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Entrevista: Carlos Latuff, arte a serviço da transformação

 

Entrevista: Carlos Latuff, arte a serviço da transformação

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Lafuff cria desenhos de crítica à política do Estado de Israel.

Popular em muitos lugares do mundo, o chargista brasileiro Carlos Latuff ganhou o globo com suas charges de protesto. Entre as temáticas mais abordadas por ele no Brasil estão a causa indígena e a violência e extermínio que sofrem os jovens do país. No entanto, foram e continuam sendo os desenhos de crítica à política do Estado de Israel e sua adesão à causa palestina os que ganham adeptos e críticos ferrenhos, principalmente no Oriente Médio.

Thiago Silveira, via Adital em 17/4/2015

Carioca radicado no Rio Grande do Sul, Latuff conversou com a Adital, no último mês de março, por ocasião do debate “Palestina: notícias de um apartheid e de uma luta”, evento promovido pelo Sindicato dos Servidores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (Sindsifce). Bem humorado, o cartunista conta sua experiência quando visitou a Palestina, fala do engajamento de seu trabalho e da situação do Brasil atualmente com a onda de protestos contra o governo.

Ameaçado de morte e acusado de ser um dos maiores antissemitas do mundo, o cartunista acredita na arte como promotora de novas ideias e como contraponto à massa de informações alienantes, com as quais a população é bombardeada todos os dias. “A poesia, a arte chega no coração das pessoas. A arte pode ser um instrumento de manutenção das coisas como estão ou ela pode despedaçar esse estado de coisas, pode ajudar a criar rachaduras. É isso que eu acredito!”.

Adital – Você veio a Fortaleza para o debate “Palestina: notícias de um apartheid e de uma luta”. Você esteve na Palestina em 1998. Como começou a se dar essa relação?
Carlos Latuff – Quando eu estive lá, a situação ainda era “calma”, ou seja, não havia divisão entre Cisjordânia e Gaza; o Hamas não era governo em Gaza, era mais conhecido pelos atentados à bomba em Jerusalém e Tel Aviv; e não havia o muro de separação. Então, a situação lá era diferente da de hoje, mas, naquela época, também tinha a construção de assentamentos, a construção das chamadas “by pest worlds”, que são estradas por onde só passam colonos. E, para a construção dessas estradas, muitas vezes, é preciso demolir as casas palestinas. Você tinha os check points. As restrições de movimento.

O apartheid israelense era bastante claro já naquela época. Eu tive a oportunidade também de fazer um pouco essa coisa do jornalista, de ouvir as partes. Conversei com israelenses, em Tel Aviv, em Jerusalém; eu conversei com colonos em Hebron… Conversei com todo mundo para ter uma ideia mais realista do que estava acontecendo lá. Esses 15 dias que estive lá foram muito didáticos.

Adital – Ainda hoje, no Brasil, esse tema é muito superficial, falta entendimento do contexto em Israel, sobretudo na universidade. O que fazer?
CL – Eu acho que, no caso da academia, objetivamente em torno da academia, a gente pode reforçar a ideia do BDS (Boycott, Divestment and Sanction), que é o boicote acadêmico a Israel. Isto é uma coisa que a academia pode fazer. Pode suspender ou se negar a fazer contratos com empresas israelenses, com universidades israelenses.

Esse princípio do BDS deu certo contra o apartheid sul-africano e tem tido ações muito bem sucedidas pelo mundo em torno com o apartheid israelense. Eu penso que é uma boa oportunidade para isso se espalhar por todas as universidades no Brasil e, principalmente, esclarecer a opinião pública e impedir que as universidades façam negócio com um país que oprime e mata os civis palestinos.

Adital – Por conta do enfoque que você dá à causa palestina, você chegou a sofrer algumas ameaças. Como conseguiu lidar com essa situação? As ameaças continuaram?
CL – Não, não continuaram. A ameaça mais contundente foi em 2006, quando um site ligado ao Likud, que é o partido, inclusive, do Netanyahu, publicou um dossiê a meu respeito e conclamava os leitores a tomarem medidas contra mim, e dizia que Israel já deveria ter tomado conta de mim há muito tempo de um jeito ou de outro. E, depois que aconteceu isso, chegou uma informação aos meus ouvidos, passarinho verde me contou, que uma organização judaica no Brasil já estava ventilando a possibilidade de me assassinar através de meios menos ortodoxos, digamos assim.

Quando você pensa em um assassinato por questões políticas, você imagina um agente do Mossad (serviço secreto do governo de Israel) com uma arma, com silenciador; mas, não, estava se pensando em pagar um bandidinho de favela para me balear na esquina e dizer que era um assalto. Essa informação tinha chegado na época para mim e não se cumpriu, como você pode ver não é!?

Hoje, o que mais acontece são campanhas de difamação: associar críticas ao Estado de Israel, como antissemitismo, como ódio aos judeus. A última polêmica mais séria sobre isso foi quando uma organização, dita de direitos humanos, lá em Los Angeles, me classificou como o terceiro antissemita do mundo. Do mundo! Nem o esquimó lá no Alaska poderia ser mais antissemita do que eu.

Obviamente, que esse tipo de acusação vem perdendo a força. O Roger Waters — essa lista é anual — também foi tido como um dos maiores antissemitas do mundo por conta do seu apoio à causa palestina. Virou estratégia manjada associar ao antissemitismo, ao ódio contra os judeus, críticas ao Estado de Israel, e eu sempre deixei claro isso. As minhas críticas não são uma questão religiosa, étnica, ela é pura e simplesmente uma questão política.

Assim, como você criticar o presidente da Turquia, que é muçulmano, não é ser antimuçulmano. Você criticar o rei da Arábia Saudita, que é muçulmano, não é um ataque à fé islâmica. Da mesma maneira que criticar o Estado de Israel, as suas lideranças políticas ou mesmo seus militares não é ataque ao judaísmo, até porque Israel não representa a totalidade dos judeus, muito menos o judaísmo. Um Estado islâmico não representa o Islã. A Arábia Saudita é o Estado islâmico, inclusive é onde está Meca, Medina também, são os lugares mais sagrados para os muçulmanos, mas ela não representa os muçulmanos. Um Estado não representa a totalidade de um povo, muito menos de uma fé, de uma religião.

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Latuff em visita a Amã, capital da Jordânia.

Adital – E como começar a mudar o enfoque muitas vezes estigmatizado que as grandes empresas de comunicação costumam dar sobre os conflitos na região? Isso pode mudar ou, realmente, são os meios de comunicação alternativos que têm de dar outro enfoque?
CL – Eu acho que a mídia ocidental tem sido muito pró-Israel. Acho pouco provável que mude a posição da imprensa, mas eu acho que nós que temos a consciência, que conhecemos de perto a questão palestina, temos esse dever de contrapor esses clichês, esse lugar comum que a imprensa alimenta. Mas é interessante porque a imprensa não alimenta somente o lugar comum da Palestina, ela alimenta, por exemplo, a questão da violência policial, essas manifestações agora que estão acontecendo pedindo impeachment; a imprensa também tem interesse nisso. Ela tem um enfoque para um protesto, para uma greve, e tem um enfoque para um protesto que pede o impeachment da Dilma.

A imprensa corporativa, o mainstream media, tem lado. Inclusive, o sujeito que estuda jornalismo, geralmente os professores dizem que não têm lado, “bons jornalistas não têm lado”; isso é a pura mentira, ele pode não confessar o lado. A imprensa daqui ou de qualquer lugar no mundo tem lado; ela pode não confessar. Ela bate no peito e diz: “somos isentos”. Não existe isenção! Isenção é “meuzovo”, como se diz aqui. Ela tem lado e eu também tenho lado. Meu lado é do lado dos palestinos.

Adital – Depois do ataque ao Charlie Hebdo, em Paris, o tema “liberdade de expressão” veio mais uma vez veio à tona. O que você pensa sobre isso?
CL – “Liberdade de expressão” é um valor subjetivo. Por exemplo: eu xingar a sua mãe é liberdade de expressão? É! Eu tenho o direito de falar, de xingar sua mãe. Mas não posso achar que isso não vá ter repercussão. Eu não posso ser impedido de xingar a sua mãe, mas eu tenho uma responsabilidade. Eu poderia criticar a sua mãe. Quando eu digo: “você é um filho da puta”, isso não é discussão, isso não é debate, isso é uma ofensa gratuita.

O direito de fazer isso qualquer pessoa tem, ela não deve ter censura prévia. Agora, o problema é esse: não é uma charge. Foram sucessivas. Tem um histórico, desde 2006, fazendo charge sobre os muçulmanos da maneira mais pejorativa, da maneira mais ofensiva que se pode ter. Eu posso fazer um desenho aqui, agora, e colocar assim: “Alá”, e não é escrever “Alá”, é desenhar um sujeito de barba, ele poderoso lá no céu jogando um raio contra o islamofóbico. É uma charge positiva! Eu estou endeusando, eu estou homenageando, fazendo uma ilustração de Maomé. Só isso, mesmo elogiando, já é ofensivo.

Para o Islã, qualquer representação de um profeta, ou mesmo de Alá, já é ofensivo, independente se o desenho é bom e se é elogioso ou não. Quem fez a charge de Maomé de quatro faz uma crítica ao islamismo? É uma crítica sobre como o islamismo tem sido manipulado por lideranças políticas ou religiosas? Não! Isso é um ataque frontal ao muçulmano.

O cartunista não faz desenho por acidente; ele quer atingir um objetivo. Quando ele fez esse desenho, entre outros, ele queria atingir esse objetivo. E o objetivo é ofender. Gratuitamente! Liberdade para fazer isso eu defendo, mas para quê? Dentro de um contexto de islamofobia na Europa? Isso serve a que propósito? Mas o Charlie Hebdo é o paladino da liberdade de expressão. Isso aqui não está defendendo a causa da liberdade de expressão, está defendendo a pauta da extrema direita na Europa, que concorda com esse tipo de coisa. E o pessoal doCharlie Hebdo não é idiota, isso foi deliberado.

Agora: é justo ter entrado com uma kalashnikov e fuzilado todo mundo? Não! Agora, é aquele negócio, eu posso xingar sua mãe, mas achar que vai passar em brancas nuvens… Qual o limite? O limite é o bom senso. É a mesma coisa que você criticar as políticas do [Barack] Obama [presidente dos Estados Unidos] e chamá-lo de macaco. Eu posso, por exemplo, fazer críticas, trazendo para a realidade aqui do Nordeste, à oligarquia nordestina sem enveredar pelos estereótipos do nordestino. Então, tudo isso é questão de bom senso.

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Cartunista Carlos Latuff com criança palestina em um campo de refugiados na Jordânia.

Adital – Hoje, você mora no Rio Grande do Sul. Como se dá o seu ativismo nos movimentos sociais; ele consegue ir além do trabalho com as charges?
CL – Na verdade, eu não me entendo como um militante, propriamente dito. Existem pessoas que são realmente militantes. Eu sou uma pessoa, que eu costumo reduzir ao essencial: eu sou uma pessoa que faz desenhos e dá opiniões. Se for parar para pensar, é exatamente isso que eu faço. Tem gente que pode ser chamado de militante ou não. Eu sou um artista! Ou, como diria o Zeca Baleiro: “Um artista popular…”.

Adital – Você tinha falado antes que a repercussão do seu trabalho ganha proporções de alcance mundiais. Como você enxerga isso?
CL – Muito foda, cara. Muito foda! A rede social é um fenômeno, realmente, para o bem e para o mal. Hoje, o mainstream media chega a reproduzir as minhas charges. Era uma coisa impensável há 30 anos, jamais isso aconteceria. A Internet veio realmente para revolucionar a comunicação. Pena que a maioria das pessoas subtiliza a Internet. As redes sociais viraram uma arena da difamação, do escracho, do preconceito, do ódio. Mas isso não é culpa da rede social não! Isso é culpa da nossa mediocridade, que tem diante das mãos da gente um instrumento potente e… Não adianta você ter uma tecnologia da informação se você não tem o que comunicar. Agora, para mim, como chargista, a Internet tem sido fundamental.

Adital – Nós temos, no Brasil, um recorte da violência que tem cor, classe social, faixa etária e lugar, que tem causado um verdadeiro extermínio da juventude brasileira. Matamos mais que em países que estão em guerra ou já estiveram. Guardadas as devidas particularidades, temos semelhanças com Israel e seu conflito com o povo palestino?
CL –Você conhece o Titãs? O Titãs [grupo de rock brasileiro] tem uma música chamada “Miséria”: “Miséria é miséria em qualquer canto. Riquezas são diferentes. Índio, mulato, preto, branco. Riquezas são diferentes. Cores, raças, castas, crenças”. Eu lembrei dessa música quando entrei no campo de refugiados palestinos no Líbano. É a mesma coisa que entrar em uma favela carioca… a mesma coisa! Os gatos, os tijolos… a mesma coisa!

A sociedade humana é carregada de preconceitos. Você tem uma coleção. Você tem preconceito para dar e vender. Tem a questão de gênero, tem a questão racial, mas tem um negócio que a gente nunca pode esquecer: é a questão classe ou, como os comunistas gostam de dizer, o corte de classes. E eu aprendi isso. A questão palestina tem ingredientes religiosos, ela tem ingredientes raciais, ela tem ingredientes de gênero, mas é essencialmente uma questão de imperialismo, neocolonialismo.

Porque a gente, quando vai analisar os conflitos, como, por exemplo, o Estado Islâmico, a gente acaba enveredando por essa questão religiosa, mas a gente não pode perder de vista que a questão de classe é fundamental. Independente se é na Palestina, se é aqui. A questão de classe está marcada em todas as sociedades. Todas!

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Latuff exibe charge em que retrata o ex-presidente do Egito, Hosni Mubarak. Ilustração foi utilizada durante protestos nas ruas do país e o cartunista considerado um dos cronistas do processo egípcio.

Adital – Atualmente, o Brasil vive com as manifestações contra a presidenta Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores (PT) e onda pró-golpe militar, um cenário de incertezas e de riscos segundo vários especialistas. Estamos à beira de um golpe?
CL – Esta é a pergunta de US$1 milhão. É a pergunta que vale a entrevista inteira. A gente pode analisar essa conjuntura agora pelos mais variados ângulos. Por isso que eu te falo que eu não sou um militante, porque eu não sou comunista, por exemplo. As pessoas perguntam: “você é o quê? Você é socialista, você é comunista…”. Eu sou cartunista! Que já me dá bastante trabalho.

O que temos de concreto: primeiro, esse governo não é um governo de esquerda. Ele não é um governo, por exemplo, como o da Venezuela, capitaneado pelo Hugo Chavez, que chegou lá sem alianças com a direita. Eu sinto que o que está acontecendo no Brasil é uma disputa entre a direita. Não é entre a esquerda e a direita, é entre as direitas. A direita que está no governo com a direita que está fora do governo. Evidente que o perfil desses manifestantes que estão indo para a rua é um perfil semelhante ao da oposição venezuelana. O argumento, a retórica é praticamente importada da Venezuela, ou seja, a Dilma é comunista, o governo é comunista, existe uma ameaça comunista. Coloca-se no bojo a questão bolivariana, a questão do Foro de São Paulo, que é uma análise tosca.

Alguém que diga que a Dilma ou o governo é comunista, no mínimo, faltou às aulas de história. O que eu acho que está se tentando aqui é um golpe institucional nos moldes do que aconteceu em Honduras e no Paraguai. 64 [ano 1964, quando houve o golpe militar e instalou-se a ditadura civil-militar por 22 anos no Brasil] acho pouco provável, até porque banqueiro, multinacional não está tendo problema. Eu acho que o que está se tentando aqui é exatamente isso: essa direita capitaneada pelo PSDB [Partido da Social Democracia Brasileira], que quer dar o golpe na Dilma, ou seja, no final das contas, é uma questão meramente partidária.

Agora, a minha preocupação, não sei se você percebeu nas manifestações, é que existe um setor majoritário, que é o setor que quer o impeachment, e existe o setor minoritário, que quer a intervenção militar. A manifestação da manhã do dia 15 [de março de 2015] era do pessoal do impeachment. Na parte da tarde, a gente foi testemunha de um grupo de pessoas que — e esses grupos estão presentes em todo o Brasil — querem a intervenção militar.

Esse pessoal eu reputo como sendo a extrema direita. É o eleitor do [Jair] Bolsonaro [deputado federal brasileiro pelo Partido Progressista – PP], o cara que entende que as forças armadas são o bastião da defesa do cidadão. É um grupo mais fascista. O pessoal que vai para a rua pedindo o impeachment é o “coxinha” tucano.

O meu receio com essas manifestações é porque, na época da Marcha da Família [nova versão da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, de 1964, que foi realizada em 22 de março de 2014], ela foi inserida por meia dúzia. Em São Paulo, sempre tem muita gente, mas em outras partes do Brasil virou até “meme”, virou piada. Dessa vez as pessoas foram aos milhares para as ruas.

Aí que eu acho que a esquerda tem que fazer uma análise sobre isso, para além da Dilma. Essa Dilma é o detalhe que vai passar, a esquerda vai ficar. Ela nem a esquerda é! Ela nem a esquerda representa! Ela é a presidente da vez, ela é a peça de xadrez da vez. A gente tem que fazer uma análise de como esse tipo de organização, que é de direita, pode ameaçar futuramente — e não estou falando de um futuro distante, à esquerda. E como é que essa esquerda fragmentada, cooptada, engessada por anos de “Lulismo” e “Dilmismo” responde a esse tipo de organização.

Para o cidadão comum, antes do governo Lula, “esquerda” era o contraponto à “direita”. Agora, quando você faz o paralelo entre o governo FHC [ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso, de 1995 a 2002], vê que continua assim no governo Lula [Luís Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil entre 2003 e 2010], ele não vê diferença. Eu votei na Dilma. Eu votei na Dilma porque eu não queria que o Aécio [Neves, candidato à Presidência da República, em 2014, pelo PSDB] chegasse ao Planalto.

Aí, quando a Dilma ganha e escolhe o ministério e chama Kátia Abreu, uma ruralista para o Ministério da Agricultura e o [Gilberto] Kassab [ex-prefeito de São Paulo], que o PT sempre bateu em São Paulo, para o Ministério das Cidades, aí, realmente, fica claro que não adianta perder tempo. PT e PSDB são administradores da massa, eles são o síndico do prédio; não são donos do prédio, mas são síndicos, disputando quem vai estar na sindicância do prédio na próxima eleição.

A gente precisa fugir dessa polarização, que é muito norte-americana: republicana e democrática. Agora, a ameaça que eu acho que se apresenta nesse momento é a organização e a ida em massa da classe média branca, porque eu não vi preto na rua, essa lógica é bem venezuelana. Você vê os protestos na Venezuela: é só branco. Já os chavistas, é tudo moreno, negro. Você vê distinção de classes muito claramente. Aqui você também está vendo.

Existe um problema muito grande se a classe trabalhadora se juntar a esse pessoal por querer mudança. A esquerda, do jeito que ela está hoje, tem condição de dar resposta? Ela precisa! Ela tem que, rapidinho, fazer uma análise de conjuntura, uma análise desse momento, porque a imprensa vai botar lenha nessa parada; a direita saiu vitoriosa, foi para a rua, mesmo com as pautas mais absurdas.

Ou, então, vamos desenhar bem claramente uma divisão. Já que é luta de classe, vamos deixar essa coisa exposta. E a esquerda ir para a rua e dizer: estamos aqui! Porque as manifestações vão continuar. E elas vão continuar maiores. Em 2013, as pessoas iam para a rua sem uma pauta definida; agora tem, é o impeachment.

Na Primavera Árabe, o que fortaleceu os manifestantes no Egito foi derrubar o Mubarak. Quando derrubaram o Mubarak, não sabiam o que fazer. Do ponto de vista de governo, a derrubada da Dilma não vai trazer nenhuma mudança substancial no governo: vai ser o [Michel] Temer [vice-presidente da República], vai ser o PMDB [Partido do Movimento Democrático Brasileiro].

Será que o PMDB vai trazer a extrema direita? Como o PMDB navega por todas as ondas, para fazer uma aliança com a extrema direita não é difícil. Essas questões todas têm que ser levadas em consideração. Agora, não sei se, na atual conjuntura, a esquerda tem condições de dar uma reposta. A coisa está muito ainda na questão da Dilma, e eu estou falando que é irrelevante.

A Dilma é irrelevante. Ela nem sabe falar! Mandou o [Miguel] Rossetto [membro da coordenação de campanha que reelegeu Dilma Rousseff] falar por ela. E a análise é que ela mandou o Rossetto porque entenderam que, se ela falasse, iria alimentar os protestos, ou seja, ela é tão ruim que a fala dela alimenta o protesto. O Lula é muito mais articulado do que ela. Sinceramente, eu não sei o que vai acontecer.

Agora, se eu fosse a esquerda, botava logo a barbinha de molho, porque a coisa não está boa não. Se tivesse disposição, ela chegava e bancava isso tudo, peitava e convocava a esquerda, já que querem dar golpe. Mas aí você trepa com a direita e faz amorzinho com a esquerda? Você faz aliança com o [Paulo] Maluf [político e empresário brasileiro, ex-prefeito e ex-governador de São Paulo], com o [José] Sarney [ex-presidente do Brasil e ex-presidente do Senado Federal], com essa corja e aí, quando a corda está no pescoço, você chama a esquerda? Hoje, ela não tem sequer moral para isso.

Essa situação que a gente está enfrentando hoje é culpa do PT, porque fez aliança não com a população, mas com a oligarquia. Que chame a oligarquia para salvá-la agora. A Dilma e o PT vão passar, a esquerda não. A análise que eu acho que temos que fazer sobre esses protestos, sobre essa organização da direita é de como isso vai afetar o movimento social, porque os caras são paranoicos. Eles são contra feministas, contra gays, contra direitos humanos, contra comunistas, contra socialistas. E você tem associado a isso, o que é ainda pior, as igrejas evangélicas, os gladiadores da fé; e o argumento das igrejas evangélicas é o mesmo desses coxinhas.

E são milhões de pessoas. O [Silas] Malafaia [pastor pentecostal brasileiro líder do ministério Vitória em Cristo, ligado à Assembleia de Deus], o Edir Macedo [fundador e atual líder espiritual da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da Rede Record de televisão] e o RR Soares [fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus] não pregam para convertidos, eles falam para a massa. E a esquerda não fala pra massa. A esquerda chega para um sujeito na rua e fala de mais valia, de luta de proletariado, imagina que a gente está no czarismo. Um pastor desse prega o microfone e fala para milhares, para milhões, e todo mundo entende.

Adital – Para a gente finalizar, o que você diria para os novos artistas. Para os jovens que estão se aventurando pela sua área e por outros ramos da arte?
CL –
 O artista não tem a obrigatoriedade, a necessidade de ser engajado. O artista engajado 24 horas é chato. Mas também você não precisa ser o Romero Britto [pintor brasileiro radicado nos Estados Unidos]. Ele é a antiarte. Para mim, ele é o maior representante da antiarte. Ele, inclusive, se coloca como o novo Picasso. O artista não tem que ser 24 horas engajado, mas ele pode colocar parte do seu trabalho a serviço da transformação, ou, pelo menos, do questionamento.

O que eu tenho visto é que a arte tem sido utilizada muito pra endossar o status quo. Por exemplo, o grafite que tem uma raiz de contestação, no que se transformou: ele virou o Romero Britto dos muros. Indiscutivelmente, são artistas, mas o que eles pintam nos muros não te diz nada efetivamente, ele não meche com as suas certezas. E eu acho que o bom da arte é quando ela questiona sobre as suas certezas cristalizadas.

Em tempos de senso comum sendo despejado na cabeça das pessoas 24 horas pelo rádio, tevê, Internet etc., o papel do artista de quebrar essa lógica é muito importante. O que eu diria é o seguinte: incomode! Pise nos calos certos, crie um ruído nessa comunicação. E a arte é a melhor maneira de fazer as pessoas refletirem. Um desenho fala muito mais do que um panfleto, fala muito mais do que um texto, fala muito mais, às vezes, até do que ler um livro.

Quando as pessoas veem um desenho, uma pintura, uma escultura, aquilo chega a elas pelo coração, pelo sentimento. Existia, nos anos 1980, uma banda chamada Plebe Rude e tinha uma música fantástica que dizia assim: “Com tanta riqueza por aí, onde é que está, cadê sua fração, até quando esperar, até quando esperar a plebe ajoelhar, esperando a ajuda de Deus”. A poesia, a arte chega no coração das pessoas. A arte pode ser um instrumento de manutenção das coisas como estão ou ela pode despedaçar esse estado de coisas, pode ajudar a criar rachaduras. É isso que eu acredito!

Latuff: “Para Israel, opinião diversa de suas políticas precisa ser silenciada”

Latuff: Cartunista vira alvo da direita de Israel

Latuff: “Para Israel, opinião diversa de suas políticas precisa ser silenciada”

18/09/2006
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continuação de:
Latuff: Cartunista vira alvo da direita de Israel
Leia mais trechos da conversa do Icarabe com o cartunista Carlos Latuff

Icarabe: Conte mais, como foi sua visita à Palestina em 1999?
Carlos Latuff: Entrei por Israel. Passei por Tel Aviv, Jerusalém, Ramallah, Nablus e Hebron. Tive a oportunidade de conversar com pessoas comuns, ver manifestantes, pacifistas, tanto palestinos quanto israelenses. Tive uma boa idéia de como vivem as pessoas na Palestina sob ocupação israelense.

Icarabe: Você foi acusado de ser um inimigo de Israel e dos judeus. Como os israelenses que você conheceu em Israel encaram esse tipo de estratégia da direita, que liga anti-sionismo a anti-semitismo?
Latuff: Antes de ir para a Palestina, eu já colaborava com um grupo israelense chamado Gush Shalom. Na viagem, tive a oportunidade de me encontrar com eles. Eles também são vítimas dessa estratégia da direita. O judeu crítico às políticas de Estado de Israel não é chamado de anti-semita, mas de ‘self-hating jew’ (algo como ‘judeu que se odeia’). Até há termos piores, como chamar o judeu de esquerda de ‘kapos’, que eram os guardas judeus de campos de concentração, os prisioneiros que eram escolhidos para serem guardas. Eles serviram dentro dos campos para ter um tratamento melhor, eram traidores. Chamar alguém de ‘kapo’ é uma coisa muito pesada. Então, esses judeus que querem uma solução pacífica, também são perseguidos. E olha que o Gush Shalom não é nenhuma organização radical, é anti-sionista, mas não é radical. Existem grupos anarquistas que são bem mais radicais. Mas mesmo assim são perseguidos. O líder é Uri Avnery e sofre vários tipos de acusações. Não sei como essa gente não sofreu atentado.

Icarabe: Você começou a se dedicar com mais força à causa palestina em 1999. Desde então, até hoje, já tinha sofrido o tipo de ameaça que veio do Likud?
Latuff: Ameaças não são incomuns, mas são feitas por indivíduos em páginas da internet, em páginas pessoais, fóruns de discussão. Vindo de uma página diretamente associada a um partido político de direita é a primeira vez. Essa página não é oficial do Likud, mas associada ao partido, feita por membros do Likud, ou seja, que reproduz seu pensamento. Algumas pessoas tentam reverter a questão, virar o jogo. Falam que o site não é oficial do Likud. Mas é como uma organização para-partidária. Por exemplo, tem o PFL e a juventude do PFL. A juventude do PFL pode não representar oficialmente o partido, mas ela é fruto, um reflexo desse partido. O pensamento dela é um reflexo do partido, não existe diferença.

Icarabe: Na imprensa brasileira, que tipo de cobertura você enxerga?
Latuff: O que você não consegue ver são opiniões equilibradas sobre este assunto. Geralmente na mídia brasileira, não há ninguém que faça um contraponto aos argumentos de que Israel estava se defendendo, de que a culpa é sempre dos árabes, dos palestinos, do Hizbollah. Até porque as pessoas ficam amedrontadas, pois existe um patrulhamento ideológico de judeus de direita que é um negócio inacreditável. Você não pode falar um ‘ai’ contra o Estado de Israel, pois existe uma patrulha para te chamar de anti-semita, te chamar de nazista. Isso é aqui no Brasil e em todo o Ocidente. Na América Latina, quem tem culhão para falar o que acontece são Chávez e Castro. Mesmo o governo brasileiro, quando houve a morte de brasileiros vítimas de bombardeios israelenses no Líbano, soltou uma nota através do Itamaraty culpando o Hizbollah. Agora, eu pergunto: foi bomba do Hizbollah que matou aquela família? Não, foi bomba de Israel. Israel usa a mesma desculpa do estuprador. O cara estupra a mulher, chega à delegacia e diz, ‘olha, doutor, é o seguinte, ela estava usando uma sainha curta, ela pediu para ser violentada’. Então, não tem jeito, a culpa é da vítima. Israel matou mais de mil pessoas e a culpa é do Hizbollah, é sempre assim. E o Brasil, seu Itamaraty, não teve culhão para fazer um ataque veemente. O Itamaraty não tem essa coragem, é provável que chamem o Lula de anti-semita.

Icarabe: Qual a magnitude dessas reações? Sua amiga em Israel falou alguma coisa e deu idéia do que significa ser alvo de um site como o Likudnik?
Latuff: Não a surpreendeu. Ela disse ‘se você estivesse aqui e visse as notas que saem nos jornais, na televisão e no rádio, as pessoas falam disso para baixo, querem que Israel jogue uma bomba nuclear no Irã’. As vozes mais reacionárias são as que se levantam e que se fazem presente nesses fóruns. Falou, inclusive, que ela, como militante, foi presa algumas vezes por participar de manifestações. Em uma ocasião ela foi levada para uma delegacia e o policial chegou e disse: ‘olha o trabalho que vocês me dão’, e mostrou os papéis na mesa dele. ‘Sou obrigado a preencher um monte de papéis por sua causa. Fique sabendo você que estivéssemos em outros países, a gente já teria resolvido isso com um tiro na cabeça’. A coisa é nesse nível.

Icarabe: E essa ameaça o surpreendeu?
Latuff: A mim não me surpreende. É surpreendente porque está registrado em um site associado a um partido, mas esse pensamento belicista, de confronto, essa coisa de tentar eliminar a voz dissidente não me surpreende vindo de Israel. O Estado de Israel em si não precisa se preocupar com isso, pois existe um patrulhamento feito por judeus de direita em todos os países do Ocidente que cumpre esse papel. Ele não precisa cuidar disso. O governo de Israel dificilmente vai emitir uma nota pública com o mesmo teor do site. Isso seria uma queimação de filme. Existe uma diferença entre Israel e o Irã. O presidente do Irã fala muito, fala pelos cotovelos. Israel não é assim, é mais ‘low-profile’. Trabalha em silêncio, nos bastidores. Você não vai ouvir o (Ehud) Olmert dizer ‘devemos varrer o Irã do mapa’. O sonho dele é esse, mas ele não vai dizer porque ele não é bobo, ele sabe como trabalha a mídia, então ele fica na dele.

Icarabe: Você acredita que ganhou certa notoriedade com a direita de Israel depois de participar do concurso de cartuns do Irã sobre o holocausto?
Latuff: Os desenhos que mandei para o concurso no Irã não são negações do holocausto. Não estou interessado em fazer discussões se o holocausto existiu ou não existiu. Para mim, não é difícil acreditar que os nazistas tenham massacrado pessoas, pois ao longo da história houve incontáveis massacres, de hutus e tutsis, de chineses, de armênios. Mas criou-se uma áurea de massacre especial. O holocausto é uma coisa que não tem comparação. Ainda que durante a Segunda Guerra, além de judeus, tenham matado outros segmentos, como russos, Testemunhas de Jeová, gays, deficientes mentais, eslavos, matou muita gente, mas há a idéia de que o holocausto judeu foi uma coisa especial. É um tabu, você não pode falar nada sobre isso. Você pode fazer cartuns e piadas sobre o islã, que tem dogmas religiosos, mas você não pode fazer sobre o holocausto, que é um evento histórico. O Norman Finkelstein escreveu sobre isso no seu livro “A indústria do Holocausto”. Tive dois objetivos: primeiro, questionar os dois pesos e duas medidas do Ocidente em se tratando das charges do holocausto e as charges do islã. Aos olhos do Ocidente, não há problema algum você esculhambar profetas muçulmanos, tudo bem, é aceitável, liberdade de expressão, tá tranqüilo. Agora, se você usar o mesmo princípio para fazer charges sobre o holocausto, você é um fascista, um nazista. Achei uma boa oportunidade para questionar isso. E também, em segundo, para tratar de holocaustos modernos, como o palestino, porque, mesmo que não haja câmaras de gás na Cisjordânia, existem outras maneiras de se matar pessoas sistematicamente que não aquelas usadas pelos nazistas. A minha participação nesse concurso foi visando esses dois aspectos. Mas, evidente, é mais uma desculpa para que essas pessoas possam tentar me atacar. Mas esse pessoal da direita me conhece há muito tempo. Um tempo atrás, fiz uma caricatura que era o Ariel Sharon beijando o Hitler na boca. Publiquei esse desenho no CMI de Israel e houve uma série de problemas por causa dessa publicação. O dono da empresa que hospedava o CMI recebeu um telefonema pessoal de gente ameaçando ele de morte caso não tirasse o site do ar. O site foi tirado do ar. O editor do site, o Brian Atinsky, teve a polícia entrando na sua casa enquanto estava dormindo, o tiraram de pijama, levaram o computador e depois o levaram à delegacia para prestar depoimento, com todo tipo de intimidação que você pode imaginar. Ele respondeu processo de incitamento.

Icarabe: E que significado você vê em seu trabalho ser um “perigo” à segurança de Israel?
Latuff: Se eu estivesse em Israel, provavelmente eu já teria sido preso. Não sei se eu sou um caso de segurança nacional para Israel. Acho que Israel não tem com o que se preocupar, porque tem uma das maiores potências militares do planeta, a maior como guarda-costas, não tem que temer absolutamente nada. Tem armas nucleares. O problema não é uma ameaça à segurança pública, é uma ameaça à idéia que se construiu de que Israel é sempre a vítima. É por isso que se construiu esse texto, pois eles sabem que essas charges e cartuns têm um alcance muito grande, uma amplitude muito grande e chegam a audiências no mundo todo. Elas revelam o que não é mostrado pelo mainstream mundo afora, mostram um outro lado da moeda. Isso é muito incômodo, porque isso é um contraponto ao argumento de Israel. Não pode haver contrapontos aos argumentos de Israel, isso não é possível. Só pode haver uma opinião a respeito de Israel e essa opinião tem que vir de Israel. Qualquer pessoa que tenha uma opinião contrária e diversa das políticas israelenses precisa ser desmoralizada, precisa ser silenciada e até morta, mas de alguma forma precisa ser neutralizada. Ou através de campanhas de difamação, de censuras e processos judiciais, ou você simplesmente liquida a pessoa.

Likud ameaça cartunista Latuff

Likud ameaça cartunista Latuff

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Likud ameaça cartunista Latuff
Rafaela Tasca, especial para o Portal do PSTU, e Roberto Barros, da redação

No dia 5 de setembro, um portal israelense ligado ao Likud – partido de ultradireita de Israel do qual fazia parte Ariel Sharon, comandante dos massacres de Sabra e Chatila [ver 24 anos do massacre de Sabra e Chatila: www.pstu.org.br/internacional_materia.asp?id=5686&ida=20] – publicou um artigo sobre o trabalho do cartunista carioca Carlos Latuff.

O texto – escrito em hebraico e ilustrado com 13 imagens produzidas por Latuff sobre a ofensiva israelense na Faixa de Gaza e no Líbano – chama especial atenção pela forma com que se refere à suposta periculosidade da influência deste artista para a manutenção/segurança do Estado de Israel. Em seu trabalho, o brasileiro critica duramente Israel por suas ações envolvendo a Palestina e seus vizinhos árabes – como o Líbano – comparando, corretamente, o que o país faz atualmente aos árabes com o que os nazistas fizeram no passado com os judeus.

O autor do texto israelense refere-se ao artista como “o cabeça de uma das maiores indústrias de propaganda e incitamento contra Israel” e – ainda na qualidade de um “imenso talento gráfico” – como “um dos mais influentes anti-sionistas da rede mundial de computadores”. No texto, compara as imagens do cartunista a mísseis de ódio tão potentes quanto os que o Irã vem desenvolvendo e que fazem parte de uma “gigantesca indústria genocida, cuja missão é a destruição do Estado judeu”. Depreende-se daí mais uma campanha do terrorismo de Estado israelense com um duplo objetivo: lançar mais um “míssil de ódio” à ofensiva ideológica que prepara o terreno para uma possível nova incursão militar sobre o país árabe e, de quebra, associar a imagem de Latuff a uma espécie de “arma de destruição massiva” – lápis à mão! – do que seriam os “Estados-delinqüentes”.

Mas uma das centralidades do artigo é a dura crítica ao que seria um “descuido” de Israel em relação ao “front da informação” e o conseqüente “clamor” por ações do Estado judaico – e até mesmo da embaixada israelense no Brasil – em relação ao “caso Latuff”. A sanha é tanta que ele chega a enveredar pela proposta da realização de um processo contra o cartunista por… tentativa de homicídio! Trata-se da mais absoluta inversão entre céu e inferno. A “proposta”, note-se, se revela com um claro tom de ameaça física quando o autor aponta que já “deveriam ter cuidado desse Carlos há muito tempo, de um jeito ou de outro” (!). Trata-se de um apelo direto e nada sutil à atuação das polícias políticas do Estado sionista, o Mossad e o Shin-Beth, conhecidas por utilizar macabros métodos anti-insurrecionais, historicamente relacionados a regimes nazi-fascistas.

Já no dia 18 – após a repercussão do caso na Internet – a redação do portal brasileiro Comunique-se se reportou à embaixada de Israel no Brasil inquirindo sobre as ameaças realizadas contra o cartunista brasileiro. Os jornalistas questionaram, entre outras coisas, sobre a liberdade de expressão e, inclusive, os riscos a que o cartunista estaria sujeito e, por fim, se aquele país poderia de alguma forma colaborar para a segurança do brasileiro. Raphael Singer, primeiro-secretário da embaixada de Israel no Brasil, respondeu que “Israel é um país livre e democrático que respeita a liberdade de expressão, aberto a críticas e que mantém diálogo com seus críticos”. Na seqüência, porém, diz que “infelizmente os desenhos do Sr. Latuff são cheios de estereótipos comparáveis aos do sistema de propaganda nazista, e não com as charges sobre Maomé” [caso que abalou a comunidade islâmica recentemente]. “Tais desenhos poderiam ser vistos como ofensivos para o judaísmo e o sionismo. É lamentável que o Sr. Latuff escolheu mostrar seu trabalho no concurso em Teerã, que zomba das vítimas do Holocausto. Da mesma forma que o Sr. Latuff tem o direito de se expressar, também tem esse mesmo direito o site do Likud”.

Ou seja, para o diplomata israelense os cartuns publicados por Latuff sobre a bárbarie cotidiana da ofensiva israelense – na Palestina ou no Líbano – e o direto apelo criminoso equivalem-se simetricamente na categoria “liberdade de expressão”. Aí se revela, com todas suas conseqüências ideológicas, a máxima de que o liberalismo nada mais é do que uma fina camada aparente detrás da qual se esconde um fascista em essência. Tal ameaça – e o depoimento de Singer só vem a corroborar isso – revela a natureza mesma de Israel enquanto Estado-gendarme, cuja existência depende fundamentalmente da aniquilação – “de um jeito ou de outro” – de qualquer forma de resistência que se lhe oponha no caminho.

Ao denunciar o Estado de Israel e o massacre perpetrado sobre a população da Faixa de Gaza e do Líbano – em especial durante os 34 dias da recente ofensiva militar – Latuff é subseqüentemente ameaçado pelo Likud, que não hesita em recorrer, uma vez mais, ao discurso do anti-semitismo (chega-se às raias do irracionalismo ao citar ninguém menos do que o próprio Goebbles!, ideólogo-mor do III Reich) para “neutralizar” o cartunista. Dessa forma defendem incondicionalmente a existência de um Estado-gendarme, racista e teocrático – fundado sobre a expropriação das terras do povo palestino, a partir de um exército de ocupação permanente –, em guerra perpétua com os povos árabes do Oriente Médio, sob os auspícios da Casa Branca e do Pentágono. A memória do Holocausto é instrumentalizada, desta vez, para comparar Latuff ao Irã – num claro incitamento belicista contra o povo iraniano. A inversão é – mais uma vez – clara e aberrante. E não se trata da primeira menção de ameaça recebida por Latuff de Israel…

Em resposta ao artigo publicado, Latuff divulgou um texto no qual revela que tais ameaças não o impedirão de continuar apoiando a luta dos palestinos contra a brutal ocupação israelense, “tudo o que os capangas do Likud podem fazer é me calar com uma bala, mas nunca serão capazes de silenciar minha arte”. O governo brasileiro – que já deveria ter rompido relações diplomáticas com Israel desde os primeiros bombardeios ao Líbano, cuja maior colônia de imigrantes fica justamente no Brasil – deveria exigir, após tal declaração, a imediata retirada de Raphael Singer do país e o imediato fechamento da embaixada de Israel no Brasil. O referido texto é claro em citar a embaixada israelense como possível meio para atingir seu fim: “cuidar desse Carlos, de um jeito ou de outro”. Chamamos todas as organizações democráticas e populares a defender a liberdade de expressão e os direitos humanos do cartunista: difundindo esta denúncia, exigindo às autoridades e divulgando ampla e abertamente a obra de Latuff. Trata-se de salvaguardar a integridade física do cartunista Carlos Latuff, dizer um sonoro não aos métodos nazi-fascistas de Israel e, por extensão, afirmar a soberania nacional do país.

Atalho para a matéria do Likud, em hebraico:

  • www.likudnik.co.il/Front/NewsNet/reports.asp?reportId=171273

    Atalho para a tradução da matéria – em português – e a resposta do cartunista:

  • www.novae.inf.br/pensadores/latuff_na_mira.htm

    Atalho para a Campanha em Defesa de Latuff, no Centro Iraniano de Cartuns:

  • www.irancartoon.com/120/Danger.htm

    Atalho para a galeria virtual do artista:

  • http://latuff2.deviantart.com

    Saiba mais sobre Latuff
    Latuff é um ativista político-cultural que desenvolve um trabalho contínuo de produção e divulgação de imagens, livres de direitos autorais, com uma clara perspectiva de denúncia social e engajamento político. Em 1997, após ter tido acesso a um documentário sobre os zapatistas, começou a produzir imagens sobre a luta dos nativos de Chiapas criando a posteriori uma página de Internet – o Zapatista Art Gallery – onde iniciou sua trajetória de disponibilizar, via Internet, imagens em copyleft para o mundo todo.

    Em 1999, solidarizou-se com a causa palestina e desde então vem concebendo e divulgando imagens que revelam as atrocidades cometidas pelas ofensivas israelenses na Faixa de Gaza. Por posicionar-se contra o lobby sionista, estratégia amplamente utilizada pela elite israelense para imunizar o Estado de Israel de qualquer crítica, não raro é identificado como “anti-semita” e “racista”. Tais críticas se acentuaram com a produção de uma série de cartuns e um vídeo contendo um pronunciamento público sobre o massacre realizado pelo Estado de Israel em território libanês.

    Cartunista combatente que traça os holocaustos do dia-a-dia, Latuff rompe com a omissão dos que se silenciam diante da realidade opressora através de sua solidariedade ativa e sua arte engajada

Latuff: o traço-bomba

 


Por Manoel Fernandes Neto e Cris Fernandes
Ele recebe manifestações de apoio de diversas partes do mundo. Também desperta a fúria de comunidades contrárias à sua atuação, que lhe enviam por e-mail vírus e ofensas pessoais. Já foi censurado e causou indignação ao classificar, junto com o escritor português José Saramago, o primeiro ministro de Israel de nazista. Mas isso não tira do sério o cartunista Carlos Latuff, pelo contrário. “Fico feliz com essa ira profana. Se a minha arte é a dor de cabeça deles, esse é um bom sinal.”

proIsrael1.jpg (28448 bytes)E a arte de Latuff não deixa dúvidas. É indignada e não indicada para estômagos sensíveis e grupos não conformados com a livre expressão. Pode estar nas trincheiras do movimento Chiapas, contra o império americano, nas passeatas dos movimentos antiglobalização da Europa, ou junto à resistência nos territórios ocupados da Cisjordânia, que visitou e reafirmou suas armas pela luta de libertação. “Meu trabalho de denúncia dos incontáveis crimes de guerra perpetrados por Israel e sua máquina de guerra “made in USA” contra toda uma população esquecida pelos países árabes e o resto do mundo.”

O traço, as cores e Internet fazem parte do arsenal desse brasileiro de 34 anos que dissemina sua arte engajada dentro de conceitos copyleft por diversos sites e publicações progressistas no planeta, a maioria em inglês, atingindo uma audiência nos cantos mais longínquos do planeta. “Liberei os direitos de reprodução pois meu interesse nesse caso não são os “royalties” e sim a propagação de idéias”.

Nessa entrevista exclusiva a Novae, Lattuf não poupa críticas a movimentos sociais pela paz, mídia de massa e seus cartunistas e reafirma a ausência de utopia e otimismo em relação ao ser humano. Se autodefine com simplicidade. “Só procuro fazer a coisa certa”.

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Novae – Você é um dos mais incisivos cartunistas da atualidade com o trabalho voltado para a política internacional, principalmente à crise no Oriente Médio e a dominação americana. Como foi sua trajetória artística até essa posição?
Latuff – Em 1990, depois de um ano trabalhando como ilustrador numa pequena agência de propaganda no centro do Rio, fui bater em algumas portas na intenção de continuar minha atividade artística. Mas, ao contrário de minhas expectativas as portas estavam, na sua maioria, fechadas. As poucas que se abriram foram de pequenas publicações (house organs).

Foi então que a grande porta se abriu: a do movimento sindical. Entrei e não saí desde então. No início não tinha qualquer comprometimento político. Fazia cartuns porque era pago por isso. O conceito de direita e esquerda me parecia claro, mas não fundamental. Tanto que cheguei mesmo a ilustrar jornais da primeira campanha a presidente de FHC.

Em 1997, depois de assistir a um documentário sobre o levante Zapatista em Chiapas, decidi iniciar um apoio artístico voluntário aquela causa. Nascia aí o artista militante que sou até hoje. Em 1999, graças a meus cartuns em favor dos palestinos, fui convidado pela ONG Palestinian Center for Peace and Democracy a um “tour” pelos territórios ocupados da Cisjordânia. O que vi naquele lugar me convenceu definitivamente da necessidade de continuar meu trabalho de denúncia dos incontáveis crimes de guerra perpetrados por Israel e sua máquina de guerra “made in USA” contra toda uma população esquecida pelos países árabes e o resto do mundo.
Sharon2a.jpg (26788 bytes)Novae – 
Qual o feed back que você recebe do seu trabalho?
Latuff – A maioria é boa. O carinho e a força vêm dos quatro cantos do planeta, seja de ativistas sul-coreanos até cidadãos comuns na Itália. Mas há também aqueles que me esculhambam, enviando vírus, ofensas e até ameaças. Essas geralmente de quem apóia a política criminosa de Israel e dos EUA. Ainda assim fico feliz com essa ira profana. Se a minha arte é a dor de cabeça deles, esse é um bom sinal.
Novae – 
Na maioria dos seus cartoons sua indignação é explicita, tornando seu traço um protesto veemente contra o massacre das minorias e oprimidos. Você recebe algum tipo de censura ou critica por comunidades e/ou pessoas não tratadas simpaticamente em sua obra?Latuff – Censura faz parte do jogo. Essa vem de todo lugar, da esquerda, da direita, de cima, de baixo. Mas geralmente tacam pedras em árvores que dão frutos, não é isso? A censura é a prova cabal da capacidade do meu trabalho de incomodar, de produzir uma coceira na consciência que não há como aliviar.

Atualmente é o lobby sionista que ataca minha solidariedade ao povo palestino, que eles não reconhecem, rejeitam, desrespeitam e matam. E esse lobby por vezes traz um disfarce progressista, como é o caso da ONG suiça Aktion Kinder des Holocaust (Ação Crianças do Holocausto) que se pretende combater a intolerância contra os judeus, mas que promove a intolerância contra os palestinos quando acionou na polícia o site Independent Media Center por ter publicado minha série de cartuns “We are all Palestinians”, onde comparo o sofrimento de vários povos na História com a opressão na Palestina.

A despeito da ação dos reacionários, sigo desenhando, fotografando, escrevendo e pisando em calos.
Novae –
 Como você se autodefine na luta pela liberdade dos povos?
Latuff – Um artista que tenta “fazer a coisa certa.”
Novae –
 Qual o significado da “PAZ” para você? Como você vê o trabalho dos grandes veículos de comunicação perante a cultura de PAZ?
Os pais do homem-bombaLatuff – Ah sim, a paz. Aquela promovida pelo Viva Rio, com artistas globais vestidinhos de branco na TV ou “passeateando” na orla de Ipanema? Ou aquela do bispo Macedo e do missionário R.R. Soares? A paz que o sistema quer é “descanse em paz.”

Novae – Pela sua resposta podemos entender que você generaliza que todos os movimentos pela Paz da sociedade civil fazem um ativismo somente para  aparecer na televisão, sem engajamento profundo; a pergunta é a seguinte: vc não tem sequer uma ponta de otimismo em relação a um posicionamento pacífico na busca da Paz, seja a urbana, seja a dos países e a dos povos? Latuff é um pessimista?

Latuff – Te respondo com outras perguntas: houve paz em algum período da história humana? Em que momento da humanidade o homem deixou de matar outro por interesses pessoais ou corporativos? O que é mais lucrativo, a paz ou a guerra?

Tem quem acredite num novo homem fruto da tão esperada revolução. Mas amigo, a questão é que, o processo de conscientização das pessoas é mais lento que o processo de destruição do meio ambiente. Se algum dia o ser humano estiver prontinho para a revolução, vai beber e respirar o que?

Talvez, eu repito, talvez, a única chance de sobrevivência seja a derrubada da hegemonia masculina na terra. Parafraseando o psicoterapeuta José Angelo Gaiarsa em seu livro “O que é pênis”: “Ou o homem aprende sua posição de satélite e servidor da mulher (e da criança, e da espécie), ou receio que seu último ato de exibição seja a destruição da raça e do planeta.”

Novae – Gostaria de fazer um gancho com os cartunistas que atuam na mídia de massa no Brasil, nos grandes jornais e TV, que ignoram o noticiário internacional, principalmente o massacre dos povos. Como o vc analisa este vazio? Como vc vê essa “alienação” de outros cartunistas a estes assuntos? Você acha que os meios de comunicação de massa temem publicar charges como as de Latuff pois isso contraria interesses?

Latuff – É preciso entender a que servem os jornais na teoria e na prática. Se o editor-chefe de um jornal de grande circulação for entrevistado, ele certamente vai falar dos princípios básicos do jornalismo, imparcialidade, credibilidade, seriedade, blá, blá, blá. Mas, e a prática, como fica? Quando a capa da revista Veja se refere ao MST como “tática da baderna”, a Globo edita o debate entre Lula e Collor, comentaristas na TV e colunistas nos jornais defendem as privatizações, percebe-se uma intenção doutrinária e não informativa por parte da imprensa.

A polêmica charge com SaramagoSe bem me lembro, Chico Caruso publicou uma charge durante o primeiro turno das eleições presidenciais, quando Roseana Sarney era a queridinha da mídia, em que ela e José Serra estavam numa gangorra. O rosto de Serra tinha sido caricaturado como sempre, com traços grotescos. Mas Roseana não. Chico a poupou. Ao invés de desenhar seu rosto de maneira caricata, o cartunista preferiu simplesmente colar uma foto sorridente dela. Será que o experiente Chico Caruso desaprendeu subitamente a caricaturar rostos femininos? Será que era preciso “pegar leve” com a candidata, já que naquele momento específico, era tida como a preferida da direita?

“Manda quem pode, obedece quem tem juízo.” Para os cartunistas que trabalham no “mainstream” essa é uma lógica preciosa.
Novae – Seu trabalho é todo distribuído pela rede dentro do conceito copyleft. Na sua opinião onde reside a importância desta forma de distribuição?
Latuff – Sendo um trabalho essencialmente político-social, meu interesse é que a mensagem contida nas imagens chegue a um sem número de seres humanos. Portanto, qualquer restrição a circulação livre destas gravuras seria contra-producente. Por isso liberei os direitos de reprodução pois meu interesse nesse caso não são os “royalties” e sim a propagação de idéias.
Novae –
 Qual a relação que você vê entre ativismo e arte?Latuff – Arte não tem de ser necessariamente engajada, mas o artista consciente percebe que não é um indivíduo solto pelo mundo, livre de responsabilidade social. E se o que de melhor ele tem a oferecer é a sua arte, então ele pode tanto produzir arte pela arte como arte para a mudança.
Novae –
 Qual a sua maior utopia?
Latuff – Não tenho nenhuma. Faço o que tenho de fazer, mas acredito que a maior glória desse sistema patriarcal capitalista será levar a todos nós pro saco!
Novae –
 O que significa na sua opinião a Internet?Latuff – Uma Ferrari. Pode-se percorrer grandes distâncias num curto espaço de tempo nela, ou somente usá-la como varal pra pendurar cuecas molhadas. A Internet é o que você faz dela. Melhor aproveitar enquanto ela é ainda livre…

Saiba mais:

Resistência Palestina Mundial (nova série de cartuns por Latuff)

Resistência Palestina Mundial (nova série de cartuns por Latuff)

Se voce luta contra opressão, então voce também é palestino.

 

Resistência Palestina Mundial (nova série de cartuns por Latuff)
Resistência Palestina Mundial (nova série de cartuns por Latuff)

 

Se voce é vítima de opressão, então voce também é palestino.

Foi com essa frase que no final de Janeiro deste ano publiquei no CMI o primeiro cartum da série We are all Palestinians (Somos todos palestinos) onde o sofrimento dos palestinos era comparado aos tantos outros na história mundial.

Agora publico a ultima imagem de uma nova série de sete cartuns apresentando a resistência contra a opressão. Intitulado World Palestinian Resistance (Resistência Palestina Mundial), este recente trabalho associa a luta do povo palestino com outras ao redor do planeta.

Eis os links para todos os cartuns da série World Palestinian Resistance. Reprodução autorizada em nome do valente povo palestino, afro-americano, vietnamita, brasileiro, francês, mexicano, tibetano e africano em suas lutas, no passado e no presente, contra todo o tipo de opressão.

#1 – Pantera Negra afro-americano
 http://images.indymedia.org/imc/mayday/resist1.gif

#2 – Vietcongue
 http://images.indymedia.org/imc/mayday/resist2.gif

#3 – Sem-terra brasileira
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#4 – Maquis francês da Segunda Guerra Mundial
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#5 – Indígena Zapatista
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#6 – Monge tibetano
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#7 – Escrava africana
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Email:: latuff@uninet.com.br
URL:: http://