor ADL Abraham Foxman disse à BBC News.

Depois de ler o artigo original, o Sr. Foxman escreveu uma refutação do livro de comprimento, intitulado The Lies Deadliest: O lobby de Israel eo mito do controle judaico.

Muitos ataques têm sido altamente pessoal.

Em uma crítica feroz de sua bolsa de estudos, o historiador israelense Benny Morris escreveu na New Republic do artigo original: “Se ‘The Israel Lobby e Política Externa dos EUA” uma pessoa de verdade, eu teria que dizer que ele não tinha um único honesto osso de seu corpo. ”

Praticamente todos os comentários sobre o livro na imprensa EUA foram negativos.

“Eles têm muitas vezes deturpado nossos argumentos mal ou tentaram nos difamar por um ou outro dizendo ou insinuando que nós somos anti-semita”, o Sr. Walt disse à BBC News.

Ele eo Sr. Mearsheimer negar reciclagem fantasias antigas de conspirações judaicas. Seu livro afirma repetidamente que o lobby pró-israelense não é secreto, mas está de acordo com as regras abertas do sistema democrático da América.

Os autores consideram sua escoriação na imprensa dos EUA como um sinal da eficácia do saguão e apontam que as revisões no exterior têm sido muito mais favorável.

“Isso, de alguma forma, confirma nosso argumento básico de que é muito mais fácil falar sobre este assunto fora dos Estados Unidos do que fazemos dentro os EUA”, diz ele.

Causa e efeito

No entanto, alguns de Mearsheimer e Walt críticos norte-americanos têm sido menos virulenta e mais difícil de descartar polêmica tão irritado.

Robert Lieberman, um cientista político da Universidade de Columbia, afirma que eles exageram o poder financeiro do átrio.

 Tenho escrito artigos em Haaretz que há jornais americanos tocaria 
Tony Judt

Mearsheimer e Walt citar casos de membros do Congresso perderam seus assentos após chocar-se contra grupos pró-Israel que, então, financiaram seus adversários.

Mas o Sr. Lieberman diz que as contribuições envolvidos não são susceptíveis de fazer a diferença e o livro não consegue estabelecer uma ligação clara entre átrio dinheiro e vitória.

Líder da minoria no Senado Tom Daschle perdeu seu assento em 2004, apesar do fato de que ele tem um financiamento mais pró-Israel do que qualquer candidato que ano.

“Para qualquer anedota que venha com, você pode vir até com uma anedota que demonstra o contrário”, diz Lieberman.

Talvez o argumento mais polêmico no livro é o nexo de causalidade directo tenta estabelecer entre a atividade do lobby e políticas dos EUA no Oriente Médio.

Mas as preferências políticas podem ser influenciados por uma série de fatores, tais como a pressão popular, a política partidária ou sincera convicção.

Apesar de Mearsheimer e Walt fazem o seu melhor para descartar essas explicações alternativas para a posição pró-Israel dos EUA, muitos não estão convencidos.

“Esta é a manipulação de um grupo pequeno, ou é os políticos não querem tomar uma posição que não é popular com o público em geral?” Walter Russell Mead, do Council on Foreign Relations, disse à BBC News.

Sr. Mead – que escreveu uma longa crítica do livro na revista Negócios Estrangeiros – também diz Mearsheimer e Walt dar uma definição demasiado vaga de lobby para fazer qualquer conclusão confiável sobre o seu impacto.

Abertura

O facto de que o livro convida a crítica, no entanto, é também uma força. Seu tom acadêmico, desapaixonada se destina a incentivar um debate.

“As pessoas razoáveis ​​podem discordar e uma das razões que queremos ter uma discussão é obter questões em aberto que as pessoas possam falar sobre eles”, diz Walt.

Tony Judt – um proeminente historiador e crítico de Israel – não aceita cada ponto feito por Mearsheimer e Walt, mas ele credita-lhes levantar um tabu.

O principal efeito do lobby, diz ele, foi a auto-censura. “Há pessoas lá fora que são anti-semita, obviamente, e você não quer encontrar-se na sua empresa, assim você acaba dizendo nada”, diz ele.

Próprio Sr. Judt não tem medo de falar, mas ele tem que pisar com mais cuidado quando ele critica as políticas israelenses em os EUA do que ele faz em Israel.

“Eu tenho escrito artigos em Haaretz que não os jornais americanos que tocam”, diz ele.

Neste contexto, acrescenta, de Mearsheimer e Walt livro é um “enorme ato de coragem intelectual”.

“Eles ganharam nada com isso, mas a comunidade tem realmente ganhou alguma coisa, porque a cada pequeno passo como esse, a conversa se abre um pouco mais.” 

Sionismo e resistência palestina

Sionismo e resistência palestina

Sionismo e resistência palestinaFélix Maier

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O Sionismo é um movimento internacional judaico, que resultou na criação do Estado de Israel.

A ONU, em 1947, dividiu a antiga Palestina em um território judeu e um território palestino. Os países árabes vizinhos (Egito, Síria, Jordânia e Iraque) não aceitaram a decisão da ONU e empreenderam uma guerra contra os israelenses, logo após a criação do Estado de Israel, em 1948. Após derrotar os árabes nessa 1ª guerra, Israel aumentou em 50% seu território, ocasionando a diáspora palestina.

Na Guerra de 1967, aumentou a diáspora palestina, quando Israel tomou toda a Península do Sinai, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia (incluindo a parte Oriental de Jerusalém) e as Colinas de Golã.

Com um acordo entre Israel e os palestinos, iniciado em 1993, Gaza e algumas cidades da Cisjordânia, como Jericó, Hebron, Ramallah e Belém, começaram a ser transferidas para a Autoridade Palestina, porém o conflito entre Israel e os palestinos continua até hoje, com a retomada da 2ª intifada em 2000, tendo em vista o não cumprimento de uma agenda que previa a devolução de toda a Cisjordânia à Autoridade Palestina, e devido à intransigência dos palestinos, que querem fazer de Jerusalém-Oriental sua futura capital.

Antecedentes
A 1ª diáspora ou dispersão judaica (exílio) ocorreu em 586 a.C., quando o imperador babilônico Nabucodonosor II destruiu Jerusalém e o Templo de Salomão, e deportou os judeus para a Babilônia (586-538 a.C.). A 2ª diáspora judaica começou a partir de nova destruição de Jerusalém e do 2º Templo (que havia sido reconstruído por Herodes), realizada por Tito em 70 de nossa era, e encerrou-se em 135, depois que os judeus se revoltaram contra a paganização da cidade de Jerusalém, feita pelo Imperador Adriano, com um templo dedicado a Júpiter. Após essa revolta, os judeus remanescentes na Palestina foram proibidos de pôr os pés na Cidade Santa, que passa a se chamar Aelia Capitolina, e começam e se espalhar por todo o mundo, ficando um número insignificante deles na Terra Santa. Em 637, começa o domínio árabe sobre a Palestina, permeado por um curto domínio do Reino Latino (dos Cruzados), de 1099 a 1291, o qual foi desbaratado por Saladino, Sultão do Egito. A partir do início do século XIV, a Palestina se torna parte do Império Otomano, até o fim da I Guerra Mundial (1918), quando se torna Protetorado Britânico, que perdurou até a criação do Estado de Israel.

Sionismo
O Sionismo, ideologia nacionalista que prega a volta dos judeus à Palestina, começa a tomar corpo principalmente depois das perseguições movidas contra os judeus na Rússia, devido ao envolvimento da judia Vera Figner no assassinato do Czar Alexandre II, em 1881, e do processo na França contra o Capitão Dreyfus, de família judaica, condenado em 1894 por um crime que não cometera. O judeu húngaro Theodor Herzl, autor do livro “Der Judenstaat” (O Estado Judeu), no qual aborda idéias de assentamentos judaicos na Palestina, observando a intolerância contra os judeus na sociedade, especialmente o Caso Dreyfus, organiza, em agosto de 1897, o 1º Congresso Sionista Mundial, na Basiléia, Suíça, ocasião em que afirma: “O sionismo é o movimento do povo judeu em marcha para a Palestina; mas, o retorno à Palestina deve ser precedida pelo retorno do povo judeu ao judaísmo”.

O Congresso Sionista reuniu 204 dirigentes judeus do mundo todo e as seguintes resoluções secretas foram tomadas em 3 dias de debates:

“1) Estimular a colonização da Palestina, povoando-a de judeus, mediante uma emigração metodicamente organizada; 2) Organizar o movimento judeu, unificando suas formações espalhadas pelo mundo; 3) Despertar, reforçar e mobilizar a consciência judia em todas as comunidades; 4) Atuar nos diferentes Estados para obter o apoio e a anuência dos mesmos para o movimento sionista” (Hussein Triki, in “Eis aqui Palestina”, pg. 53).

“Quanto a Herzl, fixou, por sua vez, as fronteiras do Estado, como segue: vão do Nilo ao Eufrates e da margem direita do Nilo ao Mar Vermelho e a margem esquerda do Eufrates, a maior parte do Iraque e a totalidade da Jordânia e da Síria, sem falar, naturalmente, da Palestina” (Hussein Triki, op. cit., pg. 67).

Assim, a partir do Congresso Sionista, começa a ocupação judaica da Palestina, a “Eretz Israel” ou a “pátria histórica dos judeus”, embora outros países fossem propostos para a criação de um novo Estado judeu, como a Argentina, o Chipre, Uganda e até o Sinai (Egito).

Em 1880, havia cerca de 20.000 judeus na Palestina (Dictionaire Diplomatique, pg. 204). Em 1914, cerca de 30 kibbutzim já se haviam estabelecido na Palestina, somando 40.000 judeus, embora houvesse crescente restrição dos otomanos. Em 1919, já eram 56.000 (Survey of Palestine, TI, pg. 144). Em 1923, após o recenceamento da Administração Herbert Samuel, a Palestina contava com 757.000 hab, dos quais 83.000 eram judeus. A colonização era feita, principalmente, por meio dos “kibbutzim”, colônias agromilitares de inspiração socialista. Afirmou H. Samuel: “A política que tenho a missão de implementar no nome de S. M. compreende o fomento da imigração judia até o ponto em que haja alcançado um nível tal que permita afirmar o direito dos judeus de criar um governo judeu na Palestina”.

Entre 1920 e 1925, a Administração H. Samuel, em cooperação com “El Kahal”, havia introduzido na Palestina 50.000 imigrantes judeus, que vieram principalmente da Rússia e da Polônia. Entre eles destacam-se: David Ben Gurión, Golda Meir, Jacobo Shapiro, Haim Gebai, Mordkhai Bentof, Moshe Sharet. Ao final do Mandato britânico, eram 600.000 judeus. Em 1916, os sionistas eram proprietários de 241.000 dunums (1 dunum = 1.000 m²); em 1947, de 1.850.000 dunums.

A criação do Protetorado Britânico sobre a Palestina, depois da I Guerra Mundial, realizada pela Liga das Nações (precursora da ONU), e a posterior criação do Estado judeu, foi uma traição da Grã-Bretanha ao acordo firmado com o Príncipe Faiçal, da Arábia Saudita, na Campanha Árabe contra os turcos, durante I Guerra Mundial, no qual se garantia “a unidade dos países árabes e a independência de todos esses países” – traição essa já vislumbrada por “Lawrence da Arábia” em seu livro “Os Sete Pilares da Sabedoria”, embora não conhecesse o conteúdo do Acordo Sykes-Picot. Lawrence era um oficial inglês, amigo dos árabes, e participou da campanha contra os turcos para a libertação da Península Arábica, Palestina e Síria.

Em 1916, o acordo “G.S.I(j)” foi firmado entre os sionistas e o Comando britânico na zona do Oriente Médio, pelo qual os britânicos armaram as brigadas da Hagganah – embrião do futuro Exército de Israel – e ficaram encarregados de seu adestramento na guerrilha.

Em 1917, David Ben Gurión e Isaac Ben Zvi formam nos EUA uma brigada de voluntários judeus americanos para combater os turcos no Egito e na Palestina. Durante a II Guerra Mundial, a Hagganah tinha cerca de 30.000 militares, entre os quais Moshe Dayan, herói da “Guerra dos Seis Dias”, de 1967.

No dia 2 de novembro de 1917, o Governo britânico reconheceu a “Declaração Balfour” – de seu Ministro do Exterior, Arthur James Balfour – que concedia o direito do estabelecimento de um “lar judeu” na Palestina. No entre-guerras, o Mandato britânico permitiu aos sionistas montar uma indústria bélica, que chegou a produzir “200 metralhadoras por dia, 400.000 cartuchos calibre 9 mm por mês, 150.000 obuses e 30.000 granadas calibre 3 polegadas; sem contar os morteiros pesados e leves e uma indústria muito adiantada de mina”. (Hussein Triki, op. cit., pg. 121).

Nessa época, milhares de judeus europeus imigraram para a Palestina, fugindo do nazismo, ocasião em que aumentaram os distúrbios entre árabes e judeus, e surgiram os primeiros grupos terroristas judeus, como o Irgun de Menachen Begin. O hebraico ressurgiu como língua oficial para os judeus na Palestina, graças principalmente ao trabalho de Eliezer Ben-Iehudá.

Com o fim da II Guerra Mundial e os horrores do holocausto judeu, o movimento sionista passou a exercer uma maior pressão internacional para a criação de um Estado judeu. No dia 2 de abril de 1947, a Grã-Bretanha solicitou ao Secretário-Geral da ONU, Trygve Lie, a convocação de uma sessão extraordinária da Assembléia-Geral da organização, para estudo da “Questão Palestina”. Em 28 de abril, a AGNU reuniu-se e decidiu, em 5 de maio, criar a “Comissão Palestina”, composta de representantes de 11 Estados-membros.

No final de agosto, foram apresentados 2 projetos diferentes:

a) o projeto majoritário sugeria: 1) fim do Mandato britânico; 2) proceder à partilha da Palestina e criar nela um Estado judeu e um Estado árabe; 3) considerar a cidade de Jerusalém como zona internacional com o patrocínio da ONU.

b) o projeto minoritário previa: 1) fim do Mandato britânico; 2) criação de um Estado federal cuja capital seria Jerusalém, que se comporia de um Estado árabe e de um Estado judeu.

No dia 29 de novembro de 1947, na Assembléia-Geral da ONU, em Flushing Meadows, EUA, presidida pelo brasileiro Osvaldo Aranha, foi votada a partilha da Palestina, quando 33 Estados votaram a favor, entre os quais EUA, Rússia e Brasil. Treze Estados (10 países islâmicos, Cuba, Grécia e Índia) votaram contra a partilha e 10 abstiveram-se (entre os quais Grã-Bretanha, Argentina, China e México). Os votos que decidiram a favor da partilha vieram do Haiti, Libéria e Filipinas – considerados países “satélites” dos EUA -, os quais eram inicialmente contra a partilha, mas foram pressionados a votar a favor. Jerusalém teria status de cidade internacional. A ONU destinou aos judeus as terras mais férteis da Palestina, como a planície costeira e a planície do Esdrelon, além do Lago da Galiléia. Embora a população árabe, na época da partilha, comportasse 2/3 da população total da Palestina, de 1.936.000 habitantes, a ONU lhe destinou apenas 42,88% do território, com terras arenosas e pobres.

No dia 19 de março de 1948, os EUA apresentaram um projeto ao CSNU, para que fossem suspensas as atividades referente à partilha da Palestina, e que os árabes fossem convidados a concluir um armistício. Em 24 de março, a Agência Judia repudiou veementemente o projeto americano e que deveria ser posto fim ao Mandato britânico em 15 de maio, e solicita ser reconhecida como Governo de Israel.

No dia 9 de abril, ocorre o massacre de 250 palestinos na aldeia de Deir Yasin, próxima a Jerusalém, com anciões e crianças degoladas, mulheres grávidas estripadas. O bárbaro ato foi promovido por homens do Irgun e do Stern, sob o comando de Menahen Begin. Terroristas judeus já haviam assassinado 4 policiais em Tel Aviv, no dia 26 de setembro de 1947, e em 20 de outubro do mesmo ano haviam matado o Xeque Ahmed Salama Touiki e mais 4 membros de sua família, perto da localidade de Ranana.

No dia 14 de maio de 1948, em Tel Aviv, David Ben Gurión leu a proclamação do Estado de Israel. Oito horas após esse ato, o novo Estado de Israel foi invadido por tropas árabes do Egito, Síria, Jordânia e Iraque. Após essa guerra vitoriosa, Israel aumentou seu território em 50%. Os palestinos, em sua maioria, fugiram para a Jordânia, onde entraram em choque com o Exército local, culminando em 1970 num sangrento massacre de palestinos, conhecido como “Setembro Negro”. Os sobreviventes foram expulsos para o Sul do Líbano, onde Yasser Arafat montou seu quartel-general, juntamente com outros grupos de resistência palestina.

Na guerra de 1948, Israel arrasou vilas-fantasmas inteiras dos antigos moradores árabes e proibiu o retorno dos mesmos após a guerra, iniciando-se a diáspora palestina. A parte árabe da antiga Palestina, que deveria formar o novo Estado palestino, foi anexada pela Jordânia em 1950. Israel entrou, ainda, em guerra com os vizinhos árabes em 1956, 1967 e 1973, vencendo sempre. Em 1967, em apenas 6 dias, Israel tomou toda a Península do Sinai, a Faixa de Gaza, toda a margem oeste do Rio Jordão (Cisjordânia), Jerusalém-Oriental e as Colinas de Golã, na Síria. Foi o maior território já conquistado por Israel depois de 1948, aproximando-se do “Grande Israel” ou “Israel Bíblico” sonhado por Theodor Herzl e pelos judeus ortodoxos até os dias atuais. “Nessa guerra, aumentou o terrorismo de Israel contra os palestinos dos territórios ocupados. Muitas aldeias foram destruídas pelos judeus, os tratores alisando o terreno, a população tendo que fugir para escapar do massacre. As terras dos ‘ausentes’ foram confiscadas para instalação de bases militares e assentamentos agrícolas. Formaram-se ‘cinturões’ de assentamentos judeus em torno das principais cidades da Cisjordânia, como Hebron, Belém, Ramallah, Jericó e Nablus, além de Jerusalém. De 1967 até 1983, foram instaladas 163 colônias agrícolas (kibbutzim) na Cisjordânia e 12 em Gaza. No Golã sírio foram estabelecidos 29 kibbutzim entre 1967 e 1980. Enquanto os colonos judeus na Cisjordânia podiam perfurar poços artesianos de até 300 m de profundidade, os palestinos só podiam atingir 100 m” (Félix Maier, in “Egito”, pg. 153 e 154).

Após a Guerra do Yom Kippur, de 1973, iniciada pelo Egito e pela Síria contra Israel, é assinado o acordo de paz de Camp David entre egípcios e israelenses, em 1979, pelo qual Israel se compromete a devolver a Península do Sinai ao Egito, devolução essa efetuada somente em 1982.

Em 1982, durante a invasão israelense do Sul do Líbano, houve o massacre de Sabra e Chatila, sob a complacência do então Ministro da Defesa de Israel (hoje Primeiro Ministro) Ariel Sharon. Cerca de 800 refugiados palestinos foram massacrados, incluindo crianças e mulheres grávidas.

Entre 1948 e 1970, mais de 1.300.000 imigrantes judeus se instalaram na Palestina, aumentando a população judia de 700.000 para 3.000.000. A “Lei do Retorno” concede, ainda hoje, cidadania israelense a qualquer judeu no exterior que chegue para viver no país. Após o fim da URSS, houve grande fluxo de judeus russos a Israel, além de judeus africanos, como os “falashas” etíopes, atraídos pela política desenfreada de assentamentos do então Governo Yitzhak Shamir, auxiliado por seu Ministro da Habitação, Ariel Sharon, principalmente nos territórios ocupados.

Porém, após a Guerra do Golfo, em 1991, e especialmente com a nova situação política no Oriente Médio em direção à paz entre árabes e judeus, após o Acordo de Paz entre Israel e a OLP de Yasser Arafat, assinado no dia 13 de setembro de 1993, os EUA negaram um empréstimo a Israel de 10 bilhões de dólares, para congelar a política de rápida ocupação do solo da Cisjordânia. Entre 1990 e 1993, 550.000 imigrantes se estabeleceram no Estado de Israel. Em 1994, foram apenas 78.000.

A partir do Acordo de Paz de 1993, Israel cede a Faixa de Gaza e Jericó à Autoridade Palestina, embrião do que deveria ser um futuro Estado palestino. Devido a tal acordo, Yitzhak Rabin foi assassinado por um extremista judeu do Eyal, no dia 4 de novembro de 1995, da mesma forma que Anwar El-Sadat também o fora em 6 de outubro de 1981 por extremistas da Jihad Islâmica egípcia, por assinar um acordo similar com Israel.

Começando a engatinhar em Gaza e Jericó, depois por Hebron, Nablus, Ramallah, Belém e outras cidades, não se sabe se o novo Estado palestino será mesmo efetivado. Durante a última década, houve avanços e retrocessos, mais retrocessos do que avanços, em direção à paz entre israelenses e palestinos. Durante o Governo Barak, Arafat deixou escapar a melhor oportunidade para enfim criar um Estado palestino. Israel prometeu devolver 95% de toda a área da Cisjordânia, porém Arafat só concordaria com a oferta se Israel acolhesse os refugiados palestinos e devolvesse Jerusalém-Oriental para ser a capital de um Estado palestino. Após uma visita de Ariel Sharon à Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém-Oriental, em 2000, teve início uma revolta palestina generalizada, a chamada 2ª Intifada, com atentados de homens-bomba contra a população israelense se realizando quase que diariamente, culminando, em 2002, com o ataque maciço de Israel contra cidades da Cisjordânia e Gaza, com o objetivo de desmantelar os focos terroristas dos fedayn. Arafat havia provado ao mundo que, além de não ter ascendência sobre os grupos extremistas palestinos, para que não promovessem atentados contra Israel, ainda financiava os mesmos terroristas, com a importação de toneladas de armamento – como o caso do navio aprisionado pelos israelenses. Do outro lado da trincheira, o falcão Sharon aproveitou-se da situação para tirar diferença com seu desafeto preferido, alisando algumas cidades palestinas com seus tanques de guerra.

Mesmo que no futuro seja criado um Estado palestino, deve-se considerar as dificuldades da Autoridade Palestina em exercer um controle eficaz sobre seus grupos extremistas, especialmente os “homens-bomba” do Hamás e da Jihad Islâmica, além do Hizbullah que atua no Sul do Líbano, com ataques ao norte de Israel, os quais não aceitam sequer a existência do Estado de Israel. O lema desses grupos extremistas é significativo: “A guerra continuará até que Israel deixe de existir e até que o último judeu no mundo seja eliminado”. Por outro lado, deve haver uma disposição sincera de Israel realizar a completa devolução da Cisjordânia aos palestinos e conter também seus próprios extremistas. Um dos pontos da discórdia árabe-israelense continua sendo Jerusalém, eleita para ser a capital tanto de Israel como dos palestinos.

Consideração final
Essa é, resumidamente, a história do conflito árabe-israelense. Que bom seria se ambos os povos se juntassem em uma federação israelo-palestina, para o desenvolvimento daquela importante região turística, que reúne uma infinidade de templos sagrados das três religiões monoteístas – o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. A custódia dos lugares sagrados, sem dúvida, deve ser feita por judeus, cristãos e muçulmanos. Afinal, há também importantes templos cristãos em Jerusalém, embora o Papa não seja convidado para opinar sobre o atual conflito. Sem dúvida, Jerusalém deveria ser uma cidade internacional, gerenciada pela ONU. Contudo, palestinos e israelenses preferem lutar até a aniquilação mútua, em uma carnificina que lembra os tempos de bárbaros como Átila e Gengis Khan. Em dois anos de conflito, a “2ª Intifada” já provocou a morte de mais de 2.000 palestinos e de mais de 500 judeus.

Com Ariel Sharon e Yasser Arafat à frente de seus povos, não vejo solução para o conflito atual. Com uma folha corrida de intensa atividade terrorista, os chefes dos dois povos beligerantes não têm estatura moral para efetivar um acordo de paz. Eles são, respectivamente, o inimigo número um de um povo e de outro. Sugiro que ambos sofram 100 chibatadas na bunda e sejam levados à Corte Internacional de Haia, para que sejam processados ao lado do ex-presidente iugoslavo Milosevic.

Observações
Os verbetes, abaixo, complementam a compreensão de “Sionismo e resistência palestina”, e fazem parte de “Arquivo da Intolerância”, de minha autoria, publicado em Usina de Letras (www.usinadeletras.com.br):

Acordo Sykes-Picot – Acordo secreto anglo-francês, realizado em maio de 1916, para a partilha do Mashrek árabe (Oriente árabe), tornado público pela Revolução Bolchevique em 1917. Em virtude desse Acordo, após o fim da I Guerra Mundial (1918), o Iraque tornou-se dependente da Grã-Bretanha; a Palestina ficou sob Mandato britânico para ser entregue aos sionistas; a Síria e o Líbano passaram para o domínio francês.

Campo de concentração – “Denominação que se dá a estabelecimentos que, à margem dos sistemas penitenciários usuais, são utilizados para a detenção, suposta reeducação, exploração de mão-de-obra gratuita ou mesmo extermínio de pessoas, por razões ideológicas políticas e militares”. (Mirador, Vol 5, pg. 1967) No final do século XIX, o Governo espanhol criou campos de concentração em Cuba, para confinar grande quantidade de homens, mulheres e crianças, em resposta às rebeliões da Ilha. A Inglaterra copiou essa experiência na Guerra dos Bôeres, ocorrida na atual África do Sul (1899-1902), aprisionando cerca de 200 mil pessoas até o fim das hostilidades, com a anexação das repúblicas boêres ao Império Britânico. Na URSS, os Gulags eram campos de trabalhos forçados, que acolhiam os acusados de contra-revolução e espionagem, atingindo seu auge durante os expurgos stalinistas, no período de 1936 a 1938. Durante a Guerra Civil Espanhola, os franquistas, apoiados pelo III Reich, organizaram vários campos de concentração. Com o advento do Nazismo na Alemanha, os campos de concentração, inicialmente, tinham como finalidade “reeducar” os alemães contrários ao regime, a exemplo dos comunistas, sociais-democratas, católicos, protestantes e judeus. Rapidamente, os campos se transformaram em grandes comunidades de trabalho escravo, em instrumento de genocídio das “raças inferiores (ciganos, eslavos e, principalmente, judeus) e em centros de “experiências” pseudo-científicas, como as do “Anjo da Morte”, Josef Mengele. Havia campos com mais de 70 mil pessoas, de várias nacionalidades. Os presos eram identificados por um número de ordem (em Auschwitz eram tatuados no braço) e um triângulo de cor costurado nos uniformes: o verde era para criminosos comuns, o vermelho para os “políticos”, o roxo para os “opositores por convicção”, o preto para os anti-sociais, o rosa para os pederastas. Os judeus traziam sobre esse triângulo um outro, amarelo e sobreposto, para representar a estrela de Davi. Industrializavam-se a gordura, a pele, os ossos, os cabelos e os bens dos presos. Em torno de 6 milhões de pessoas perderam a vida nesses centros de terror. Havia vários campos de concentração nazistas: Bergen-Belsen, Buchenwald, Dachau, Dora, Flossenburg, Oranienburg-Sachsenhausen, Neuengamme, Ravensbrück (Alemanha); Natzwiller-Struthof (Alsácia); Mauthausen (Áustria); Kaunas, Riga (Países Bálticos); Theresienstadt (Boêmia); Auschwitz, Birkenau, Maidanek, Stutthof (Polônia).

Declaração Balfour – No dia 2 Nov 1917, o Governo britânico reconheceu a “Declaração Balfour – de seu Ministro do Exterior Arthur James Balfour -, que concedia o direito do estabelecimento de um lar judeu na Palestina. O texto, dirigido a Lord Rothschild, descendente da “família judia mais rica do mundo”, dizia o seguinte: “O Governo de S. M. vê, de modo favorável, o estabelecimento de um lar nacional para o povo judeu na Palestina e fará todos os esforços para facilitar a implementação deste projeto, seguro de que tal concessão não poderá causar qualquer prejuízo aos direitos civis e religiosos dos povos não-judeus residentes na Palestina, como também não prejudicará os direitos e a situação política de que desfrutam os judeus em todos os países. Ficarei muito agradecido se você transmitir essa declaração aos conhecimento da Federação Sionista. Com o maior afeto. Assinado: Arthur James Balfour”. (Cfr. Hussein Triki, in “Eis aqui Palestina”, pg. 74).

Fedayn – Suicidas muçulmanos, os “homens-bomba” são empregados em atentados, especialmente contra alvos israelenses. O atentado mais espetacular desse tipo de suicídio que se conhece foram os “aviões-bomba” lançados contra as torres gêmeas de Nova York e contra o Pentágono, no dia 11 de setembro de 2001.

Fundamentalismo – Conceito protestante que surgiu no século XX, para defender e conservar os elementos “fundamentais” da fé cristã, através da interpretação literal da Bíblia. Atualmente, refere-se ao conjunto de ideologias que vêem, exclusivamente nos fundamentos da religião, a base para a organização da vida social e política. Principais movimentos fundamentalistas no mundo: 1) Fundamentalismo islâmico: teve origem na Arábia Saudita, durante o século XVIII, com o Wahabismo, uma teoideologia radical formulada na versão radical do Islamismo; exemplos de fundamentalismo islâmico: xiítas no Irã, após a Revolução Iraniana de 1979, conduzida por Ruhollah Khomeini; a Gammaat-i-Islamia no Egito; a FIS na Argélia; o Hezbollah no Líbano; o Hamás nos territórios ocupados por Israel; a milícia Talibã no Afeganistão; 2) Fundamentalismo hindu: como exemplo temos: a organização Shiv Sena e o Partido Bharatiya Janata (BJP), os quais destilam seu ódio contra os demais segmentos religiosos da Índia, especialmente muçulmanos; e os Sikhs, membros de uma seita hindu monoteísta fundada no século XVI, que desejam fundar o Khalistão (“Terra dos Puros”) em território indiano; 3) Fundamentalismo judaico: o Eyal (Força Judaica Combatente) e o Kahane Vive.

Hagganah – Guarda Nacional judaica, instalada em cada kibbutz na Palestina, especialmente a partir de 1920, quando a Grã-Bretanha foi investida do Mandato sobre a Palestina, e que cresceu consideravelmente durante a Revolta Árabe contra os judeus, de 1936 a 1938, pois a população judaica vinda da Rússia e da Europa Oriental (especialmente depois de 1933, com a perseguição nazista) aumentou para 29% da população palestina (dados de 1938). O Hagganah foi o embrião do Exército de Israel e é acusado de ter raptado o coronel nazista Adolf Eichmann, em 1960, na Argentina, com a complacência do Governo de Frondizi.

Hamás – “Entusiasmo” (em árabe). Movimento de Resistência Islâmico-Palestino. Grupo radical anti-sionista, formado em 1978 a partir da “Irmandade Muçulmana”, tornou-se o principal rival da Al-Fatah nos territórios ocupados por Israel (Faixa de Gaza e Cisjordânia), onde tem concentrada sua força. Promove atentados suicidas contra israelenses, principalmente a partir da 2ª Intifada.

Hizbollah – “Partido de Deus” (em árabe). Grupo xiita radical formado no Líbano, dedica-se a criar um Estado islâmico nos moldes do Irã. É anti-Ocidente e anti-Israel e responsabilizou-se pelo atentado do carro-bomba contra a Embaixada Israelense em Buenos Aires, em março de 1992. É suspeito de ter atacado a Embaixada Americana e o acampamento dos “marines” em Beirute, em outubro de 1983. Opera no Vale do Bekaa e Sul do Líbano. Tem filiais em 17 países muçulmanos e agentes “dormentes” na Europa (sobretudo Alemanha), nos EUA e na América do Sul. Criado pelo Serviço Secreto do Irã, recebe desse país ajuda financeira, treinamento, armas, explosivos e facilidades diplomáticas. Treina seus militantes no Campo de Nahavand, em Hamadan, a Sudoeste de Teerã. Também conhecido como Jihad Islâmica, Organização da Justiça Revolucionária, Organização dos Oprimidos sobre a Terra e Jihad Islâmica para a Libertação da Palestina.

Iídiche – Idioma da diáspora judaica, foi utilizado por 11 milhões de judeus Ashkenazim até o Holocausto. Era uma língua coloquial, com mesclagem do Alto Alemão e do Hebraico, enriquecida por frases e expressões singulares da vida de vilarejos da Europa Oriental. Os Ashkenazim eram descendentes de tribos jázares, de antepassados russos e polacos, convertidos ao judaísmo no curso do século VIII. O Ladino era o idioma utilizado por outra corrente do judaísmo, os Sefaradim, uma forma arcaica do castelhano. Enquanto ocorre um renascimento mundial do Iídiche, o Ladino perde espaço entre os Sefaradim, maioria em Israel. Os Ashkenazim consideram-se descendentes dos judeus do Israel bíblico, e identificam os Sefaradim como descendentes dos judeus da Babilônia. Dentre nomes importantes, podemos destacar no mundo Sefaradi o filósofo, médico, jurista e escritor Maimônides, o filósofo Baruch Spinoza e o novelista Benjamin Disraeli; no mundo Ashkenazi, destacam-se Albert Einstein, Sigmund Freud e Karl Marx, descendente de rabinos e convertido pelo pai à Igreja Luterana.

Irgun – Organização terrorista judaica, chefiada por Menahem Begin, desejava um Estado de Israel com as fronteiras bíblicas originais. Na guerra de 1967, com a conquista da Península do Sinai, Faixa de Gaza, Cisjordânia, Jerusalém-Oriental e Colinas de Golã, trouxe aquela meta mais próxima de sua realização.

Massacre de Deir Yasin – Na manhã de 9 de abril de 1948, houve o massacre de 250 palestinos (incluindo 100 mulheres e crianças), na aldeia de Deir Yasin, próxima a Jerusalém. Anciões e crianças foram degoladas, mulheres grávidas estripadas. O ato terrorista, executado por homens do Irgun e do Stern, sob comando do chefe do Irgun, Menahem Begin, tinha como objetivo amedrontar os árabes. Após o massacre, o restante da população de Deir Yasin foi forçada a desfilar como animais pelas ruas de Jerusalém. “O banho de sangue de Deir Yasin foi a operação mais abjeta jamais realizada pelos terroristas sionistas” (Arthur Koestler, escritor judeu, in “Promise and Fulfilment”, Mac Millan, New York, 1949; cfr. Hussein Triki, op. cit., pg. 182). No dia 26 de setembro de 1947, terroristas judeus já haviam matado 4 policiais britânicos em Tel Aviv, e, em 20 de outubro do mesmo ano, o Xeque Ahmed Salama Touiki e mais quatro membros de sua família perto da localidade de Ranana.

Naródnaya Voliá – A Vontade do Povo: sociedade terrorista secreta dedicada à derrubada do czarismo, que se originou do Zemlya Volya. Existiu de 1879 até ser desbaratada em 1881, quando alguns de seus membros participaram do assassinato do Czar Alexandre II, incluindo a judia Vera Figner. O assassinato do Czar provocou terrível onda de perseguições aos judeus. A partir de 1882, começou a “invasão” de judeus à Palestina, especialmente atendendo ao chamado de 3 altos dirigentes sionistas: o Grande Rabino Tzvi Hirsch Kalischer, Moses Hess e Leo Pinsker.

Protocolos dos Sábios de Sião, Os – O texto dos “Protocolos”, considerado apócrifo pelos judeus, seria uma pretensão judaica de dominação do planeta. “Sergio Nilus publicou os ‘Protocolos dos Sábios de Sião’, ou plano secreto dos judeus, pela primeira vez em São Petersburgo, em 1902. Existe um exemplar dessa edição na biblioteca do British Museum de Londres, com o número 3926, d. 17, registrado a 10 de agosto de 1906. Os judeus consideram os ‘Protocolos dos Sábios de Sião’ um texto apócrifo; mas, está ao alcance de quem desejar comprovar sua autenticidade, para o que bastaria considerar a sistuação política, econômica e social que prevalecia no seio das sociedades humanas, principalmente na Europa, América e no Oriente Médio até 1897, e, logo, confrontar os objetivos sionistas fixados nesses ‘Protocolos’ e os meios de alcançá-los, com o que vem sucedendo desde o fim do século XIX até hoje. A coincidência dos acontecimentos que ocorreram – e ainda ocorrem – com os postulados dos ‘PROTOCOLOS’ é tão evidente como espantoso(!)… tal coincidência jamais pode ser o resultado de pura casualidade!” (Hussein Triki, in “Eis aqui Palestina”, pg. 293) Veja aqui eaqui também

Sabra e Chatila – Locais de campos de refugiados palestinos, no Sul do Líbano, nos quais ocorreu o massacre na noite de 16 para 17 de setembro de 1982, em área sob controle das Forças de Defesa de Israel (IDF). Os autores do massacre foram milicianos cristãos, liderados por aliados de Israel na invasão do Líbano, ocorrida naquele mesmo ano. Ariel Sharon, então Ministro da Defesa de Israel, consentiu o ataque, segundo comissão de inquérito realizada em Israel. Foram massacrados em torno de 800 pessoas, incluindo velhos, crianças e mulheres grávidas. Elie Hobeika, ex-ministro do Líbano, acusado de comandar as milícias cristãs nos massacres, morreu em uma explosão de carro-bomba, junto com 3 guarda-costas, no dia 24 de janeiro de 2002.

Stern – Grupo terrorista organizado por Menahen Begin, israelense nascido na Rússia Branca, cujos membros assassinaram, em 1948, o Conde Folke Bernadotte (parente da família real sueca), mediador internacional da ONU em Jerusalém, e seu assistente francês, André Serot. Begin também chefiou o Irgun e o Partido extremista do Kahal.

Bibliografia
1. MAIER, Félix. Egito – uma viagem ao berço de nossa civilização. Editora Thesaurus, Brasília, 1995. 2. TRIKI, Hussein. Eis aqui Palestina… O Sionismo ao Desnudo. Gráfica O Popular S.A., Goiânia, GO, 1980.

(*) O autor viveu 2 anos no Cairo (1990-92), a trabalho na Embaixada Brasileira. 

Félix Maier
Brasília, 14/11/2002

Sionismo, um ódio que afoga Israel

Por Ilan Pappe*

Minha visita à minha família na Galileia coincidiu, este ano, com o ataque genocida de Israel contra Gaza. O Estado israelense, amparado em sua mídia e com a ajuda de sua academia, fez soar uma voz unânime – mais alta, desta vez, do que quando do ataque criminoso de Israel contra o Líbano no verão de 2006. Mais uma vez, Israel afoga-se em ódio. E esse ódio traduz-se em políticas cada vez mais destrutivas na Faixa de Gaza.
A doentia autojustificação para a desumanidade e para a impunidade não pode ser descrita como apenas doentia e tem de ser enfrentada, se se deseja entender por que e como o mundo, hoje, parece insensível e é quase como se ninguém visse o massacre que devasta a Faixa de Gaza.
Antes de mais nada, a aparente insensibilidade do mundo baseia-se na quantidade inacreditável de mentiras que se lêem nos jornais e ouvem-se pela televisão – quantidade e qualidade de mentiras que fazem lembrar os dias mais negros da Europa durante os anos 30.
Todos os boletins noticiosos, praticamente em todo o Ocidente, por rádio, televisão e pelos jornais, descrevem as vítimas do massacre de Gaza como terroristas; e descrevem a matança enlouquecida que Israel está praticando lá, como se fossem atos de autodefesa.
O governo de Israel apresenta-se também aos israelenses como vítima que se defende contra algum indescritível ‘mal’. O mundo acadêmico foi recrutado para explicar o quão demoníacos e monstruosos são os palestinos; que sua luta é a de perversos liderados pelo Hamas; e que o Hamas encarnaria o sumo da perversidade. Os intelectuais alugados de hoje são os mesmos que demonizaram Yasser Arafat, faz pouco tempo, e que obraram para deslegitimar seu movimento, o Fatah, durante a segunda intifada palestina.
Mas as mentiras e representações distorcidas não são o pior. O pior é o ataque direto aos últimos restos de humanidade e dignidade do povo palestino, sim, mas também dos próprios cidadãos israelenses.
Os palestinos em Israel manifestaram-se solidários ao povo de Gaza e são hoje como uma quinta coluna dentro do Estado judeu; seu direito de viver na terra que lhes pertence é hoje ‘duvidoso’, porque não apoiam a agressão de Israel. Os palestinos que aceitam – erradamente, na minha opinião -mostrar-se nos canais de televisão são interrogados (não propriamente entrevistados), como se fossem prisioneiros dos cárceres da Shin Bet.
Antes de abrirem a boca, são prefaciados (e, depois, são posfaciados) por observações racistas, acusados de traição, de serem gente fanática e irracional. E isso ainda não é o pior.
Algumas crianças dos territórios ocupados foram admitidas para tratamento de câncer em hospitais israelenses. Deus sabe o quanto os pais tiveram de pagar para conseguir algum tratamento para os filhos doentes de câncer. Pois a Rádio Israel vai ao hospital e exige que esses pais desgraçados falem ao público israelense sobre o direito de Israel defender-se do mal-em-si encarnado no Hamas. Isso eu ouvi lá.
Não há limite para a hipocrisia que o ódio que rege o Estado de Israel é capaz de gerar. O discurso dos generais e dos políticos move-se, errático, entre o autoelogio (com referências a o quanto o exército de Israel seria ‘humano’, porque faz incursões ‘cirúrgicas’, rápidas), por um lado, e, por outro, os generais falam da ‘necessidade’ de Gaza ser varrida do mundo, de uma vez por todas; genocídio ‘humano’, é claro.
Essa fúria fundamentalista é fenômeno repetido na ocupação israelense hoje, como antes foi fenômeno comum na ocupação sionista. Cada ato, seja de limpeza étnica, seja de ocupação, massacre, assalto ou roubo, sempre é mostrado como moralmente justo e como ato de pura e simples autodefesa… ao qual Israel é relutantemente arrastado, na sua luta de vida ou morte contra os piores seres humanos que há.
Em seu excelente trabalho {The Returns of Zionism: Myths, Politics and Scholarship in Israel} [O ressurgir do sionismo: mitos, política e intelectuais em Israel], Gabi Piterberg explora as origens ideológicas e a progressão histórica do sionismo, esse ódio fundamentalista que move os judeus de Israel ainda hoje.
Hoje, em Israel, da esquerda à direita, do Likud ao Kadima, da academia à mídia, ouve-se de todos os lados o mesmo ódio fundamentalista de um Estado que, mais que qualquer outro do mundo, empenha-se hoje, sobretudo, numa guerra de extermínio de uma população indígena, autóctone.
É crucialmente importante explorar as raízes ideológicas dessa atitude e extrair as conclusões políticas inescapáveis que explicam a prevalência do discurso do ódio israelense, hoje, sobre quaisquer outros discursos.
A fúria e o ódio fundamentalistas que envenenam Israel servem como escudo, na sociedade israelense contemporânea, tanto quanto em seus políticos, e os tornam imunes a qualquer objetividade e a qualquer crítica. Pior que tudo, são fúria e ódio fundamentalistas que sempre se traduzem em políticas destrutivas. Essas políticas visam destruir os palestinos.
Sem qualquer mecanismo interno de crítica ou de contenção, cada palestino é convertido em alvo da sempre imutável fúria fundamentalista de Israel. Dado que Israel é hoje exclusivamente uma máquina de matar, todo esse poder de fogo, sem força de compensação ou de crítica que o detenha, só pode terminar, como termina sempre, em assassinatos em massa, em massacres coletivos, em chacinas que são, sempre, etnocídios, genocídios, limpeza étnica.
O autoconvencimento fanático, cego, que move Israel hoje, sempre é poderoso ato de autonegação e de autojustificação. Só isso explica que a sociedade israelense não se deixe comover por seja qual for o argumento de sabedoria, de persuasão lógica ou de diálogo diplomático. Quem não aceite ser convertido em instrumento de violência e morte é imediatamente convertido em traidor.
Quem não aceite a violência como meio para enfrentar a violência só encontra uma saída: desafiar cara a cara o fanatismo israelense, denunciá-lo por ser o que é: ideologia que autoriza a cometer e a encobrir as mais horrendas atrocidades.
Outro nome para a mesma ideologia é “sionismo”, que também atende por outros nomes, máscaras internacionais do mesmo sionismo, para justificar não só as políticas de massacre que Israel pratica, mas outras. A única via possível para enfrentar todas as políticas de massacre é rejeitar todo o sionismo. Todo ele, com suas várias faces.
É indispensável explicar ao mundo – mas também, especificamente aos israelenses, hoje – que o sionismo é uma ideologia que prega o genocídio, a limpeza étnica, a ocupação e, como hoje se vê em Gaza, também os massacres em grande escala de civis.
É indispensável condenar o massacre em curso em Gaza, mas também denunciar a ideologia que produziu as políticas que levaram ao massacre em Gaza. Uma mesma ideologia – o sionismo – opera o massacre em Gaza e trabalha para justificá-lo no plano moral e no plano político.
Esperemos que vozes respeitáveis em todo o mundo ajudem Israel a aprender que o sionismo é hoje teoria inaceitável e que, enquanto o sionismo sobreviver em Israel, Israel, não a Palestina, não poderá aspirar, com justiça, a ser incluída entre as nações civilizadas e merecerá boicote e sanções.
Não sou ingênuo. Sei que nem a morte de centenas de palestinos inocentes bastará para mudar tendências inerciais na opinião pública ocidental. Muito menos creio que os crimes cometidos por Israel contra a Palestina levarão os governos europeus a mudar suas políticas para a Palestina.
Mesmo assim, não podemos admitir que 2009 seja outro ano, ainda menos significativo que 2008 – ano de aniversário da catástrofe, a Nakba -, que passará sem que se cumpra qualquer das legítimas esperanças dos palestinos, sem que se altere qualquer das atitudes do Ocidente em relação à Palestina e aos palestinos.
Hoje, é como se os mais horrendos crimes, como o genocídio em Gaza, pudessem ser noticiados como eventos pontuais, desconectados de qualquer história, sem ligação com o passado, sem conexão com qualquer sistema ou ideologia.
Neste ano de 2009, trabalhemos para atualizar a opinião pública sobre a história da Palestina e sobre a tragédia que foi, para todo o mundo ocidental, o sionismo.
Só o sionismo e seu cortejo de desatinos explicam monstruosidade como a que está em curso hoje, em Gaza. E evitar que prossiga a monstruosidade hoje em curso em Gaza é meio para evitar que se cometam outras monstruosidades semelhantes.
Em termos acadêmicos, já se fez a denúncia do sionismo. O grande desafio hoje é encontrar via eficiente para explicar a conexão entre a ideologia sionista do passado e as políticas de destruição presentes, ativadas pelo Estado de Israel, contra a Palestina, em janeiro de 2009. Porque são as mesmas políticas do sionismo, do passado ao presente; e hoje estão institucionalizadas em Israel, Estado constituído.
Talvez hoje seja boa hora para construir essas explicações, mesmo sob as mais terríveis circunstâncias, enquanto os olhos do mundo estão voltados para a Palestina, mais uma vez. Muito mais difícil será construir essas explicações depois, quando a situação estiver mais ‘calma’ ou for menos dramática. No instante em que o morticínio de palestinos estiver consumado, tudo parecerá mais ‘relaxado’ e, outra vez, a mídia ocidental marginalizará a tragédia da Palestina e dos palestinos. Acontecerá, com a Palestina e os palestinos o que já aconteceu com os horrendos genocídios na África: serão apagados por alguma nova crise econômica ou por novos cenários de apocalipse ecológico.
A mídia ocidental jamais se interessará por levantamentos históricos, mas é preciso insistir, porque só mediante alguma consideração histórica um pouco menos superficial do que tudo que se conhece hoje como ‘mídia’ será possível conhecer a magnitude dos crimes que se cometem contra os palestinos, de fato, já há 60 anos!
É tarefa, pois, dos intelectuais e da academia democrática e progressista e de alguma mídia democrática e progressista que haja insistir em investigar e expor o contexto histórico em que Israel nasceu, no exato instante em que a Palestina começou a ser assassinada. Esses atores sociais não podem fugir do dever de civilizar a opinião pública e, talvez, influenciar alguns políticos mais sérios, para que considerem e ensinem a considerar os eventos que hoje se noticiam sobre a Palestina, a partir de uma perspectiva histórica mais ampla.
Do mesmo modo, talvez encontremos um tom mais popular, menos acadêmico, menos elitista, para explicar claramente que a política de Estado de Israel – ao longo dos últimos 60 anos – fundamenta-se numa ideologia conhecida como sionismo. E que o sionismo, há décadas, pratica políticas de ódio e de intolerância, de fúria bélica, de matanças.
Apesar da certeza de que choverão acusações de antissemitismo, é mais que hora de trabalhar para associar, na opinião pública, a ideologia sionista e eventos de que todos já ouviram falar, mas como se fossem eventos nascidos do nada, e que todos são eventos gerados pelo sionismo: a limpeza étnica na Palestina em 1948, a opressão dos palestinos por Israel, durante décadas; a brutal ocupação da Cisjordânia. E, hoje, o massacre de Gaza.
Assim como a ideologia da {apartheid} explica as políticas de violência praticadas por governos da África do Sul, também a ideologia do sionismo – em uma variante consensual e simplista – ‘autorizou’ os governos de Israel, no passado e até hoje, a desumanizar os palestinos onde quer que estivessem e a bombardeá-los para destruí-los como sociedade e como comunidade humana.
Os meios do extermínio variaram em cada época, em cada local, tanto quanto as narrativas de encobrimento para ocultar as atrocidades. Mas em todos os casos houve sempre um mesmo padrão, que já não pode ser discutido apenas nas torres de marfim das academias e tem de ser trazido para os discursos sociais mais amplos, para a chamada “opinião pública”.
Muitos de nós, intelectuais comprometidos com construir paz e justiça na Palestina, não poucas vezes evitamos essas discussões, o que se entende, se se conhecem as condições de vida nos territórios palestinos ocupados (TPO), Cisjordânia e Faixa de Gaza. Sobreviver naquelas condições, sempre em luta contra as políticas criminosas de Israel, é missão urgente.
Mas em nenhum caso se pode sobreviver à custa de fazer crer que aceitamos que os poderes estabelecidos pelo Ocidente tenham varrido do mundo as questões reais, que a Palestina seria apenas uma Cisjordânia e uma Faixa de Gaza e que “palestinos” seriam só os habitantes dessas áreas. Sem história. Sem passado. Nascidos do nada. Temos de ampliar a representação histórica e demográfica da Palestina, o que só se conseguirá se reconstruirmos a narrativa histórica completa, sem furos, desde 1948 até hoje, e toda a correspondente reivindicação de plenos direitos civis para a população autóctone que ali já vivia, onde hoje só há os territórios ocupados da Palestina… e Israel.
Restabelecendo os elos entre a ideologia sionista e as políticas do passado, até as atrocidades de hoje, então, sim, reconstruiremos uma narrativa clara e lógica, a partir da qual se poderá trabalhar a favor de uma campanha internacional de boicote a Israel, de desinvestimentos e de sanções internacionais.
Busquemos meios não-violentos para enfrentar um Estado que, até hoje, só recorreu aos meios da mais desmedida violência e que, auxiliado por uma ‘comunidade internacional’ muda e omissa, fez da destruição dos palestinos profissão de fé.
A defesa da Palestina é causa justa e moral. O boicote a Israel, portanto, também é causa justa e moral. Nos dois casos, trata-se de levantar a opinião pública em todo o mundo, não só contra as políticas de genocídio dos palestinos.
Mais importante que tudo: qualquer sinal de mobilização moral do Ocidente, a favor da Palestina ocupada, ajudará a aliviar o sufocamento em que vivem os palestinos, tão insuportável, tão infinitamente insuportável, que os torna presa de todos os riscos da fúria desmedida, do desespero absoluto.
Assim como se deve pôr termo à imoral impunidade de Israel, é preciso pôr fim à indiferença também imoral do Ocidente em relação ao holocausto dos palestinos.
Quebrada essa indiferença imoral, deve-se esperar que cada vez mais cidadãos israelenses comecem a perceber a verdadeira natureza dos crimes de Israel. Então, afinal, ter-se-á varrido do mundo o sionismo. E será possível arrancar todos – israelenses e palestinenses – desse ciclo infernal de sangue em que vivem há 60 anos.

* Ilan Pappe é professor catedrático do Departamento de História na University of Exeter em Londres. Artigo publicado originalmente em The Electronic Intifada, 2/1/2009 (http://electronicin tifada.net/ v2/article10100.shtml). Tradução de Caia Fittipaldi.