Arquivo da categoria: Fadwa Toqan

Biografia Fadwa Tuqan

Fadwa(2)

Fadwa Tuqan, palestina, nascida em Nablus no ano de 1914. Irmã de Ibrahim e pertencente a uma respeitada família de intelectuais e políticos, alguns dos quais colaboraram com o governo jordaniano. Educou-se em
escolas cristãs. Tem vivido praticamente sem interrupções em sua cidade natal, em meio a um certo clima de recolhimento e semi-clausura, ainda que tenha também participado publicamente, por vezes, da dura batalha sócio-cultural e política que caracteriza seu povo. Publicou vários livros de poemas (*): Sola con los días, 1952; La encontré, 1957; Danos amor, 1960;
Ante la puerta cerrada, 1967; El comando y la tierra, 1968; La noche y los jinetes, 1969; Sola en la cumbre de este mundo, 1974, e uma apaixonada biografia de seu  irmão, Mi hermano Ibrahim, 1946. A poesia de Fadwa aparece como a esplendida revelação de uma sensibilidade feminina tradicional: lírica e intimista, apaixonada e contida. Sua obra surge banhada em uma tênue e irisada luz de anelo e nostalgia, transparente, quando a tragédia de sua pátria chega a seus extremos de dor e sofrimento.
Fadwa sabe alçar-se também a uma poesia de matrona de útero aberto e rasgado, propiciadora do parto, comoventemente fecunda, de indubitável alcance épico e tom heróico.

PARTO

Fadwa Toqan

O vento arrasta as sementes
E nossa terra treme, na noite, com as dores do parto

O carrasco engana-se
Repetindo para ele mesmo a história da incapacidade
A história das ruínas e os escombros

Ó h nossa jovem manhã! Conte você ao carrasco
Como são as dores do parto
Conte a ele como nascem as margaridas
Da dor da terra
E como a manha se ergue
Das rosas de sangue das feridas.

SEMPRE VIVO

Fadwa Toqan

Não, querida pátria
Apesar de tudo, na planíce Sombria
Na pedra da dor
Não poderão, nosso amor
Arrancar teus olhos
Não poderão
Deixa que sufoquem os sonhos e a esperança
Deixa que preguem na cruz a liberdade de construir e
trabalhar
Que roubem os risos das crianças
Que queimem
Que destruam
Da propria miséria
Da nossa tristeza
Do sangue seco nas nossas paredes
Do tremor da vida e da morte
Novamente se erguerá a vida
Nossa velha ferida!
Nossa dor!
Nosso único amor

CARTA ÀS CRIANÇAS DA MARGEM ORIENTAL

Fadwa Toqan

Queridas crianças
Do outro lado do rio
Queridas crianças
Tenho para vocês
Muitas histórias
Diferentes de Simbad o Marujo
Diferentes de O Gênio é o Pescador
Da de Qamar Azzamane e a Princesa
Tenho para vocês
Novas histórias
Mas temo que ao contar-lhes as peripécias
Afogue a luz do universo de vocês
Turve a paz e a serenidade
Da ilha da inocência
Temos pelo pequeno mundo de vocês
Histórias de encarcerados e carcereiros
Histórias de nazistas e nazismo
Em nossa pátria
São tristes
E fazem as crianças envelhecerem
De terror

Não perguntem quando e como chegará ao fim
A história da dispersão e da privação
Porque hoje não entenderiam a resposta
E quando crescerem
Minhas queridas crianças
A experiência ensinará vocês
Nassa dia, carregarão o fardo como nós
E cumprirão sua parte
Na epopéia da luta
É longa nossa história
Longa
A epopéia da luta
Nesse dia
Ó tesouro descoberto
Vocês saberão quando e como voltaremos a ver os
exiliados
E como acabará
A história da dispersão
E da privação

DIÁRIO DE MAZEN (1)

Fadwa Toqan 

Me sento para escrever…
Que posso escrever hoje?
Para que servem minhas palavras?
Direi: ó povo meu!ó minha pátria!
Para quê?
Por acaso não é absurdo
Sentar-se, hoje, para escrever?
Por acaso minha palavra protegerá a minha pátria?
Por acaso as palavras salvarão o meu povo?
Hoje
Todas as palvras
São de sal
Onde nada cresce
Onde nada floresce
Hoje

No cúmulo da tristeza
Uma luz deslizou no seu coração
E seus olhos acenderam-se
Fechou seu diário
Mazen, o corajoso, levantou-se
Carregando todo seu amor
Pela sua terra e seu povo
E os estilhaços de esperança

Vou-me embora, mãe
Vou com meus companheiros
Ao encontro do destino
Que pesa como uma pedra
Pendurada em meu pescoço
Saio daqui
E tudo o que possou
Amor, pulsações
Gostos e desgostos
O entrego pela pátria
É o meu dote para a terra
Mãe, nada é mais amado do que você
A não ser a terra
– Ó filho
Meu coração
Filho…

Mãe, o disfile da vitória
Ainda vai demorar
Mas virá
A glória apressa seus passos

– Ó meu filho
Filho…

Não desespere
Se eu cair antes do retorno
O caminho é longo
E doloroso
Se perde de vista
E ninguém sabe onde terminará
Atravessamos, com aluz do sangue
As praias da noite
Para que alegria chegue atrás de nós
Porque a alegria deve chegar
Na mesma medida que a perdemos

– ó filho
Vai, filho

A mãe deu-lhe a sua benção
E rezou a deus por ele
Mazen era seu príncipe, seu orgulho
Era seu nobre cavalheiro
Mazen era toda sua grandeza
Seu imenso sacrifício pela pátria

Na noite infinita
No meio do vento
A mãe levantou-se para rezar
E elevou seu rosto ao céu
Um céu que transbordava
De estrelas e mistérios

Ó dia em que o trouxe à vida
Como um pedacinho de carne perfumada
Com o cheiro da terra!
Ó dia em que lhe dei o meu seio
E ele descobriu o caminho da vida
Na gota de leite!
Meu filho
Para hoje,só para hoje

Te trouxe ao mundo
Te amamentei
Te dei meu sangue
Minhas pusações
E tudo o que podem dar as mães
Ó filho, planta arrancada da terra fértil
Vai
Não há nada mais amado do que você, filho
A não ser a terra
Tubás fica atrás das montanhas
Ouvidos que espreitam na noite
Olhos sem sono
O vento, atrás dos limites do silêncio
Sopra entre as montanhas
Ofegante, atrás do hálito perdido
Corre dentro do círculo da morte
Seja bem-vindo, morte!…
A estrela cadente se incendiou
A travessou as montanhas
Como um furacão
Semeando a luz
Numa terra que nunca será derrotada