Arquivo da categoria: Tawfiq Zayyad

NÃO IREMOS EMBORA

Tawfiq Zayyad

Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Com uma muralha
Em vossas goelas
Com cacos de vidro
Imperturbáveis
E em vossos olhos
Como uma tempestade de fogo
Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Com uma muralha
Em lavar os pratos em vossas casas
Em enchar os copos dos senhores
Em esfregar os ladrilhos das cozinhas pretas
Para arrancar
A comida de nossos filhos
De vossas presas azuis
Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Famintos
Nus

Provocadores
Declamando poemas
Somos os quardiães da sombra
Das laranjeiras e das oliveiras
Semeamos as idéias como o fermento na massa
Nossos nervos são de gelo
Mas nossos corações vomitam fogo
Quando tivermos sede
Espremeremos as pedras
E comeremos terra
Quando estivermos famintos
Mas não iremos embora
E não seremos avarentos como nosso sangue
Aqui
Temos um passado
E um presente
Aqui
Está nosso futuro

Biografia Tawfiq Zayyad

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Tawfiq Zayyad, palestino de Nazaré, nascido em 1940, Membro do Partido Comunista de Israel, deputado no   parlamento israelense, defensor contumaz de seu povo contra a intolerância e a política cruel oriunda da vitória do estado sionista. É autor das seguintes obras (*): Os estrecho las manos, 1968: Enterrad vuestros muertos y alzaos, 1969; Canciones de revolución y rabia, 1970; Comunistas, 1970; Omm – Durman. La hoz, el sable y la melodía , s.d.; Júbilos de la muerte y el martirio, 1972; Los prisioneros de la libertad y otros poemas prohibidos, 1974; Circunstancia del mundo, 1975. Cultivou também a novela e o teatro e ainda foi autor de um livro sobre literatura popular palestina, em 1970. Obra esta muito interessante pelo tema em si, onde tratou em especial de um personagem da revolução nacionalista palestina de 1936: Husayn al-Ali al-Zubaydi, que logo passou à canção popular. Poeta arrogante, imprecatório, diretíssimo, Zayyad foi desde o princípio um dos máximos expoentes da obra lírica da resistência palestina. Categórico, desordeiro, poderoso, foi a sua uma poesia de hachazo y de añafil, de machadadas e trombetas, dirigida sempre ao interlocutor correspondente: seu povo, ao qual animava, sacudia, provocava, em perseguição ao objetivo libertador e justo, irrenunciável.
Faleceu em 1994

COM OS DENTES

Tawfiq Zayyad

Com os dentes
Defenderei cada polegada da minha pátria
Com os dentes

E não quero nada em troca dela
Mesmo que me deixam pendurado
Nas minhas veias

Aqui permaneço
Escravo do meu amor… a`cerca da minha casa
Ao orvalho…e às géis flores do campo

Aqui continuo
E não poderão derrubar-me
Todas as minhas dores

Aqui permaneço
Com vocês
No meu coração

E com os dentes
Defenderei cada polegada da terra da pátria
Com os dentes

ESCRITO NO TRONCO DE UMA OLIVEIRA

Tawfiq Zayyad

Porque eu não fio lã
Porque eu estou exposto cada dia
A uma ordem de prisão
E minha casa à mercê
De visitas policiais
De averguaçãoes
Das operações de limpeza
Porque não me é possível
Comprar papel
Gravarei tudo o que me acontece
Gravarei todos os meus segredos
Numa oliveira
No pátio
De meu lar
Gravarei minha história
E o retábulo de meu drama
E meus suspiros
Em meus jardim
E nas tumbas dos meus mortos
E gravarei
Todas as amarguras
Que um décimo das doçuras que virão apagará

Gravarei o número
De cada cavalaria despojada de nossa terra a
localização de minha aldeia, seus limites
As casas dinamitadas
Minhas árvores arrancadas
Cada florzinha esmagada
Os nomes dos que se deleitaram
Em descompor meus nervos e minha respiração
Os nomes das prisão
As marcas de todas as algemas
Fechadas em meus punhos
As botas de meus carcereiros
Cada juramento
Atirdo em minha cabeça

E gravarei
Kafr Kassem
Eu não o esquecerei
E gravarei
Deir Yassin
Tua lembrança me tortura
E gravarei
Atingimos o cume da tragédia
Gravarei tudo o que o sol me mostra
A lua me murmura
O que me conta a rola
Nos poços
Dos quais os namorados se exilaram
Para que eu lembre
Ficarei de pé para gravar
Todo o retábulo de meu drama
E todas as etapas de derrota
Do infinitamente pequeno
Ao infintimente grande
Sobre um tronco de oliveira
No pátio
de meu lar

REGRESSOS

Tawfiq Zayyad
I
Que lágrimas traz
Esta vento qua sobra do oriente
Carregado de clamores dos meus ausentes
Estrangulado de saudade
Brutal
As notas nuas
Que saturam a terra e o horizonte
Que drenam o desespero das planícies
O cheiro do orvalho, do sangue, da escravidão
Em minha cara, em minha garganta
Que lágrimas traz
Este vento que sopra do oriente

II
Chamo-os
Dou-lhes as mãos
Beijo a terra sob suas sandálias
E digo: minha vida ihes pertence
E lhes ofereço
A claridade de meus olhos
E lhes dou
O calor do meu coração
pois o drama que vivo
é minha porção de sua tragédia
chamo-os
dou-lhes as mãos

Eu
Nada neguei à minha pátria
E não baixei a cabeça
Me levantei diante do opressor
Órfão, despojado, pés descalços
Levei meu sangue na palma de minhas mãos
Não pus minha bandeira a meio pau
E protegi o capim
Na tumba de meus antepassados
Chamo-os
Dou-lhes as mãos