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As quatro notas falsas da ladainha de Alon F. sobre o Estado sionista

As quatro notas falsas da ladainha de Alon F. sobre o Estado sionista

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O arsenal de embustes do sionismo parece não ter limites, embora seu repertório seja extremamente limitado, surrados e repetitivos que são os argumentos dos seus porta-vozes. A usina de mentiras que difunde conteúdos usando o mesmo método do nazista Goebbels acaba de produzir mais uma peça de propaganda em que pretensamente o autor refuta as “quatro premissas erradas sobre Israel”, frase de efeito que dá título ao artigo publicado no caderno “Ilustríssima” do jornal paulistano “Folha de São Paulo”, assinado pelo jornalista Alon Feuerwerker.

Por José Reinaldo Carvalho

São na verdade quatro notas falsas, rematados embustes, a começar pela negativa de que o Estado sionista israelense seja um enclave imperialista, um empreendimento colonial. Invoca como “prova” a oposição do Império Britânico, em 1939, “à partilha da Palestina e à criação do estado judeu”. E usa como muleta o argumento de que “a União Soviética de Josef Stálin votou na ONU em 1947 a favor da criação do Estado judeu”. A referência à União Soviética é reveladora da incoerência intrínseca ao texto, porquanto em outra passagem comemora que os judeus sionistas, “com uma dose de ventura” acabaram “empurrados para uma aliança com os Estados Unidos contra a União Soviética”.

O jornalista dá ao longo do seu texto lições de estratégia e tática, pragmatismo político e política de alianças, mas descontextualiza a posição tanto do Império Britânico como da União Soviética no que respeita à criação do Estado de Israel, que – ele terá suas razões – insiste em designar como “judeu”, acentuando a antinomia com repúblicas ou monarquias “islâmicas”. Ora, desde Richelieu há uma “raison d´Etat” acima das motivações religiosas, étnicas e culturais na construção de instituições políticas. Posteriormente à Guerra dos 30 Anos (1618-1648) – conjunto de conflitos religiosos que dilaceraram a Europa no século 17 – a chamada Paz de Westfália consagrou o princípio dos Estados nacionais e da autodeterminação, tornando-se a primeira “ordem” internacional baseada no primado da política sobre a religião, a etnia e a cultura.

O autor escamoteia que bem antes de 1947 e mesmo de 1939, que cita como datas marcantes do posicionamento do Império Britânico e da União Soviética, respectivamente, as potências imperialistas vitoriosas na Primeira Guerra Mundial negociaram a partilha do Oriente Médio sobre os escombros do Império Otomano. O acordo Sykes-Picot, que completa um século precisamente em maio deste ano, firmado a partir de negociações secretas entre as chancelarias da França (François Georges-Picot) e do Império Britânico (Mark Sykes), estabeleceu que os territórios árabes que faziam parte do Império Otomano ficavam sob protetorado dessas duas potências.

Um ano e meio depois, o Império Britânico, em 2 de novembro de 1917, emitiu um documento, conhecido como Declaração Balfour, em que manifesta a intenção de facilitar o estabelecimento do “lar nacional judeu” na Palestina, depois de muitas idas e vindas na concertação de acordos com o movimento sionista mundial, que por sinal não tinha no território da Palestina a única opção de instalação do “Estado judeu”. Teodore Herzl, pai do sionismo moderno, cogitava sua implantação no Chipre ou na faixa de El Arish na extremidade da Península do Sinai, perto da Palestina, conforme David Fromkin, em “Paz e Guerra no Oriente Médio” (Ed.Contraponto, Rio de Janeiro, 2008, página 298). Fromkin narra ainda na mesma obra que Joseph Chamberlain, secretário colonial do Império Britânico sob os governos dos primeiros-ministros Salisbury e Balfour, chegou a propor que o “Estado judeu” fosse instalado em Uganda, na África Oriental britânica, obtendo o assentimento de Herzl, o que demonstra o artificialismo do empreendimento sionista e ao mesmo tempo o empenho do Império Britânico em favor da causa.

Quanto à posição da União Soviética, não se pode desligá-la do contexto do pós-Segunda Guerra Mundial. A potência socialista, vitoriosa no conflito, apoiou a criação de dois Estados, o israelense e o palestino.

Mas não há como negar que o Plano de Partilha (a resolução 181 de 27 de novembro de 1947), que implicou a expulsão de cerca de 800 mil palestinos, era controverso e foi injusto. Estabelecia a entrega à minoria colonialista judaica, proveniente em sua esmagadora maioria de países centro-europeus, de mais da metade da Palestina e as terras mais férteis. Como se não bastasse, o Estado sionista, desde então expandiu incessantemente o seu território, ocupando hoje 82% da Palestina original. E o fez mediante guerras, a expulsão sistemática dos palestinos das suas terras, operações de cerco e aniquilamento e um novo tipo de apartheid, com o muro de separação entre Jerusalém e a Cisjordânia, onde cresce o número de colônias declaradas ilegais pela própria ONU.

O primordial e essencial embuste do artigo é negar que a região do Oriente Médio e especialmente a Palestina tornou-se cenário da implantação de um movimento nacionalista e colonialista de origem europeia, que se concretizou pela imposição do Estado sionista e suas políticas agressivas e expansionistas. Desde sua criação até os dias de hoje, esse Estado, que se comporta como pária no concerto internacional, expande-se por meio da guerra, da repressão e da ocupação, martirizando a população palestina, mediante a limpeza étnica. Um genocídio.

A propaganda sionista a que o jornal paulistano e o autor do artigo servem com zelo, nega o caráter colonialista e imperialista do empreendimento sionista porque se trata de uma história incômoda, de causar horripilantes sobressaltos. Afinal, como confessar crimes de lesa-humanidade e violações do direito internacional quando se pretende posar de campeões do humanismo e da democracia? Por óbvio, a aceitação da tese imperialista e colonialista conduz automaticamente a confessar esses crimes, para os quais no fundo sabem que não há remissão. A propósito, cito a reflexão do historiador israelense Ilan Pappe em sua obra “La limpieza étnica de Palestina”: “Aos israelenses é profundamente perturbador reconhecer os palestinos como vítimas de ações israelenses (já que) supõe enfrentar a injustiça histórica da qual se acusa Israel como autor da limpeza étnica da Palestina em 1948; este reconhecimento obriga a questionar os mitos fundadores do Estado de Israel. A aceitação de algo semelhante por parte dos judeus israelenses minaria, como é lógico, seu próprio status de vítimas. Isto é algo que teria implicações políticas em escala internacional; mas também repercussões morais e existenciais para a psique judia […] os judeus teriam que reconhecer que se converteram na imagem refletida no espelho do seu pior pesadelo”. (Ed. Crítica, Barcelona, 2008, páginas 321-322).

A segunda nota falsa da litania de Alon F. é a acusação de que se pretende “remover Israel do mapa”, recorrendo para isso ao velho método nazista, apropriado pelo aparato ideológico sionista de amaldiçoar seus adversários como antissemitas. Neste afã, para além de exibir seus preconceitos, explicita o alinhamento, ao analisar a geopolítica do Oriente Médio, com os países imperialistas e seus partidários na região. Para cúmulo, afirma que “Israel não se considera inimigo de seus vizinhos”, citando entre estes o Líbano, e minimiza um dos episódios mais ilustrativos da estratégia imperialista israelense – a ocupação e anexação das Colinas de Golã, da Síria. Israel ocupou o Líbano durante longos 18 anos, sendo expulso pela heroica Resistência, no ano 2000. Permanece, porém, ocupando as fazendas de Shebaa, no sul do país. E em 2006, entre julho e agosto, durante 30 tenebrosos dias, o Estado sionista realizou bombardeios sistemáticos sobre o Líbano, sendo mais uma vez derrotado pelas forças da Resistência. Naquela altura, Condoleeza Rice, secretária de Estado dos Estados Unidos, dizia que os bombardeios dos seus aliados israelenses sobre Beirute eram “as dores do parto do novo Oriente Médio”.

O autor tenta transformar o vício em virtude, apresentando como manobra de alinhamento tático a ligação umbilical do imperialismo estadunidense com o Estado israelense. Embuste que não é capaz de esconder que a segurança de Israel radica no indeclinável apoio diplomático, financeiro e militar do imperialismo estadunidense. Por isso, em retribuição, atua como cabeça de ponte dos interesses de Washington na conflituosa região do Oriente Médio.

O terceiro embuste relaciona-se com a inevitável analogia entre o racismo e o apartheid praticados por Israel e os que vigoravam na África do Sul quando esta era dominada pela minoria branca.  Segundo o autor, “a segregação social da maioria negra assentava-se na segregação política”, enquanto que “em Israel os árabes israelenses não apenas votam mas são votados”. Não creio, sinceramente, que o articulista desconheça que o regime do apartheid sul-africano não era um fenômeno circunscrito apenas ao campo político. Aqui a má informação e a suposta ignorância são interessadas. Além da segregação política, Israel pratica o confinamento territorial, uma política opressiva em todos os domínios e, por doutrina e na prática, persegue o objetivo de extinguir a população palestina. Guardadas as peculiaridades, é nisto que consiste a analogia com a África do Sul da minoria branca.

Finalmente, a quarta nota falsa de Alon F. é a pretensa refutação do “boicote político e econômico para colocar Israel de joelhos e eventualmente riscá-lo do mapa”.  Mais uma vez, a falsa acusação como método para intimidar os adversários. O boicote a Israel, que se manifesta por meio de várias campanhas mundo afora, é uma, apenas uma, das formas da resistência e da luta, uma expressão do clamor dos palestinos e das forças solidárias para que cesse o massacre.

O autor termina exercitando sua imaginação em busca de paradigmas fantasiosos para o que seria, a seu juízo, o caminho para a paz na Palestina, sempre invocando o argumento dos agressores – a prioridade para a “segurança” de Israel, que é concebida como a negação do direito à existência do povo palestino e à conquista do seu Estado livre, independente e soberano.

Pretendendo refutar o que considera “premissas erradas” do movimento de libertação nacional palestino e das forças solidárias, e até mesmo achando-se capaz de dar conselhos, o jornalista Allon F. seguiu à risca o figurino da propaganda sionista. O primeiro degrau da fidelidade é ser fiel a quem lhe é fiel. Esta parece ser também a máxima da entidade sionista no abastecimento do seu batalhão de escribas, com mitos e embustes que ganham o status de argumentos.

A solução do conflito palestino-israelense pressupõe o cumprimento das resoluções da ONU e a proclamação de jure e de facto do Estado Palestino, livre e soberano, tendo Jerusalém Oriental como capital, e com as fronteiras existentes em 4 de junho de 1967, fronteiras estas reconhecidas internacionalmente. Não haverá paz na Palestina, em Israel e em todo o Oriente Médio enquanto não se estabelecer plenamente um Estado palestino.

Isto requer ainda a retirada de todas as colônias israelenses nos Territórios Palestinos Ocupados e a derrubada do muro de separação. Igualmente é necessário e urgente libertar os prisioneiros políticos palestinos detidos em prisões israelenses e implementar uma solução justa ao problema dos refugiados, de acordo com a resolução 194 da ONU. É também necessária a retirada de Israel das Colinas de Golã, na Síria, e das Fazendas Shebaa no sul do Líbano. Estas são assertivas claras, lógicas, sensatas, conforme a justiça e o Direito Internacional. São premissas e conclusões corretas, em oposição aos embustes de Alon Feuerwerker e da “Folha de São Paulo”.

José Reinaldo Carvalho é editor do Blog da Resistência, jornalista, pós-graduado em Política e Relações Internacionais, membro do Secretariado e da Comissão Política Nacional do Partido Comunista do Brasil.

Arábia Saudita: como inventar uma guerra

Oriente Médio

Arábia Saudita: como inventar uma guerra

A família real saudita corre o risco de mostrar ao mundo que seu país e não o Irã é a maior fonte de instabilidade na região
por Antonio Luiz M. C. Costa — publicado 18/01/2016 05h34
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SalmanO rei Salman luta para sabotar uma paz que o ameaça (AFP)

Como começou? Oficialmente, com a decapitação de 47 supostos terroristas pelaArábia Saudita no primeiro dia de 2016.

A maioria deles era de sunitas (inclusive um egípcio e um chadiano) acusados de participar de atentados da Al-Qaeda na década passada, mas quatro eram sauditas xiitas que participaram dos protestos de 2011 e 2012 e um deles o xeque Nimr al-Nimr, o mais popular líder religioso dessa comunidade no país.

Muitos jornais, inclusive o Guardian, erroneamente descreveram Al-Nimr como iraniano, mas ele nasceu e fez carreira religiosa em Al-Awamia, cidade saudita da Província Oriental, onde os xiitas são maioria. Estudou religião no Irã e na Síria e foi discípulo dos Grandes Aiatolás iraquianos Al-Shirazi e Al-Modarresi.

Crítico constante das monarquias de seu país e do Bahrein (onde a maioria xiita é governada por uma elite sunita respaldada pelos sauditas), em 2008, conforme vazamento do WikiLeaks, procurou diplomatas estadunidenses em Riad para convencê-los de que não era um agente iraniano e considerava o imperialismo dos EUA mais benigno do que o europeu e um aliado potencial dos xiitas, que considerava mais inclinados à justiça e liberdade.

Em 2009 chegou a defender a secessão da região xiita (onde está a maior parte do petróleo saudita) se os direitos de seu povo continuassem desrespeitados.

Quando vieram os protestos da Primavera Árabe, Al-Nimr apoiou os jovens manifestantes reprimidos a tiros pela polícia, e em julho de 2012 foi preso.

 

Al-Nimr
A condenação e execução de Al-Nimr foram injustas, afirma a Anistia Internacional (SPA/AFP)

O governo saudita alega que seu grupo resistiu à prisão e disparou contra os policiais (o xeque recebeu um tiro na perna), mas as principais acusações pelas quais foi condenado à morte, documentadas por sermões e entrevistas, foram “desobediência ao governante”, “incitação à luta sectária” e “encorajamento, condução e participação de manifestações”. 

Segundo a Anistia Internacional, as declarações enquadram-se nos limites da liberdade de expressão e em nenhuma delas havia incitação à violência. Depois de um julgamento declarado injusto pela organização, foi condenado à morte em outubro de 2014.

Desde então, comunidades xiitas de todo o mundo, não só no Oriente Médio, mas também na Nigéria, Afeganistão, Paquistão e Europa fizeram frequentes protestos contra a condenação, que foram ignorados. Alguns sunitas os apoiaram, inclusive a Frente Popular de Libertação da Palestina e a organização do clero sunita iraniano.

A execução, como era de se esperar, provocou mais protestos e no Irã uma multidão furiosa atacou a embaixada saudita com coquetéis Molotov e outra tentou o mesmo no consulado em Meshed, no nordeste do país, onde foi contida pela polícia.

Esses excessos, condenados pelo general Mohsen Kazemeini, comandante da Guarda Revolucionária em Teerã e representante da linha-dura, serviram de pretexto para o rompimento de relações diplomáticas pela Arábia Saudita e pelo Bahrein, cujo rei se sustenta nos tanques sauditas.

Os voos e laços comerciais com o Irã foram suspensos e os súditos proibidos de visitá-lo, embora o chanceler saudita tenha esclarecido que os iranianos ainda poderão peregrinar a Meca. União dos Emirados Árabes, Sudão, Kuwait, Catar e Jordânia retiraram seus embaixadores de Teerã em solidariedade a Riad, sem chegar ao rompimento definitivo.

 

ISIS
Sem exagerar muito, Khamenei publicou uma charge para mostrar que a diferença entre EI e sauditas é quase só de estilo (Reprodução)

Os governantes iranianos, mesmo se lamentaram o ataque à embaixada e prometeram punir os responsáveis, criticaram ferozmente o regime saudita pelas execuções. O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, advertiu a monarquia saudita para o castigo divino que haveria de apagá-la das páginas da história, em termos semelhantes aos outrora usados pelo ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad contra Israel.

Não só isso, como publicou em seu site uma charge na qual expõe a semelhança entre oEstado Islâmico ou “ISIS negro” e a Arábia Saudita ou “ISIS branco”, comparação popularizada em novembro pelo escritor e jornalista argelino Kamel Daoud com um artigo de opinião no New York Times.

Com efeito, um e outro impõem o mesmo fundamentalismo sunita e decapitam infiéis e inimigos, embora um seja oficialmente um inimigo do Ocidente e o outro, seu aliado. O presidente Hassan Rohani, um moderado, acusou o regime saudita de criar uma crise diplomática para encobrir seus crimes.

Vale ressalvar que, embora proporcionalmente à população a diferença não seja tão grande, o Irã é notório por aplicar a pena de morte com frequência ainda maior. Quase sempre por crimes comuns, mas também a alguns sunitas acusados de terrorismo.

Ao menos em tese, nunca por protestos não violentos (oposicionistas afirmam que acusações de outros crimes são forjadas como pretexto) e nenhum caso é de perfil tão alto quanto o xeque Al-Nimr.

As chancelarias da Rússia, China, Canadá, União Europeia, Alemanha e França criticaram as execuções, mas EUA, Reino Unido e Espanha, que não pensaram duas vezes antes de denunciar a Venezuela pela prisão de dois oposicionistas, calaram-se sobre as decapitações em massa sauditas e um ex-embaixador britânico em Riad chegou a declarar ao Guardian que “algumas delas foram compreensíveis”.

O governo do rei Salman, obviamente, sabia não ser essa uma mera questão interna, e sim uma provocação ao Irã e a seus aliados, à qual provavelmente acrescentará outras. Por exemplo, a execução já prevista de Ali al-Nimr, sobrinho do xeque, que tinha  17 anos ao  “encorajar protestos pela democracia usando um BlackBerry”, nos termos da sentença. Por quê?

 

Rohani
A meta do presidente Rohani é tirar seu país do isolamento (Atta Kenare/AFP)

 

Para os sauditas e seus aliados, principalmente os pequenos reinos e emirados do Golfo Pérsico, mas também países dependentes de seus petrodólares como o Egito e o Sudão, o Irã é uma ameaça existencial. Não por ser uma ameaça militar, nem por uma suposta hostilidade milenar entre sunitas e xiitas, mas por seu relativo sucesso como República Islâmica.

As diferenças culturais e religiosas não permitiriam um transplante direto do sistema iraniano, mas o risco de a ideia de varrer os privilégios das corruptas famílias reais e seus agregados com uma república islâmica de caráter nacional e popular pode atravessar o Golfo é reconhecido desde a revolução de 1979 e foi reavivado pela Primavera Árabe.

Pelo menos desde a invasão anglo-americana do Iraque, em 2003, tanto a Arábia Saudita quanto seu criptoaliado Israel esperavam ver o Irã ser alvo de uma invasão para “mudança de regime” ou de um bombardeio capaz de “apagá-lo da história” de maneira não simbólica, mas concreta, ao menos como nação emergente capaz de manter uma indústria razoável, Forças Armadas respeitáveis e um programa nuclear e aeroespacial sério.

Em 2010, Benjamin Netanyahu chegou mesmo a ordenar um ataque, não efetuado porque o Mossad e as Forças Armadas se recusaram a executar seus planos sem respaldo de Washington.

Entretanto, com a eleição de um governo mais moderado no Irã e a irrupção do Estado Islâmico, que fez o fanatismo sunita de raízes sauditas fugir do controle, os EUA acabaram por se reaproximar do Irã.

Este negociou um acordo nuclear com as potências ocidentais, as sanções que lhe foram impostas estão a caminho da suspensão e a Rússia prestes a lhe fornecer mísseis antiaéreos de última geração. Mais que isso, EUA e Europa começam a reconhecer Teerã como um interlocutor indispensável para controlar os conflitos do Oriente Médio.

 

Jumbo-Bin-Talal
O Jumbo particular do príncipe Bin Talal, exemplo do luxo da elite saudita (Waseem Obaidi/Bloomberg/Getty Images)

Para os sauditas, é péssimo, ainda mais após a intervenção russa na guerra civil síria reverter a expectativa de uma vitória iminente sobre Bashar al-Assad e a intervenção saudita contra a insurreição xiita no Iêmen resultar em uma guerra civil prolongada e dispendiosa.

Talvez ainda mais decisiva seja a previsão de alguns analistas de que o retorno pleno do Irã ao mercado de petróleo ocidental pode baixar para 10 dólares por barril o preço do petróleo hoje em 35 dólares. Patamar historicamente já baixo por iniciativa de Riad, que deflagrou uma guerra de preços para tirar produtores de alto custo do mercado, aumentar sua fatia e prejudicar seus rivais russos.

Assim como seu apoio ao fundamentalismo é uma estratégia que está saindo de seu controle e pode se mostrar autodestrutiva. Concorrentes como Rússia e Irã, com economias mais diversificadas, podem se adaptar melhor no longo prazo.

Com as execuções, além de intimidar potenciais manifestantes e dissidentes no reino, os sauditas esperam atiçar o caos, sabotar a reaproximação e, se possível, provocar o Irã a retaliações diretas que obriguem as potências ocidentais a atacá-lo, contando com o guarda-chuva nuclear de Washington para protegê-los das piores consequências. Pode ser sua última chance de recuperar o controle da situação.

 

Petróleo
A queda das cotações põe em risco a ostentação dos sauditas ricos, a paciência do povo e a estabilidade (Marwan Naamani/AFP)

 

 

As Forças Armadas sauditas, reforçadas por anos de petróleo caro e pela ansiedade das potências ocidentais por vender armas, estão no auge, mas podem entrar em declínio à medida que essas condições se revertem. O mesmo se pode dizer de sua influência financeira sobre outros países árabes e talvez até de sua estabilidade interna.

Enquanto na maior parte do mundo o petróleo barato permitiu baixar os preços dos combustíveis, na Arábia obrigou o governo a aumentá-los 50% em janeiro. Se isso se prolongar, empregos públicos, hospitais gratuitos, água e eletricidade subsidiadas, empréstimos sem juros, altos salários no setor público e inexistência de impostos estarão em risco, assim como a lealdade dos súditos.

Cinco anos de petróleo a menos de 50 dólares por barril (sem falar em guerras) podem esgotar as reservas do reino, e se este cobrar impostos, o povo pode se sentir no direito de exigir participação política e rebelar-se. Como a Venezuela, a Arábia Saudita pode ver sua estabilidade e influência internacional se derreterem.

 

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As iranianas têm do que se queixar, mas vivem com mias liberdade e direitos que as sauditas (Jochen Eckel/AFP e Fayez Nureldine/AFP)

Enquanto isso, os sauditas se arriscam a esgotar a paciência dos EUA e da União Europeia. Há sinais de desgaste na relação, assim como também acontece com Israel. O reino ainda goza de um tratamento privilegiado, mas as denúncias do fundamentalismo e do autoritarismo sauditas aparecem com mais frequência.

Ainda que de forma reservada, Washington está insatisfeita com a falta de cooperação dos sauditas (e israelenses) com suas tentativas de estabilizar o Oriente Médio, inclusive no caso das execuções. Ao contrário do que Riad provavelmente esperava, o escarcéu pela depredação da embaixada saudita ficou por sua conta e dos seus satélites.

EUA e Europa trataram o caso como incidente menor e não o usaram (e nem os testes de mísseis iranianos) como pretexto para suspender ou cancelar o acordo nuclear. A Turquia ficou neutra e a Rússia viu no caso uma oportunidade para oferecer mediação e aumentar sua projeção no Oriente Médio.

O reino saudita se pôs numa situação insustentável, em que sua estabilidade interna depende do pandemônio externo. Por bem ou por mal, o mundo está assumindo o compromisso de reduzir sua dependência do petróleo para conter o aquecimento global, necessidade que se mostrará cada vez mais gritante a cada ano de catástrofes climáticas. A monarquia pode vir a descobrir que não é tão indispensável quanto pensa.

*Reportagem publicada originalmente na edição 883 de CartaCapital, com o título “Como inventar uma guerra”

“O combate ao Estado Islâmico é uma ficção”

“O combate ao Estado Islâmico é uma ficção”

Especialista em Direito Internacional e professor da Fundação Getulio Vargas em São Paulo, colunista da Brasileiros Salem Nasser afirma que as potências ocidentais deram livre curso a grupos como Estado Islâmico e Jabja al-Nusra, para que eles derrubassem o regime de Bashar al-Assad: “Esse é um problema com o qual o Ocidente tem de lidar, porque ele se apaixona por umas ditaduras e não gosta de outras”

Cândida Del Tedesco e Luiza Villaméa

 

Combatente do Estado Islâmico em área controlada pelo grupo, próxima  à cidade de Mossul, no Iraque. Foto: Ahmed Dallah

Combatente do Estado Islâmico em área controlada pelo grupo, próxima
à cidade de Mossul, no Iraque. Foto: Ahmed Dallah

Salem Nasser tem um contato estreito com o Oriente Médio. Nascido em São Paulo, filho de imigrantes libaneses, ele tinha apenas seis anos quando foi enviado pela família para estudar em um internato de Marjayoun, uma cidade do sul do Líbano, região do país conhecida como ponto de convivência entre cristãos e muçulmanos xiitas. No colégio, laico, também estudavam três de suas irmãs: Raja e Wafa, mais velhas que Salem, e Hana, mais nova. “Como boa parte dos imigrantes, meus pais tinham a fantasia de um dia voltar para o Líbano. Queriam então que fôssemos educados em árabe”, lembra Nasser. Nos finais de semana, os irmãos costumavam ir à casa do avô materno, um militar aposentado que vivia em Marjayoun. Às vezes, visitavam o vilarejo onde tinham nascido seus pais, a 15 minutos de carro de Marjayoun. Dois anos depois, quando Nasser e suas irmãs passavam férias no Brasil, eclodiu a Guerra Civil Libanesa (1975-1990). O plano de estudos em Marjayoun teve de ser abandonado, mas Nasser jamais perdeu o vínculo com a região de sua família. À curiosidade natural pelos temas do Oriente Médio e à convivência com a comunidade árabe do Brasil e do Paraguai, somou-se uma sólida formação, que incluiu um doutorado em Direito Internacional.

Aos 48 anos, Nasser é advogado, especialista em Direito Internacional, professor da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, presidente do Instituto da Cultura Árabe e colunista da Brasileiros. Habituado a participar de debates sobre os temas que incendeiam o Oriente Médio, ele não chegou a ser surpreendido pelos ataques do Estado Islâmico em Paris. “Passei uns dois anos falando em todos os debates que o regime da Síria estava lutando com grupos do radicalismo mais profundo. Eu nomeava a Jabja al-Nusra e o Estado Islâmico. Dizia que, entre todos os chamados oposicionistas, eram esses os caras que estavam fazendo o trabalho militar”, lembrou o professor. Enquanto isso, o Ocidente parecia mais atento à oposição síria capitaneada pelo Exército Livre da Síria. “O mundo só pareceu acordar para a existência do Estado Islâmico quando ele tomou Mossul, no Iraque, há mais de um ano, e se aproximou do Kurdistão iraquiano”, afirma Nasser. Muito antes disso, desde 2011, o grupo já agia fortemente na Síria. Enquanto esteve restrito ao Iraque, entre 2004 e 2011, o grupo se chamava Al Qaeda do Iraque. Depois que atravessou a fronteira com a Síria, passou a ocupar terreno nos dois países, cresceu e se transformou em Estado Islâmico. Para o advogado, a coalizão liderada pelos Estados Unidos para combater o Estado Islâmico não atuava efetivamente nesse sentido, pois sua principal meta na região ainda parece ser derrubar o presidente da Síria, Bashar al-Assad.

Brasileiros – Os ataques em Paris surpreenderam você ou já imaginava que em algum momento o Estado Islâmico atacaria o Ocidente?
Salem Nasser
 – Em algum momento iria acontecer. Não tem muita dúvida. Quando acontece, fica o impacto da novidade, o choque, mas não se pode dizer que aquilo fosse uma surpresa terrível. Uma vez alguém me disse que, quando se leva a violência a alguns lugares, não se deve ficar surpreso caso a violência volte de algum modo.

Como o Estado Islâmico se estruturou? Verdade que cresceu com a ajuda do governo sírio?
Não acredito tanto nesta teoria. Há uma narrativa pela qual a Síria teria soltado das prisões militantes islamitas que estavam encarcerados por razões políticas. Teria soltado essas pessoas para que se instalasse um ambiente violento e o governo pudesse dizer que estava lutando contra radicais islâmicos terroristas. Talvez tenha soltado essa gente das prisões. Não consigo confirmar. Acho até possível, mas não acredito que tenha trabalhado para que esse grupo crescesse, até porque não era o único grupo. Antes do Estado Islâmico, começou a agir na Síria a Jabja al-Nusra, que é ligada ao Al Qaeda. O Estado Islâmico demorou para tomar a frente sobre a Jabja al-Nusra.

O que possibilitou ao Estado Islâmico se instalar em território sírio?
Todos têm território. Quando um grupo insurgente entra em guerra com forças oficiais conquista território e passa a mandar no lugar. A Jabja al-Nusra também fez isso. Tem uma parte do território que ela domina ou em que está muito presente. O mesmo acontece com grupos menores, ainda que comandem apenas um vilarejo. A novidade é que o Estado Islâmico teve maior sucesso em conquistar território no Iraque e na Síria. Além disso, resolveu se chamar Estado Islâmico, o que remete à ideia de que teria alguma soberania, de que teria um governo.

Existe uma máquina de governo funcionando. Os campos de petróleo continuam sendo explorados?
Eles têm essa estrutura, cobram impostos. A vida segue, ainda que a maior parte das pessoas tenha saído do território. Se o Estado Islãmico não prestar serviços, os que ficaram irão embora. Pelos meus dados, eles talvez dominem metade do território sírio. Mas a maior parte da Síria urbana, das cidades, não desérticas, está com o governo. Por uma estimativa em que tendo a confiar, a população síria é de mais ou menos 22 milhões de habitantes, sendo que quatro ou cinco milhões deixaram o país. Estão no Líbano, na Turquia, na Europa. Dos 16 ou 17 milhões que se encontram na Síria, boa parte está deslocada internamente. A organização Médicos Sem Fronteiras fala de sete milhões de deslocados internos. Mudaram de uma região para outra. De qualquer forma, entre 80% e 90% da população está hoje em cidades governadas pelo regime sírio. Então, sob o estado islâmico seria um residual da população.

E essa população pode sair?

Ela não conseguiu fugir até agora. Não tem para onde ir. Alguns podem ter alguma simpatia pelo pensamento radical. Ou preferem não abandonar suas casas e obedecer aos novos poderosos. Preferem ficar a virar refugiados. Há uma lenda correndo no Ocidente de que esses grupos só se instalam em lugares em que a população os aceita muito bem. Não acredito muito nisso.

Eles têm base social?
Acredito que nos territórios ocupados pelo Estado Islâmico o que há é mesmo aquele residual da população que citei. Um sinal disso é que muitas vezes, quando cerca alguma região tomada por esses militantes, o Exército da Síria fecha um acordo. Deixa esses militantes irem embora, com a condição de que eles permitam que a população saia da cidade. Eles liberam a cidade. Faz-se uma trégua. Senão, qual seria a alternativa? Matar todo mundo.

O Estado Islâmico formou de fato um califado?
A questão do califado está ligada à figura do califa, que é basicamente o sucessor do profeta. Pelo menos os primeiros quatro califas eram ao mesmo tempo os líderes religiosos e os líderes seculares, governantes. A partir do momento em que o Império Muçulmano fica muito grande, há uma tendência à separação concreta do poder temporal, que fica na mão do sultão, o líder militar, civil, político. O califa se torna a referência religiosa, mas muitas vezes desprovido de poder político real. Essa figura permaneceu presente ao longo da história do Islã, até o começo do século 20, quando o califado foi abolido por Atatürk (Mustafa Kemal Atatürk, fundador da República da Turquia).

Como os integrantes do Estado Islâmico veem o califado?
Eles têm uma representação que é deles, falsa em relação à realidade, de que vão ressuscitar os primeiros tempos do Islã. Eles acreditam que vão voltar para o tempo da vida do profeta, para o governo do Islã puro, antes de ele ter se transformado, se degenerado, etc. Eles pensam voltar ao califado islâmico dos primeiros tempos.

E o que Abu Bakr al-Bagddadi, o líder do Estado Islâmico, tem que as pessoas acreditam ser ele o califa?
No mundo árabe, quando a sucessão política não se dá por eleição, ela ocorre pela mescla de indicação e consenso. O líder precedente aponta seu sucessor, que é legitimado por consenso. O que significa esse consenso? Significa que a comunidade presta lealdade ao novo líder. O que legitima Abu Bakr al-Bagddadi é que as pessoas chegam e dizem: “Reconheço você como califa”. Vem um grupo, como o Boko Haram, da Nigéria, e presta lealdade a ele. Outro grupo pequeno, que está lutando na Síria, avisa: “Quem está mandando hoje é o Estado Islâmico”. O homem vai recebendo reconhecimento por parte de outras lideranças, que o colocam na condição de guia. O prestígio de Abu Bakr al-Bagddadi vem do fato de que o Estado Islâmico é o grupo que obtém mais vitórias militares, mais dinheiro. Daí, vai conquistando mais fidelidade.

Por isso o título de califa?
O papel de califa é autodeclarado. Ele diz: “Eu sou o califa”. Os outros respondem: “OK, a gente acredita”. Mas isso não é algo que todo mundo reconhece. No mundo islâmico, mais de 99% das pessoas vão dizer que Abu Bakr al-Bagddadi não é o califa. E os que acreditam dizem: “OK, você é o califa”.

Os que acreditam são as lideranças muçulmanas vinculadas ao terror?
Tem duas variáveis aí. Saber o que é terror. E o que se reconhece como terror, saber quem está ligado ao terror.

O grupo Boko Haram, por exemplo, você considera terrorista?
Eu não uso a palavra. Quase não uso. Hoje em dia sou quase forçado a usar, mas não uso. A questão do terrorismo é uma questão de legitimidade do uso da força e dos meios de violência. Para mim, essa é a chave do terrorismo. A violência é legítima ou não? O meio usado é legítimo ou não? Qual o critério da ilegitimidade, será a condição civil da vítima, a situação de quem comete a violência, a intenção de provocar o terror, a motivação política?

Na sua opinião, é legítimo matar civis?
Tomar os civis por alvos é sempre ilegítimo e ilegal, mas sempre morrem civis em guerras e alguém tenta legitimar essas mortes de algum modo. Alguém dirá, por exemplo, que um ataque suicida em praça pública é terrorismo e é ilegítimo, mas que um ataque por avião não tripulado que mate mulheres e crianças será legítimo se tiver por alvo declarado um terrorista e não será ele mesmo um ato terrorista. E haverá quem diga algo diferente.

Você apoia a violência?
Às vezes a violência é inevitável e meu apoio ou não é indiferente. Por exemplo, a violência na legítima defesa é inevitável. Apoio a violência na legítima defesa. O problema é que muitos abusarão do conceito de legítima defesa para se autorizarem qualquer violência injustificada.

E ataques a alvos civis?
Não, nem quando eles são feitos pelos Estados Unidos nem quando são feitos pelo Estado Islâmico. Nem em Paris, nem em Beirute, nem em Bagdá, nem em Damasco, nem em lugar nenhum. Meu problema com a noção de terrorismo não é uma recusa da ilegitimidade da violência, mas sim com o uso que se faz da palavra. O problema é que existem os distribuidores da etiqueta terrorismo. Não sou eu nem é você quem vai definir quem são os terroristas. Essa etiqueta virá pronta para a gente.

De um país central?
Dos Estados Unidos e outros que fazem as listas de grupos terroristas. Então, há os donos das etiquetas. Se eu sair usando a etiqueta, assumo o discurso do distribuidor de etiquetas. A outra coisa é que quando se cola a etiqueta do terrorismo sobre alguém, despiu-se esse alguém de todos os seus direitos. Hoje em dia, na retórica ocidental, se o cara é terrorista ou se ele é suspeito de terrorismo, pode-se torturar, matar sem perguntar, matar a família dele, destruir a casa dele. Desde que se diga “esse cara é terrorista”, pode-se fazer dele o que quiser. Por isso, é uma palavra muito perigosa. Mas isso para dizer que, usando ou não a palavra, para mim, o que Estado Islâmico faz é um absurdo. É barbárie. É uma violência totalmente ilegítima. Os meios que eles usam são ilegítimos. Os alvos não são legítimos. A justificação não é legítima e por isso mesmo eles são um grupo perigosíssimo.

Um aspecto que impressiona em relação ao Estado Islâmico é a capacidade que ele tem de atrair jovens nascidos no Ocidente. Por quê?
Muitos europeus têm ido lutar com o Estado Islâmico e com outros grupos. O Estado Islâmico talvez venha tendo mais sucesso. Há a informação de que, no começo, a maior parte dos europeus viajava para se juntar ao outro grupo que mencionei, a Jabja al-Nusra. Só depois eles passavam para o Estado Islâmico. É bem provável que eles estejam distribuídos em vários grupos. De todos os nacionais europeus, os franceses são os mais numerosos. Eles representam 20% ou 30% dos europeus que estão lutando na Síria.

Há uma estimativa do número de europeus combatendo na Síria?
Com o Estado Islâmico haveria dez mil estrangeiros, não só europeus. Há americanos, asiáticos. Dos dez mil, pelo menos dois mil são franceses. A maior parte deles é de muçulmanos descendentes de imigrantes, mas há muitos convertidos. Portanto, franceses franceses. Ingleses ingleses. Eles não são da comunidade imigrante. O conjunto de elementos que ajuda a atraí-los varia de pessoa para pessoa. Ao final, é uma decisão individual. As razões genéricas têm a ver com o sentimento de não pertencimento por fazer parte de uma comunidade de imigrantes que é marginalizada, que não tem acesso às mesmas oportunidades. A Europa tem que aceitar que hoje sua identidade inclui esses muçulmanos, os africanos, os imigrantes e os filhos dos imigrantes. Eles fazem parte da identidade europeia, embora o tempo todo lhes seja dito que não pertencem ao lugar. Não só  lhes é dito, mas também eles vivem isso como uma situação subjetiva.

Como?
É vivido objetivamente, na falta de oportunidades, na marginalização econômica, mas é vivido também internamente. Sendo filho de imigrantes, não se pertence mais ao lugar de onde veio o pai. É como se a pessoa não tivesse um chão em que pudesse pisar. Esse fator acaba sendo um solo fértil de uma determinada condição psíquica. A pergunta é: “Onde eu me encontro?”. Muitas vezes a exacerbação da identidade islâmica é percebida pelo indivíduo como uma resposta. É o que o psicanalista Fethi Benslama chama de super muçulmano. No livro A Guerra das Subjetividades no Islã, que por enquanto só está publicado em francês, ele diz que a pessoa pode passar por um processo de superidentificação com a religião e que isso não tem a ver só com a condição de imigrante. Fethi Benslama diz que isso atinge todas as comunidades muçulmanas, com muita força, desde os anos 1970.

Por quê?
Seria uma consequência do contato do Islã com o Iluminismo, a partir do momento em que o universalismo islâmico perde lugar para um outro universalismo, o da racionalidade lógica. E isso passa a ser sentido com muita força depois do final da era colonial, ou seja, depois dos anos 1970. A colonização tem algo de muito importante a ver com isso. Estou simplificando, mas Fethi Benslama diz que isso explica o surgimento do supermuçulmano, daquela pessoa que super se identifica com o Islã, que passa a vestir as roupas, a rezar mais do que todo mundo, a jejuar melhor do que todo mundo, a exibir sinais exteriores da sua religiosidade.

Isso também é forte nos convertidos?
Muitas vezes acontece com os convertidos. Fethi Benslama também diz que, para algumas pessoas, isso pode ser o gatilho da violência, especialmente dos chamados atentados suicidas. É como se a pessoa sentisse que só se realizaria, só viveria se morresse pela causa. Na verdade, é um morrer como uma forma de ficar vivo. Daí a ideia do martírio e da figura do mártir, como o morto que vive.

 

Salem Nasser é advogado, especialista em Direito Internacional, professor da FGV e colunista da Brasileiros. Foto: Luiza Sigulem

Salem Nasser é advogado, especialista em Direito Internacional, professor da FGV e colunista da Brasileiros. Foto: Luiza Sigulem


A motivação do Estado Islâmico é puramente religiosa?
Não. Em alguma medida tem uma ideologia de fundo religioso, mas quando se pretende criar um Estado que funcione segundo um determinado modelo, esse é um projeto político. Quando cruza a fronteira, vindo do Iraque, o Estado Islâmico começa a crescer, a operar com muita força na Síria. Antes era Al Qaeda no Iraque. Vou falar da minha memória pessoal. Passei uns dois anos falando em todos os debates que o regime da Síria estava lutando com grupos do radicalismo mais profundo. Eu nomeava a Jabja al-Nusra e o Estado Islâmico. Dizia que eram eles que estavam fazendo o trabalho militar. No Ocidente, falava-se do Exército Livre da Síria e da Coalizão Nacional Síria. Eu dizia que estavam falando de uma ficção. Ninguém queria ouvir. E estava muito claro o que estava acontecendo.

E agora?
O mundo só pareceu acordar para a existência do Estado Islâmico quando tomou Mossul no Iraque, há mais de um ano, e se aproximou do Kurdistão iraquiano. Só então fez-se uma coalizão para lutar contra o Estado Islâmico. Antes, durante muito tempo, os países da região, a Turquia, a Jordânia, a Arábia Saudita, o Catar e também os Estados Unidos e a França estavam deixando o Estado Islâmico e a Jabja al-Nusra agir livremente.

Deixando ou apoiando?
Deixando e apoiando. A ideia de que eles estavam atacando o Estado Islâmico é uma ficção e mesmo agora, com a coalizão, o esforço não convence. Estavam deixando livre curso ao Estado Islâmico e à Jabja al-Nusra para que eles pudessem derrubar o regime. Mesmo com os ataques em Paris, a mensagem que parecem passar é “a gente sabe que esses caras são perigosos, mas eles estão sob controle”. Horas antes dos atentados, Barack Obama disse que a prioridade era mudar o regime na Síria. Esse é um problema com o qual o Ocidente tem de lidar, porque ele se apaixona por umas ditaduras e não gosta de outras. Na verdade, quando o Ocidente faz suas escolhas entre uma ditadura e outra, ele deslegitima o seu próprio discurso em relação à democracia. Se a chave de compreensão do mundo é a da ditadura e da democracia, todas as ditaduras deveriam ser colocadas na mesma cesta. Quando você desgosta das ditaduras que fazem uma opção política diferente da sua e deita na cama com as ditaduras que fazem aquilo que você quer e manda, o argumento do Ocidente sobre as ditaduras não faz nenhum sentido.

Como se percebe que o combate ao Estado Islâmico era pífio?
Primeiro, porque atacavam muito menos, sem intensidade suficiente para acabar com o grupo. O número de sobrevoos e de bombardeios era insignificante comparado a outras campanhas, como os ataques sauditas no Iêmen. Além disso, todo mundo sabe que, mesmo que se ataque muito pelo ar, para destruir um grupo como esse precisa-se de tropas no chão. Agora, se você é o Ocidente e não quer combinar os seus passos com o governo da Síria, você não tem ninguém no chão.

Não tem como combater?
O que adianta bombardear, se não está combinado com os sírios, se não há coordenação com tropas em solo? A ideia dos ocidentais é a de que eles estão em um terceiro lado, diferente do governo e dos terroristas, o dos opositores moderados. O discurso do Ocidente é: “Nós apoiamos os moderados contra o regime e contra o Estado Islâmico”. Para o Estado Islâmico, no entanto, eles não têm se demonstrado páreo. O grupo tem muitas armas americanas. Os Estados Unidos jogam armas pelo ar, em princípio para esses grupos armados moderados, e os armamentos vão parar no Estado Islâmico. Como é que vão parar? Em algumas circunstâncias, eles entram em luta com o chamado grupo moderado, ganham e ficam com as armas. Ou então eles pagam melhor e as pessoas saem do grupo moderado, passam para o Estado Islâmico e levam suas armas. Ou então os Estados Unidos sabem onde é que as armas vão parar. Tudo é possível.

O Estado Islâmico tem condição de derrubar avião do chão?
Até agora dizem que não. Não tenho a informação. Não parece ser o caso, mas não poderia dizer. Eles são bem equipados. Você não sustenta uma campanha de tanto tempo se não estiver. Eles são numerosos, bem treinados, estão hierarquizados.

Como o Ocidente lida com os estrangeiros que se alinham ao Estado Islâmico?
Isso faz parte do jogo dúbio do Ocidente. Ele facilitou a saída desses elementos “radicalizados”, para irem lutar com o Estado Islâmico e outros grupos porque eles talvez ajudassem a derrubar o regime. E tenderiam a não voltar. Não voltar porque seriam mortos em combate ou, se vitoriosos, ficariam por lá. Além disso, grupos como o Estado Islâmico em princípio não permitem que seus combatentes voltem aos países de origem. O Ocidente, então, não precisaria ficar vigiando esses elementos “radicalizados”. O que aconteceu nos últimos tempos? A Rússia entrou com força. O Estado Islâmico começou a ficar incomodado, a perder terreno. Começou a enfrentar dificuldades. Passou então a deixar alguns elementos voltarem.

Por quê?
Esta é uma tese que está circulando. Tanto é que o homem que seria o mentor dos ataques em Paris, o belga (Andelhamid Abaaoud), era um líder local bastante importante na Síria. Ele dirigia toda uma unidade. E a esse indivíduo foi permitido voltar. Algumas dezenas voltaram, talvez com a intenção de responder à coalizão: “Vocês começaram a nos pressionar, vamos começar a incomodar vocês em outros lugares”. Então, em princípio, se foram eles, teriam dado uma resposta para a Rússia quando derrubaram o avião russo no Egito. Deram uma resposta para o Hezbollah libanês, mais uma, atacando Beirute com duas explosões, em um bairro muito populoso, majoritariamente xiita. Depois, atacaram em Paris.

Qual o simbolismo de Paris?
Acredito que Paris não está na mesma categoria que a Rússia e o Hezbollah, porque esses dois são inimigos efetivos. Para mim, o elemento fundamental da França é o encontro sobre o clima, com 110 chefes de Estado e de governo. Quando explodem uma bomba a algumas centenas de metros de onde está o presidente francês e saem matando gente pela cidade, não estão dando um recado para Paris. Estão dando um recado para o mundo. Alertam sobre o que podem fazer. Não tem tanto a ver com a França como inimiga. Não que eles se enxerguem como amigos da França.

E os ocidentais?
Fazem um jogo dúbio, mas não porque eles tenham algum gosto especial pelo Estado Islâmico. Eles têm consciência do perigo, do radicalismo, mas acham que é um risco manejável. Além do que, para tomar medidas mais drásticas, é preciso mobilizar um conjunto de atores. E cada um está jogando o seu jogo e deixando o Estado Islâmico e outros grupos agirem. A Arábia Saudita, por exemplo, tem a sua própria agenda. A França especialmente está amarrada com a Arábia Saudita e com os países do Golfo, por questões comerciais. Eles intensificaram enormemente a compra de armas da França. Minha leitura disso é que assim eles compram a voz da França. A França é membro do Conselho de Segurança da ONU, vai estar em qualquer mesa de negociação. E a França ficou muito mais vocal do que os Estados Unidos.

A Arábia Saudita também tem interesse na queda de Bashar al-Assad?
Muito. Eles têm interesse na queda de Bashar al-Assad, na Síria, e no enfraquecimento do Irã, que eles percebem como o seu grande inimigo. Os sauditas também têm interesse na destruição do Hezbollah, do Líbano. Estão totalmente alinhados com Israel, com os Estados Unidos, e talvez sejam os mais radicais nesse investimento no Estado Islâmico como arma de geopolítica. Os turcos fazem o jogo deles, que também é bastante negativo. O Catar igualmente. Então, é preciso que todo esse pessoal mude e diga: “Não, não dá mais para ficar apoiando ou deixando agir esse grupo”. Até agora, no entanto, a conversa deles é: “A gente acabou de sofrer um ataque. O terrorismo é uma coisa terrível, mas Bashar al-Assad precisa sair”. Ou seja, eles ainda estão jogando o jogo da deposição do regime. Não conseguem admitir que só vão vencer esse grupo se promoverem uma transição gradual. Não é só uma questão do regime. Quem conseguir controlar a transição controlará a posição da Síria em relação a Israel, ao Irã, ao Hezbollah, à Palestina. Então, não é tanto a figura de Bashar al-Assad. É onde é que a Síria vai estar. É o gás de quem que a Síria vai transportar. Por isso ainda há queda de braço. A Rússia e o Irã já sinalizaram que não vai dar para derrubar o presidente.

 

Arte/Brasileiros

Arte/Brasileiros


Qual o seu prognóstico para a Síria?
Tende a demorar, porque vão continuar apostando em derrubar Bashar al-Assad. Talvez eles estejam apostando que a ação russa tenha data para terminar. Além disso, há muitas cartas do lado russo, sírio, iraniano. Acredito que vai demorar ainda, porque os ocidentais não estão convencidos de que já deu.

O economista Paul Krugman disse que o objetivo do terrorismo é espalhar o medo e que as mudanças climáticas são mais perigosas porque são capazes de destruir a civilização. O que acha disso?

De fato, isso é verdade, na medida em que o terrorismo, esse tipo de violência, é sempre limitado e não representa risco existencial para a humanidade. Ele é sempre mais simbólico. Esse é o tipo de discurso que quer chamar a atenção para o clima, para não nos deixar totalmente tomados pelo espetáculo da violência. E o clima tem realmente potencial para, no médio e longo prazo, inviabilizar a vida na terra. O terrorismo não tem essa perspectiva e nem poderia fazê-lo.

E Paris, você considera como atos de guerra?
Tem uma diferença entre a definição técnica e a retórica, a representação. A retórica e a representação francesas são: “Fomos atacados. Foram atos de guerra”. Talvez por um tempo os franceses vão dizer que realmente sofreram um ato de guerra. Tecnicamente não é uma declaração nem um ato de guerra. Do ponto de vista do Estado Islâmico, de quem fez os atos, eles também podem representar isso como, “levamos a guerra até a França”. Mas isso também é uma questão de retórica e de representação. Mais relevante até do que a representação é a instrumentalização da retórica e da representação. Quando se diz que não sofreu apenas um ataque terrorista, que sofreu um ato de guerra, justificam-se de antemão ações futuras. Pode-se atacar, destruir. Ou seja, a retórica serve como justificativa. É claro que esse discurso da guerra aparece há muito tempo, pelo menos desde 2001, quando os americanos resolveram dizer que estavam em guerra contra o terror. Isso servia a vários propósitos, na medida em que eles eram a única superpotência. Nenhum poder sobrevive se não tiver um inimigo pensado como extraordinário. Então, os Estados Unidos precisavam de um inimigo e esse inimigo seria o terror.

Com o avanço do Estado Islâmico e o esfacelamento de países como a Síria, como fica a geopolítica da região?
Muito complexa. Sempre foi e vai continuar sendo. Para a geopolítica da região, a peça que vai definir tudo é a Síria. Tem outros atores extremamente importantes, como o Egito, mas essas posições estão todas mais ou menos sedimentadas. Em termos de jogo geopolítico, as grandes disputas na região, o que tem potencial de mudar tudo é a Síria. Disso não tenho a menor dúvida.

E o Estado Islâmico?
Nesse jogo, o Estado Islâmico é um instrumento ou um ator útil. Ou um ator que atrapalha.

Quem financia o Estado Islâmico?
Hoje ele se autofinancia em grande medida. Com o petróleo, com impostos e outras coisas. Ao que dizem, quando o Estado Islâmico entrou em Mossul (no Iraque) havia US$ 500 milhões no banco. Ele se apropriou. Tem dinheiro que vem de fora. Tem certamente contribuições de gente rica que acredita no grupo, talvez de governos, que ajudem sem confessar.

A história de que viriam contribuições de 40 países?
Putin (Vladimir Putin, presidente da Rússia) disse na reunião do G20 que 40 países ajudam a financiar o Estado Islâmico, inclusive países do G20. É bem provável que haja esse fluxo de dinheiro. Por vias diretas ou indiretas. Porque se alguém disser, “não dou dinheiro”, mas jogar armas por paraquedas, de algum modo financiou. Se permitir que eles entrem pela fronteira da Turquia ou que eles treinem na Jordânia, está contribuindo com eles. Há muitos modos de contribuir, além de simplesmente mandar dinheiro e ajudar a pagar os salários. Quanto ao petróleo dos campos que conquistaram, eles exploram e vendem. Alguém está comprando. Isso é um sinal claro de que há muita gente deixando agir. Se todo mundo de fato quisesse restringir a ação do Estado Islâmico, eles conseguiriam mais do que conseguiram até agora. Isso vale para a Turquia, a Jordânia, a Arábia Saudita, o Catar, os Estados Unidos, para a França.

O que muda com os ataques de Paris?
Acredito que deveria mudar mais do que parece que está mudando. Os franceses ainda não deram a meia-volta. O discurso está mais ou menos onde estava antes. Eles fazem um pouco de bravata. Dizem que estão em guerra e que vão atacar maciçamente. Por outro lado, as manchetes dizem que os Estados Unidos estão fazendo um discurso de calma, de paciência. Para mim, tudo isso é mais discurso, talvez encenação, do que realidade concreta.

Qual seria a mudança fundamental?
A grande inflexão seria dizer “acabou a brincadeira” e trabalhar uma transição em que Bashar al-Assad continue presidente por um tempo, marcar as próximas eleições, procurar as pessoas da oposição mais representativa. Porque até agora, o Ocidente faz a interlocução com uma oposição que não tem qualquer representatividade em relação à sociedade síria. Opositores históricos ao regime da Síria, que estão há anos no exílio, e são supercompetentes, tiveram zero participação nos processos de negociação que aconteceram em Genebra, na Suíça. Isso porque quem escolheu os opositores e os colocou em suítes de hotéis cinco-estrelas foram os Estados Unidos, a França e outros. É a chamada oposição dos hotéis cinco- estrelas. Um novo processo negociador estava acontecendo em Viena quando ocorreram os ataques, e a oposição histórica estava lá, convidada pelos russos. Há então a esperança de que algo possa mudar.

De qualquer maneira, o regime de Bashar al-Assad incomoda.
No mundo árabe, as revoltas acontecem mesmo em lugares onde não há ditaduras. Em todos os lugares há alguma razão para descontentamento e revolta. Aqui no Brasil, em outros lugares do mundo, as pessoas também foram às ruas. Na Síria, como na maior parte dos países árabes, de fato havia uma revolta plausível, que tem a ver com os sistemas de governo, as restrições à liberdade, a crise econômica. Vários fatores que são comuns ao mundo árabe. Aconteceu na Tunísia, no Egito, aconteceu em outros lugares, inclusive na Síria. O Ocidente reagiu a cada uma dessas revoltas de um modo diferente, especialmente em termos de representação. Como o que nos interessa agora é a Síria, o Ocidente representa isso como todo o povo contra o regime.

Na sua opinião, como é?
Essa representação é falsa porque não é todo o povo, não é nem a metade. Recentemente, por exemplo, o presidente da Síria concorreu às eleições. Visto daqui, diríamos que foi um simulacro de eleição. Os dois outros concorrentes não eram verdadeiramente opositores. O cara ganhou 80% dos votos, mas não tenho a menor dúvida de que, hoje e por um bom tempo, em qualquer eleição que se faça na Síria, com qualquer critério, com participação livre, esse mesmo presidente vai ganhar.

Por quê?
Primeiro porque ele tem de fato o apoio de uma boa parte da população. Isso não quer dizer que não haja uma oposição significativa nem que esse regime não tenha calado, prendido, exilado as oposições. O que estou dizendo é que ele conta com um apoio popular muito importante, em parte pelo fato de o eleitorado árabe ter um apreço muito grande por personalidades fortes, por líderes centralizadores. Por isso que os homens, no sentido do indivíduo, são muito mais importantes que as instituições, que a alternância no poder. Claro que, em sistemas autoritários, esse governante personalista tende a se perpetuar, o que às vezes leva grandes parcelas da população a votar no ditador.

Como fica a Síria em relação à política da região?
A posição do regime sírio é muito clara em relação a alguns aspectos centrais daquela região do mundo, entre elas a questão da Palestina. Qualquer que seja a caracterização que façamos do governo Bashar al-Assad e do pai dele (o presidente anterior, Hafez al-Assad), enquanto autoritário, ditatorial, o fato é que é um regime que se recusou a virar cliente e pagou um preço alto por isso. Estava tudo dado para que a Síria firmasse a paz com Israel, e os sírios ficassem os melhores amigos dos Estados Unidos e das potências ocidentais. Bastava que os sírios entregassem o assunto palestino, que deixassem o Líbano entregue ao projeto de pacificação com Israel, ao alinhamento com os Estados Unidos. Então, historicamente, com relação ao alinhamento político na região, a Síria manteve uma posição de muita coragem, de muita autonomia.

Quando ficou evidente que a Síria não se alinharia com os Estados Unidos e aliados?
Quando fizeram as negociações de Madri, quando George Bush pai levou todo mundo para Madri para negociar um acordo geral, que abrangesse todo o mundo árabe e Israel. As negociações falharam. É importante o fato de que foi a Síria que se recusou a negociar bilateralmente. A ideia era que Israel negociasse com os palestinos sozinhos, com os libaneses sozinhos, com os sírios, com os jordanianos. Ou seja, que houvesse negociações bilaterais entre cada ator e Israel, mediadas pelos Estados Unidos. Na medida em que se compartimenta, cada um ficaria mais fraco dentro da negociação geral.

Como terminou o encontro?
As negociações de Madri falharam. A Síria se posicionou de maneira muito forte. Insistiu que se não tivesse um pacote geral, não teria negociação. Logo em seguida, porém, conseguiram que Israel negociasse bilateralmente com a Palestina. E os palestinos estão patinando até agora, para conseguir o mínimo do que foi prometido para eles em 1993.

Agora, o que se percebe na Europa é uma ascensão da direita e uma maior resistência a receber imigrantes.
Isso é inevitável. E a questão dos refugiados envolve um jogo que não está sendo muito discutido. Isso porque os refugiados sírios estão saindo da Síria já há um bom tempo. Desde 2011 tem um fluxo constante. Uma boa parte dos refugiados que foram para a Europa nos últimos meses não saiu da Síria. Eles, na realidade, estão saindo da Turquia em direção à Europa. Então, há uma desconfiança de que também esteja sendo dado um recado turco: “Olha, se vocês não fizerem exatamente o que eu quero, eu vou deixar esse pessoal todo ir para aí.”

 

 

 

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Paris: a França trocou De Gaulle por Bush Quem são “os dirigentes ocidentais” que realizaram a obra do Iraque? publicado 23/11/2015

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Paris: a França trocou De Gaulle por Bush

Quem são “os dirigentes ocidentais” que realizaram a obra do Iraque?
publicado 23/11/2015
bush e sarkozySarkozy era o poodle francês

Conversa Afiada reproduz agudo artigo do professor Dany-Robert Dufour, antes publicado no Mediapart, uma espécie da Conversa Afiada francês:

Por que eles fizeram isso ?

Dany-Robert DUFOUR, filósofo e professor da Universidade de Paris VIII em Saint-Denis

Meus filhos, meus alunos me perguntam : « Mas por que eles fizeram isso ? » “Isso”, é a carnificina na noite de sexta-feira, 13 novembro, em Paris. “Eles”, são os dijadistas, muitos deles nascidos na França e, apesar das dificuldades de integração, beneficiários dos serviços públicos da República francesa. Remeto meus interlocutores desamparados ao excelente artigo de meu colega de universidade e amigo, o psicanalista franco-tunisiano Fethi Benslama, publicado no Le Monde, exatamente 24 horas antes do horror acontecer, o que comprova sua inteligência premonitória: “Para os desesperados, o islamismo radical é um produto excitante”. Ele explica que a oferta dijadista captura jovens desorientados devido a lacunas identitárias importantes, oferecendo-lhes um ideal total qui preenche essas lacunas. Uma oferta que transforma o sujeito atormentado pelas dúvidas relativas a sua origem em um “autômato fanático”.

Fethi Benslama remonta esse desmoronamento identitário à queda do califado (1924), isto é, ao fim do último império islâmico. Daí resulta que muitos desses sujeitos se vêem desde então como herdeiros infames. Seguramente essa é uma lacuna imensa. Ora, ela me parece agravada por outras lacunas e penso que Fethi Benslama concordaria com isso. Uma dessas lacunas é bem anterior e data das dificuldades do Islã (que até a Idade Média muito contribuiu para a civilização) em integrar a virada do Iluminismo e da Modernidade. Outras lacunas são posteriores. Como o voto da ONU de 1947 que dividiu a Palestina em um Estado judeu e um Estado árabe que jamais aconteceu. E como a invasão de um grande Estado árabe, o Iraque, pela coalisão conduzida pelos Estados Unidos em 2003.

É necessário examinar esse último ponto porque o século XXI ainda não acabou de pagar pelas consequências da decisão de Georges W. Bush de fazer de Saddam Hussein o responsável pela destruição em 11 de setembro 2001 das torres gêmeas do World Trade Center, um dos símbolos da potência americana. Dito de outra maneira, o século iniciou-se tendo na base um enorme erro, a não ser que tenha sido uma manipulação estratégica monstruosa, que iria levar a uma série de efeitos derivados catastróficos.

Relembremos os fatos: 1) De fato, Saddam era um tirano, aliás do mesmo estilo daqueles que Washington sempre apoiou (por exemplo, Pinochet), mas ele não tinha nada a ver com a destruição das torres americanas (o serviço secreto americano sabia que ele não mantinha relações com Al-Qaïda); 2) a promessa de Bush, seguida por Tony Blair, entre outros, de levar a democracia ao Iraque (a operação chamava-se “Iraqi Freedom”) nada mais era que um slogan para ganhar adesão da opinião ocidental; 3) as provas invocadas para destruir o regime de Saddam se resumiram a inverdades grosseiras (ver as famosas “armas de destruição massiva” que, evidentemente, nunca foram encontradas). Tratou-se na realidade de uma montagem narrativa mal disfarçada, digna das piores formas marketing, essencialmente destinada a se apropriar da quarta reserva mundial de petróleo (não por acaso, é sabido que o próprio Bush e uma grande parte de seu governo eram diretamente ligados à indústria de petróleo).

Hoje se conhece o resultado catastrófico dessa intervenção: cerca de 500.000 mortos iraquianos, uma taxa de mortalidade que passou de 5,5 para 1000 antes da invasão para 13,2 depois da chegada dos americanos, um balanço sanitário desastroso (80% da água sem tratamento), um país devastado tomado por lutas religiosas de uma outra época… E, sobretudo, um laboratório para a formação de milícias dijadistas que sonham com a volta do califado, arregimentando todas as formas de vida humana e levando à fuga de milhões de pessoas “normais”. Essas milícias difundiram-se nos países vizinhos em guerra, como a Síria. Nesses países, acolheram, formaram e transformaram em terroristas aguerridos centenas de milhares de jovens vindos da Europa e de alhures, sofrendo da mesma lacuna identitária evocada por Fethi Benslama.

O mérito da França havia sido então de não se deixar embarcar nessa desastrosa expedição, apesar dos apelos insistentes de “intelectuais”, inclusive de esquerda ou quase, que se encontram hoje em uníssono com a Frente Nacional2, para denunciar os migrantes cujo enorme fluxo atual resulta diretamente da guerra que eles apoiaram. Ainda lembramos bem do discurso pronunciado pelo ministro do Exterior do governo Chirac, Dominique de Villepin, pronunciado na ONU em 14 de fevereiro de 2003, para dizer que a França não se juntaria à coalisão porque: “tal intervenção corria o risco de agravar as fraturas entre as sociedades, entre as culturas, entre os povos – fratura da qual se alimenta o terrorismo.”

Coloca-se então a questão de saber como a França, que havia demonstrado uma visão tão acertada, o que lhe valeu a ira persistente dos republicanos americanos, tornou-se hoje um dos alvos mais importantes do dijadismo. A resposta aparece com clareza desde que não se esqueça os dados da história: passamos de uma visão gaulista (formulada por De Gaulle) a uma posição atlantista. A visão gaulista não foi, na sua essência, questionada por Miterrand e continuou até Chirac. Este havia compreendido pelo menos duas coisas. Um dado exterior: não alinhamento com Washington. E um dado interior: o Estado francês deve levar em conta o fato de que cerca de 10% da população que ele administra é de origem árabe. O dado estratégico somado ao dado pragmático explicam as boas relações mantidas por Chirac com os dirigentes árabes.

A chegada de Sarkozy ao poder caracterizou-se por uma virada atlantista conotada de indecência quando se pensa na mensagem de condescendência submissa que foi passada a Bush. Concretamente, isto se traduziu na reintegração da França no comando integrado da Organização do Tratado do Atlântico Norte. De Gaulle havia anunciado a saída da França da OTAN em 21 de fevereiro de 1966. Sarkozy foi até Washington em 7 de novembro de 2007, para anunciar o retorno da França.

Ora, seu sucessor, François Hollande, nada fez para desviar dessa via atlantista. A tal ponto que o governo francês vai mais longe que a administração americana na defesa da política de Israel, a despeito da extensão considerável das colonias que segmentam o território palestino – uma tática grosseira, nada conforme à inteligência dos judeus que sempre souberam viver e conviver entre os outros, para impedir a formação de um Estado palestino, previsto expressamente pelas resoluções internacionais. Quanto ao Iraque, porque não deveríamos deixar os americanos assumirem as consequências da política desastrosa deles? Porque essa política criou um monstro, os dijadistas, esses sujeitos autômatos sem discernimento, sem pensamento, sem sentimentos humanos (ver o excelente romance 2084 de Sansal Boualem).

Hollande teria estado em seu papel ao reforçar consideravelmente a segurança do país e de suas populações. Mas ele quiz mais: fazer-se de chefe de guerra. Não seria a primeira vez que um chefe de Estado, encasquetado com sua baixa de popularidade, escolheria, consciente ou inconscientemente, a opção da guerra na esperança de fazer o povo voltar a segui-lo. Seja como for, Hollande acreditava estar fazendo uma guerra longínqua. E eis que que ela está aqui dentro.

Essa dupla virada atlantista contribuiu e muito para que a França e nossa Paris tão amada – a da Revolução de 1789, a da Comuna de 1871, a da Liberação de 1945, a de maio de 1968 – nossos jovens, meus filhos, meus alunos, amantes da vida, do pensamento, do amor, da festa, do riso de Charlie ou do rock do Bataclan, estejam agora sendo diretamente visados.

Tudo isso se pode dizer em uma frase: os dijadistas do Estado Islâmico são, do mesmo modo que os nazistas de ontem, loucos perigosos, mas alguns dirigentes ocidentais contribuiram para que eles assim se tornassem.

Na luta contra o ISIS, Rússia não carrega prisioneiros 22 nov 2015

Na luta contra o ISIS, Rússia não carrega prisioneiros

22 nov 2015 | Imprensa InternacionalTags: ·  ·  ·  ·  · 

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Aviação russa

19/11/2015, Pepe Escobar, RT

Tradução Vila Vudu
A essa altura, o chamado Estado Islâmico já deve ter aprendido: meteram-se com os caras errados. Entramos em território de “não se carregam prisioneiros”. Agora, a Rússia tirou a luvas.

Especialmente depois que Dabiq, revista online de terroristas, publicou uma foto de uma bomba que seria idêntica à que derrubou o Metrojet: aparelho primitivo, numa lata de Schweppes Gold, posto sob o assento de um passageiro. Também publicaram fotos supostamente feitas “pelos mujahedeen”, de passaportes de vítimas russas.

O destino coletivo deles foi selado no minuto que o Diretor do Serviço Federal de Segurança Aleksandr Bortnikov disse ao presidente Putin, sobre o desastre do Metrojet, dia 31 de outubro no Egito, que “Podemos afirmar com confiança que foi ato terrorista.”

Os bandidos do ‘califato’ podem mandar nos desertos e para lá dos desertos do “Siriaque” – mas não conseguirão esconder-se. A mensagem da presidência da Rússia foi clara: “Encontraremos e puniremos esses criminosos. Faremos isso, sem prazo para concluir a missão. Descobriremos todos os nomes, de todos. Caçaremos cada um e todos onde estejam, não importa onde se escondam. Encontraremos todos em qualquer local do planeta e os castigaremos.” A mensagem vem com estímulo extra: recompensa de $50 milhões de dólares oferecida pelo FSB, por qualquer informação que leve aos perpetradores da tragédia do Sinai.

A mensagem de Putin foi imediatamente vertida para heavy metal, na forma de massiva, impressionante barragem de fogo russo sobre 140 alvos no ‘califato’, atacados com 34 mísseis cruzadores lançados do ar e ação furiosa dos bombardeiros estratégicos Tu-160, Tu-22 e do Tu-95MC ‘Urso’. Foi a primeira vez que os bombardeiros russos estratégicos de longo alcance foram empregados desde a jihad afegã dos anos 1980s.

E mais virão – para serem alocados na Síria; deslocamento extra de 25 bombardeiros estratégicos, oito jatos de ataque Su-34 ‘Fullback’ e quatro Su-27 ‘Flanker’.

Já na reunião do G-20 em Antalya, Putin revelara espetacularmente a lista dos que contribuem para financiar o Daesh – lista completa, com “exemplos baseados em nossos dados sobre o financiamento, por indivíduos privados, de diferentes unidades [do Daesh].”

O detalhe-explosão: o dinheiro do Daesh, “como já determinamos, vem de 40 países e há entre eles vários membros do G20″ – disse o presidente Putin. Não é preciso ser gênio da Caltech para adivinhar quais são esses membros. Melhor que levem a sério a mensagem de “podem correr, mas não conseguirão se esconder”.

Além disso, Putin desmontou – com provas – à frente de todo o G20, o mito de que alguma Washington estaria seriamente engajada em alguma luta contra o Daesh: “Mostrei aos nossos colegas fotos tiradas do espaço e de aviões, que demonstram claramente a escala do contrabando de petróleo.” Falava da frota de caminhões tanques nos quais o Daesh contrabandeia petróleo, mais de mil caminhões.

Na sequência, trabalhando aparentemente a partir da inteligência de satélites russos, o Pentágono, miraculosamente, deu jeito de encontrar uma fila de caminhões tanques que se estendia “além do horizonte”, pela qual os terroristas contrabandeiam petróleo sírio. Então sim, bombardearam devidamente 116 caminhões tanques. Foi a primeira vez. E, isso, em mais de um ano, tempo durante o qual a Coalizão dos Oportunistas Finórios (COF) estaria, teoricamente, combatendo contra o Daesh. Antes, o único bombardeiro contra os caminhões tanques que jamais aconteceu foi obra da Força Aérea Iraquiana.

A “estratégia” dos EUA, que Obama pôs em modo turbo recentemente, é bombardear a infraestrutura (envelhecida) do petróleo sírio, atualmente expropriada e explorada pelos terroristas do Daesh. Tecnicamente, é propriedade de Damasco e portanto pertence “ao povo sírio”.

Mesmo assim Washington sempre pareceu até hoje mais focada, à moda do capitalismo de desastre, em outro “povo”, que teria muito dinheiro a ganhar reconstruindo a infraestrutura devastada da Síria, no caso de o golpe de “Assad tem de sair” funcionar.

Mais uma vez, a Rússia foi direto ao ponto. Bombardear a rede de transporte – os comboios de caminhões carregados de petróleo contrabandeado, não a infraestrutura instalada do petróleo. Assim, com o tempo, os contrabandistas de petróleo terão de cair fora do business.

A razão chave pela qual o governo Obama jamais antes pensara nessa possibilidade é a Turquia. Washington precisa de Ancara, membro da OTAN, para continuar a usar a base aérea de Incirlik. E há a sensibilíssima questão de quem lucra com a operação de contrabando de petróleo do Daesh.

Gursel Tekin, do Partido Socialista Turco já provou que o petróleo contrabandeado pelo Daesh é exportado para a Turquia pela BMZ, empresa de navios controlada por ninguém menos que Bilal Erdogan, filho do “Sultão” Erdogan. No mínimo, é violação da Resolução n. 2.170 do Conselho de Segurança da ONU. À luz da mensagem de Putin – de que irá à caça de qualquer entidade envolvida no processo de facilitar a operação do Daesh, o clã Erdogan bem fará se tratar de providenciar alguma desculpa bem boa.

Aquele campo jihadista de alto treinamento

A jura de Putin, de que caçará toda e qualquer entidade que facilite/colabore com o Daesh, implica logicamente toda uma viagem no tempo de volta a ‘Shock and Awe 2003′ [Choque e Pavor 2003]: as bombas, a invasão e a ocupação do Iraque, que criaram as condições para o estabelecimento da Al-Qaeda no Iraque, “dirigida” por Abu Musab al-Zarqawi até 2006.

O passo significativo seguinte foi Camp Bucca, perto de Umm Qasr no sul do Iraque: uma mini-Guantánamo onde pelo menos nove membros do que viria a ser a metástase da al-Qaeda – o Estado Islâmico (EI) – se encontraram.

O ISIS/ISIL/Daesh nasceu numa prisão norte-americana. Abu Bakr al-Baghdadi, codinome Califa Ibrahim cumpriu pena lá, assim como o ex-número dois do Daesh, Abu Muslim al-Turkmani e, principalmente, o teórico que concebeu todo o Daesh: Haji Bakr, ex-coronel da Força Aérea de Saddam Hussein.

Jihadistas salafistas de linha-duríssima encontraram-se com ex-notáveis do Partido Ba’ath e descobriram um objetivo comum: uma oferta que o Pentágono não poderia recusar e que o Pentágono, de fato – deliberadamente – deixou prosperar. A Guerra Global ao Terror, afinal, é uma “Guerra Sem Fim” cunhada por Cheney-Rumsfeld.

A obsessão com mudança de regime do governo neoconservador dos EUA acabou por reforçar o alcance do Daesh na Síria.

Todo o processo exibe múltiplas ramificações de loucura imperial, passada e futura, que se podem identificar como fragmentos de uma bomba suicida: dos mujahedeen treinados/armados pela CIA, encharcados de wahhabismo (“combatentes da liberdade de Reagan”) metastaseando-se em ‘Al-CIA-ada’, até Hillary Clinton a admitir que a Arábia Saudita é fonte top do financiamento para os terroristas.

Paris 2015 – assim como Sinai 2015 – é essencialmente efeito colateral de Bagdá 2003. Putin sabe disso. Por enquanto, a tarefa é esmagar toda aquela prole imperial híbrida, de uma vez por todas.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

US State senador Richard Black blurts a verdade sobre a Síria

Terça – feira, 17 de novembro

US State senador Richard Black blurts a verdade sobre a Síria

O senador afirmou que a guerra contra a Síria não foi causado por agitação interna, dizendo “Foi uma guerra ilegal de agressão por potências estrangeiras determinados a forçar um regime fantoche sobre a Síria. General Wesley Clark, ex-Comandante Supremo Aliado da Europa, revelou que, em 2001, as potências ocidentais haviam desenvolvido planos para derrubar [do governo da Síria].

Que Black é um republicano faz essa sucessão de eventos duplamente surpreendente. Quando ele observa na carta ao presidente Bashar al-Assad, “Eu sangrei, lutando para defender a honra da nação …” – a 71 anos de idade negro era um piloto na Marinha dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã e foi premiado com um Purple Heart medalha.

Esta não é a primeira vez Preto tem escrito Bashar. A partir da Wikipedia artigo sobre Black:

Em abril 2014 Preto enviou uma carta oficial ao presidente sírio, Bashar al-Assad, agradecendo “o Exército Árabe Sírio para seu resgate heróico dos cristãos na Cordilheira Qalamoun” e louvando a Assad para “tratar com respeito todos os cristãos e da pequena comunidade de judeus em Damasco “.

Em uma entrevista com o Politico, Black felicitou o Exército Sírio dizendo que eles fizeram “um trabalho espetacular” e eventos comparação desta operação de salvamento de um filme.

Virginia senador democrata Donald A. McEachin chamado a letra “bizarro”. O senador republicano Bill Stanley depois brincou: “Qual é o problema, Dick? Foi Kim Jong-un não retornando suas mensagens de texto?”.

Neste / 13 era pós-11, vamos ver quem está brincando agora em Washington.

A partir agência de notícias do governo da Síria, SANA, datelined 17 novembro:

Senador dos EUA com o presidente al-Assad: Guerra contra a Síria foi uma guerra ilegal de agressão

Damasco, SANA – O presidente Bashar al-Assad na terça-feira recebeu uma carta do senador norte-americano para o Estado de Virginia Richard Black uma carta na qual ele disse: “Eu estava satisfeito com a intervenção dos russos contra os exércitos invasores Síria. Com o seu apoio, o Exército sírio tem feito progressos dramáticos contra os terroristas. ”

“Eu estava encantado com vitória retumbante da Síria sobre ISIS no Kuwairis Airfield. Os meus cumprimentos àqueles que heroicamente resgatado 1.000 soldados sírios bravos da morte certa. Estou convencido de que muitas dessas vitórias pela frente, “Black acrescentou.

O senador afirmou que a guerra contra a Síria não foi causado por agitação interna, dizendo “Foi uma guerra ilegal de agressão por potências estrangeiras determinados a forçar um regime fantoche sobre a Síria. General Wesley Clark, ex-Comandante Supremo Aliado da Europa, revelou que, em 2001, as potências ocidentais haviam desenvolvido planos para derrubar a Síria.

No entanto, depois de quinze anos de subversão militar, a OTAN, a Arábia Saudita e Qatar ainda não é possível identificar um único líder que goza de apoio popular entre o povo sírio “.

“As potências estrangeiras não têm o direito de derrubar eleições legítimas e impor sua vontade sobre o povo sírio. Sírios só deve decidir sobre seu destino, livre de intervenção estrangeira. Eu estou desapontado que a ONU fez vista grossa para a interferência ilegal nos assuntos internos da Síria “, acrescentou.

Ele passou a notar que “Antes do início da guerra, a Síria teve a maior liberdade religiosa e igualdade das mulheres de todos os povos árabes. Muitos norte-americanos ficam surpresos ao saber que a Constituição síria prevê eleições livres, liberdade religiosa, direitos das mulheres, e do Estado de Direito.

Antes de criticar a Síria, os EUA poderiam primeiro insistem que nossos aliados – Jordânia, Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos e Kuwait – conceder liberdades semelhantes ao seu próprio povo “.

Preto expressou desapontamento que os Estados Unidos responderam a ajuda da Rússia para a Síria, enviando anti-tanque mísseis TOW aos terroristas, que só iria prolongar disse, criticando a loucura de armar “bons terroristas” e armas de retenção na fonte de “maus terroristas”, acrescentando que o implantação irresponsável de mísseis TOW ameaça aviação em todo o mundo, como armas ant-tanque têm longo alcance e pode atacar e destruir aviões de passageiros que estão decolando.

Ele disse que, como senador por Virginia, ele sente preocupar porque esses mísseis podem encontrar seu caminho para áreas remotas perto de aeroportos como o Aeroporto Nacional Reagan e do Aeroporto Internacional Dallas, acrescentando que ele transmitiu estas preocupações ao Presidente americano.

Preto passou a notar que “Jaish al-Fateh” organizações terroristas, que ele se referia por “Army of Conquest,” a tradução literal de seu nome, recebeu apoio militar mais americano, ressaltando que essa organização terrorista inclui Jabhat al- Nusra que jurou lealdade à Al Qaeda, o que significa que os Estados Unidos estão armando a mesma organização terrorista responsável pela morte de 3.000 americanos em 11/09, considerando que este é uma traição dessas vítimas.

O senador chegou a dizer que ele está se tornando claro para as pessoas que os terroristas na Síria estão a receber apoio militar da Turquia, Arábia Saudita e Qatar, que são aliados de os EUA, e que a Turquia é o apoiador mais leal do ISIS como ele representa o principal canal para o fluxo de jihadistas, armas e comércio, acrescentando que a Turquia também não ofereceu nada de significativo para o desempenho da aliança proposta contra ISIS apesar de ser um membro dela.

Ele disse que a Turquia ea Arábia Saudita procuram impor uma ditadura religiosa sobre o povo sírio, e se conseguirem que então os cristãos e outras minorias seriam assassinados ou vendidos como escravos, e muitos de bom coração muçulmanos sunitas e xiitas também será vítima juntamente com eles.

Mas o senador observou que a opinião pública mundial está se voltando contra o terrorismo e os seus apoiantes, acrescentando: “O tratamento cruel de soldados sírios capturadas por grupos armados é terrível. Muitos americanos acham o comportamento desses chamados “moderados” moralmente repugnante “.

“Eu sangrei, lutando para defender a honra da nação. Vou opor o apoio americano para os terroristas, como o Exército da Conquista e ISIS que ameaçam a Síria. Muitos virginianos juntar-se em oração para que o Exército Árabe Sírio e seus aliados irão triunfar sobre as forças do mal, e que a paz em breve voltará a Síria “, disse ele, concluindo a carta, acrescentando” Obrigado por proteger a vida dos cristãos e de todas boas povo da Síria “.

[RELATÓRIO FINAL]

Crianças em uma das aldeias libertadas nas proximidades de Aleppo

FOTO: SPUTNIK / MIKHAIL VOSKRESENSKY

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Fundação Santo André representada no I Congresso Latino-Americano Pelo Direito ao Retorno dos Refugiados Palestinos- na Venezuela

Fundação Santo André representada no I Congresso Latino-Americano Pelo Direito ao Retorno dos Refugiados Palestinos- na Venezuela

CongressoEntre os dias 16 e 19 de abril, o professor Dr. Marcelo Buzetto e o pesquisador Marcel Machiniski, graduado em Relações Internacionais pela FSA, participaram do I Congresso Latino-Americano pelo Direito ao Retorno dos Refugiados Palestinos, em Caracas –Venezuela, que combinou debates sobre a situação política do mundo árabe e oriente médio. Este encontro foi uma iniciativa mundial para apoiar os mais de cinco milhões de palestinos que não podem retornar à sua pátria devido à ocupação militar israelense.

À convite da Campanha Global pelo Direito ao Retorno (criada no Líbano, em 2014), da Via Campesina Brasil e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, o Prof. Marcelo e o pesquisador Marcel representaram a delegação brasileira no Congresso Latino-Americano. Mais de 50 pessoas de 15 países da América Latina, além da presença de sírios, libaneses, palestinos, iranianos e uma importante delegação de judeus antisionistas do movimento Neturei Karta (vindos dos EUA) estiveram presentes.

As resoluções do congresso sugerem ações internacionais de apoio ao retorno dos refugiados na semana de 14 de maio, pois foi entre os dias 14 e 15 de maio que foi criado o chamado Estado de Israel, e quando teve início o problema dos refugiados palestinos.

Com a Embaixadora do Estado da Palestina na Venezuela Linda Sobeh AliEstudos na FSA – Um dos problemas mais debatidos por estudiosos das Relações Internacionais é o conflito Israel-Palestina e seu impacto na situação política do mundo árabe e Oriente Médio. No Centro Universitário Fundação Santo André, estudantes de Relações Internacionais, sob a orientação do Prof. Dr. Marcelo Buzetto, tem elaborado pesquisas, artigos acadêmicos e monografias sobre o tema. Atualmente organizados no Núcleo de Estudos Gamal Abdel Nasser – Geopolítica do Mundo Árabe e Oriente Médio (NESNASSER), os estudantes tem se dedicado a compreender conflitos contemporâneos como a ocupação militar israelense da Palestina, a invasão da OTAN na Líbia, a guerra na Síria, a chamada “primavera árabe” etc. Quem quiser participar do movimento internacional de solidariedade aos refugiados palestinos e/ou do NESNASSER entrem em contato com Prof. Marcelo Buzettoprofmarcelobuzettofsa@gmail.com.

Saiba mais – O chamado Estado de Israel foi criado em 1948 para ser um representante dos interesses dos EUA, França e Inglaterra no coração do mundo árabe. Desde sua criação a região do Oriente Médio vive uma situação de permanente tensão e conflito. Israel se estabeleceu no território palestino, ocupando ilegalmente terras em 1948, em 1967 e nos anos 70, 80 e 90. A população palestina foi perseguida, assassinada, tiveram suas casas e vilas destruídas e, diante dessa tragédia, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a Resolução 194, que garante o direito de retorno a todos os refugiados palestinos, inclusive obrigando o governo de Israel a indenizar as famílias pelos prejuízos materiais e morais resultantes da ocupação.

Confira as fotos do evento em: Galeria do Flickr

Deem bom – dia aos meus mísseis cruzadores

Deem bom – dia aos meus mísseis cruzadores

13 out 2015 | Imprensa InternacionalTags: ·  ·  ·  ·  ·  ·

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Traduzido por Vila Vudu

O Novo Grande Jogo na Eurásia avançou saltos e saltos semana passada, depois que a Rússia disparou 26 mísseis cruzadores, do Mar Cáspio, contra 11 alvos no ISIS/ISIL/Daeshpor toda a Síria e destruiu todos. Esses ataques do mar foram a primeira vez, que se saiba, em que foram usados operacionalmente os mísseis cruzadores estado-da-arte SSN-30A Kalibr.

O Pentágono só pôde mesmo lançar olhar enviesado, sobre o ombro, acompanhando o voo dos mísseis Kalibr – que acertam alvos localizados a 1.500km de distância. Aí está. Mensagem curta, clara, compacta de Moscou, dirigida ao Pentágono e à OTAN. Querem meter-se conosco, caras? Talvez, quem sabe, com aqueles porta-aviões enormes e pesadões?

Mais que isso, além de implantar o que é uma zona de exclusão aérea de facto sobre a Síria e o sul da Turquia, o cruzador Moskva, da Marinha Russa, que transporta 64 mísseis S-300 mar-ar, está agora ancorado em Latakia.

As proverbiais fontes anônimas nos EUA entraram em surto de hiperatividade, espalhando ‘noticiário’ segundo o qual os russos tiveram quatro mísseis que ‘perderam o rumo’ e caíram no Irã. O Alto Comando da Rússia riu delas: todos os mísseis atingiram o alvo, dentro do raio previsto de 2,40m em torno do ponto demarcado.

O Pentágono nem sabia que o Kalibr pode ser disparado de navios pequenos (os Tomahawks exigem navios muito maiores).

O melhor que o Pentágono conseguiu inventar, além da apoplexia generalizada, foi o comandante do North American Aerospace Defense Command (NORAD), almirante William Gortney a dizer que os mísseis cruzadores de longo alcance do Conselho Atlântico da Rússia são nova “ameaça” à defesa nacional estratégica dos EUA.

A ameaça do míssil cruzador russo é “desafio particular para o NORAD e para o Comando do Norte.” OH! É mesmo?!

Pode-se falar de mais uma subavaliação monstro do que seja o Novo Grande Jogo. Pode-se argumentar que o desenvolvimento militar da Rússia ao longo dos últimos anos pôs Moscou várias gerações à frente dos EUA. Na hipótese de uma Guerra Quente Mundial 3.0 – que ninguém, exceto os Drs. Fantásticos enlouquecidos de sempre, poderia desejar –, as armas chaves serão mísseis e submarinos, não os porta-aviões monstro à moda dos EUA.

O Pentágono está apoplético, porque essa mostra da tecnologia russa revelou ao mundo que acabou o monopólio dos EUA sobre os mísseis de longo alcance. Os analistas do Pentágono ainda trabalhavam sob o pressuposto de que o alcance desses mísseis não ultrapassaria 300 quilômetros.

Além do mais, a OTAN foi avisada: a Rússia pode acabar com eles, num flash – como vi acontecer em conversas na Alemanha, semana passada. A retórica furiosa, do tipo “você está violando o meu espaço aéreo” tampouco tem qualquer serventia.

Mais uma vez, assumindo-se o cenário “Dr. Fantástico”, a única resposta possível dos EUA se a coisa ficar séria seria lançar seus mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) nucleares; nesse caso, o espaço aéreo da Rússia estará blindado pelos mísseis do sistema antimísseis S-500, cada um com dez interceptadores de mísseis e que não deixarão passar nenhum dos ICBMs dos EUA.

Idiota e mais idiota ainda, mas moderado

Assim sendo, passado o choque inicial, o Pentágono reverteu para… vacuidade total, e complementou o humor festivo com as manchetes idiota e muito-mais-idiota que se leem aqui aqui.

O ‘El Supremo’ do Pentágono Ash Carter jurou que Washington nunca cooperará com Moscou na Síria, porque a estratégia do Kremlin seria “tragicamente falhada”. Deve-se interpretar que “falhou”, porque em poucos dias a Rússia matou mais doidos salafistas terroristas que toda a Coalizão dos Oportunistas Finórios (COF) comandada pelos EUA (COFUSA) [orig. US-led Coalition of the Dodgy Opportunists (CDO)] em mais de um ano. Alguém ainda lembra que essa Continuous Descent Operation, CDO-2, chama-se oficialmente “Operação Inerente Firmeza” [orig. Operation Inherent Resolve?

E há também um problema adicional com a coisa de “Não quero brincar na mesma pracinha que você”, chamada de “estratégia” no Pentágono; o Ministério da Defesa da Rússia explicou que quem primeiro solicitou ações coordenadas com a Rússia na Síria foi… o Pentágono.

Para acrescentar irrelevância à vacuidade, o Pentágono anunciou que está arquivando o seu mais recente espetacular fracasso: o programa de $500 milhões para “treinar e equipar” rebeldes “moderados” na Síria, que produziu estonteantes “quatro ou cinco” duros-de-matar preparados para combater contra o ISIS/ISIL/Daesh.

Assim sendo, acabou-se “mais treinamento”; em vez disso haverá “capacitadores” – palavra-código para “inteligência local” – com a missão de identificar alvos do falso “Califato” para serem atacados pela COFUSA. Serão “instruídos” sobre como interagir com o Pentágono “à distância”.

E quem conseguiria inventar tudo isso?!

A parte do “Equipar”, por sua vez, será muitíssimo degradada; restou só um saco de rifles de assalto a serem entregues a uns 5.000 rebeldes “moderados”, rifles os quais, claro, serão imediatamente confiscados pela Frente al-Nusra, codinome “al-Qaeda na Síria”, os rapazes do “Califato”.

Ash Carter dava sinais de estar satisfeitíssimo com essa sua estratégia magnificamente concebida, orientada para ajudar a “aumentar o poder de combate” daqueles rebeldes “moderados” invisíveis. E jura que Washington “permanece comprometida” com treinar os tais rebeldes “moderados”, mas a toada agora é “por diferentes vias para alcançar basicamente o mesmo tipo de objetivo estratégico”.

Coube ao atordoantemente medíocre Ben Rhodes, vice-conselheiro de segurança nacional dos EUA para comunicação estratégica, elaborar sobre o novo foco da magnificamente concebida “estratégia”: “desenvolver relacionamento com líderes e unidades [dentre os grupos sírios armados], e capacitar-se para fazer chegar suprimentos e equipamentos até eles.” Ora! Por que não “desenvolvem o relacionamento” por uma página de Facebook?! Barato e muito mais efetivo.

Oh, babe, me desconflite

Apesar de a “desconflitação” entre Washington e Moscou continuar tão conflitada como sempre, há pelo menos uma questão quanto à qual talvez concordem: trabalhar com os curdos no nordeste da Síria, como já admitiram membros do Partido da União Democrática (cur. PYD). O co-presidente do PYD Salih Muslim já disse claramente que “lutaremos ao lado de qualquer um que lute contra o Daesh.”

Mas as análises feitas pelo PYD continuam a ser anátema para o Pentágono e a Casa Branca. E o PYD sabe algumas coisinhas sobre combater em solo contra terroristas/rebeldes “moderados”. Para o PYDISIS/ISIL/DaeshJabhat al-Nusra ou Ahrar a-Sham “são sempre a mesma coisa, sem diferença de um para o outro”. Tradução: não há no mundo sequer um, que fosse, rebelde “moderado”. E o PYD também aceita que Bashar al-Assad permaneça no poder por algum tempo, mas só durante um período “transicional”.

PYD interpretou perfeitamente o significado da ofensiva da Rússia na Síria. Eles opõem-se firmemente a qualquer zona aérea de exclusão controlada pela Turquia, e agora já têm certeza que não acontecerá. Também sabem perfeitamente que uma brigada do “Sultão” turcomeno, treinada por Ancara – rebeldes “moderados” à moda turca – imediatamente desertará, em massa, para o lado do ISIS/ISIL/Daesh.

Entrementes, em Sochi, o presidente Vladimir Putin da Rússia encontrou-se – outra vez – com o ministro da Defesa da Arábia Saudita príncipe Mohammed bin Salman, o mesmo príncipe-guerreiro que atualmente massacra civis no Iêmen. Os ministros russos de Relações Exteriores Sergey Lavrov e de Energia Alexander Novak participaram da reunião.

Diplomaticamente, se trata de Moscou e Riad definirem que o ISIS/ISIL/Daesh não receba permissão para tomar a Síria. O diabo está nos detalhes. Muitos boatos sobre uma “solução política”. Putin, mais uma vez, mais hábil, impossível: a atual ofensiva visa a “estabilizar as autoridades legítimas e criar condições para construir um acordo político”. A Casa de Saud entendeu o recado: é do jeito da Rússia, ou rua.

Mas eles ainda flertam com a rua, verdade seja dita – com os proverbiais funcionários sauditas não identificados já confirmando que o príncipe Salman amigo de Putin teria entregue 500 mísseis TOW antitanques aos rebeldes “moderados” do ex-Exército Sírio Livre. Podem apostar que sem demora aparecerão TOWs em mãos de salafistas de vários grupos.

E toda essa ação frenética acontece paralelamente ao centro de coordenação de inteligência Rússia-Irã-Iraque-Síria-Hezbollah, que começou a operar recentemente em Bagdá e já mostrou que não veio para fingir que trabalha. Assim, sim, é que se organiza e comanda inteligência em campo. Um ataque pode ter deixado escapar o “Califa” Ibrahim, mas mandou ao Paraíso vários notáveis do “Califato”. Resumo: o Pentágono não foi convidado e só soube do ataque no Iraque porque alguém lá estava assistindo à CNN. Os registros mostram que o Pentágono não está exatamente entre os dez-mais em matéria de inteligência em campo, no Iraque.

Fontes xiitas em Bagdá confirmaram pessoalmente a mim, mais uma vez, que a conversa na cidade é que o governo Obama realmente não tem qualquer interesse em combater contra o ISIS/ISIL/Daesh, no máximo sujar a ponta dos coturnos em algum tipo de “apoio relutante”. Isso, porque a “estratégia” do governo Obama – podem perguntar ao coitado daquele Ben Rhodes – permanece atrelada a “Assad tem de sair”, venha sob qual variação semântica vier.

E quanto à Turquia? Eis aqui a resposta breve. O sultão Erdogan simplesmente não consegue controlar os curdos – nem na Síria nem na Turquia. Também não consegue controlar a Síria. E de controlar Moscou, então, nem se fala. A piada que circula atualmente da Síria ao Iraque e ao Irã é que ninguém precisa atacar a Turquia; basta deixar que rache sozinha. O sultão Erdogan está providenciando.

Os muitos impasses do Sultão explicam por que o primeiro-ministro da Turquia Ahmet Davutoglu – aquele da antiga doutrina de “zero problemas com os vizinhos” – anda dizendo agora que Ancara está pronta para conversar com Moscou e Teerã sobre a Síria, desde que não se cogite de “legitimar” Assad. Davutoglu também trabalha para desenvolver uma lógica pervertida segundo a qual os ataques aéreos russos aumenta(riam) o fluxo de refugiados sírios para dentro da Turquia. Assim sendo, todos devemos esperar que Ancara expulse do país mais uma onda de refugiados que são mantidos em “campos de contenção” no caminho para a Fortaleza Europa. Na sequência, jogue a culpa em Putin. E nos mísseis de Putin.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

‘EUA devem desculpas ao mundo pelo caos no Oriente Médio’, diz jornalista

‘EUA devem desculpas ao mundo pelo caos no Oriente Médio’, diz jornalista

“Entre, está aberto!” O grito ecoa do pequeno escritório no centro de Washington, sem nome na porta. Seu dono é o autor de algumas das reportagens mais impactantes e controvertidas dos últimos 50 anos. A impaciência é uma de suas marcas.

Iconoclasta, desbocado e dolorosamente direto, Seymour Hersh é um especialista em constranger governos, com sua capacidade de revelar informações que eles preferiam manter ocultas.

Aos 78 anos, sua desconfiança dos que detêm o poder ainda é combustível para que ele vá atrás da notícia exclusiva e muitas vezes devastadora. A descrença nos governos alimenta a fé no jornalismo de verdade, para ele, mais necessário do que nunca.

“Cada vez mais os que governam são idiotas, ladrões. A única coisa entre eles e a loucura somos nós. Por isso é tão importante ser jornalista”, diz o repórter, que participará em São Paulo neste sábado (10) do Festival de Jornalismo Piauí/Globonews.

Divulgação
O jornalista americano Seymour Hersh, que está em visita ao Brasil
O jornalista americano Seymour Hersh, que está em visita ao Brasil

Hersh se habituou a ser uma voz dissonante nos debates em seu país sobre o papel dos EUA no mundo.

Não é surpresa, portanto, que contrarie o discurso do presidente Barack Obama de que só é possível pensar numa solução para a crise na Síria sem o ditador que governa o país, Bashar al-Assad.

Para horror de muitos, concorda com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, de que a alternativa a Assad é pior: a expansão da facção terrorista Estado Islâmico.

“Já era a minha opinião muito antes de Putin ter dito isso. Quais as opções? Até em Israel quem sabe das coisas diz isso. Em privado, claro. Bashar tem que vencer”, diz.

Hersh chama o ditador pelo primeiro nome para diferenciá-lo do pai, Hafez (morto em 2000), e também por conhecê-lo. A Síria está em seu radar bem antes da sangrenta guerra civil que já deixou mais de 250 mil mortos em quatro anos. Visitou o país e entrevistou Assad “cinco ou seis vezes”.

Na época, a situação era bem mais simples, havia a expectativa de que Assad, oftalmologista formado em Londres, promoveria uma abertura política. Mas “ele nunca teve os direitos humanos como prioridade”, diz Hersh.

HIPOCRISIA

Diante dos horrores da guerra no país, as acusações do governo americano de atrocidades cometidas pelo regime sírio contra civis soam ao jornalista como hipocrisia.

“Sempre acho curioso quando os americanos criticam os que bombardeiam não combatentes numa guerra total. Não foi um país chamado América que bombardeou cidades alemãs à noite? Quem lançou duas bombas atômicas no Japão? E o Vietnã?”, diz o repórter no escritório abarrotado de pastas e prêmios empilhados no chão.

Hersh construiu uma das carreiras mais premiadas do jornalismo americano indo na contramão das versões oficiais. Sua reputação foi catapultada em 1969, quando revelou o massacre de My Lai, no Vietnã, um vilarejo dizimado pelo Exército dos EUA.

A reportagem lhe valeu o prêmio Pulitzer, o mais importante do jornalismo americano, e intensificou a impopularidade da campanha militar dos EUA no Vietnã.

Foi só um dos escândalos revelados por ele que abalaram a Casa Branca, incluindo os abusos cometidos por soldados americanos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque (2004), e a desconstrução da narrativa do governo para a morte do terrorista Osama bin Laden, publicada em maio deste ano na “London Review of Books”.

mai.2004/Reuters
Mulher soldado do Exército norte-americano aponta para prisioneiros iraquianos nus e encapuzados, na prisão de Anu Ghraib, no Iraque
Mulher soldado do Exército norte-americano aponta para prisioneiros iraquianos nus e encapuzados, na prisão de Anu Ghraib, no Iraque

Apesar de seus protestos contra a Guerra do Vietnã após My Lai, para ele nenhuma guerra americana foi pior que a do Iraque. “Ali não foi só uma guerra estúpida, foi criminosa”, diz.

“Os EUA devem um enorme pedido de desculpas ao mundo pelo caos no Oriente Médio

O confronto OTAN-Rússia na Síria –por pepe escobar

O confronto OTAN-Rússia na Síria

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7/10/2015, Pepe Escobar, RT
Traduzido por Vila Vudu

Um Su-30 entra uns poucos metros no espaço aéreo turco, por apenas dois minutos sobre a província Hatay, e volta ao espaço aéreo sírio logo que foi alertado por dois F-16s turcos.

A OTAN, como se podia prever, veio com todas suas armas retóricas engatilhadas. A Rússia está causando “perigo extremo” e deve parar imediatamente de bombardear aqueles ‘rebeldes moderados’ bonzinhos que a coalizão dos oportunistas safados tanto se esforça para não bombardear.

Mas, calma! A OTAN está atualmente ocupada demais para ir à guerra. A prioridade até pelo menos novembro é a épica operação Trident Juncture 2015; 36 mil soldados de 30 estados, mais de 60 navios de guerra, cerca de 200 aviões, todos treinando seriamente como defender-se do proverbial “Os Russos Estão Chegando!”

Mesmo assim, o primeiro-ministro turco Ahmet Davutoglu – aquele, o da antiga doutrina de “zero problemas com os nossos vizinhos” – realmente “alertou” Moscou de que, na próxima, Ancara responderá “militarmente”.

Até, claro, que retrocedeu: “O que recebemos da Rússia (…) é que foi um erro e que eles respeitam as fronteiras turcas e aquele erro não se repetirá.”

O incidente teria sido facilmente contornado – pelos canais de comunicação militar-militar – sem a encenação que se viu.

Mas Ancara – flanco leste da OTAN – está sofrendo pressão descomunal do ‘Excepcionalistão’. Não por acaso, o El Supremo do Pentágono e neoconservador conhecido, Ash Carter, “manteve conversações” com Ancara sobre o incidente. Carter, claro, é o astro que mais aplicadamente pratica o diktat do governo dos EUA: “Ao empreender ação militar na Síria contra grupos moderados, a Rússia escalou a guerra civil.”

Na sequência, o ‘Sultão’ Erdogan, diretamente de Estrasburgo (não, não, não estava em campanha para o Parlamento Europeu) repicou: “Assad cometeu terrorismo de estado e, infortunadamente, vê-se a Rússia e o Irã a defendê-lo”.

E nem assim o ‘Sultão’ Erdogan conseguirá passar à história como o catalisador da muito desejada Guerra Quente 2.0 OTAN-Rússia. Não, pelo menos, por enquanto.

Só bombardeie quando nós mandarmos

Entra o Dr. Zbigniew “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski, rugindo em coluna para oFinancial Times que Washington deve “retaliar”, se Moscou não parar de atacar “ativos dos EUA” na Síria. “Ativos dos EUA” significa terroristas “moderados” treinados pela CIA. E afinal, está em jogo a “credibilidade norte-americana”.

Dr. Zbig – principal mentor de Obama para política externa – insiste que bombardear “rebeldes” treinados pela CIA é prova da “incompetência militar russa”. E o contra-ataque norte-americano deve visar a “desarmar” a “presença naval e aérea russa.” E assim, qualquer um consegue uma Guerra Quente 2.0 OTAN-Rússia.

Dr. Zbig admitidamente considera que “o caos regional pode facilmente se espalhar para nordeste” e então “ambas, Rússia e China, podem ser adversamente afetadas.” Mas… e quem se preocupa? A única coisa que conta é que “interesses norte-americanos e amigos dos EUA… também sofreriam.”

Eis o que se faz passar por análise geopolítica que preste, no ‘Império do Caos’.

O ‘sultão’ Erdogan, por sua vez, não sossega. Moscou já reduziu a pó o sonho tão ansiado, de três anos, de Erdogan, de conseguir uma zona aérea de exclusão sobre o norte da Síria. Há é uma zona aérea de exclusão verdadeira, sobre toda a Síria. Mas quem manda nela é a Rússia.

E isso explica por quê reina a mais completa histeria de pleno espectro e só se fala de mais sanções do Congresso dos EUA contra a Rússia. Como alguém conseguirá impor sua própria zona aérea de exclusão sobre a Síria… se a Rússia chegou primeiro?

E estava tudo andando tão bem para o ‘Sultão’! Ancara – dada da forte insistência de Washington – afinal abriu suas bases aéreas para a luta contra ISIS/ISIL/Daesh, mas só porque a operação foi parte de uma operação para mudança de regime em Damasco. E então, sim, Ancara conseguiria sua zona de exclusão aérea.

É quando entra em cena o pesadelo recorrente do ‘Sultão’: o Partido da União Democrática Curda (PYD) e sua organização irmã, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

‘O Sultão’ simplesmente não pode aceitar o avanço do PYD para a margem ocidental do Eufrates para ajudar na luta contra ISIS/ISIL/Daesh. ‘O Sultão’ quer “conter” o PYD em Kobani.

O problema é que o PYD – apoiado pelo PKK – é o único aliado confiável do ‘Império do Caos’ na Síria. Mas ‘O Sultão’ não conseguiu se impedir de entrar em guerra – outra vez – contra o PKK. Washington não ficou exatamente muito contente.

E então há também o corredor chave do ponto de passagem de fronteira em Bab al-Salam até Aleppo – controlado por esquadrões de doidos apoiados por Ancara. É a ponte de Ancara para Aleppo; sem ela, nem a mínima chance de mudança de regime, nunca. O falso “Califato” ameaçava tomar o corredor. Tornou-se imperativo agir.

A espetacular entrada da Rússia no teatro de guerra desmontou todos esses elaborados planos. Imagine uma liberação completa do nordeste da Síria, tão logo o PYD – com auxílio dos combatentes do PKK – esteja suficientemente armado para dar cabo dos doidos do ISIS/ISIL/Daesh. E imagine a Força Aérea Russa dando cobertura a tal operação, com coordenação extra pela central Rússia-Síria-Iraque-Irã em Bagdá.

‘O Sultão’, em desespero, teria de manobrar seus F-16s contra essa ofensiva. E assim poderíamos realmente ter um cenário cinco-minutos-antes-da-meia-noite OTAN-Rússia – com consequências aterrorizantes. ‘O Sultão’ pisca primeiro. E a OTAN mergulha na ignomínia da qual nunca emergiu – de volta àqueles elaborados exercício “a Rússia está invadindo”.

Dê bom-dia à minha ferramenta geopolítica jihadi

Passos seguintes para a campanha russa é dar atenção concentrada à estrada que liga a capital de ISIS/ISIL/Daesh, Al-Raqqah, em torno da qual os jihadis combatem pelo controle do petróleo e do gás em Sha’ir e Jazal. E há os bolsões a leste de Homs e Hama, e em al-Qaryatayn. Moscou – lentamente, metodicamente, sem erros – está chegando lá.

O que a campanha aérea dos russos já expôs perfeitamente claro é todo o mito central apodrecido da nova Jihad International.

ISIS/ISIL/Daesh, Frente al-Nusra e sortimento variado de esquadrões de doidos salafistas jihadistas são mantidos ativos e operantes por um massivo “esforço” financeiro/logístico/de armamento – que inclui todos os tipos de nodos chaves, de fábricas de armas na Bulgária e Croácia, até as rotas de transporte via Turquia e Jordânia.

Quanto àqueles “rebeldes moderados” sírios – e a maioria dos quais sequer são sírios, são mercenários – cada seixo rolado nas revoltas areias Sykes-Picot do deserto sabe que são treinados pela CIA na Jordânia. Os seixos do deserto também sabem muito bem que os doidos do ISIS/ISIL/Daesh foram infiltrados dentro da Síria, vindos na Turquia – mais uma vez através da província Hatay; e vastas porções do Exército e da polícia d’”O Sultão” estão no jogo.

Quanto a quem paga as contas daquela fartura de armas, fale com os “ricos pios doadores” – incitados pelos próprios clérigos – no CCG, o braço petrodólar da OTAN. Nenhum desses esquadrões de doidos poderia viver por tanto tempo sem “apoio” pleno, multidisciplinar dos suspeitos de sempre.

Daí a raiva histérica/apoplética/paroxística que toma conta do “Império do Caos” manifesta o absoluto fracasso, mais uma vez, da mesma velha “política” (lembrem-se do Afeganistão) de usar jihadistas como ferramentas geopolíticas. Falso “Califato” ou “rebeldes”, são todos paus mandados do CCG-OTAN.

Para acrescentar insulto à injúria, um muito frustrado “Sultão” foi também forçado a anexar-se a uma posição ligeiramente modificada de Washington – que agora manda que “Assad tem de sair”, sim, mas pode demorar um pouco, como parte de uma “transição” ainda a ser definida.

‘O Sultão’ continuará uma pilha de nervos. Não dá nenhuma importância aoISIS/ISIL/Daesh. Agora, Washington assumiu – digamos assim. Quem esmagar o PYD e oPKK. Para Washington, o PYD é aliado útil. Para Moscou, melhor ‘O Sultão’ olhar bem onde mete seu pé neo-otomano.

“O Sultão” simplesmente não pode antagonizar “O Urso”. Gazprom vai expandir seu gasoduto Blue Stream até a Turquia. Seriam 3 bilhões de metros cúbicos; em vez disso, serão 1 bilhão de metros cúbicos. Segundo o ministro Alexander Novak, de Energia da Rússia, é por causa de capacidades técnicas.

Mas Ancara que se comporte, porque até essa extensão reduzida pode evaporar, se não houver acordo sobre os termos comerciais do TurkStream, ex-Turkish Stream. Ancara está sob tremenda pressão do governo Obama. E “O Sultão” sabe muito bem que sem a Rússia e todo seu elaborado plano para pôr a Turquia como nodo chave para o trânsito da energia do Leste para Oeste, tudo evanescerá no mato rasteiro da Anatólia. No fim, pode sobrar ‘mudança de regime’ até para ele mesmo.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.