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21/03/2011 – Vídeo enviado por amjadmath El poeta palestino Mahmud Darwish-محمود درويش El cantante libanes Marcel Khalife- مارسيل خليفة A MI MADRE Añoro el pan de mi …

A poesia palestina de resistência: O cantar dos que não se rendem

A poesia palestina de resistência: O cantar dos que não se rendem

Apesar da forte repressão à arte popular — “A democracia israelense não suporta que os palestinos cantem”, disse uma vez o poeta Tawfic Zayyad — a poesia daquele povo árabe não é “marginal”. Como disse o peruano Julio Carmona, “marginal é a poesia que a estética dominante pontifica ou institucionaliza; ao se tomar o povo como pedra de toque (e sempre o povo tem a última palavra em tudo) a única poesia que não se marginaliza é aquela que não se afasta de sua fonte, aquela que vinda do povo, a ele retorna.”

O poema é, de longe, o mais popular gênero da literatura palestina. Isto pode ser em parte atribuído à forte tradição oral da sua cultura. Houve, desde o início, uma vontade de simplicidade na poesia de resistência. Os artifícios de linguagem em favor da estética foram postos de lado. O poeta Mahmud Darwish expressou claramente isso num de seus primeiros versos:

Se os mais humildes não nos compreendem
será melhor jogar fora os poemas
e ficarmos calados.
O poeta diz:
se meus versos são bons para meus amigos
e enfurecem os meus inimigos
então é que sou mesmo poeta
e devo continuar cantando.

Fontes: Poesia Palestina da Resistência , edição OLP/Brasil, 1986 e Beleza Cruel (prólogo de Julio Carmona), edição Lira Popular, Peru, 1982.

Não iremos embora
Tawfic Zayyad*

Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em vossas goelas
Como cacos de vidro
Imperturbáveis
E em vossos olhos
Como uma tempestade de fogo
Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em lavar os pratos em vossas casas
Em encher os copos dos senhores
Em esfregar os ladrilhos das cozinhas pretas
Para arrancar
A comida de nossos filhos
De vossas presas azuis
Aqui sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Famintos
Nus
Provocadores
Declamando poemas
Somos os guardiões da sombra
Das laranjeiras e das oliveiras
Semeamos as idéias como o fermento na massa
Nossos nervos são de gelo
Mas nossos corações vomitam fogo
Quando tivermos sede
Espremeremos as pedras
E comeremos terra
Quando estivermos famintos
Mas não iremos embora
E não seremos avarentos com nosso sangue
Aqui
Temos um passado
E um presente
Aqui
Está nosso futuro
*Tawfic Zayyad, palestino de Nazaré, é considerado um pioneiro da poesia de resistência. A maior parte de sua obra foi escrita na prisão.

Discurso no mercado do desempregoSamih Al-Qassim*

Talvez perca — se desejares — minha subsistência
Talvez venda minhas roupas e meu colchão
Talvez trabalhe na pedreira… como carregador… ou varredor
Talvez procure grãos no esterco
Talvez fique nu e faminto
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez me despojes da última polegada da minha terra
Talvez aprisiones minha juventude
Talvez me roubes a herança de meus antepassados
Móveis… utensílios e jarras
Talvez queimes meus poemas e meus livros
Talvez atires meu corpo aos cães
Talvez levantes espantos de terror sobre nossa aldeia
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez apagues todas as luzes de minha noite
Talvez me prives da ternura de minha mãe
Talvez falsifiques minha história
Talvez ponhas máscaras para enganar meus amigos
Talvez levantes muralhas e muralhas ao meu redor
Talvez me crucifiques um dia diante de espetáculos indignos
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Ó inimigo do sol
O porto transborda de beleza… e de signos
Botes e alegrias
Clamores e manifestações
Os cantos patrióticos arrebentam as gargantas
E no horizonte… há velas
Que desafiam o vento… a tempestade e franqueiam os obstáculos
É o regresso de Ulisses
Do mar das privações
O regresso do sol… de meu povo exilado
E para seus olhos
Ó inimigo do sol
Juro que não me venderei
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Resistirei
Resistirei

*Samih Al-Qassim nasceu em Zarqá, no seio de uma família drusa. Formado professor, depois da publicação de seus primeiros poemas foi proibido pelos israelenses de exercer a profissão.

CONFISSÃO

CONFISSÃO

20/04/2007


Mahmud Darwish 

Sonhei com um casamento
Sonhei com um par de olhos enormes
Sonhei com a garota das traças
Sonhei com uma oliveira que não se vende
Por uns poucos centavos
Sonhei com as impossíveis muradas da história
Sonhei com o cheiro das amendoeiras
Amparando as tristezas das longas noites
Sonhei com a família
E os braços de minha irmã
Me protegendo como um escudo de hermoísmo
Sonhei com uma noite de verão
Com uma cesta de figos
Sonhei muito
mais
Me desculpe por isso……

O LIMOEIRO

O LIMOEIRO

20/04/2007


Mahmud Darwish 
Tínhamos atrás das grades
Um limoeiro
As frutas amareladas brilhavam como lâmpadas
As flores eram um leque cheiroso no nosso bairro

Tínhamos, atrás das grades
Um limeiro. Nosso
Mas, para fazer enfeites com seus galhos
E perfume das suas flores
O cortaram
Ficamos
Sem o nosso limoeiro
Nossos olhos
Nunca mais viram a primavera.

Biografia de Mahmud Darwish

Biografia de Mahmud Darwish

20/04/2007

Mahmud Darwish, palestino nascido no ano de 1942. Como muitos dos poetas da resistência palestina, teve desde o princípio uma clara militância política e foi preso em Israel. Abandonou esse país no começo dos anos 70, viveu em alguns países socialistas europeus, no Egito, e depois vários anos em Beirute, onde se transformou em um dos membros mais destacados do Centro de Pesquisas Palestinas, dirigindo a revista Shuún Filistiyya. Sua obra lírica é muito ampla e dela destacamos (*): Hojas de oliva, 1964; Enamorado de Palestina, 1966, um de seus livros mais representativos e emocionantes; El fin de la noche… es día, 1968; Diario de una herida palestina, 1969; Tentativa número 7, 1974; Esa es su imagen, y ésta es el suicidio del enamorado, 1975. Embora grande poeta, Darwish é também dono de uma sugestiva prosa, semi-autobiográfica, extraordinariamente fluída, singela e reflexiva ao mesmo tempo, que aparece em livros como: Algo sobre la patria,1971; Diario de la tristeza corriente, 1973; Adiós, guerra, adiós, paz, 1974. Darwish é possivelmente o poeta mais dotado, representativo e prestigiado da resistência palestina. Sem dúvida trata-se de um criador que sabe unir o verbo erguido e militante com o mais profundo lirismo, e que realiza também um cálido manejo do simbólico.

MORTA No. 18

MORTA No. 18

20/04/2007 

Mahmud Darwish

As oliveiras eram uma vez um bosque verde
Eram
o céu, meu amor
Parecia uma selva azul
Porque mudaram nesta tarde?
Na curva do caminhão dos trablhadores
Tranqüilamente
Nos mandaram ficar em pé
Tranqüilamente
Meu coração foi uma vez
Como um pássaro azul,
Ó ninho de meu amado!
Eu estava com teu pano, e era muito branco
O que o manchou nesta tarde?
Não entendo nada, meu amor
Pararam o caminhão e nos fizeram descer
Com a maior tranqüilidade
Te deixo tudo o que era meu
Te do a sombra, a luz
O anel de casamento, tudo o que você quiser
O cercado de oliveiras e figueiras
E como todas as noites, te encontrei
Entrarei, nos sonhos, pela janela
E te deixarei um ramo de jasmim
Mas não se zangue se me atraso um pouco
É que me detiveram
Eram todas verdes, as oliveiras
Verdes, meu amor
Cinqüenta mortos
As deixaram, ao pôr-do-sol
Numa lagoa vermelha
Ó meu amor, não brigue comigo
É que me mataram
Me mataram
Me mataram.
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Este poema faz alusão ao massacre de Kufer Kassem, no qual 56 pessoas, que voltavam do trabalho, foram fuziladas por soldados israelenses porque não sabiam do toque –de-recolher imposto naquele mesmo dia, e se achavam fora de casa depois do pôr-do-sol.

À ESPERA DOS QUE VOLTARÃO

À ESPERA DOS QUE VOLTARÃO

20/04/2007


Mahmud Darwish

Meu povo plantou suas tendas na areia
E estou acordado com achuva
Sou filho de Ulisses aquele que esperou o correio do
Norte
Um marinheiro me chamou, mas eu não parti
Atraquei o barco e subi ao cume de uma montanha

– Ó rocha sobre a qual meu pai orou
Para que fosse abrigo do rebelde
Eu não te venderia por diamantes
Eu não partirei
Eu não partirei
As vozes dos meus fendem o vento, sitiam as cidadelas
– Ó mãe, espera-nos no umbral
Nós voltaremos
Este tempo já não é como eles imaginam
O vento sopra segundo a vontade do navegante
E a corrente é vencida pela embarcação
Que cozinhaste para nós? Voltaremos
Roubaram as jarras de azeite Ó mãe e os sacos de
farinha

Traz as ervas dos pastos, traz
Temos fome
Os passos dos meus ressoam como o suspiro das rochas
Debaixo de uma mão férrea
E estou acordado com a chuva
Em vão perscruto o horizonte
Permanecerei na rocha… debaixo da rocha…
inquebrantável