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Dos escombros da Palestina surgem os poetas combatentes

Dos escombros da Palestina surgem os poetas combatentes

Dos escombros da Palestina surgem os poetas combatentes

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Ó meu povo, ó minha pátria, o que posso escrever e para quem? Espero não ter que escrever até a carta da vitória. Assoviem, ó balas e cala-te, lápis!”

Essas palavras foram encontradas no diário do guerrilheiro Mazin Abu Ghazzalah, que participou de uma ação da resistência palestina desencadeada em 30 de setembro de 1967. Após resistir por três dias, Mazin conseguiu cobrir a retirada de seus companheiros, e suas munições se esgotaram. Cercado por vários soldados, fez explodir duas granadas em suas mãos, morrendo ao mesmo tempo em que matava os inimigos.

No auge da aflição
uma divina luz iluminou cada dobra de seu coração
e em seus olhos acenderam-se brasas
fechou seu diário
Mazin, o grande valente se ergueu
levando o peso de seu amor
as penas de sua terra e de seu povo
e os espalhados estilhaços de esperança

Assim escreveu a poetisa Fadwa Tuqan. Nascida em 1º de março de 1917, na cidade de Naplusa, onde sua família tinha se estabelecido desde o início do século XX. Ela era irmã do poeta Ibrahim Tuqan, também conhecido e respeitado no mundo árabe.

Fadwa testemunhou os ataques de junho de 1967, quando sua cidade caiu sob a ocupação e domínio israelense. Sua expressão poética, nesse momento, passou de um sentimento de exílio e separação, para a poesia de resistência e combate.

Continuarei lutando
e gravarei na terra, nos muros
nas portas, nas janelas
no templo da virgem e nos mihrabs
nos sulcos, nos relevos e nas rodas
na prisão, na câmara de torturas, na forca
apesar das correntes, apesar da destruição das casas
apesar da mordida das brasas
continuarei gravando seu nome
até que a veja
estender-se sobre minha pátria e crescer
crescer, crescer
até cobrir cada polegada de sua terra
até que eu veja a liberdade vermelha abrir cada porta
a noite fugir e a luz destroçar as fortificações da névoa
Liberdade! Liberdade! Liberdade!

A década de 60 viu surgir uma geração de poetas palestinos comprometidos com seu povo, rompendo com o apego à forma e às paisagens que marcava a poesia palestina até então.

A Poesia Palestina de Combate representa uma frente de resistência ao genocídio sionista, um chamado à defesa da terra, um resgate da memória e da história do povo palestino, diante das investidas de Israel para anulação da cultura e da existência desse povo.

“Somos filhos deste povo árabe. Deixamo-nos penetrar por esses ritmos e esses poemas, por seus contos e lendas. Tomamos emprestado e nos expressamos com a ajuda deles. Nós os reutilizamos, os transformamos para chegar a nosso objetivo: ganhar o coração das massas populares e sensibilizá-lhes.

A causa palestina para mim é parte integrante do movimento de libertação árabe em seu conjunto e do movimento revolucionário mundial.

Para mim, a poesia quer dizer: “estou vivo, existo”. Não posso separar minha poesia de mim mesmo. “Impedir-me de escrever, para mim, é uma condenação à morte.”

São palavras de Samih Al Qassim, outro poeta palestino de grande projeção, além de professor. Após a publicação de sua primeira coletânea de poemas, foi excluído do exercício do magistério. Assim como os outros poetas de sua geração, sofreu a perseguição, a prisão, as torturas, a prisão domiciliar e o desaparecimento forçado.

“Os poetas participaram plenamente, de modo intelectual e fisicamente, das sucessivas batalhas políticas de seu povo”, diz o poeta marroquino Abdellatif Laâbi, responsável pelo resgate da Poesia Palestina de Combate, publicadas em livro com esse nome (1981 – edição em português pela editora Achiamé).

Ao ser preso, o poeta Salim Jabran ouviu do policial que lhe algemava: “Agora você já pode escrever poemas”. O poeta respondeu:

Sim
levarei minhas correntes
farei com que os prisioneiros ouçam os poemas
que eu bradava nas praças e nas ruas
as correntes oprimem minhas mãos
uma vergonha abrasa a consciência
sim… mas não a minha
abrasa o abjeto poder que te produziu
a ti
verdugo

Por mais que permaneçam os bloqueios econômicos, os muros da vergonha, a imposição da fome, a privação dos meios de sobrevivência, os ataques genocidas enfim, as tentativas absurdas de suprimir a existência de um povo, Tawfic Az-Zayad adverte ao Estado Sionista que a Palestina sempre resistirá.

Aqui
sobre vossos peitos
persistimos
como uma muralha
famintos
nus
provocadores
declamando poemas
[…]
Somos os guardiães da sombra
das laranjeiras e das oliveiras
semeamos as idéias como o fermento na massa
nossos nervos são de gelo
mas nossos corações vomitam fogo
quando tivermos sede
espremeremos as pedras
e comeremos terra
quando estivermos famintos
Mas não iremos embora
e não seremos avarentos com nosso sangue
Aqui
temos um passado
e um presente
Aqui
está nosso futuro

Os poetas sabem, por fim, qual é a paz de que necessitam. Cantam a volta aos territórios de onde foram expulsos diretamente para os campos de refugiados. Seus cantos dizem aquilo que o monopólio dos meios comunicação e a política de esquerda oportunista e demagógica ignora, ao lamentar sobre a dor e o sofrimento do povo palestino. A Palestina reage às tropas de ocupação. A Palestina é Resistência! A Palestina é Heróica! A Palestina é Intifada!

enquanto me reste. . . alento
gritarei de frente ao inimigo
gritarei, declaração de guerra
em nome de homens livres
operários, estudantes, poetas
gritarei. . . e que os parasitas
e os inimigos do sol
se fartem do pão da vergonha
enquanto me reste alento
e alento me restará
minha palavra será o pão e a alma
entre as mãos dos guerrilheiros (Samih Al Qassim)

 

NÃO IREMOS EMBORA

Tawfiq Zayyad

Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Com uma muralha
Em vossas goelas
Com cacos de vidro
Imperturbáveis
E em vossos olhos
Como uma tempestade de fogo
Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Com uma muralha
Em lavar os pratos em vossas casas
Em enchar os copos dos senhores
Em esfregar os ladrilhos das cozinhas pretas
Para arrancar
A comida de nossos filhos
De vossas presas azuis
Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Famintos
Nus

Provocadores
Declamando poemas
Somos os quardiães da sombra
Das laranjeiras e das oliveiras
Semeamos as idéias como o fermento na massa
Nossos nervos são de gelo
Mas nossos corações vomitam fogo
Quando tivermos sede
Espremeremos as pedras
E comeremos terra
Quando estivermos famintos
Mas não iremos embora
E não seremos avarentos como nosso sangue
Aqui
Temos um passado
E um presente
Aqui
Está nosso futuro

Biografia Tawfiq Zayyad

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Tawfiq Zayyad, palestino de Nazaré, nascido em 1940, Membro do Partido Comunista de Israel, deputado no   parlamento israelense, defensor contumaz de seu povo contra a intolerância e a política cruel oriunda da vitória do estado sionista. É autor das seguintes obras (*): Os estrecho las manos, 1968: Enterrad vuestros muertos y alzaos, 1969; Canciones de revolución y rabia, 1970; Comunistas, 1970; Omm – Durman. La hoz, el sable y la melodía , s.d.; Júbilos de la muerte y el martirio, 1972; Los prisioneros de la libertad y otros poemas prohibidos, 1974; Circunstancia del mundo, 1975. Cultivou também a novela e o teatro e ainda foi autor de um livro sobre literatura popular palestina, em 1970. Obra esta muito interessante pelo tema em si, onde tratou em especial de um personagem da revolução nacionalista palestina de 1936: Husayn al-Ali al-Zubaydi, que logo passou à canção popular. Poeta arrogante, imprecatório, diretíssimo, Zayyad foi desde o princípio um dos máximos expoentes da obra lírica da resistência palestina. Categórico, desordeiro, poderoso, foi a sua uma poesia de hachazo y de añafil, de machadadas e trombetas, dirigida sempre ao interlocutor correspondente: seu povo, ao qual animava, sacudia, provocava, em perseguição ao objetivo libertador e justo, irrenunciável.
Faleceu em 1994

COM OS DENTES

Tawfiq Zayyad

Com os dentes
Defenderei cada polegada da minha pátria
Com os dentes

E não quero nada em troca dela
Mesmo que me deixam pendurado
Nas minhas veias

Aqui permaneço
Escravo do meu amor… a`cerca da minha casa
Ao orvalho…e às géis flores do campo

Aqui continuo
E não poderão derrubar-me
Todas as minhas dores

Aqui permaneço
Com vocês
No meu coração

E com os dentes
Defenderei cada polegada da terra da pátria
Com os dentes

ESCRITO NO TRONCO DE UMA OLIVEIRA

Tawfiq Zayyad

Porque eu não fio lã
Porque eu estou exposto cada dia
A uma ordem de prisão
E minha casa à mercê
De visitas policiais
De averguaçãoes
Das operações de limpeza
Porque não me é possível
Comprar papel
Gravarei tudo o que me acontece
Gravarei todos os meus segredos
Numa oliveira
No pátio
De meu lar
Gravarei minha história
E o retábulo de meu drama
E meus suspiros
Em meus jardim
E nas tumbas dos meus mortos
E gravarei
Todas as amarguras
Que um décimo das doçuras que virão apagará

Gravarei o número
De cada cavalaria despojada de nossa terra a
localização de minha aldeia, seus limites
As casas dinamitadas
Minhas árvores arrancadas
Cada florzinha esmagada
Os nomes dos que se deleitaram
Em descompor meus nervos e minha respiração
Os nomes das prisão
As marcas de todas as algemas
Fechadas em meus punhos
As botas de meus carcereiros
Cada juramento
Atirdo em minha cabeça

E gravarei
Kafr Kassem
Eu não o esquecerei
E gravarei
Deir Yassin
Tua lembrança me tortura
E gravarei
Atingimos o cume da tragédia
Gravarei tudo o que o sol me mostra
A lua me murmura
O que me conta a rola
Nos poços
Dos quais os namorados se exilaram
Para que eu lembre
Ficarei de pé para gravar
Todo o retábulo de meu drama
E todas as etapas de derrota
Do infinitamente pequeno
Ao infintimente grande
Sobre um tronco de oliveira
No pátio
de meu lar

REGRESSOS

Tawfiq Zayyad
I
Que lágrimas traz
Esta vento qua sobra do oriente
Carregado de clamores dos meus ausentes
Estrangulado de saudade
Brutal
As notas nuas
Que saturam a terra e o horizonte
Que drenam o desespero das planícies
O cheiro do orvalho, do sangue, da escravidão
Em minha cara, em minha garganta
Que lágrimas traz
Este vento que sopra do oriente

II
Chamo-os
Dou-lhes as mãos
Beijo a terra sob suas sandálias
E digo: minha vida ihes pertence
E lhes ofereço
A claridade de meus olhos
E lhes dou
O calor do meu coração
pois o drama que vivo
é minha porção de sua tragédia
chamo-os
dou-lhes as mãos

Eu
Nada neguei à minha pátria
E não baixei a cabeça
Me levantei diante do opressor
Órfão, despojado, pés descalços
Levei meu sangue na palma de minhas mãos
Não pus minha bandeira a meio pau
E protegi o capim
Na tumba de meus antepassados
Chamo-os
Dou-lhes as mãos

Biografia Fadwa Tuqan

Fadwa(2)

Fadwa Tuqan, palestina, nascida em Nablus no ano de 1914. Irmã de Ibrahim e pertencente a uma respeitada família de intelectuais e políticos, alguns dos quais colaboraram com o governo jordaniano. Educou-se em
escolas cristãs. Tem vivido praticamente sem interrupções em sua cidade natal, em meio a um certo clima de recolhimento e semi-clausura, ainda que tenha também participado publicamente, por vezes, da dura batalha sócio-cultural e política que caracteriza seu povo. Publicou vários livros de poemas (*): Sola con los días, 1952; La encontré, 1957; Danos amor, 1960;
Ante la puerta cerrada, 1967; El comando y la tierra, 1968; La noche y los jinetes, 1969; Sola en la cumbre de este mundo, 1974, e uma apaixonada biografia de seu  irmão, Mi hermano Ibrahim, 1946. A poesia de Fadwa aparece como a esplendida revelação de uma sensibilidade feminina tradicional: lírica e intimista, apaixonada e contida. Sua obra surge banhada em uma tênue e irisada luz de anelo e nostalgia, transparente, quando a tragédia de sua pátria chega a seus extremos de dor e sofrimento.
Fadwa sabe alçar-se também a uma poesia de matrona de útero aberto e rasgado, propiciadora do parto, comoventemente fecunda, de indubitável alcance épico e tom heróico.

PARTO

Fadwa Toqan

O vento arrasta as sementes
E nossa terra treme, na noite, com as dores do parto

O carrasco engana-se
Repetindo para ele mesmo a história da incapacidade
A história das ruínas e os escombros

Ó h nossa jovem manhã! Conte você ao carrasco
Como são as dores do parto
Conte a ele como nascem as margaridas
Da dor da terra
E como a manha se ergue
Das rosas de sangue das feridas.

SEMPRE VIVO

Fadwa Toqan

Não, querida pátria
Apesar de tudo, na planíce Sombria
Na pedra da dor
Não poderão, nosso amor
Arrancar teus olhos
Não poderão
Deixa que sufoquem os sonhos e a esperança
Deixa que preguem na cruz a liberdade de construir e
trabalhar
Que roubem os risos das crianças
Que queimem
Que destruam
Da propria miséria
Da nossa tristeza
Do sangue seco nas nossas paredes
Do tremor da vida e da morte
Novamente se erguerá a vida
Nossa velha ferida!
Nossa dor!
Nosso único amor