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O rigor temporal de Saramago ante o genocídio do povo palestino 18/11/2012 |

O rigor temporal de Saramago ante o genocídio do povo palestino

18/11/2012 | Destaques,Israel,Palestina

Entrevista com José Saramago em 2002.

(Português/Español).

O colaborador da BBC na Cisjordânia, José Vericat, conversou em Ramalah com o escritor português José Saramago.

BBC — Que propósito teve a sua visita à Palestina?

Saramago — A intenção tem sido a de enviar aqui uma delegação de membros do Parlamento Internacional de Escritores para manifestar solidariedade aos narradores, poetas, dramaturgos palestinos.

BBC — O que pode ter este conflito palestino-israelense de particular?

Saramago — Vamos ver: Isto não é um conflito. Poderíamos chamá-lo conflito se se tratasse de dois países, com uma fronteira e dois estados, com um exército cada um. Aqui trata-se de uma coisa completamente distinta: Apartheid. Ruptura da estrutura social palestina pela impossibilidade de comunicação.

BBC — Que pensa de Israel?

Saramago — Um sentimento de impunidade caracteriza hoje o povo israelense e o seu exército. Eles converteram-se em financiadores do holocausto. Com todo o respeito pela gente assassinada, torturada e sufocada nas câmaras de gás. Os judeus que foram sacrificados nas câmaras de gás quiçá se envergonhariam se tivéssemos tempo de dizer-lhes como estão se comportando seus descendentes. Porque eu pensei que isto era possível; que um povo que tem sofrido deveria haver aprendido de seu próprio sofrimento. O que estão fazendo com os palestinos aqui é no mesmo espírito do que sofreram antes.

Eu creio que eles não conhecem a realidade. Todos os artigos que apareceram contra mim têm sido escritos por pessoas que não foram nunca saber como vivem os palestinos, quer dizer, eles não querem saber o que está passando aqui. Sería lógico que estivessem aqui os capacetes azuis (soldados da ONU). Mas o governo israelense não o permite. O que me indigna, e não posso calar-me, é a covardia da comunidade internacional que se deixa calar. Nem sequer falo dos Estados Unidos, do lobby judeu, de tudo isso que é mais que conhecido. Falo da União Européia. Europa, o berço da arte, da grande literatura, tudo isso. E todos assistindo a isto, a este desastre, e ninguém intervém.

BBC — Parece-lhe pertinente a analogia entre o sofrimento dos palestinos hoje, e o sofrimento dos judeus que teve lugar durante o regime nazista e em particular nos campos de concentração?

Saramago — Isso de Auschwitz foi, evidentemente, uma comparação a propósito. Um protesto formulado em termos habituais, quiçá não provocasse a reação que tem provocado. Claro que não há câmaras de gás para exterminar palestinos, mas a situação na qual se encontra o povo palestino é uma situação concentracionária: Ninguém pode sair de seus povoados.

Eu o disse e dito está. Mas, se a vocês incomoda muito isso de Auschwitz, eu posso substituir essa palavra, e em lugar de dizer Auschwitz digo crimes contra a humanidade. Não é uma questão de mais vítimas ou menos vítimas; não é uma questão de mais trágico ou menos trágico: É o fato em si. Isto que está acontecendo em Israel contra os palestinos é um crime contra a humanidade. Os palestinos são vítimas de crimes contra a humanidade cometidos pelo governo de Israel com o aplauso de seu povo.

BBC — Não crê que suas declarações têm um efeito contraproducente?

Saramago — Não há nenhum efeito contraproducente. Há críticas e há críticas. Há críticas que são conhecidas e portanto não têm nenhum efeito; quer dizer: se fazem e se repetem infinitamente.

BBC — O que o senhor escreveu que tenha mais relevância com este conflito?

Saramago — Uma novela que publiquei há cinco ou seis anos, Ensaio Sobre a Cegueira, que vendeu aqui sessenta mil exemplares. (Até há alguns dias, eu era aqui um bestseller. Agora os meus livros estão sendo retirados das livrarias) É uma novela que narra como todo o mundo se torna cego. Porque minha opinião é que todos somos cegos. Cegos porque não temos sido capazes de criar um mundo que valha a pena. Porque este mundo, como está e como é, não vale a pena.

Isto poderia ter relevância, se os políticos se interessassem por literatura. Se há algo sobre o que refletir, é sobre a capacidade que temos, ou que não temos, de inventar um modo de relação humana onde o imperativo seja o respeito humano, e o respeito ao outro.

BBC — Qual é o papel da literatura neste conflito?

Saramago — Nenhum. Essa idéia de que os escritores têm que salvar o mundo… Gostaríamos de fazê-lo, é claro. Se fosse pela arte e tudo o que temos feito de bonito no passado, se isso servisse para algo, não estaríamos como estamos. A intervenção que os escritores possam e devam ter, é pelo simples fato de que são cidadãos. Claro que também são escritores. Se se nos pede algo, ou por iniciativa nossa temos algo para dizer, o escrevemos. Mas, além de ter o que tenhamos para dizer, também há o que temos para fazer. E o fazer é intervir na vida, não só no seu próprio país, mas também no mundo.

BBC — A imprensa internacional publicou declarações atribuídas ao senhor referindo-se aos atos do exército israelense como atos “nazistas” e fazendo críticas bastantes duras ao governo de Israel. Qual é exatamente a sua posição diante do conflito no Oriente Médio?

Saramago — A declaração de que o exército israelense se tornou “judeu nazi” foi de um grande intelectual judeu (Yeshayahu Leibowitz, que morreu em 1994) respeitado tanto do ponto de vista moral como do ponto de vista intelectual. Não estou usando essa espécie de guarda-chuva para me proteger de qualquer tempestade. Mas esta idéia de que algo de profundamente negativo, destrutivo, entrou no espírito de Israel, eu não fui a primeira pessoa a dizer. Hoje mesmo outros israelenses reconhecem isso.

BBC — Outra afirmação que o senhor teria feito sobre Israel, foi comparar a forma com que o governo israelense tem tratado os palestinos como uma espécie de apartheid…

Saramago — Não é uma espécie de apartheid, é rigorosamente um apartheid, e sobre isso só tem dúvidas quem não veio aqui nunca. Se alguém quiser ser informado, supondo que as autoridades militares permitam o acesso, a passagem nos postos de controle para chegar às aldeias e cidades palestinas que estão completamente isoladas, onde não se pode entrar e de onde não se pode sair sem a autorização do Exército, se se quer ver como isto é efetivamente, há que vir aqui.

A informação que nós temos, aquela que circula internacionalmente, dá sempre uma imagem de um lado e deixa outro praticamente omisso, ou apenas com as imagens de palestinos disparando para o ar quando acompanham os seus mortos. Eu não estou aqui dizendo que os israelenses são uns demônios e que os palestinos são uns anjos, não se trata disso, anjos e demônios há de um lado e de outro.

O que se passa é que a situação política aqui, a situação de guerra que se criou, teve como resultado a ocupação militar de praticamente todo o suposto território palestino, o isolamento de todas as aldeias e cidades palestinas e a impossibilidade de se circular no próprio território. Isso, se não é apartheid, como é que havemos de chamar?

BBC — O senhor diria que nos últimos anos, principalmente durante o governo do primeiro-ministro Ariel Sharon, essa situação tem se agravado?

Saramago — Ela tem se agravado nos últimos tempos. Mas, enquanto foi primeiro-ministro o sr. Barak, construíram-se mais assentamentos no interior do território palestino do que aqueles construídos quando foi primeiro-ministro o sr. Netanyahu. Quer dizer, o mesmo sr. Barak, que supostamente se propunha a fazer a paz, instalava cada vez mais assentamentos no interior dos territórios ocupados.

E aqui há um ponto que é necessário reconhecer: os assentamentos precisam do exército para se defender. Mas o exército precisa dos assentamentos para estar instalado ali. E desta lógica, que é uma lógica absolutamente infernal, não se consegue sair, porque efetivamente a paz que querem os governos de Israel não é uma paz justa, não é uma paz que reconheça efetivamente os direitos dos palestinos de ter um Estado, de ter uma identidade própria, uma vida que seja sua. Os palestinos são desprezados pela população de Israel, e isso não é demagogia, é a mais pura das verdades, e quem quiser confirmá-la que venha aqui.

BBC — O senhor falou sobre como a comunidade internacional vê esse conflito. O senhor não acredita que, principalmente depois de atos de extrema violência como o atentado de ontem (quarta-feira, em que 20 israelenses foram mortos numa explosão) fica mais difícil ainda para a comunidade palestina divulgar a sua luta, as suas reivindicações à comunidade internacional?

Saramago — Em primeiro lugar, eu não estou nem a justificar nem a defender este ato.

Todos os atos de violência praticados pelos palestinos são obstáculos à paz. Mas os atos de violência praticados pelo exército israelense não são obstáculos à paz… Aldeias arrasadas, milhares de mortos, gente expulsa em 1948… Fala-se do Holocausto judeu, mas também houve uma espécie de Holocausto palestino. Um milhão de pessoas foram deslocadas de suas casas em 1948.

Ainda ontem estivemos em Gaza, e 150 casas foram destruídas por tanques e escavadeiras. Aqui se castiga uma ação de violência praticada por um palestino com a destruição da casa, ou de casas, ou de uma aldeia. Então os atos de violência dos israelenses não são obstáculos à paz?

BBC — Nessa situação, que perspectivas o senhor vê para esse conflito? O senhor tem algum otimismo em relação ao plano de paz saudita, ou às atuais negociações?

Saramago — Eu não tenho nenhum otimismo, porque efetivamente o governo de Israel não quer a paz. Quer uma paz que lhe convenha, não uma paz justa que levasse em conta o direito do povo palestino de ter a sua própria vida. Sou completamente cético em relação ao êxito de qualquer plano.

E, recentemente, numa proposta dos Estados Unidos nas Nações Unidas, foi reconhecido que o povo palestino tem direito a viver no seu próprio Estado. Mas como se organiza esse Estado, se os assentamentos israelenses nos territórios ocupados são 205, e todos eles protegidos pelo exército e eles próprios armados? Como se quer falar num plano de paz que ignore essa realidade?

BBC — Devido às suas mais recentes declarações, tem havido em Israel um boicote aos seus livros. Como o senhor vê esse tipo de reação?

Saramago — Isso é natural. Acho que, no fundo, são reações de pessoas que não agüentam que se lhes diga a verdade. Retirar os meus livros das livrarias é, talvez, um primeiro passo, que pode levar a um segundo passo, que é queimá-los em praça pública. Tudo pode acontecer.

Fonte: http://www.alfredo-braga.pro.br/discussoes/davi-golias.html

Saramago: Das pedras de Davi aos tanques de Golias

QUINTA-FEIRA, 17 DE JULHO DE 2014

Saramago: Das pedras de Davi aos tanques de Golias

Sanguessugado do Bourdoukan

                                     David palestino atira pedras no Golias israelense

José Saramago*

Afirmam algumas autoridades em questões bíblicas que o Primeiro Livro de Samuel foi escrito ou na época de Salomão ou no período imediato, em qualquer caso antes do cativeiro da Babilônia.

Outros estudiosos não menos competentes argumentam que não apenas o Primeiro, mas também o Segundo Livro de Samuel, foram redigidos depois do exílio da Babilônia, obedecendo a sua composição ao que é denominado por estrutura histórico-político-religiosa do esquema deuteronomista, isto é, sucessivamente, a aliança de Deus com o seu povo, a infidelidade do povo, o castigo de Deus, a súplica do povo, o perdão de Deus.

Se a venerável escritura vem do tempo de Salomão, poderemos dizer que sobre ela passaram, até hoje, em números redondos, uns três mil anos. Se o trabalho dos redatores foi realizado após terem regressado os judeus do exílio, então haverá que descontar daquele número uns 500.

Esta preocupação de rigor temporal tem como único propósito propor à compreensão do leitor a idéia de que a famosa lenda bíblica do combate (que não chegou a dar-se) entre o pequeno pastor Davi e o gigante filisteu Golias anda a ser mal contada às crianças pelo menos desde há 25 ou 30 séculos.

Ao longo do tempo, as diversas partes interessadas no assunto elaboraram, com o assentimento acrítico de mais de cem gerações de crentes, tanto hebreus como cristãos, toda uma enganosa mistificação sobre a desigualdade de forças que separava dos bestiais quatro metros de altura de Golias a frágil compleição física do louro e delicado Davi.

Tal desigualdade, segundo todas as aparências enorme, era compensada, e logo revertida a favor do israelita, pelo fato de Davi ser um mocinho astucioso e Golias uma estúpida massa de carne, tão astucioso aquele que antes de ir enfrentar-se ao filisteu apanhou na margem de um regato que havia por ali perto cinco pedras lisas que meteu no alforje, tão estúpido o outro que não se apercebeu de que Davi vinha armado com uma pistola.

Que não era uma pistola, protestarão indignados os amantes das soberanas verdades míticas, que era simplesmente uma funda, uma humílima funda de pastor, como já as haviam usado em imemoriais tempos os servos de Abraão que lhe conduziam e guardavam o gado.

Sim, de fato não parecia uma pistola, não tinha cano, não tinha coronha, não tinha gatilho, não tinha cartuchos, o que tinha era duas cordas finas e resistentes atadas pelas pontas a um pequeno pedaço de couro flexível, no côncavo do qual a mão esperta de Davi colocaria a pedra que, à distância, foi lançada, veloz e poderosa como uma bala, contra a cabeça de Golias, e o derrubou, deixando-o à mercê do fio da sua própria espada, já empunhada pelo destro fundibulário.

Não foi por ser mais astucioso que o israelita conseguiu matar o filisteu e dar a vitória ao exército do Deus vivo e de Samuel, foi simplesmente porque levava consigo uma arma de longo alcance e a soube manejar. A verdade histórica, modesta e nada imaginativa, contenta-se com ensinar- nos que Golias não teve nem sequer a possibilidade de pôr as mãos em cima de Davi.

A verdade mítica, emérita fabricante de fantasias, anda a embalar-nos há 30 séculos com o conto maravilhoso do triunfo de um pequeno pastor sobre a bestialidade de um guerreiro gigantesco a quem, afinal, de nada pôde servir o pesado bronze do capacete, da couraça, das perneiras e do escudo.

Tanto quanto estamos autorizados a concluir do desenvolvimento deste edificante episódio, Davi, nas muitas batalhas que fizeram dele rei de Judá e de Jerusalém e estenderam o seu poder até a margem direita do Eufrates, não voltou a usar a funda e as pedras.

Também não as usa agora.

Nestes últimos 50 anos cresceram a tal ponto as forças e o tamanho de Davi que entre ele e o sobranceiro Golias já não é possível reconhecer qualquer diferença, podendo até dizer-se, sem insultar a ofuscante claridade dos fatos, que se tornou num novo Golias.

Davi, hoje, é Golias, mas um Golias que deixou de carregar pesadas e afinal inúteis armas de bronze. Aquele louro Davi de antanho sobrevoa de helicóptero as terras palestinas ocupadas e dispara mísseis contra alvos inermes; aquele delicado Davi de outrora tripula os mais poderosos tanques do mundo e esmaga e rebenta tudo quanto encontra na sua frente; aquele lírico Davi que cantava loas a Betsabé, encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon, lança a “poética” mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestinos para depois negociar com o que deles restar.

Em poucas palavras, é nisto que consiste, desde 1948, com ligeiras variantes meramente tácticas, a estratégia política israelita.

Intoxicados mentalmente pela idéia messiânica de um Grande Israel que realize finalmente os sonhos expansionistas do sionismo mais radical; contaminados pela monstruosa e enraizada “certeza” de que neste catastrófico e absurdo mundo existe um povo eleito por Deus e que, portanto, estão automaticamente justificadas e autorizadas, em nome também dos horrores passados e dos medos de hoje, todas as ações próprias resultantes de um racismo obsessivo, psicológica e patologicamente exclusivista; educados e treinados na idéia de que quaisquer sofrimentos que tenham infligido, inflijam ou venham a infligir aos outros, e em particular aos palestinos, sempre ficarão abaixo dos que padeceram no Holocausto, os judeus arranham interminavelmente a sua própria ferida para que não deixe de sangrar, para torná-la incurável, e mostram-na ao mundo como se tratasse de uma bandeira.

Israel fez suas as terríveis palavras de Jeová no Deuteronômio: “Minha é a vingança, e eu lhes darei o pago”. Israel quer que nos sintamos culpados, todos nós, direta ou indiretamente, pelos horrores do Holocausto, Israel quer que renunciemos ao mais elementar juízo crítico e nos transformemos em dócil eco da sua vontade, Israel quer que reconheçamos de jure o que para eles já é um exercício de fato: a impunidade absoluta.

Do ponto de vista dos judeus, Israel não poderá nunca ser submetido a julgamento, uma vez que foi torturado e queimado em Auschwitz. Pergunto-me se esses judeus que morreram nos campos de concentração nazistas, esses que foram perseguidos ao longo da História, esses que foram trucidados nos progrons, esses que apodreceram nos guetos, pergunto-me se essa imensa multidão de infelizes não sentiria vergonha pelos atos infames que os seus descendentes vêm cometendo.

Pergunto-me se o fato de terem sofrido tanto não seria a melhor causa para não fazerem sofrer os outros.

As pedras de Davi mudaram de mãos, agora são os palestinos que as atiram. Golias está do outro lado, armado e equipado como nunca se viu soldado algum na história das guerras, salvo, claro está, o amigo americano.

Ah, sim, as horrendas matanças de civis causadas pelos chamados terroristas suicidas… Horrendas, sim, sem dúvida, condenáveis, sim, sem dúvida. Mas Israel ainda terá muito que aprender se não é capaz de compreender as razões que podem levar um ser humano a transformar-se numa bomba.

*Prêmio Nobel de Literatura

https://www.youtube.com/watch?v=tF5D9QV4URo

Palestina: a solução final e José Saramago

James Petras

historiador americano

 

As imagens da força militar de Israel estão sendo transmitidas ao mundo inteiro: Soldados disparando na cabeça dos feridos; tanques derrubando paredes de casas, escritórios, o complexo de Arafat. Centenas de crianças, mulheres e homens, com as cabeças encapuzadas, sendo levados a coronhadas aos campos de concentração; helicópteros providos de artilharia destruindo mercados; blindados destruindo campos de oliveiras, e pomares de laranjeiras e limoeiros. As ruas de Ramallah devastadas. Mesquitas e escolas crivadas de balaços, desenhos de crianças rasgados em pedaços, crucifixos feitos em frangalhos, paredes autografadas pelos saqueadores do exército. Milhões de palestinos rodeados por tanques: A eletricidade cortada, sem água, sem telefones, sem alimentos. As tropas de assalto arrebentam as portas, os móveis e os utensílios de cozinha, seja o que for que faça a vida possível.

Por acaso alguém pode dizer que não sabia que os israelenses estão levando a cabo o extermínio de um povo, espremido nos porões, sob as ruínas de seus lares? Que aos feridos, aos agonizantes, se lhes nega deliberadamente a atenção médica? Que não sabia das imposições sistemáticas e metódicas do Alto Comando israelense de bloquear todas as ambulâncias, de prender e até assassinar os motoristas e o pessoal de emergência médica?

Temos o duvidoso privilégio de ver e ler em tempo real como se desenrola todo esse horror promovido pelos descendentes do holocausto, aqueles que, hipócrita e rancorosamente, reivindicam o monopólio do uso da palavra que melhor descreve o ataque contra todo um povo.

O público israelense, seus meios de comunicação e jornalistas, escandalizaram-se quando o escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura os confrontou com a verdade histórica: “O que está ocorrendo na Palestina é um crime que podemos comparar com o que ocorreu em Auschwitz.” A opinião pública israelense, em lugar de refletir sobre seus atos violentos, lançou-se contra Saramago por ter se atrevido a compará-los aos nazistas.

Amós Oz, escritor israelense e, de vez em quando, pacifista — até que Israel entre em guerra — acusou Saramago de ser “anti-semita” e de uma “incrível cegueira moral.”

A profunda imoralidade de uma guerra contra todo um povo é um crime contra a humanidade. Não há exceções especiais. São precisamente esses intelectuais israelenses, e os da diáspora, que se dizem “progressistas”, aqueles que expuseram a sua própria cegueira nacional e a sua covardia moral, encobrindo suas desculpas para o terrorismo de estado israelense com os farrapos das vítimas do outro holocausto de 60 anos passados.

Basta ler a imprensa israelense para compreender a validade da analogia histórica de Saramago. Dia após dia, líderes proeminentes e respeitáveis, eleitos pelo eleitorado judeu, “bestializam” os palestinos, tudo para melhor justificar seus próprios excessos.

Segundo o diário israelense Maariv — citado por Roberto Fisk — um oficial das Forças de Defesa de Israel (IDF) aconselha suas tropas a estudar as táticas adotadas pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. “Se o nosso trabalho é tomar os campos de refugiados densamente povoados na Casbah de Nablus, um oficial deve analisar as lições das guerras passadas, até mesmo analisar como o exército alemão operou no Gueto de Varsóvia.

Quando a imprensa israelense acusou Saramago de anti-semita, estariam dispostos a estender essa calúnia aos oficiais de seu exército e às suas tropas por utilizarem as mesmas analogias? Ou os oficiais israelenses vão alegar simplesmente que “estavam cumprindo ordens” ao explodir edifícios com mulheres, crianças e anciãos em seu interior?

Nos fóruns mundiais — da União Européia às Nações Unidas, e em todo o Terceiro Mundo, Israel está sendo condenado por atos contra a humanidade.

Os arautos e os defensores das táticas de Israel perceberam que chamar os críticos de anti-semitas já não intimida as pessoas. A opinião pública mundial já viu e leu o bastante. Estamos nos dando conta que as “vítimas” se transformaram em algozes.

A exemplo de qualquer Estado Policial, Israel retirou todos os livros de Saramago das livrarias e das bibliotecas. Só falta leva-los à fogueira.

Com a mesma seriedade com que se preparou para o genocídio, Israel proibiu a entrada de todos os jornalistas nos guetos palestinos, salvo aqueles que aceitam e publicam os comunicados de imprensa do exército.

Como na Alemanha nazista, todos os homens palestinos entre 16 e 60 anos são aprisionados, muitos deles desnudados, algemados com cordéis, interrogados e muitos deles torturados. As famílias dos combatentes da resistência palestina são mantidas como reféns, sem água, alimento ou eletricidade.

Os soldados israelenses saqueiam as casas e roubam qualquer objeto de valor, destruindo os móveis. Como os nazistas, deixam morrer centenas de palestinos feridos enquanto as tropas israelenses bloqueiam todas as ambulâncias. Centenas de milhares enfrentam a desidratação e a morte por inanição, posto que se cortou todo o suprimento de água e alimento.

Tropas israelenses, tanques e helicópteros destruíram todas as principais cidades e campos de refugiados: Tulkarem, Al Bireh, Al Jader, Beit Jala, Kalqirya, Hebron. A descoberta de um único combatente da resistência resulta em culpa e castigo coletivos: pais, filhos, tios e vizinhos são retirados à força e levados aos campos de concentração, campos de futebol e parques infantis.

É evidente que a indignação judaica pela comparação feita por Saramago, do terrorismo israelense com Auschwitz, pôs o dedo sobre uma lembrança sensível: O desprezo por si próprios, dos executores, que se dão conta que foram bons discípulos do perseguidor nazista e que, a todo o custo, devem nega-lo.

Na mentalidade de bunker do psicopata Sharon e seus paranóicos seguidores, todos são racistas, anti-semitas, leitores entusiastas dos Protocolos dos Sábios de Sião, e tentam desmoralizar os judeus para que não levem a cabo a missão bíblica de uma Grande Israel, de um povo, de uma nação, de um Deus, e a expulsão de todos os palestinos de sua Terra Prometida.

A oferta de Sharon a Arafat — a liberdade para partir, mas sem regressar jamais — é dirigida também a todo o povo palestino.

Palestina: a solução final e José Saramago

As imagens da força militar israelense vêm se transmitindo a todo o mundo. Soldados disparando na cabeça dos feridos. Tanques desmoronando as paredes das casas, dos escritórios e do quartel de Arafat. Centenas de crianças e homens com a cabeça coberta com capuchas enquanto são levados para campos de concentração à ponta de rifles. Helicópteros de combate destruindo mercados; tanques arrasando oliveiras, laranjeiras e limoeiros. As ruas de Ramallah devastadas. Mesquitas e escolas cheias de impactos de balas; os desenhos das crianças feitos em pedaços, crucifixos despedaçados, paredes com os grafites dos meliantes.

Milhares de palestinos cercados por tanques; com eletricidade cortada, água, serviço telefônico e comida. As tropas de assalto derrubam portas e destroçam móveis e utensílios de cozinha, tudo que for indispensável para a vida. Alguém pode ignorar que os israelenses estão praticando o genocídio contra um povo inteiro, amontoado nos porões sob as ruínas de suas casas? Aos sobreviventes, entre feridos e moribundos, deliberadamente são negados toda assistência médica, devido à decisão sistemática e metódica do Alto Comando israelense de bloquear todas as ambulâncias, prender, e inclusive disparar contra seus motoristas e médicos de emergência. Os descendentes do Holocausto reivindicam para si, com hipocrisia e rancor, o monopólio deste termo, que melhor descreve o ataque a todo um povo com a cumplicidade da maioria dos israelenses. Temos o duvidoso privilegio de ver e ler enquanto este horror ocorre e salvar algumas poucas almas valentes.

O público israelense, seus meios de comunicação, intelectuais e jornalistas se escandalizaram quando o autor português José Saramago, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, enfrentou-os com uma verdade histórica: “o que está sucedendo na Palestina é um crime que podemos comparar com o que ocorreu em Auschwitz”.

Em lugar de refletir acerca de suas ações violentas, a opinião pública de Tel Aviv se voltou contra Saramago por ter se atrevido a compará-la com os nazistas. Em sua cegueira moral, Amoz Oz, escritor israelense e algumas vezes pacifista (qualidade que subsiste até que seu país entre em guerra), acusou Saramago de “anti-semita” e de ter uma “incrível cegueira moral”. A profunda imoralidade de uma guerra contra toda uma população é um crime contra a humanidade. Não há exceções. São precisamente aqueles intelectuais israelenses e da diáspora, que dizem ser “progressistas”, que têm exposto sua própria cegueira nacional e covardia moral, encobrindo a apologia do terror israelense atual com os sudários das vítimas do Holocausto de 50 anos atrás.

Só há que se ler a imprensa israelense para entender a validez da analogia histórica de Saramago. Todos os dias, líderes respeitáveis e proeminentes, eleitos pelos eleitores israelenses, “bestializam” seus adversários palestinos, sobretudo para justificar sua própria violência desmedida. De acordo com o jornal Ma’ariv, citado por Robert Fisk, um oficial do exército sugere que suas tropas estudem as táticas adotadas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial: “se nosso trabalho é tomar campos de refugiados densamente povoados ou nos apoderar da Casbah de Nablus, um oficial deve tomar em conta as lições das batalhas passadas, inclusive analisar a maneira em que os alemães atuaram no gueto de Varsóvia”.

Quando a imprensa de Israel tachou Saramago de anti-semita, estava disposta a estender essa calúnia aos oficiais de seu exército, às suas tropas, por elas se basearem nas mesmas analogias? Acaso os oficiais israelenses dirão meramente que “cumpriam ordens” ao explodirem as edificações com mulheres, crianças e idosos dentro?

Nos foros mundiais, desde a União Européia até as Nações Unidas e o terceiro mundo, condena-se Israel por seus atos contra a humanidade. Os defensores de Tel Aviv verão que qualificar os críticos como “anti-semitas” já não intimida a ninguém. A opinião pública mundial tem visto e lido muito. Estamos nos dando conta que as vítimas podem se converter em vitimários; que a ocupação militar leva à limpeza étnica e às expulsões em massa; que os arranhões podem acabar em gangrena.

Como era previsível, Washington serve às organizações judias e aos militaristas da extrema direita; é o único governo no mundo que acolhe o terror do Estado israelense contra os líderes de confissão muçulmana e cristã, e que é contrario aos interesses das maiores companhias petrolíferas e seus aliados sauditas e kuwaitianos.

Embora grupos reduzidos de dissidentes israelenses protestem e muitos reservistas se recusem a servir no exército de ocupação, o comentário de Saramago acerca do público em geral de Israel também se aplica à maioria da diáspora que defende este país: “Um sentido de impunidade caracteriza hoje em dia a população israelense e seu exército. Tornaram-se financiadores do Holocausto”. Como um bom Estado-polícia, o governo de Tel Aviv retirou os livros de Saramago das livrarias e bibliotecas. Igualmente importante para empreender uma política de genocídio é proibir, como têm feito, a entrada de qualquer jornalista nos guetos palestinos, salvo os encarregados de escrever os boletins de imprensa do exército israelense.

Como na Alemanha nazista, juntam todos os homens palestinos entre 16 e 60 anos; a muitos arrancam as roupas até deixá-los nus, os algemam, interrogam, e torturam. Famílias dos combatentes da resistência palestina são seqüestradas e privadas de água, comida e eletricidade. Soldados israelenses saqueiam casas e roubam objetos de valor, destruindo os móveis. Como sucedia no regime nazista, deixam centenas de feridos palestinos morrerem, um vez que proíbem a passagem das ambulâncias. Centenas de milhares enfrentam a ameaça da desidratação e a morte por inanição, já que o fornecimento de comida e água foi cortado. Tropas, tanques e helicópteros israelenses irromperam nos povoados, cidades e campos de refugiados principais: Tulkarem, Al Bireh, Belém, Beit Jala, Qalqilya, Hebron.

Bastam descobrir um só combatente da resistência para culparem e castigarem de maneira coletiva: pais, filhos, tios e vizinhos são cercados e levados a estádios de futebol e parques de diversão para crianças, acondicionados como campos de concentração.

É evidente que a indignação israelense e judia provocada pela analogia que Saramago fez do terrorismo de Tel Aviv com Auschwitz tocou no ponto fraco: o ódio a si mesmos, dos verdugos que sabem que são discípulos de seus perseguidores do passado e que, a toda custa, devem negar isso. Até agora, todos os chamados dos moderados árabes a que Bush intervenha e ponha um fim ao massacre têm sido inúteis. Washington reiterou seu apoio a Sharon e à invasão e guerra contra os palestinos. Ninguém nos Estados Unidos pode alguma coisa contra o dinheiro e a influência do lobby israelense e seus poderosos aliados judeus. Em outras partes, no entanto, há esperança. Via Campesina e os seguidores de José Bové pediram o boicote internacional aos bens e serviços de Tel Aviv, cuja economia depende amplamente de suas exportações para a União Européia. Reduções nas transações de petróleo por parte dos países exportadores, particularmente Arábia Saudita, Kuwait, Iraque, Irã e Líbia poderiam provocar uma alta importante nos preços do petróleo e uma crise econômica nos Estados Unidos, Europa e Japão. Isto poderia produzir calafrios nos europeus e despertar a consciência do público estadunidense. O que está absolutamente claro é que enquanto Tel Aviv conserve seu peso no lobby judeu em Washington e com o apoio de Bush, as resoluções das Nações Unidas, as convenções de Genebra e os apelos da Europa continuarão sendo completamente ignorados.

Na mentalidade obtusa de Sharon e seus paranóicos seguidores, todos eles são anti-semitas, seguidores dos Protocolos de Sião, que tentam desmoralizá-los para impedir que realizem a missão bíblica da Grande Israel, de um povo, uma nação, um Deus, e expulsem a todos os palestinos de sua Terra Prometida. A opinião pública mundial não deve permanecer na passividade e permitir que a tragédia do Holocausto do século XX se repita no XXI. Ainda há tempo. Porém, quanto tempo mais consegue um povo, por mais heróico que seja, resistir sem água nem comida? A oferta que Sharon fez a Arafat “liberdade de ir embora sem possibilidade de volta” está projetada para todo o povo palestino.

Entrevista Com José Saramago

 

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02/06/2007

O colaborador da BBC na Cisjordânia, José Vericat, conversou em Ramala com o escritor português José Saramago, ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1998. Suas recentes críticas a Israel no conflito do Oriente Médio, comparando os territórios palestinos aos campos de concentração nazistas, têm desatado uma incendiada polêmica.

BBC – Que propósito teve sua visita à Palestina?

Saramago – “A intenção tem sido a de enviar aqui uma delegação de membros do Parlamento Internacional de Escritores para manifestar solidariedade aos narradores, poetas, dramaturgos palestinos”.

BBC – Que pode ter este conflito palestino-israelense de particular?

Saramago – “Vamos ver, isto não é um conflito. Poderíamos chamá-lo um conflito se se tratasse de dois países, com uma fronteira e dois estados, com um exército cada um. Trata-se de uma coisa completamente distinta: Apartheid. Ruptura da estrutura social Palestina pela impossibilidade de comunicação”.

BBC – Que pensa de Israel?

Saramago – “Um sentimento de impunidade caracteriza hoje o povo israelense e o seu exército. Eles converteram-se em financiadores do holocausto. Com todo o respeito pela gente assassinada, torturada e sufocada nas câmaras de gás. Os judeus que foram sacrificados nas câmaras de gás quiçá se envergonhariam se tivéssemos tempo de dizer-lhes como estão se comportando seus descendentes. Porque eu pensei que isto era possível; que um povo que tem sofrido deveria haver aprendido de seu próprio sofrimento. O que estão fazendo com os palestinos aqui é no mesmo espírito do que sofreram antes.

Eu creio que eles não conhecem a realidade. Todos os artigos que apareceram contra mim têm sido escritos por pessoas que não foram nunca saber como vivem os palestinos, quer dizer, eles não querem saber o que está passando aqui. Sería lógico que estivessem aqui os cascos azuis (soldados da ONU). Mas o governo israelense não o permite. O que me indigna, e não posso calar-me, é a covardia da comunidade internacional que se deixa calar. Nem sequer falo dos Estados Unidos, do lobby judeu, de tudo isso que é mais que conhecido. Falo da União Européia. Europa, o berço da arte, da grande literatura, tudo isso. E todos assistindo a isto, a este desastre, e ninguém intervém”.

BBC – Parece-lhe pertinente a analogia entre o sofrimento dos palestinos hoje em dia e o sofrimento dos judeus que teve lugar durante o regime nazista e em particular os campos de concentração?

Saramago – “Isso de Auschwitz foi evidentemente uma comparação forçada a propósito. Um protesto formulado em termos habituais quiçá não provocasse a reação que tem provocado. Claro que no há câmaras de gás para exterminar os palestinos, mas a situação na qual se encontra o povo palestino é uma situação concentracionária. Ninguém pode sair de seus povoados.

Eu o disse e dito está. Mas, se a vocês lhes molesta muito isso de Auschwitz, eu posso substituir essa palavra e em lugar de dizer Auschwitz, digo crimes contra a humanidade. Não é uma questão de mais vítimas ou menos vítimas, não é uma questão de mais trágico ou menos trágico, é o fato em si. Isto que está passando em Israel contra os palestinos é um crime contra a humanidade. Os palestinos são vítimas de crimes contra a humanidade cometidos pelo governo de Israel com o aplauso de seu povo”.

BBC – Não crê que suas declarações têm um efeito contraproducente?

Saramago – “Aqui não há nenhum efeito contraproducente. Há críticas e há críticas. Há críticas que são conhecidas e portanto não têm nenhum efeito, quer dizer, se fazem e se repetem infinitamente”.

BBC – O que o senhor escreveu que tenha mais relevância com este conflito?

Saramago “Uma novela que eu publiquei há cinco ou seis anos, Ensaio Sobre a Cegueira, que vendeu aqui sessenta mil exemplares. Até estes dias eu era aqui um bestseller. Agora meus livros estão sendo retirados das livrarias. É uma novela que narra como todo o mundo se torna cego. Porque minha opinião é que todos somos cegos. Cegos porque não temos sido capazes de criar um mundo que valha a pena. Porque este mundo como está e como é não vale a pena.

Esta sim que poderia ter [relevância] se os políticos se interessassem pela literatura. Se há algo sobre o que refletir é sobre a capacidade que temos, ou que não temos de inventar um modo de relação humana onde o imperativo seja o respeito humano e o respeito ao outro”.

BBC – Qual é o papel da literatura neste conflito?

Saramgo – “Nenhum. Essa idéia de que os escritores têm que salvar o mundo… Gostaríamos de fazê-lo, é claro. Se fosse pela arte e tudo o que temos feito de bonito no passado, se isso servisse para algo, não estaríamos como estamos. A intervenção que os escritores possam e devam ter é pelo simples fato de que são cidadãos. Claro que também são escritores. Se se nos pede algo, ou por iniciativa nossa temos algo para dizer, o escrevemos. Mas, além de ter o que tenhamos para dizer, também há o que temos para fazer. E o fazer é intervir na vida não só do país, de um senão também do mundo”. 

Saramago diz que Israel não quer uma paz justa

O escritor português e vencedor do Nobel de Literatura José Saramago disse que Israel não deseja uma paz justa no Oriente Médio. Em entrevista à BBC, ele reafirmou suas críticas ao governo israelense e disse que o país adota um regime de apartheid contra a população palestina.

Durante visita a Israel e à Cisjordânia, ao lado de outros escritores europeus, Saramago, de 79 anos, atacou duramente o governo israelense, dizendo que ele só aceita uma paz que lhe convenha.

A viagem de Saramago tem sido polêmica. Na terça-feira, em uma entrevista coletiva, ele foi questionado por ter comparado a situação dos palestinos em Ramallah (Cisjordânia) à dos judeus no campo de concentração de Auschvitz, durante a Segunda Guerra Mundial.

A correspondente Amira Hass, do jornal Haaretz – judia israelense que vive em Ramallah em meio a palestinos -, confrontou o Nobel de Liberatura.

Filha de sobreviventes do Holocausto, ela perguntou: “Se Ramallah é como Auschvitz, me mostre onde estão as câmaras de gás”. Saramago pareceu constrangido e não respondeu.

À BBC, o escritor afirmou que nenhum processo de paz na região pode ser bem-sucedido se não levar em conta os problemas causados pela presença de colônias judaicas nos territórios palestinos ocupados.

Saramago disse que ele e o grupo de escritores chegaram à região no último domingo, mas só receberam autorização para ir a uma cidade da Cisjordânia, exatamente Ramallah – onde o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, está confinado pelo Exército israelense.

O governo de Israel tem exigido um cessar-fogo dos palestinos para iniciar novas negociações em busca de um acordo e reafirmado que a Autoridade Nacional Palestina e seu líder, Yasser Arafat, não estão comprometidos com a paz na região.

Para Israel, o atentado suicida ocorrido na noite de quarta-feira e que matou 20 israelenses, é mais uma prova da falta de compromisso de Arafat com o fim do conflito.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
BBC – A imprensa internacional publicou declarações atribuídas ao senhor referindo-se aos atos do Exército israelense como atos “nazistas” e fazendo críticas bastantes duras ao governo de Israel. Qual é exatamente a sua posição diante do conflito no Oriente Médio?
José Saramago – A declaração de que o Exército israelense se tornou “judeu nazi” foi de um grande intelectual judeu (Yeshayahu Leibowitz, que morreu em 1994), respeitado tanto do ponto de vista moral como do ponto de vista intelectual. Não estou usando essa espécie de guarda-chuva para me proteger de qualquer tempestade. Mas esta idéia de que algo de profundamente negativo, destrutivo, entrou no espírito de Israel, eu não fui a primeira pessoa a dizer. Hoje mesmo outros israelenses reconhecem isso.

BBC
 – Outra afirmação que o senhor teria feito sobre Israel foi comparar a forma com que o governo israelense tem tratado os palestinos como uma espécie de apartheid…

Saramago – Não é uma espécie de apartheid, é rigorosamente um apartheid, e sobre isso só tem dúvidas quem não veio aqui nunca. Se alguém quiser ser informado, supondo que as autoridades militares permitam o acesso, a passagem nos postos de controle para chegar às aldeias e cidades palestinas que estão completamente isoladas, onde não se pode entrar e de onde não se pode sair sem a autorização do Exército, se se quer ver como isto é efetivamente, há que vir aqui.
A informação que nós temos, aquela que circula internacionalmente, dá sempre uma imagem de um lado e deixa outro praticamente omisso, ou apenas com as imagens de palestinos disparando para o ar quando acompanham os seus mortos. Eu não estou aqui dizendo que os israelenses são uns demônios e que os palestinos são uns anjos, não se trata disso, anjos e demônios há de um lado e de outro.
O que se passa é que a situação política aqui, a situação de guerra que se criou, teve como resultado a ocupação militar de praticamente todo o suposto território palestino, o isolamento de todas as aldeias e cidades palestinas e a impossibilidade de se circular no próprio território. Isso, se não é apartheid, como é que havemos de chamar?
BBC – O senhor diria que, nos últimos anos, principalmente durante o governo do primeiro-ministro Ariel Sharon, essa situação tem se agravado?

Saramago – Ela tem se agravado nos últimos tempos. Mas, enquanto foi primeiro-ministro o sr. Barak, construíram-se mais colônias no interior do território palestino do que aquelas construídas quando foi primeiro-ministro o sr. Netanyahu. Quer dizer, o mesmo sr. Barak, que supostamente se propunha a fazer a paz, instalava cada vez mais colônias no interior dos territórios ocupados.
E aqui há um ponto que é necessário reconhecer: as colônias precisam do Exército para se defender. Mas o Exército precisa das colônias para estar instalado ali. E desta lógica, que é uma lógica absolutamente infernal, não se consegue sair, porque efetivamente a paz que querem os governos de Israel não é uma paz justa, não é uma paz que reconheça efetivamente os direitos dos palestinos de ter um Estado, de ter uma identidade própria, uma vida que seja sua. Os palestinos são desprezados pela população de Israel, e isso não é demagogia, é a mais pura das verdades, e quem quiser confirmá-la que venha aqui.
BBC – O senhor falou sobre como a comunidade internacional vê esse conflito. O senhor não acredita que, principalmente depois de atos de extrema violência como o atentado de ontem (quarta-feira, em que 20 israelenses foram mortos numa explosão), fica mais difícil ainda para a comunidade palestina divulgar a sua luta, as suas reivindicações à comunidade internacional?
Saramago – Em primeiro lugar, eu não estou nem a justificar nem a defender este ato. Mas todos os atos de violência praticados pelos palestinos são obstáculos à paz. Mas os atos de violência praticados pelo Exército israelense não são obstáculos à paz… Aldeias arrasadas, milhares de mortos, gente expulsa em 1948… Fala-se do Holocausto judeu, mas também houve uma espécie de Holocausto palestino. Um milhão de pessoas foram deslocadas de suas casas em 1948.
Ainda ontem estivemos em Gaza, e 150 casas foram destruídas por tanques e escavadeiras. Aqui se castiga uma ação de violência praticada por um palestino com a destruição da casa, ou de casas ou de uma aldeia. Então os atos de violência dos israelenses não são obstáculos à paz?

BBC – Nessa situação, que perspectivas o senhor vê para esse conflito? O senhor tem algum otimismo em relação ao plano de paz saudita ou às atuais negociações?

Saramago – Eu não tenho nenhum otimismo, porque efetivamente o governo de Israel não quer a paz. Quer uma paz que lhe convenha, não uma paz justa que levasse em conta o direito do povo palestino de ter a sua própria vida. Sou completamente cético em relação ao êxito de qualquer plano.E, recentemente, numa proposta dos Estados Unidos nas Nações Unidas, foi reconhecido que o povo palestino tem direito a viver no seu próprio Estado. Mas como se organiza esse Estado, se as colônias israelenses nos territórios ocupados são 205, e todas elas protegidas pelo Exército e elas próprias armadas? Como se quer falar num plano de paz que ignore essa realidade?

BBC 
– Devido às suas mais recentes declarações, tem havido em Israel um boicote aos seus livros. Como o senhor vê esse tipo de reação?

Saramago – Isso é natural. Acho que, no fundo, são reações de pessoas que não agüentam que se lhes diga a verdade. Retirar os meus livros das livrarias é, talvez, um primeiro passo, que pode levar a um segundo passo, que é queimá-los em praça pública. Tudo pode acontecer.

Imaginemos

 

Imaginemos que, nos anos trinta, quando os nazis iniciaram a sua caça aos judeus, o povo alemão teria descido à rua, em grandiosas manifestações que iriam ficar na História, para exigir ao seu governo o fim da perseguição e a promulgação de leis que protegessem todas e quaisquer minorias, fossem elas de judeus, de comunistas, de ciganos ou de homossexuais. Imaginemos que, apoiando essa digna e corajosa acção dos homens e mulheres do país de Goethe, os povos da Europa desfilariam pelas avenidas e praças das suas cidades e uniriam as suas vozes ao coro dos protestos levantados em Berlim, em Munique, em Colónia, em Frankfurt. Já sabemos que nada disto sucedeu nem poderia ter sucedido. Por indiferença, apatia, por cumplicidade táctica ou manifesta com Hitler, o povo alemão, salvo qualquer raríssima excepção, não deu um passo, não fez um gesto, não disse uma palavra para salvar aqueles que iriam ser carne de campo de concentração e de forno crematório, e, no resto da Europa, por uma razão ou outra (por exemplo, os fascismos nascentes), uma assumida conivência com os carrascos nazis disciplinaria ou puniria qualquer veleidade de protesto.

Hoje é diferente. Temos liberdade de expressão, liberdade de manifestação e não sei quantas liberdades mais. Podemos sair à rua aos milhares ou aos milhões que a nossa segurança sempre estará assegurada pelas constituições que nos regem, podemos exigir o fim dos sofrimentos de Gaza ou a restituição ao povo palestino da sua soberania e a reparação dos danos morais e materiais sofridos ao longo de sessenta anos, sem piores consequências que os insultos e as provocações da propaganda israelita. As imaginadas manifestações dos anos trinta seriam reprimidas com violência, em algum caso com ferocidade, as nossas, quando muito, contarão com a indulgência dos meios de comunicação social e logo entrarão em acção os mecanismos do olvido. O nazismo alemão não daria um passo atrás e tudo seria igual ao que veio a ser e a História registou. Por sua vez, o exército israelita, esse que o filósofo Yeshayahu Leibowitz, em 1982, acusou de ter uma mentalidade “judeonazi”, segue fielmente, cumprindo ordens dos seus sucessivos governos e comandos, as doutrinas genocidas daqueles que torturaram, gasearam e queimaram os seus antepassados. Pode mesmo dizer-se que em alguns aspectos os discípulos ultrapassaram os mestres. Quanto a nós, continuaremos a manifestar-nos.

Palestina: a solução final e José Saramago

 

 

As imagens da força militar israelense vêm se transmitindo a todo o mundo. Soldados disparando na cabeça dos feridos. Tanques desmoronando as paredes das casas, dos escritórios e do quartel de Arafat. Centenas de crianças e homens com a cabeça coberta com capuchas enquanto são levados para campos de concentração à ponta de rifles. Helicópteros de combate destruindo mercados; tanques arrasando oliveiras, laranjeiras e limoeiros. As ruas de Ramallah devastadas. Mesquitas e escolas cheias de impactos de balas; os desenhos das crianças feitos em pedaços, crucifixos despedaçados, paredes com os grafites dos meliantes.

 

Milhares de palestinos cercados por tanques; com eletricidade cortada, água, serviço telefônico e comida. As tropas de assalto derrubam portas e destroçam móveis e utensílios de cozinha, tudo que for indispensável para a vida. Alguém pode ignorar que os israelenses estão praticando o genocídio contra um povo inteiro, amontoado nos porões sob as ruínas de suas casas? Aos sobreviventes, entre feridos e moribundos, deliberadamente são negados toda assistência médica, devido à decisão sistemática e metódica do Alto Comando israelense de bloquear todas as ambulâncias, prender, e inclusive disparar contra seus motoristas e médicos de emergência. Os descendentes do Holocausto reivindicam para si, com hipocrisia e rancor, o monopólio deste termo, que melhor descreve o ataque a todo um povo com a cumplicidade da maioria dos israelenses. Temos o duvidoso privilegio de ver e ler enquanto este horror ocorre e salvar algumas poucas almas valentes.

O público israelense, seus meios de comunicação, intelectuais e jornalistas se escandalizaram quando o autor português José Saramago, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, enfrentou-os com uma verdade histórica: “o que está sucedendo na Palestina é um crime que podemos comparar com o que ocorreu em Auschwitz”.

Em lugar de refletir acerca de suas ações violentas, a opinião pública de Tel Aviv se voltou contra Saramago por ter se atrevido a compará-la com os nazistas. Em sua cegueira moral, Amoz Oz, escritor israelense e algumas vezes pacifista (qualidade que subsiste até que seu país entre em guerra), acusou Saramago de “anti-semita” e de ter uma “incrível cegueira moral”. A profunda imoralidade de uma guerra contra toda uma população é um crime contra a humanidade. Não há exceções. São precisamente aqueles intelectuais israelenses e da diáspora, que dizem ser “progressistas”, que têm exposto sua própria cegueira nacional e covardia moral, encobrindo a apologia do terror israelense atual com os sudários das vítimas do Holocausto de 50 anos atrás.

Só há que se ler a imprensa israelense para entender a validez da analogia histórica de Saramago. Todos os dias, líderes respeitáveis e proeminentes, eleitos pelos eleitores israelenses, “bestializam” seus adversários palestinos, sobretudo para justificar sua própria violência desmedida. De acordo com o jornal Ma’ariv, citado por Robert Fisk, um oficial do exército sugere que suas tropas estudem as táticas adotadas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial: “se nosso trabalho é tomar campos de refugiados densamente povoados ou nos apoderar da Casbah de Nablus, um oficial deve tomar em conta as lições das batalhas passadas, inclusive analisar a maneira em que os alemães atuaram no gueto de Varsóvia”.

Quando a imprensa de Israel tachou Saramago de anti-semita, estava disposta a estender essa calúnia aos oficiais de seu exército, às suas tropas, por elas se basearem nas mesmas analogias? Acaso os oficiais israelenses dirão meramente que “cumpriam ordens” ao explodirem as edificações com mulheres, crianças e idosos dentro?

Nos foros mundiais, desde a União Européia até as Nações Unidas e o terceiro mundo, condena-se Israel por seus atos contra a humanidade. Os defensores de Tel Aviv verão que qualificar os críticos como “anti-semitas” já não intimida a ninguém. A opinião pública mundial tem visto e lido muito. Estamos nos dando conta que as vítimas podem se converter em vitimários; que a ocupação militar leva à limpeza étnica e às expulsões em massa; que os arranhões podem acabar em gangrena.

Como era previsível, Washington serve às organizações judias e aos militaristas da extrema direita; é o único governo no mundo que acolhe o terror do Estado israelense contra os líderes de confissão muçulmana e cristã, e que é contrario aos interesses das maiores companhias petrolíferas e seus aliados sauditas e kuwaitianos.

Embora grupos reduzidos de dissidentes israelenses protestem e muitos reservistas se recusem a servir no exército de ocupação, o comentário de Saramago acerca do público em geral de Israel também se aplica à maioria da diáspora que defende este país: “Um sentido de impunidade caracteriza hoje em dia a população israelense e seu exército. Tornaram-se financiadores do Holocausto”. Como um bom Estado-polícia, o governo de Tel Aviv retirou os livros de Saramago das livrarias e bibliotecas. Igualmente importante para empreender uma política de genocídio é proibir, como têm feito, a entrada de qualquer jornalista nos guetos palestinos, salvo os encarregados de escrever os boletins de imprensa do exército israelense.

Como na Alemanha nazista, juntam todos os homens palestinos entre 16 e 60 anos; a muitos arrancam as roupas até deixá-los nus, os algemam, interrogam, e torturam. Famílias dos combatentes da resistência palestina são seqüestradas e privadas de água, comida e eletricidade. Soldados israelenses saqueiam casas e roubam objetos de valor, destruindo os móveis. Como sucedia no regime nazista, deixam centenas de feridos palestinos morrerem, um vez que proíbem a passagem das ambulâncias. Centenas de milhares enfrentam a ameaça da desidratação e a morte por inanição, já que o fornecimento de comida e água foi cortado. Tropas, tanques e helicópteros israelenses irromperam nos povoados, cidades e campos de refugiados principais: Tulkarem, Al Bireh, Belém, Beit Jala, Qalqilya, Hebron.

Bastam descobrir um só combatente da resistência para culparem e castigarem de maneira coletiva: pais, filhos, tios e vizinhos são cercados e levados a estádios de futebol e parques de diversão para crianças, acondicionados como campos de concentração.

É evidente que a indignação israelense e judia provocada pela analogia que Saramago fez do terrorismo de Tel Aviv com Auschwitz tocou no ponto fraco: o ódio a si mesmos, dos verdugos que sabem que são discípulos de seus perseguidores do passado e que, a toda custa, devem negar isso. Até agora, todos os chamados dos moderados árabes a que Bush intervenha e ponha um fim ao massacre têm sido inúteis. Washington reiterou seu apoio a Sharon e à invasão e guerra contra os palestinos. Ninguém nos Estados Unidos pode alguma coisa contra o dinheiro e a influência do lobby israelense e seus poderosos aliados judeus. Em outras partes, no entanto, há esperança. Via Campesina e os seguidores de José Bové pediram o boicote internacional aos bens e serviços de Tel Aviv, cuja economia depende amplamente de suas exportações para a União Européia. Reduções nas transações de petróleo por parte dos países exportadores, particularmente Arábia Saudita, Kuwait, Iraque, Irã e Líbia poderiam provocar uma alta importante nos preços do petróleo e uma crise econômica nos Estados Unidos, Europa e Japão. Isto poderia produzir calafrios nos europeus e despertar a consciência do público estadunidense. O que está absolutamente claro é que enquanto Tel Aviv conserve seu peso no lobby judeu em Washington e com o apoio de Bush, as resoluções das Nações Unidas, as convenções de Genebra e os apelos da Europa continuarão sendo completamente ignorados.

Na mentalidade obtusa de Sharon e seus paranóicos seguidores, todos eles são anti-semitas, seguidores dos Protocolos de Sião, que tentam desmoralizá-los para impedir que realizem a missão bíblica da Grande Israel, de um povo, uma nação, um Deus, e expulsem a todos os palestinos de sua Terra Prometida. A opinião pública mundial não deve permanecer na passividade e permitir que a tragédia do Holocausto do século XX se repita no XXI. Ainda há tempo. Porém, quanto tempo mais consegue um povo, por mais heróico que seja, resistir sem água nem comida? A oferta que Sharon fez a Arafat “liberdade de ir embora sem possibilidade de volta” está projetada para todo o povo palestino.

[Artigo tirado sitio web ‘Indymedia-Brasil’7 de abril de 2002]

Mahmud Darwish

 

No próximo dia 9 de Agosto cumprir-se-á um ano sobre a morte de Mahmud Darwish, o grande poeta palestino. Fosse o nosso mundo um pouco mais sensível e inteligente, mais atento à grandeza quase sublime de algumas das vidas que nele se geram, e o seu nome seria hoje tão conhecido e admirado como o foi, em vida, por exemplo, o de Pablo Neruda. Enraizados na vida, nos sofrimentos e nas imortais esperanças do povo palestino, os poemas de Darwish, de uma beleza formal que frequentemente roça a transcendência do inefável numa simples palavra, são como um diário onde vieram sendo registados, passo a passo, lágrima a lágrima, os desastres, mas também as escassas, ainda que sempre profundas alegrias, de um povo cujo martírio, decorridos sessenta anos, ainda não parece disposto a anunciar o seu fim. Ler Mahmud Darwish, além de uma experiência estética impossível de esquecer, é fazer uma dolorosa caminhada pelas rotas da injustiça e da ignomínia de que a terra palestina tem sido vítima às mãos de Israel, esse verdugo de quem o escritor israelita David Grossmann, em hora de sinceridade, disse não conhecer a compaixão.

Hoje, na biblioteca, li poemas de Mahmud Darwish para um documentário que será apresentado em Ramala no aniversário da sua morte. Estou convidado a lá ir, veremos se me será possível fazer essa viagem, que certamente não seria grata à polícia israelita. Recordaria então, no próprio local, o abraço fraterno que nos demos há sete anos, as palavras que trocámos e que nunca mais pudemos renovar. Às vezes, a vida tira como uma mão aquilo que tinha dado com a outra. Assim me aconteceu com Mahmud Darwish.