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Roger Waters: Carta aberta sobre a Palestina 11 de Julho de 2014, por Desconhecido – sem comentários ainda

Roger Waters: Carta aberta sobre a Palestina

11 de Julho de 2014, por Desconhecido – sem comentários ainda

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Liberdade para a Palestina!

 

Roger Waters é um músico inglês, fundador e baixista da banda Pink Floyd. Waters milita pela causa palestina desde 2006 quando, depois de um show em Tel Aviv, decidiu conhecer a Cisjordânia.

Esse texto não é novo, mas é bom relembrá-lo neste momento em que uma nova ofensiva genocida do Estado Sionista está em curso.

 


Em 1980, uma canção que escrevi, Another Brick in the Wall (Part 2), foi proibida pelo governo da África do Sul porque estava sendo usada por crianças negras sul-africanas para reivindicar o seu direito a uma educação igualitária. Esse governo de apartheid impôs um bloqueio cultural, por assim dizer, sobre algumas canções, incluindo a minha.

Vinte e cinco anos mais tarde, em 2005, crianças palestinas que participavam num festival na Cisjordânia usaram a canção para protestar contra o muro do apartheid israelita. Elas cantavam: “Não precisamos da ocupação! Não precisamos do muro racista!” Nessa altura, eu não tinha ainda visto com os meus olhos aquilo sobre o que elas cantavam.
Um ano mais tarde, em 2006, fui contratado para atuar em Telavive.

Palestinos do movimento de boicote acadêmico e cultural a Israel exortaram-me a reconsiderar. Eu já tinha me manifestado contra o muro, mas não tinha a certeza de que um boicote cultural fosse a via certa. Os defensores palestinos de um boicote pediram-me que visitasse o território palestino ocupado para ver o muro com os meus olhos antes de tomar uma decisão. Eu concordei.

Sob a protecção das Nações Unidas, visitei Jerusalém e Belém. Nada podia ter-me preparado para aquilo que vi nesse dia. O muro é um edifício revoltante. Ele é policiado por jovens soldados israelitas que me trataram, observador casual de um outro mundo, com uma agressão cheia de desprezo. Se foi assim comigo, um estrangeiro, imaginem o que deve ser com os palestinos, com os subproletários, com os portadores de autorizações. Soube então que a minha consciência não me permitiria afastar-me desse muro, do destino dos palestinos que conheci, pessoas cujas vidas são esmagadas diariamente de mil e uma maneiras pela ocupação de Israel. Em solidariedade, e de alguma forma por impotência, escrevi no muro, naquele dia: “Não precisamos do controle das ideias”.

Tomando nesse momento consciência que a minha presença num palco de Telavive iria legitimar involuntariamente a opressão que estava a testemunhar, cancelei o concerto no estádio de futebol de Telavive e mudei-o para Neve Shalom, uma comunidade agrícola dedicada a criar pintinhos e também, admiravelmente, à cooperação entre pessoas de crenças diferentes, onde muçulmanos, cristãos e judeus vivem e trabalham lado a lado em harmonia.

Contra todas as expectativas, ele tornou-se no maior evento musical da curta história de Israel. 60.000 fãs lutaram contra engarrafamentos de trânsito para assistir. Foi extraordinariamente comovente para mim e para a minha banda e, no fim do concerto, fui levado a exortar os jovens que ali estavam agrupados a exigirem ao seu governo que tentasse chegar à paz com os seus vizinhos e que respeitasse os direitos civis dos palestinos que vivem em Israel.

Infelizmente, nos anos que se seguiram, o governo israelita não fez nenhuma tentativa para implementar legislação que garanta aos árabes israelitas direitos civis iguais aos que têm os judeus israelitas, e o muro cresceu, inexoravelmente, anexando cada vez mais da faixa ocidental.
Aprendi nesse dia de 2006 em Belém alguma coisa do que significa viver sob ocupação, encarcerado por trás de um muro. Significa que um agricultor palestino tem de ver oliveiras centenárias ser arrancadas. Significa que um estudante palestino não pode ir para a escola porque o checkpoint está fechado. Significa que uma mulher pode dar à luz num carro, porque o soldado não a deixará passar até ao hospital que está a dez minutos de estrada. Significa que um artista palestino não pode viajar ao estrangeiro para exibir o seu trabalho ou para mostrar um filme num festival internacional.

Para a população de Gaza, fechada numa prisão virtual por trás do muro do bloqueio ilegal de Israel, significa outra série de injustiças. Significa que as crianças vão para a cama com fome, muitas delas malnutridas cronicamente. Significa que pais e mães, impedidos de trabalhar numa economia dizimada, não têm meios de sustentar as suas famílias. Significa que estudantes universitários com bolsas para estudar no estrangeiro têm de ver uma oportunidade escapar porque não são autorizados a viajar.

Na minha opinião, o controle repugnante e draconiano que Israel exerce sobre os palestinos de Gaza cercados e os palestinos da Cisjordânia ocupada (incluindo Jerusalém oriental), assim como a sua negação dos direitos dos refugiados de regressar às suas casas em Israel, exige que as pessoas com sentido de justiça em todo o mundo apoiem os palestinos na sua resistência civil, não violenta.

Onde os governos se recusam a atuar, as pessoas devem fazê-lo, com os meios pacíficos que tiverem à sua disposição. Para alguns, isto significou juntar-se à Marcha da Liberdade de Gaza; para outros, juntar-se à flotilha humanitária que tentou levar até Gaza a muito necessitada ajuda humanitária.

Para mim, isso significa declarar a minha intenção de me manter solidário, não só com o povo da Palestina, mas também com os muitos milhares de israelitas que discordam das políticas racistas e coloniais dos seus governos, juntando-me à campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel, até que este satisfaça três direitos humanos básicos exigidos na lei internacional.

1. Pondo fim à ocupação e à colonização de todas as terras árabes [ocupadas desde 1967] e desmantelando o muro;

2. Reconhecendo os direitos fundamentais dos cidadãos árabe-palestinos de Israel em plena igualdade; e

3. Respeitando, protegendo e promovendo os direitos dos refugiados palestinos de regressar às suas casas e propriedades como estipulado na resolução 194 da ONU.

A minha convicção nasceu da ideia de que todas as pessoas merecem direitos humanos básicos. A minha posição não é anti-semita. Isto não é um ataque ao povo de Israel. Isto é, no entanto, um apelo aos meus colegas da indústria da música e também a artistas de outras áreas para que se juntem ao boicote cultural.

Os artistas tiveram razão de recusar-se a actuar na estação de Sun City na África do Sul até que o apartheid caísse e que brancos e negros gozassem dos mesmos direitos. E nós temos razão de recusar actuar em Israel até que venha o dia – e esse dia virá seguramente – em que o muro da ocupação caia e os palestinos vivam ao lado dos israelitas em paz, liberdade, justiça e dignidade, que todos eles merecem.

 

Especialista da ONU alerta para violações do direito à moradia em Israel e na Palestina

Especialista da ONU alerta para violações do direito à moradia em Israel e na Palestina

4 de março de 2013 · Destaque

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Segundo Raquel Rolnik, autoridades israelenses promovem um modelo de desenvolvimento territorial que exclui, discrimina e desloca as minorias – em particular as comunidades palestinas. Na imagem, um menino no pátio da escola de Khan al Ahmar. A escola está sob iminente ameaça de demolição. Se isso acontecer, as crianças da comunidade não terão onde estudar. Crédito da foto: UNRWA/Ala’a Ghosheh. A Relatora Especial da ONU para o direito à moradia adequada, a brasileira Raquel Rolnik, apresentará nesta segunda-feira (4) seu relatório final ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, sobre a situação em Israel e no Território Palestino Ocupado. Rolnik visitou a região em fevereiro de 2012, durante duas semanas, e à época declarou que “depois da recente privatização, desregulamentação e comercialização de bens públicos de Israel, as políticas urbanas e de moradia tornaram cada vez mais difícil para famílias de baixa renda obter acomodação acessível, violando seu direito à moradia adequada.” Na declaração ao fim da visita de duas semanas, Rolnik considerou que “as políticas de moradia de Israel precisam ser revistas com urgência, o que foi deixado claro pelos maciços protestos no verão passado [agosto de 2011].” De acordo a brasileira, “as autoridades israelenses tinham um histórico impressionante de fornecer alojamento adequado para as ondas de imigrantes e refugiados judeus, mas hoje essas políticas não atendem as necessidades das minorias e daqueles em desvantagem social”. As minorias palestinas que vivem em Israel – também conhecidas como “árabes israelenses” – e os palestinos que vivem em territórios sob ocupação militar são afetados por ameaças constantes a seu direito à moradia, de acordo com Rolnik. “Em contextos legais e geográficos muito diferentes, da Galileia ao Negev, passando por Jerusalém Oriental e Cisjordânia, as autoridades israelenses promovem um modelo de desenvolvimento territorial que exclui, discrimina e desloca as minorias, afetando em particular as comunidades palestinas.”

‘Estratégia de judaização e controle do território’

Segundo Rolnik, os planos para realocar os beduínos no Negev – dentro de Israel – assim como as décadas de promoção de assentamentos judaicos na Cisjordânia e em bairros palestinos de Jerusalém Oriental – “são as novas fronteiras de desapropriação dos moradores tradicionais e a implantação de uma estratégia de judaização e controle do território.” “Durante minha visita, recebi muitas queixas sobre a falta de moradia, as ameaças de demolições e despejo, a superlotação e o número desproporcional de demolições que afetam as comunidades palestinas e que são concomitantes com o desenvolvimento acelerado de assentamentos predominantemente judaicos”, explicou a Relatora. O direito à moradia também é subtraído nos Territórios Palestinos ocupados. Em Jerusalém Oriental e nas áreas da Cisjordânia sob controle militar israelense, as políticas adotadas por Israel impedem por vários meios que os palestinos realizem construções legalmente. “O número de permissões de edificação emitidas é grosseiramente desproporcional às necessidades de moradia, o que leva muitos palestinos a construir sem obter permissão. Como consequência, muitas casas palestinas são consideradas ilegais e seus habitantes estão sujeitos a ordens de despejos e à demolição de suas casas.”

Assentamentos israelenses ilegais minam direitos dos palestinos

Ao mesmo tempo, Ronik notou que os assentamentos, construídos em violação às leis internacionais, causaram a diminuição da quantidade de território e recursos disponíveis para os palestinos. A situação agrava-se ainda mais em Gaza. Rolnik observou que o bloqueio à Faixa de Gaza é a expressão mais extrema da separação e da restrição à sobrevivência e à expansão das comunidades palestinas. “Conheci pessoas que estão vivendo em condições precárias e famílias que tiveram suas casas demolidas por operações militares israelenses. Apelo a Israel pelo fim do bloqueio para garantir que as necessidades mínimas da população vivendo em Gaza sejam atendidas.” “A estratégia espacial de Israel foi fortemente moldada por preocupações com segurança, dada a natureza beligerante e conflituosa das relações entre Israel e Palestina, com ondas de violência e terror. Mas certamente os elementos não democráticos e discriminatórios do planejamento espacial e das estratégias de desenvolvimento urbano de Israel parecem contribuir para o aprofundamento do conflito, em vez de promover a paz”, concluiu a Relatora. Rolnik é uma especialista independente escolhida pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU para monitorar e relatar o direito à moradia adequada como um componente do direito a um padrão de vida adequado, e o direito a não discriminação neste tema. Durante a visita, ela se reuniu com oficiais e representantes do governo de Israel e da Autoridade Nacional Palestina, de agências internacionais, além de organizações não governamentais tanto em Israel como no Território Palestino Ocupado.

Um conflito calculado na Palestina Igor Ojeda, da Redação Brasil de Fato

Um conflito calculado na Palestina

05/07/2007
Confrontos entre os grupos Hamas e Fatah na Faixa de Gaza tiveram EUA e Israel como dois dos principais responsáveis, apontam analistas

Igor Ojeda,
da Redação Brasil de Fato

A Palestina vive, desde o dia 15, a inusitada situação de ter dois primeiro-ministros. Um deles é Ismail Haniyeh, do Hamas, que chegou ao poder após seu partido vencer as eleições legislativas de janeiro de 2006. O outro, que foi nomeado pelo presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, do Fatah, é Salam Fayyad, cujo partido, o Terceira Via, obteve apenas 2,4% dos votos no pleito de 2006.

Hamas e Fatah confrontaram-se intensamente – causando inúmeras mortes – durante vários dias na Faixa de Gaza, até o grupo de Haniyeh tomar o controle total do território, no dia 14. Abbas, então, dissolveu o governo de coalizão, nomeou Fayyad como novo primeiro-ministro e instalou um gabinete de emergência na Cisjordânia.

A comunidade internacional, notadamente os EUA e Israel, abençoaram imediatamente o novo governo, e anunciaram a retomada da ajuda financeira à ANP. Esta estava congelada desde a vitória eleitoral do Hamas, que não foi reconhecida sob o argumento de que a organização não reconhecia o direito de Israel à existência.

No dia 23, o premiê israelense, Ehud Olmert, comunicou a liberação de 350 milhões de dólares dos cerca de 700 milhões de dólares oriundos de impostos que deveriam ser direcionados aos palestinos mas que, em retaliação, estavam retidos. Fayyad, ex-ministro das Finanças e ex-funcionário do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), é de confiança do Ocidente.

 

Conflito calculado

Mas é justamente o Ocidente que é visto, por analistas ouvidos peloBrasil de Fato, como um dos responsáveis pelo conflito entre o Hamas e o Fatah e o conseqüente colapso do governo de coalizão palestino.

“Enquanto alguns dos elementos do confronto entre os dois grupos são exclusivamente palestinos, muitos deles foram construídos sob o comando das inteligências e dos governos de Israel e dos EUA”, afirma Ramzy Baroud, jornalista palestino-estadunidense.

O objetivo seria causar o desgaste do governo do Hamas e fortalecer o do Fatah, mais afeito a seus interesses. Segundo ele, havia determinação suficiente dos dois lados para prevenirem os embates, o que ficou mostrado pelo acordo assinado na cidade saudita de Meca em fevereiro desse ano, que resultou na formação de um governo de unidade nacional.

Segundo Haitham Sabbah, refugiado palestino, nascido no Kuait, o projeto de criar um governo pelestino favorável aos interesses dos EUA e de Israel está sendo apoiado “pelo governo corrupto da ANP, apoiado pelo líder dos esquadrões da morte em Gaza, Muhammad Dahlan”.

O bloqueio dos recursos externos, essenciais para o orçamento palestino, seria um dos meios para alcançar o objetivo. “Os governos que fizeram isso acharam que, ao colocarem o povo numa situação de dificuldade e miséria ainda maiores do que já vive, ele se voltaria contra o Hamas e se colocaria a favor do Fatah. Não deu certo. Isso manteve o desgaste do Fatah e fortaleceu o Hamas”, explica o sociólogo e arabista Lejeune Mirhan.

Segundo Sabbah, as conseqüências ao povo da Palestina foram desastrosas: “Os palestinos vivem em dois campos de concentração gigantes: Gaza e Cisjordânia. Eles não estão seguros em relação aos mísseis de Israel ou do Hamas, nem em relação às bombas e assassinos do Fatah. Vivem sob ameaça de morte 24 horas por dia, gastam todo o tempo em funerais, com fome e escutando as bombas explodindo em algum lugar. A comunidade internacional favoreceu esse genocídio ao permitir que Israel roubasse os fundos da ANP e também ao imporem um cerco financeiro à população, deixando-a faminta”, protesta.

 

Apoio ao Fatah

Ao mesmo tempo que as potências boicotavam o Hamas, trabalhavam para fortalecer o grupo do presidente Mahmoud Abbas. “Há notícias de que o Fatah recebia parte do dinheiro internacional e o restante que iria para o governo presidido pelo Haniyeh foi cortado totalmente. A comunidade internacional fez uma escolha”, analisa Mirhan. Para ele, a estratégia foi equivocada, e o que deveria ter sido feito era aceitar o resultado da eleição de janeiro de 2006, reconhecer o novo governo e negociar com o Hamas.

De acordo com Sabbah, desde a vitória do grupo de Ismail Haniyeh, os EUA, Israel e a UE vem apoiando o Fatah também com armas. “Em janeiro de 2006, o vice-conselheiro Nacional de Segurança estadunidense, Elliot Abrams, saudou um grupo de empresários palestinos mencionando um ‘golpe duro’ contra o recém-eleito governo do Hamas através de uma expulsão violenta de sua liderança, com armas fornecidas pelos EUA”, diz.

Após a dissolução do governo de coalizão, os EUA comunicaram que continuaria o treinamento das forças palestinas na Cisjordânia, ou seja, aquelas comandadas pelo Fatah.

No dia 25, Ehud Olmert anunciou a libertação de 250 prisioneiros do grupo e sinalizou ter intenções de iniciar novas negociações nos próximos meses, “sob a condição de que Abbas lute contra o Hamas”.

Um governo do Fatah seria muito mais conveniente. Para Lejeune Mirhan, o objetivo é ter na ANP uma liderança domesticada, que faça concessões à Israel. “O grande debate hoje gira em torno do status de Jerusalém, o retorno dos refugiados políticos, a volta das fronteiras como eram em 1967 e a convivência de dois Estados no mesmo território. Abbas poderia ceder em dois ou três desses pontos, e aceitar um Estado quebrado, sem ligação física, mantendo na Cisjordânia 240 mil judeus assentados. A comunidade internacional está cometendo um erro. Só vai haver paz com a volta das fronteiras de 1967”, lamenta.

Agora, segundo o arabista, corre-se o risco de uma guerra civil. Disputa que, em sua opinião, o Hamas leva vantagem, por controlar uma região que tem continuidade territorial, ao contrário da Cisjordânia, em poder do Fatah.

Impasses na Palestina por Lejeune Mato Grosso

Impasses na Palestina

28/06/2007

por Lejeune Mato Grosso*
Nesses mais de cinco anos de coluna semanal do Vermelho, talvez esta seja a terceira vez que utilizo esse título referente ao impasses na Palestina ocupada por Israel. No entanto, diferente das vezes passadas quando os impasses diziam respeito às negociações de paz entre palestinos e israelenses, desta vez o impasse é sobre um conflito entre irmãos de um mesmo povo que se digladiam num conflito que ninguém arrisca como pode terminar.

Origens do problema

O moderado Abbas agora é apoiado por Israel

Comentamos na semana passada os problemas e as diferenças de concepções entre as duas grandes facções existentes na luta de libertação da Palestina, o Hamas (que em árabe é o acrônimo de Movimento de Resistência Islâmica) e o Fatah (acrônimo invertido de Movimento de Libertação da Palestina). O segundo grupo é laico, ainda que integrado por uma maioria muçulmana. Já o Hamas é quase um partido religioso, fundamentalista (apegado aos princípios e os fundamentos do Al Corão, livro sagrado dos muçulmanos). Chegamos a criticar ambos os lados
da luta, por erros cometidos e defendemos a unidade do povo e da luta. Mas, sabemos que os problemas são mais profundos e aqui vamos comentar alguns aspectos. 

De fato, desde 1965, quando Yasser Arafat criou o grupo, o Fatah, essa organização assumiu o comando da luta de libertação. São 42 anos à frente da luta e dos governos instalados desde os acordos de Oslo de 1993 (há 14 anos). Isso, naturalmente, causou e vem causando desgastes. Há casos de malversação de fundos, de recursos materiais, denúncias de corrupção nem sempre apuradas.

 A partir de janeiro do ano passado, pela primeira vez, o Hamas venceu uma eleição, com ampla Marge em Gaza e margem menor na Cisjordânia, berço do Fatah. Ocorre que a partir desse momento, a tal democracia ocidental decidiu boicotar toda e qualquer ajuda humanitária que antes vinham em grande quantidade. Achavam que fazendo isso e impondo um sacrifício adicional a um povo sofrido, esse mesmo povo voltaria aos braços do Fatah e abandonaria o radicalismo do Hamas. Ao contrário. Esse agrupamento se fortaleceu e criou na Faixa de Gaza o que vem sendo chamado de “Hamastão” (1). A tática de desmoralizar o Fatah e enfraquecer esse grupo político mais moderado e laico, achando que políticos mais “modernos e moderados” poderiam vencer as eleições e suceder a Arafat, acabou vencendo os fundamentalistas do Hamas. Vem sendo assim no Oriente Médio em todas as eleições “livres” que vêm ocorrendo nos últimos anos. Os EUA não ganham uma eleição.

 Hoje, depois de alguns dias de combates, conflitos e muitas mortes, o grupo Hamas, do primeiro Ministro Ismail Haniyeh, assumiu totalmente o controle da Faixa de Gaza. Essa é uma pequena região de no máximo 365 quilômetros quadrados onde mora 1,4 milhão de palestinos, uma região das mais povoadas do mundo (densidade populacional de 3.835 hab./Km2), ao passo que na Cisjordânia ocupada vivem dois milhões de palestinos em uma área bem maior, de 5.700 Km2 (o que perfaz uma densidade demográfica de 350 hab./Km2, ou seja, 11 vezes menos povoado que Gaza). As condições de vida e trabalho em Gaza são precaríssimas, desemprego na casa de 40 a 50% da PEA e renda diária em torno de dois a três dólares por pessoa.

 Apesar de uma área maior, o Fatah de Abbas não detém o controle da região. Para viajar de uma cidade para outra os palestinos tem que passar pelos famosos checkpoints completamente controlados por soldados do exército israelense e precisam de autorização, seja para visitar parentes ou fazer tratamento médico. Na verdade, o Fatah só detém em torno de 17% das terras da Cisjordânia.

A tática ocidental de cortar recursos para um governo que eles não concordam foi a pior e mais errada possível. Não se pode financiar apenas governos que se apóia, pois a ajuda não é para o partido do governo, mas sim para o povo sofrido, o palestino. Desde Ariel Sharon em 2000, quando se tentou com todas as forças, enfraquecer a liderança palestina, desacreditando Yasser Arafat, foi o maior erro tanto de Israel como dos Estados Unidos.

 Esses dois países acabaram quase que exigindo que os palestinos mudassem a sua constituição e adotassem um sistema parecido com o francês, com um presidente que tem alguns poderes, mas com um primeiro Ministro que cuidar do governo. Ainda assim, quando o Fatah vencia as eleições, e mesmo depois que Mahmoud Abbas foi eleito primeiro ministro e depois presidente, seguiu-se a tática de enfraquecer e desmoralizar os governos e a autoridade palestina. Hoje, não se pode sequer falar em acordos de paz, pois os interlocutores estão digladiando entre si e os que venceram as eleições pelo voto popular estão desacreditados pelas potenciais internacionais.

Mais recentemente, depois de 14 de junho, até um governo, sem voto algum, derrotado nas urnas, cujos líderes perderam eleições, foi nomeado por Abbas para “governar” a Palestina. Trata-se do economista Salam Fayyad, ex-funcionário do Banco Mundial, formado pela Universidade do Texas. Não só um político extremamente moderado, de confiança do presidente Abbas, mas também apoiado e de confiança de Israel, do primeiro Ministro Ehud Olmert, o mais impopular da história, como de confiança dos Estados Unidos, que vem lhe abrindo as torneiras financeiras, na tentativa de isolar o Hamas.

 Os verdadeiros impasses

 Não vejo a menor perspectiva de paz na região. Agora se corre o sério risco de um conflito armado entre irmãos, entre palestinos de várias facções. Não usaria o termo “guerra civil”, ao qual espero que a isso não evolua. Mas preocupa-me as mortes entre os palestinos, estimadas em quase mil nos últimos meses. Há erros e sectarismo de ambos os lados. Da parte do Fatah que não aceita a derrota nas urnas e insiste num caminho extremamente moderado do conflito e insinua várias concessões à Israel e há muito sectarismo da parte do Hamas que insiste em não negociar como Fatah e ampliar o seu arco de alianças políticas. Deve-se encarar como inimigo principal o imperialismo norte-americano e o governo de Israel. Ajustes de contas entre facções deve ocorrer, se ocorrer mesmo, em outro momento e oportunidade.

 Não basta a acusação do Fatah de que a fundação do Hamas contou com o dedo dos Estados Unidos e de Israel e do outro lado o Hamas afirmar que o Fatah é moderado e vendeu-se à Israel. É certo que as torneiras financeiras de recursos foram escancaradas agora pelos EUA e Israel e até mesmo armamentos americanos e israelenses foram fornecidos para as milícias palestinas do Fatah. Ainda assim, com metade de homens das milícias fiéis a Abbas (estimada em 12 mil homens), o Hamas conseguiu ocupar e tomar por completa a Faixa de Gaza e as instalações governamentais.

 Israel perdeu a oportunidade histórica de estabelecer um acordo de paz mais justo em 2000, quando ainda vivia Arafat, em reuniões ocorridas em Camp David nos EUA, sob os auspícios dos americanos. Da parte de Israel acusa-se os palestinos de não terem aceitado os acordos. Era primeiro ministro à época Ehud Barak (hoje novo líder do Partido Trabalhista de Israel – PTI, de feições sociais-democratas). Quem radicalizou e tornou os acordos inaceitáveis para os palestinos foram os israelenses. Chegaram à reunião com 14 pontos impossíveis de serem aceitos, entre eles o controle total de Jerusalém como capital dos dois estados; controle total das fronteiras do Estado Palestino, incluindo os controles do espaço aéreo e do suprimento de água do Estado Palestino.

É preciso parar a luta entre os palestinos e restabelecerem a unidade perdida. Um governo de união nacional deve ser formado. Por parte dos ocidentais, especialmente dos EUA e a União Européia, devem seguir enviando suas ajudas humanitárias, alimentos e remédios para o governo palestino, qualquer que seja ele eleito pelo voto direto do mesmo povo, sob pena de ocorrer o que disse certa vez Bertold Brecht “não seria mais fácil o governo dissolver o povo e eleger outro?”. Triste ironia hoje: dois governos palestinos, um na Faixa de Gaza do Hamas, que tem base popular e de massa e muitos votos e na Cisjordânia um governo do Fatah, sem votos e sem legitimidade alguma. Um verdadeiro impasse que ninguém arrisca como pode terminar.

Nota

(1) Ver excelente matéria do combativo e consciente jornalista Antônio Luiz M. C. Costa da revista Carta Capital de 27 de junho de 2007, página 40-42 intitulada “Hamastão versus Fatahstão”.

 *Lejeune Mato Grosso, sociólogo da Fundação Unesp, arabista e professor. Vice-presidente do Sindicato dos Sociólogos, membro da Academia de Altos Estudos Ibero-árabe de Lisboa e da
International Sociological Association

http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=20469

Os 40 anos da Guerra dos Seis Dias 09/06/2007

Os 40 anos da Guerra dos Seis Dias

09/06/2007


5 de Junho de 1967 (1)

Quem tem 50 anos, ou mais, seguramente já ouviu falar dessa guerra famosa. Mesmo quem tem menos idade e gosta de história, especialmente do Oriente Médio ou história militar, sabe o que foi essa guerra. Era uma manhã de segunda-feira, 7h10 (há fontes que falam 7h45, mas isso não importa) do dia 5 de junho de 1967. No calendário judaico era o mês de “Sivan”.

O clima de tensão no Oriente Médio estava elevado. Faziam 19 anos que Israel havia sido criado pela ONU. Gamal Abdel Nasser, fundador do movimento Pan-Arabista, patriota árabe e nacionalista, que nacionalizou o Canal de Suez tirando-o das mãos da Inglaterra e dos americanos, havia tomado uma série de medidas duras no mês de maio. As massas árabes queriam participar. Nasser, em 16 de maio exige que a ONU retire todos os seus soldados (“capacetes azuis”) da Península do Sinai, onde estavam estacionados desde 1956. No dia 21, Nasser recupera e nacionaliza o balneário famoso, até os dias atuais, de Sharm El-Sheik. No dia seguinte, ele fecha o estreito de Tiran, a única passagem de Israel no Golfo de Áqaba, que dava acesso aos seus navios ao mar Vermelho e ao Oceano Índico.

Israel decide agir. O alto comando do estado do exército não tinha certeza de que seria vitorioso. Mas avaliava que se não agisse poderia perder a qualquer momento a um ataque fulminante dos egípcios. E sabia que deveria deter a aviação do Egito. Dito e feito. Em não mais do que duas horas, até meados daquela manhã ensolarada de 5 de junho, 300 dos 450 aviões egípcios estavam destruídos no solo sem que pudessem sequer levantar vôo além de dezenas de pilotos mortos. Um ataque mortal. Todas as pistas dos aeroportos foram bombardeadas, destruídas o que impossibilitou que os aviões que restaram ficassem impedidos de levantar vôo.

Os estudiosos militares falam que essa foi uma batalha das mais importantes da história. Israel derrotou de uma só vez, mesmo sendo numericamente menor em termos de quantidades de soldados, três dos maiores exércitos árabes: do Egito, da Síria e da Jordânia. E foi uma guerra de apenas e tão somente seis dias.

Veja o que ocorreu nesses dias de junho de 1967:

1º Dia – 5/6 – Quase toda a aviação egípcia fora destruída no solo sem que pudessem sequer alçar vôo para o combate por ar;

2º Dia – 6/6 – Israel conquista a faixa de Gaza, administrada pelo Egito desde 1948. Passa a atacar a Cisjordânia;

3º Dia – 7/6 – Pára-quedistas de Israel tomam a cidade velha de Jerusalém, conhecida como a parte “Oriental”, cidade velha e mais de 350 mil palestinos iniciam a fuga em massa (a segunda desde 1948). Israel conquista o Muro das Lamentações e outros pontos de peregrinação sagrados do povo judeu. A Jordânia aceita o cessar fogo proposto pela ONU;

4º Dia – 8/6 – Israel completa a tomada total da península do Sinai, chegando ao Canal de Suez. O general Sharon é um dos que lidera essa frente de combate. O Egito aceita o cessar fogo e tecnicamente, rende-se à Israel;

5º Dia – 9/6 – Tanques de Israel iniciam os combates ao norte do país, tentando dominar as Colinas de gola da Síria. Nasser acusa os EUA e a Inglaterra de apoiarem Israel;

6º Dia – 10/6 – Israel toma completamente as Colinas de Golã. A Síria aceita o cessar fogo. A guerra termina com uma vitória estrondosa de Israel e uma derrota momentânea dos árabes.

Israel vence uma batalha ou a guerra?

Todos conhecem o provérbio popular que diz “venceu uma batalha, mas ainda não venceu a guerra”. Nesta caso, fala-se que Israel venceu a Guerra dos Seis Dias. Tecnicamente isso talvez seja verdade. No entanto, devemos olhar as coisas em perspectiva histórica, dialeticamente, tendo em conta o movimento da vida real. E hoje, mesmo com toda a expansão que o Estado judeu teve em toda a sua história de quase 60 anos, nunca se viveu um período de tanta tensão na região como o de agora, em que pese terem passados 40 anos.

Não se pode falar em vitória israelense hoje, olhando em perspectiva. A população árabe herdada por Israel, de quase um milhão de pessoas (fora os quase um milhão obrigados a fugir para os países vizinhos), chega hoje a praticamente cinco milhões, o mesmo número de judeus que vivem nos territórios de Israel ampliado. A tensão em Jerusalém continua elevada, pois Israel insiste em dizer ao mundo que essa é uma cidade sagrada apenas para os judeus, desconsiderando os cristão e os muçulmanos.

Alguns judeus discordaram das atitudes, da agressão violenta, da subjugação de um povo pelo outro através das armas. Que isso não seria o objetivo histórico do povo judeu. Isso criou sérios problemas de fronteiras de Israel com todos os seus vizinhos árabes e mesmo tendo estabelecidos certos acordos de paz com a Jordânia e com o Egito, ainda esta tecnicamente em guerra com a síria com a qual se recusa a dialogar (os EUA estimulam que o diálogo não ocorra com a Síria, a quem acusa de financiar o terrorismo na região, especialmente o Hamas e o Hezbolláh).

A partir de setembro de 1967, começam a surgir na Cisjordânia dos primeiros assentamentos judaicos. Foi quando surgiu o Kfar Etzion. Hoje se estima que existam ainda nessa região pelo menos 200 assentamentos judaicos em terras palestinos onde vivem, segundo algumas fontes, até 300 mil judeus, os mais ortodoxos e contrários a qualquer acordo de paz com os palestinos.

O que se viu nos dias que se seguiram à expansão israelense, ao que alguns chamam da criação do Eretz Israel (Grande Israel, do Nilo ao Eufrates) foi uma forte euforia do lado dos judeus e uma profunda dor e humilhação do lado dos árabes e palestinos. Isso abriria feridas profundas nos relacionamentos entre os dois povos até hoje nunca cicatrizadas.

O contexto em que a Guerra dos Seis dias se deu foi a do auge da guerra fria. Os EUA apoiaram abertamente a decisão do governo israelense na invasão e expansão israelense, que se fortaleceu no cenário político internacional, criou fama de invencível com seu exército. Mas, a partir daí surgiu a OLP, Organização para a Libertação da Palestina, criada por Yasser Arafat. A ocupação e humilhação do povo palestino acabou dando a esse sofrido povo o sentido de necessidade de luta e de unidade nacional. Surge a resistência armada à ocupação, mas surge também, algumas décadas depois, os atentados violentos, homens bomba, ataques a alvos civis judaicos e surge o fundamentalismo islâmico em toda a região.

 

A mídia grande, completamente pró-Israel e anti-árabe e palestina tem mostrado em seus jornais destes primeiros dias de junho várias matérias e fotos da época da guerra. Interessante que mostram os tanques israelenses bombardeando e os soldados judeus vitoriosos. Mas pouco se mostra da humilhação dos árabes, de sua expulsão das suas terras, das suas moradias em acampamentos precários. Até soldados israelenses que ocuparam Jerusalém há 40 anos, são mostrados nas fotos atuais, já idosos nos mesmos locais onde estiveram nessa cidade sagrada. Mas, os palestinos são ignorados.

Pouco se fala da resolução unânime da ONU, de número 242, que exige a retirada israelense de todos os territórios palestinos ocupados. Que as fronteiras voltem a antes da Guerra dos Seis Dias de 1967. Essa é a chave para qualquer conversa de paz na região. A troca de terras pela paz. Ainda assim, faltará discutir a volta dos refugiados e o status de Jerusalém, que deve ter uma administração internacionalizada sob supervisão da ONU.

 Uma triste guerra que “comemora” em 5 de junho os seus 40 anos, um número “redondo”. Mas, para os palestinos, nada há a ser comemorado.

Nota

(1) Utilizamos dos seguintes artigos para escrever a presente coluna semanal: “Vitória de 1967 pesa sobre Israel”, de Marcelo Ninio, publicado na Folha de 3/6/07; “Seis dias de guerra, 40 anos de tensão”, de Christoph Schult, do Der Spiegel, publicado no Estadão de 03/06/07; “Guerra dos Seis Dias faz 40 anos”, publicado no Correio Popular de 4/06/07; “40 anos após guerra, tensão sobe em Israel”, de Marcelo Ninio, publicado na Folha de 05/06/07.
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Lejeune Mato Grosso, sociólogo da Fundação Unesp, arabista e professor. Vice-presidente do Sindicato dos Sociólogos, membro da Academia de Altos Estudos Ibero-árabe de Lisboa e da
International Sociological Association.

http://www.vermelho.org.br

Sete perguntas sobre Israel

Pode-se igualar a política de Estado de Israel à do Estado nacional-socialista alemão?

 

Só parcialmente. Os bombardeios indiscriminados sobre as cidades e a população civil foram praticados também pelos aliados na Segunda Guerra Mundial, principalmente sobre a cidade de Dresde, e pelos Estados Unidos contra o Japão e o Vietnã. Embora Israel pratique sistematicamente a tortura, a destruição de moradias e a limitação de locomoção a civis em territórios ocupados, não recorreu até agora a estas práticas.

 

Existem antecedentes na história e tradição judaicas que possam ser aplicáveis no atual conflito?

 

A rebelião do gueto de Varsóvia, em 1943, poderia aproximar-se das ações de grupos palestinos contra o exército israelense: em ambos casos, se trata de populações confinadas em um espaço ocupado pelo inimigo, sob condições de aglomeração, miséria e limitação de locomoção. Por outro lado, o antecedente mais antigo de atentado suicida se encontra na história bíblica de Sansão, quem, em situação desesperada, derrubou sobre si e sobre quem o capturou os pilares do Templo.

 

Está em jogo no conflito árabe-israelense uma “ética judaico-cristã” que se contraponha a outros valores éticos ou culturais?

 

De nenhum modo. Em termos doutrinários, o cristianismo se desenvolveu em oposição à concepção ético-religiosa judaica e, em termos históricos, a perseguição criminal anti-judaica foi constante nos países cristãos e, desde fins do século XIX, se exacerbou em toda Europa até chegar a seu paroxismo no Holocausto; pelo contrário, a pacífica convivência entre muçulmanos e judeus tem sido uma tradição milenar nos países islâmicos.

 

Qual é então a perspectiva do apoio ativo de setores fundamentalistas cristãos, poderosos nos Estados Unidos, à política do Estado de Israel?

 

A tática de apoio a um Estado Judeu no Oriente Médio se inscreve em uma concepção milenar que em longo prazo envolve, explicitamente, o desaparecimento do judaísmo. Na provável eventualidade de que o experimento fracasse, previsivelmente os judeus ficariam mais uma vez deixados a sua própria sorte, que dependerá então da possibilidade de uma convivência com o povo que está sendo vitimizado por Israel.

 

A atual situação no Oriente Médio afeta a experiência pessoal dos judeus no mundo?

 

Sim. Toda política de Estado criminal implica um rompimento ético para os cidadãos que a sustentam ou a aceitam e todo judeu é, em virtude da denominada Lei do Retorno, potencialmente um cidadão de Israel. Dado que a ética não é um ornamento da personalidade, mas que está no núcleo constitutivo do psiquismo humano, é previsível que esta situação afete diferentemente, segundo a singularidade de cada sujeito, a experiência pessoal de cada judeu no mundo.

 

 

Pode um judeu na diáspora tomar uma perspectiva distinta da de um israelense perante a situação atual? Ele deve fazê-lo?

 

Na diáspora, o judeu conta com mais possibilidades para tomar uma perspectiva diferente daquele que, em Israel, se encontra submergido nas emoções coletivas próprias de um conflito bélico. A obrigação de atuar em função de uma perspectiva crítica é de ordem ética, ou seja, que o sujeito, admitindo ou não, deve responder por ela.

 

Houve quem de algum modo antecipasse, antes da criação do Estado de Israel, que se chegaria a uma situação como a atual?

 

Sim. Em 1942, em seu livro A questão judaica, o militante socialista Abraham Leon, nascido em 1920 no gueto de Varsóvia, antecipou esta situação. León foi asassinado pelos nazistas no campo de extermínio de Auschwitz.
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Tradução :  Daniela Mateus

Uma provocação frustrada

Ehud Olmert assediado por críticas com relação à sua administração da guerra contra Hezbollah e investigado pela sua intervenção em duvidosas manobras bancárias quando foi ministro de Economia de Israel, quis festejar pelo alto o 40º aniversário do “Dia de Jerusalém”, ou seja, da anexação arbitrária de Jerusalém leste, a zona árabe da cidade. Isto é chamado de “reunificação” na linguagem oficial, e o primeiro ministro israelense insistiu no domingo, dia 13, que ela deve ser a capital do país. Expressou sua confiança em que o mundo inteiro a reconheceria como tal e convidou os embaixadores estrangeiros –que trabalham em Tel Aviv– à cerimônia de celebração que ocorreu no dia seguinte na Knesset, o Parlamento israelense. Somente estiveram presentes os embaixadores da Geórgia, Nigéria, Cameron, Etiópia, Costa de Marfim, Congo e Honduras. Os embaixadores dos Estados Unidos, da União Europa e dos demais países com representação diplomática em Israel não compareceram (Ha’aretz, 15-5-07). A desconsideração foi clara.

 

Um diplomata alemão – a Alemanha exerce a presidência rotativa da União Européia – explicou em nome de seus 27 Estados membros: “não reconhecemos a anexação israelense de Jerusalém Leste. Acreditamos que o futuro de Jerusalém deve ser o resultado de negociações entre Israel e os palestinos” (The Independent, 14-5-07). É evidente que o discurso e os atos de Olmert manifestam a vontade de impor de fato a soberania israelense em toda Jerusalém. Seu gabinete aprovou o traslado de mais escritórios governamentais à cidade, como se a questão estivesse resolvida e não se tratasse de um tema pendente, sujeito a um eventual acordo pacífico com a Autoridade Palestina, para a qual Jerusalém leste deve ser a capital de seu futuro Estado: sua população e a história assim o querem.

Os governos de Tel Aviv sempre consideraram Jerusalém uma prioridade absoluta desde que Israel anexou a parte leste da cidade em 16 de maio de 1967. Confiscaram terras e destinaram grandes recursos humanos e financeiros para fortalecer a presença israelense e garantir a segurança de seus residentes. Os de Jerusalén ocidental, claro. Quem visita a zona árabe da cidade encontrará moradias arruinadas, pobreza e desemprego. “É a conseqüência de 40 anos de discriminação deliberada. Na prática, mais de 30 por cento da população de Jerusalém só é beneficiada, para serviços públicos, por 10 por cento do orçamento da cidade” (Ha’aretz, 16-5-07). Um editorial do jornal israelense proporciona outros dados significativos sobre estes jerosolimitanos de segunda.

 

Nenhuma criança que viva nos bairros novos para israelenses permanece em casa por falta de escolas. Nos bairros árabes vizinhos, 15.000 crianças não podem aprender a ler e escrever porque mais de 1300 salas necessárias não existem. “Jerusalém leste alberga cerca de 75,8 por cento das crianças pobres da cidade e 62 por cento das famílias vivem abaixo da linha da pobreza.” Assim é a Jerusalém “reunificada”, que Israel separou da Cisjordânia com um muro. O Muro de Berlim edificado pela URSS recebeu o nome de “Muro da vergonha”. O que constrói Tel Aviv fragmenta e encerra as comunidades palestinas, expropria de fato os territórios palestinos, onde foram instalados assentamentos ilegais de colonos e uma campanha internacional o qualifica de “Muro do Apartheid“. Para John Dugard, renomado jurista sul-africano e relator do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre a situação dos territórios palestinos ocupados, o regime que ali impera é mais complexo.

 

Dugard lembrou no seu informe anual que a ONU identificou o colonialismo, o apartheid e a ocupação estrangeira como inimigos dos direitos humanos e que “a ocupação israelense do lado Ocidental, Gaza e Jerusalém leste reúne elementos desses três regimes,  o que torna os territórios palestinos ocupados em matéria de especial preocupação para a comunidade internacional” (www.unhchr.org, 23-2-07). Ressalta que a Corte Internacional de Justiça confirmou que Jerusalém leste e a parte Ocidental estão submetidas à ocupação israelense e agrega que “não é possível argumentar com seriedade, como tentou Israel, que deixou de ocupar Gaza desde agosto de 2005 quando retirou seus colonos e suas tropas dali”. Ressalta que inclusive antes da “Operação Chuvas de Verão” de 2006, em represália à captura de um efetivo israelense, Israel controlou o território por terra, mar e ar. Desde essa ação, acrescenta Dugard, “exerceu sua autoridade militar mediante incursões e bombardeios que claramente correspondem a uma ocupação”.

 

Uma pesquisa que o Centro de Campanhas contra o Racismo realizou em dezembro de 2006 mostra que boa parte da sociedade israelense acompanha as políticas discriminatórias do governo (www.jewishvirtuallibrery.org, 2007). Cerca de cinqüenta por cento opina que Israel deve alentar a imigração dos árabes. Cinqüenta por cento não aceitariam um trabalho em que seu chefe fosse um árabe. Cinqüenta por cento afirmaram que os israelenses judeus devem ter mais direitos econômicos que os israelenses árabes. Á pergunta de como reagia o entrevistado quando escutava falar árabe nas ruas de Israel, cinqüenta por cento responderam que sentiam temor e trinta por cento, ódio. Quarenta por cento dos israelenses judeus pensam que os israelenses árabes devem ser privados de seu direito ao voto, etc.

 

Na sexta-feira, dia 11, os membros do movimento israelense “Paz Já”, a ala pacifista mais importante do país, realizaram um comício no qual recordaram o “Dia de Jerusalém” de maneira muito diferente da oficial: exigiram o fim da ocupação dos territórios palestinos e se pronunciaram por uma Jerusalém em paz. Honrados são todos aqueles que lutam contra a corrente empenhados em uma causa justa.
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Tradução:  Daniela Mateus

Palestina: a solução final e José Saramago

James Petras

historiador americano

 

As imagens da força militar de Israel estão sendo transmitidas ao mundo inteiro: Soldados disparando na cabeça dos feridos; tanques derrubando paredes de casas, escritórios, o complexo de Arafat. Centenas de crianças, mulheres e homens, com as cabeças encapuzadas, sendo levados a coronhadas aos campos de concentração; helicópteros providos de artilharia destruindo mercados; blindados destruindo campos de oliveiras, e pomares de laranjeiras e limoeiros. As ruas de Ramallah devastadas. Mesquitas e escolas crivadas de balaços, desenhos de crianças rasgados em pedaços, crucifixos feitos em frangalhos, paredes autografadas pelos saqueadores do exército. Milhões de palestinos rodeados por tanques: A eletricidade cortada, sem água, sem telefones, sem alimentos. As tropas de assalto arrebentam as portas, os móveis e os utensílios de cozinha, seja o que for que faça a vida possível.

Por acaso alguém pode dizer que não sabia que os israelenses estão levando a cabo o extermínio de um povo, espremido nos porões, sob as ruínas de seus lares? Que aos feridos, aos agonizantes, se lhes nega deliberadamente a atenção médica? Que não sabia das imposições sistemáticas e metódicas do Alto Comando israelense de bloquear todas as ambulâncias, de prender e até assassinar os motoristas e o pessoal de emergência médica?

Temos o duvidoso privilégio de ver e ler em tempo real como se desenrola todo esse horror promovido pelos descendentes do holocausto, aqueles que, hipócrita e rancorosamente, reivindicam o monopólio do uso da palavra que melhor descreve o ataque contra todo um povo.

O público israelense, seus meios de comunicação e jornalistas, escandalizaram-se quando o escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura os confrontou com a verdade histórica: “O que está ocorrendo na Palestina é um crime que podemos comparar com o que ocorreu em Auschwitz.” A opinião pública israelense, em lugar de refletir sobre seus atos violentos, lançou-se contra Saramago por ter se atrevido a compará-los aos nazistas.

Amós Oz, escritor israelense e, de vez em quando, pacifista — até que Israel entre em guerra — acusou Saramago de ser “anti-semita” e de uma “incrível cegueira moral.”

A profunda imoralidade de uma guerra contra todo um povo é um crime contra a humanidade. Não há exceções especiais. São precisamente esses intelectuais israelenses, e os da diáspora, que se dizem “progressistas”, aqueles que expuseram a sua própria cegueira nacional e a sua covardia moral, encobrindo suas desculpas para o terrorismo de estado israelense com os farrapos das vítimas do outro holocausto de 60 anos passados.

Basta ler a imprensa israelense para compreender a validade da analogia histórica de Saramago. Dia após dia, líderes proeminentes e respeitáveis, eleitos pelo eleitorado judeu, “bestializam” os palestinos, tudo para melhor justificar seus próprios excessos.

Segundo o diário israelense Maariv — citado por Roberto Fisk — um oficial das Forças de Defesa de Israel (IDF) aconselha suas tropas a estudar as táticas adotadas pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. “Se o nosso trabalho é tomar os campos de refugiados densamente povoados na Casbah de Nablus, um oficial deve analisar as lições das guerras passadas, até mesmo analisar como o exército alemão operou no Gueto de Varsóvia.

Quando a imprensa israelense acusou Saramago de anti-semita, estariam dispostos a estender essa calúnia aos oficiais de seu exército e às suas tropas por utilizarem as mesmas analogias? Ou os oficiais israelenses vão alegar simplesmente que “estavam cumprindo ordens” ao explodir edifícios com mulheres, crianças e anciãos em seu interior?

Nos fóruns mundiais — da União Européia às Nações Unidas, e em todo o Terceiro Mundo, Israel está sendo condenado por atos contra a humanidade.

Os arautos e os defensores das táticas de Israel perceberam que chamar os críticos de anti-semitas já não intimida as pessoas. A opinião pública mundial já viu e leu o bastante. Estamos nos dando conta que as “vítimas” se transformaram em algozes.

A exemplo de qualquer Estado Policial, Israel retirou todos os livros de Saramago das livrarias e das bibliotecas. Só falta leva-los à fogueira.

Com a mesma seriedade com que se preparou para o genocídio, Israel proibiu a entrada de todos os jornalistas nos guetos palestinos, salvo aqueles que aceitam e publicam os comunicados de imprensa do exército.

Como na Alemanha nazista, todos os homens palestinos entre 16 e 60 anos são aprisionados, muitos deles desnudados, algemados com cordéis, interrogados e muitos deles torturados. As famílias dos combatentes da resistência palestina são mantidas como reféns, sem água, alimento ou eletricidade.

Os soldados israelenses saqueiam as casas e roubam qualquer objeto de valor, destruindo os móveis. Como os nazistas, deixam morrer centenas de palestinos feridos enquanto as tropas israelenses bloqueiam todas as ambulâncias. Centenas de milhares enfrentam a desidratação e a morte por inanição, posto que se cortou todo o suprimento de água e alimento.

Tropas israelenses, tanques e helicópteros destruíram todas as principais cidades e campos de refugiados: Tulkarem, Al Bireh, Al Jader, Beit Jala, Kalqirya, Hebron. A descoberta de um único combatente da resistência resulta em culpa e castigo coletivos: pais, filhos, tios e vizinhos são retirados à força e levados aos campos de concentração, campos de futebol e parques infantis.

É evidente que a indignação judaica pela comparação feita por Saramago, do terrorismo israelense com Auschwitz, pôs o dedo sobre uma lembrança sensível: O desprezo por si próprios, dos executores, que se dão conta que foram bons discípulos do perseguidor nazista e que, a todo o custo, devem nega-lo.

Na mentalidade de bunker do psicopata Sharon e seus paranóicos seguidores, todos são racistas, anti-semitas, leitores entusiastas dos Protocolos dos Sábios de Sião, e tentam desmoralizar os judeus para que não levem a cabo a missão bíblica de uma Grande Israel, de um povo, de uma nação, de um Deus, e a expulsão de todos os palestinos de sua Terra Prometida.

A oferta de Sharon a Arafat — a liberdade para partir, mas sem regressar jamais — é dirigida também a todo o povo palestino.

Documentário descreve viagem de oito escritores à Palestina, entre eles José Saramago e Russell Banks

Cena um: o escritor chinês Bei Dao conta que, quando se apresentou ao consulado israelense, em San Francisco, onde mora, para pedir um visto para viajar para a Palestina, o funcionário disse com um ar “blasé”: “Esse país não existe”.

Cena dois: o nigeriano Woyle Soyinka, prêmio Nobel de Literatura de 1986, explica, dentro do ônibus, numa entrevista ao telefone, que a visita à Palestina de membros do Parlamento Internacional dos Escritores não tem nenhuma conotação anti-semita. Foi motivada pela impossibilidade de Mahmoud Darwish, o maior poeta palestino, de se ausentar de sua terra para um encontro com seus colegas escritores que resolvem ver in loco o que se passa na Palestina.

Cena três: o escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura de 1998, fala para a câmara dentro de um ônibus. Ele tenta explicar o significado de suas palavras, que correram o mundo, quando, no início dessa viagem, comparou campos de refugiados palestinos com Auschwitz. Saramago diz que não poderia calar sobre o que viu.

Cena quatro: o poeta Mahmoud Darwish lê seu belo texto -“sofremos de um mal incurável que se chama esperança”-   diante de um público ávido por poesia, num teatro lotado de Ramalah. Poucos dias depois, diz a voz em “off”, o prédio do teatro foi arrasado pelos tanques israelenses.

Cena cinco: um homem com uma serra elétrica se aproxima de umpequeno campo de oliveiras. O homem está protegido por homens armados. O dono do campo, um palestino de pouco mais de 30 anos, chora e diz que os israelenses estão destruindo tudo o que ele possui. Ele conta que no seu campo passará “o muro” que Israel está construindo para isolar as aldeias da Cisjordânia. A ocupação é assim: feita de pequenos incidentes. O palestino que chora ao ver seu campo de olivas destruído não tem como reagir nem a quem reclamar indenização.

Essas cinco cenas não são vistas nessa ordem nem obedecem a nenhuma hierarquia. Simplesmente, são cenas emblemáticas de um documentário -“Écrivains des frontières” (Escritores das fronteiras)-,  sobre a viagem à Palestina de um grupo de autores representando todos os continentes. O americano Russell Banks, presidente do Parlamento Internacional dos Escritores, criado em 1993, chefiava o grupo.  Ele diz que a visita a Arafat, mostrada no filme, poderia parecer aos olhos de alguns como “um bando de Jane Fonda indo visitar Ho Chi Minh”. Mesmo assim, os escritores tiveram coragem de enfrentar as críticas e foram ao encontro líder palestino excluído politicamente por Bush e Sharon.

Os textos dos escritores, que servem de base narrativa à maioria das imagens, foram publicados com o título “Le Voyage en Palestine”. O filósofo Jacques Derrida, que não foi por problemas de saúde, mandou uma mensagem, publicada no final do livro.

Diversos estilos e sensibilidades se somam para analisar o mesmo problema sob diferentes óticas, em português, italiano, espanhol, inglês, chinês e francês. As imagens tentam estar à altura da qualidade dos textos lidos pelos autores na própria língua.

Breyten Breytenbach fez uma carta aberta a Ariel Sharon. Para falar do problema palestino, Wole Soyinka vai à Grécia antiga buscar uma metáfora na Odisséia, no episódio de Ulisses na Ilha de Polifemo.  O escritor francês Christian Salmon descreve uma paisagem cujas estradas, campos e oliveiras pertencem ao patrimônio da humanidade. Ele diz: “Konwicki, o escritor polonês, dizia a propósito de seu país: minha pátria tem patins; suas fronteiras se movem na onda dos tratados.  Na Palestina, é pior. A fronteira se move como uma nuvem de gafanhotos”.

A sensibilidade dos dois cineastas na edição das imagens foi decisiva para sublinhar a força dos textos que fazem dos oito escritores co-autores do filme. Nada é supérfluo nem redundante. Algumas imagens são duras, secas, como a geografia ambiente. Gaza é uma desolação. Uma faixa de terra superpovoada, onde 1 milhão e 200 mil palestinos se amontoam em 60% do território. Os 6.000 colonos israelenses controlam os outros 40% das terras destinadas às colônias e às bases militares. Em cada quatro habitantes de Gaza, três são refugiados, expulsos de alguma aldeia da Palestina em 1948 pelos israelenses. O escritor Wole Soyinka escreveu: “Vimos em toda sua crueza a política ativa de usurpação do território pelos colonos”.

Sem maniqueísmo, o filme mostra monstros sagrados da literatura mundial visitando Ramalah, Gaza e depois Israel. Eles entram nas casas palestinas semi-destruídas por bombas. Encontram-se com intelectuais palestinos e com intelectuais de Israel. O encontro com Yasser Arafat antes do ataque israelense ao seu quartel-general, foi aceito por todos não como um apoio a Arafat, mas pelo símbolo de um povo que há 50 anos luta por um Estado independente.

Os escritores visitam Bir Zeit, a mais importante universidade palestina, onde a rotina dos alunos e professores é infernal: para chegar ao campus, eles têm de passar por estradas controladas pelo exército israelense, por diversos “check points” e percorrer uma parte do caminho a pé.  “O governo de Israel faz tudo para tornar nossa vida um inferno”, diz um palestino.

“Esta ocupação é uma ocupação estrangeira que não pode escapar à acepção universal da palavra ocupação, qualquer que seja o número de títulos de direitos divinos que ela invoca; Deus não é propriedade pessoal de ninguém.”  Mahmoud Darwish lê seu texto com a serenidade de quem não perdeu a esperança.

No encontro com escritores e intelectuais israelenses, já em território de Israel,  os escritores ouviram relatos de militantes da paz que vêem a situação se degradar a cada dia, a esquerda perder terreno e as esperanças de um acordo de paz ficar cada vez mais distante. Uma editora israelense toma a palavra e diz que não se pode fazer uma simetria entre o sofrimento dos israelenses e o dos palestinos. Emocionada, ela diz que não suporta “ouvir falar de compreensão com o sofrimento dos dois povos, como se pudesse haver comparação entre quem oprime e quem sofre a opressão”. Seu combate é  denunciar a ocupação e a opressão sofrida pelo povo palestino.

Depois de percorrer o território palestino ocupado, de ver a destruição de casas e campos, de perceber de longe as colônias israelenses dentro do território da Cisjordânia e de Gaza, de ouvir palestinos perplexos, mulheres e homens que encontram por acaso nas estradas e nos locais que visitam, os escritores estão prontos para voltarem a seus países e escrever o que viram.

Dois dias depois de deixarem Israel-Palestina, o teatro em que estiveram foi totalmente destruído e o quartel-general de Arafat foi atacado por ordem de Sharon. O líder palestino é um prisioneiro virtual de Ariel Sharon em Ramalah.

“Écrivains des frontières”: Documentário de Samir Abdallah e José Reynès, duração de 80 min. Em exibição em Paris. Abdallah e Reynès acompanharam a viagem de oito escritores à Palestina em março de 2002: Russell Banks, Breyten Breytenbach, Vincenzo Consolo, Bei Dao, Juan Goytisolo, Christian Salmon, José Saramago e Wole Soyinka.

Leneide Duarte-Plon

DOIS MILHÕES DE PALESTINOS EM SITUAÇÃO INSUSTENTÁVEL APÓS 40 ANOS DE OCUPAÇÃO.

Yasmina Jiménez, El Mundo/Rebelión 05/06/2007.

Khaled Daud Faquih, um bebê palestino de seis meses, morreu no último dia 8 de março num posto de controle israelense quando seus pais tentavam levá-lo ao hospital de Ramallah para que fosse atendido por problemas respiratórios. Morreu a dez minutos do hospital diante da impotência de seus pais e da tranqüilidade dos soldados israelenses. Perto de completar 40 anos de ocupação de Israel na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, Anistia Internacional pede às autoridades israelenses que ponham fim a esta constante violação dos direitos humanos.

Os abusos generalizados contra os direitos têm se transformado em mais uma rotina na vida diária dos palestinos. No informe de Anistia, “Suportando a ocupação, a população palestina sob estado de sítio na Cisjordânia”, a organização denuncia os efeitos devastadores de quatro décadas de ocupação israelense. “Dois milhões de pessoas vivem em estado de sítio quando se completam 40 anos de ocupação”, garante Estevão Beltran, diretor de Anistia Internacional na Espanha.

A história de Khaled não é um caso isolado. Complicações médicas, partos e mortes nos postos de controle, horas de espera para ir ao trabalho ou ao colégio, demolições de casas e lojas são algumas das situações vivenciadas pelos palestinos “pelo fato de serem palestinos”. Todos os dias, centenas de controles e bloqueios forçam a população árabe a dar longas voltas em nome da segurança israelense. Contudo, a finalidade destas medidas é somente a de “restringir ou impedir a circulação de palestinos entre cidades e povoados, dividir e isolar as comunidades palestinas, porque os controles estão no interior da Cisjordânia, não entre Israel e a Cisjordânia”, explica Anistia.

O texto da organização documenta a expansão incessante dos assentamentos ilegais dos colonos israelenses nos territórios ocupados que priva a população palestina de recursos essenciais, como a água. “A ocupação israelense é militar e civil porque se trata de uma ocupação permanente e não provisória, como foi o caso do Kuwait ou do Iraque, agora, por parte dos EUA”, explica Lucia Pizarro, coordenadora internacional do Comitê Israelense contra as Demolições de Casas (ICAHD, pela sigla em inglês).

Impunidade para os colonos israelenses.

 

“As restrições sofridas pelos árabes são ilegais, desproporcionadas, discriminatórias e violam o direito à liberdade de circulação”, afirma o informe. As proibições nos territórios palestinos só beneficiam os colonos israelenses que contam com suas próprias estradas, ajudas econômicas e todos os benefícios proporcionados pelo governo para garantir a permanência de civis entre o “inimigo”.

Cerca de 450.000 colonos israelenses vivem em assentamentos ilegais violando resoluções da ONU e demonstrando que a ocupação de Israel na Palestina será permanente. Além disso, os colonos contam com uma vantagem atroz: podem atacar e destruir impunemente as propriedades dos palestinos, sem temer a ação da justiça que, acima de tudo, os protege.

Mas, o dano maior imposto ao povo palestino é a construção de um muro de 700 quilômetros que deixará mais de 60.000 palestinos à mercê de uma cerca construída dentro de suas terras com o propósito de separar cidades, povoados, comunidades e famílias palestinas. Haverá agricultores que não poderão ter acesso a suas roças, nem estudantes a seus colégios, nem doentes aos hospitais.

O afastamento do muro é garantido por mensagens, em hebraico, árabe e inglês, colocadas ao longo de toda a cerca e onde se adverte: “Perigo de morte. Zona militar: qualquer pessoa que tente pular ou provocar danos ao muro colocará sua vida em perigo”. A prova de que esta advertência é real a teve a família de uma adolescente palestina de 14 anos que foi abatida a tiros por soldados israelenses quando brincava perto do muro com uma amiga de 12 em dezembro passado.

Um organismo internacional.

 

Clara Cordero, especialista em Israel e territórios ocupados de Anistia Internacional, expôs as demandas da organização para melhorar o quanto antes esta situação que tem colocado os palestinos em seu pior momento desde 1967. Os árabes dependem de uma ajuda internacional que também está sujeita a restrições, a economia tem sido profundamente atingida e os estragos das proibições começam a se materializar em forma de desnutrição crônica ou anemia, entre outras enfermidades.

Cordero tem reivindicado ao Governo de Israel que “ponha fim ao impedimento da liberdade de circulação de pessoas e mercadorias, que interrompa a construção do muro e os assentamentos ilegais de colonos, a destruição de casas palestinas e garanta a proteção dos civis”.

Anistia tem insistido, sobretudo, num pedido que, há anos, vem apresentando à comunidade internacional: “O estabelecimento de um organismo internacional que vigie o cumprimento dos direitos humanos em Israel e nos territórios ocupados”. A organização se pergunta se os palestinos terão que esperar outros 40 anos antes que o mundo reaja e dirija o olhar aos territórios ocupados.