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Palestina, Palestina

Georges Bourdoukanm
Jornalista e escritor

Para Hannan Ashrawi

Às profundezas da história,
À impiedade e ao medo,
À realidade invisível,
À ocupação e à exclusão,
Ao ocidente que buscou aliviar a culpa de seus anti-semitas,
Uma nação torturada resiste!

O coração palestino palpita.
Tentam abafar seu grito de liberdade,
Suas pedras revidam contra a injustiça,
Contra o racismo e a intolerância!

A estrela busca a purificação com sangue
E ao muro dirige suas preces.
Existirá um limite para a brutalidade?
Existirá um limite para a indiferença?
Estaremos perdendo a sensibilidade?
Indignação! Onde está a indignação?

O projétil disparado torna o instante uma eternidade.
Tempo frugal, vida perdida
Nada é isolável.

O mundo, resignado, vive a experiência de si mesmo.
O homem é algo que deve ser superado.
O que é o homem? O que é o divino?
Qual é a verdadeira realidade?
Eis a manifestação de um mistério.

Seremos meros registros?
Produtos de uma experiência?
Os sinais ainda nos escapam.
Até quando, Jerusalém?

Caros amigos – Agosto 2006

NESTA ALDEIA

NESTA ALDEIA

Sérgio Muylaert

a Fadwa Tuqan
O chão liso,
O saibro,
O sangue dos milênios,
A encosta, a força bruta,
Os abutres rondam
A estrada limpa, a gruta,
O Vazio.

Nos casebres,
O impensável da miséria rasa,
O império do nada,
A febre do desterro,

Nos cárceres,
O cheiro podre, o lodo ressecado,
O genocídio das metralhas,
Das metralhas, rá-tá-tá-tá-tá,
Rombos nas paredes,
Nas paredes,
As vestes de crianças, trapos,
Miúdas sandálias,
Sopra ventania.

Por que são eternas as flores
Em Ramallah?

E os desta aldeia,
Da Samária,
Estarão em Nablus
Ou, em Mehjora?
Sérgio Muylaertwww.geocities.com/sermuy

Os Judeus não são uma Raça! – pelo Dr. Alfred M. Lilienthal

Os Judeus não são uma Raça!

pelo Dr. Alfred M. Lilienthal

 


Dr. Alfred M. Lilienthal, historiador, jornalista e conferencista, é um graduado da Cornell University e da Columbia Law School. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele serviu com o Exército norte-americano no Oriente Médio. Ele depois serviu no Departamento de Estado, como um conselheiro da delegação americana no encontro organizador das Nações Unidas em San Francisco.

Desde 1947, ele tem estado na linha de frente da luta por uma política americana balanceada no Oriente Médio. Ele é o autor de diversos famosos livros sobre o Oriente Médio, incluindo The Zionist Connection (A Conexão Sionista). Ele agora vive em Washington, D.C.

A 18 de dezembro de 1993, Dr. Lilienthal celebrou tanto seu 80º aniversário quando o 40º aniversário de seu primeiro livro, What Price “Israel”? (A Que Preço “Israel”?) Dr. Lilienthal, um corajoso judeu anti-sionista, se juntou com mais de 200 convidados que viajaram de todo o mundo aos Estados Unidos para comparecer. O seguinte excerto é retirado de seu primeiro livro, A Que Preço Israel?


Hoje, traçar a ascendência de qualquer um à antiga Palestina seria uma impossibilidade genealógica; e presumir, aforismaticamente, tal ascendência aos judeus, sozinhos entre todos os grupos humanos, é uma asserção de significado puramente fictício. A maioria no Mundo Ocidental poderia manter alguma reivindicação de ascendência palestina se as árvores genealógicas pudessem ser estabelecidas por dois mil anos. E existem, ainda, pessoas que, apesar de nem no mais amplo exagero de imaginação judias, orgulhosamente fazem esta reivindicação: algumas das mais velhas das famílias aristocráticas do Sul jogam um jogo de comparação cuja linhagem vai até “Israel”. Ninguém sabe o que aconteceu às Dez Tribos Perdidas de “Israel”, mas especular que poderia ser alguém de passado anglo-saxônico, e Rainha Vitória pertenceu a uma Sociedade “Israelita”, que traçava as origens de seus membros de volta àquelas tribos perdidas.

Doze tribos começaram em Canaã cerca de 35 séculos atrás; e não apenas dez delas desapareceram – mais da metade dos membros das restantes duas tribos jamais voltou de seu “exílio” na Babilônia. Como então, pode alguém reivindicar descender diretamente da comunidade relativamente pequena que habitava a Terra Santa no tempo do Pacto de Abraão com Deus?

O mito racial judaico vem do fato de que as palavras hebreu, “israelita”, judeu, judaísmo e o povo judaico tem sido usadas com o mesmo sentido para sugerir uma continuidade histórica. Mas é um uso errôneo. Estas palavras se referem a diferentes grupos de pessoas com variados estilos de vida em diferentes períodos históricos. Hebreu é um termo corretamente aplicado ao período do começo da história bíblica até a chegada a Canaã. “Israelita” se refere corretamente aos membros das doze tribos de Israel. O nome Yehudi ou Judeu é usado no Velho Testamento para designar membros da Tribo de Judá, descendentes do quarto filho de Jacó, bem como para indicar cidadãos do Reino de Judá, particularmente no tempo de Jeremias e sob a ocupação persa. Séculos depois, a mesma palavra veio a ser aplicada a qualquer um, não importa a origem, cuja religião era o Judaísmo.

O nome descritivo Judaísmo jamais foi ouvido pelos hebreus ou “israelitas”: aparece somente com a Cristandade. Flavius Josephus foi um dos primeiros a usar o nome em seu recital da guerra com os romanos para indicar uma totalidade de crenças, leis morais, práticas religiosas e instituições cerimoniais na Galiléia que ele acreditava superiores ao helenismo rival. Quando a palavra Judaísmo nasceu, não mais existia um Estado hebreu-”israelita”. As pessoas que abraçavam o credo do Judaísmo já eram misturas de muitas raças e fontes; e esta diversificação estava crescendo rapidamente…

Talvez a mais significantes conversão em massa à fé judaica aconteceu na Europa, no século 8 d.C., e esta história dos Khazares (povo turco-fínico) é bem pertinente ao estabelecimento do moderno Estado de “Israel”. Este povo parcialmente nômade, provavelmente relacionado com os Búlgaros do Volga, primeiro apareceu na Trans-Caucásia no século II. Eles se estabeleceram no que é agora o sul da Rússia, entre o Volga e o Don, e então se espalharam até as costas dos Mares Negro, Cáspio e de Azov. O Reino de Khazaria, governado por um khagan ou khakan caiu para Átila o Huno em 448, e para os muçulmanos em 737. Nesse intermédio, os khazares governaram uma parte dos búlgaros, conquistaram a Criméia, e aumentaram seu império sobre o Cáucaso longe ao noroeste incluindo Kiev, e na direção leste até Derbend. Tributos anuais eram levantados dos russos eslavônicos de Kiev. A cidade de Kiev foi provavelmente construída pelos khazares. Haviam judeus na cidade e na área ao redor antes que o Império Russo foi fundado pelos varenguianos a quem os guerreiros escandinavos algumas vezes chamara os Rus ou Ross (cerca de 855-863).

A influência dos khazares estendeu-se ao que é hoje a Hungria e a Romênia. Hoje, as vilas de Kozarvar e Kozard na Transilvânia dão testemunho da penetração dos khazares que, junto com os magiares, então prosseguiram até a atual Hungria. O tamanho e poder do Reino da Khazaria é indicado pelo ato que ele mandou um exército de 40.000 soldados (em 626-627) para ajudar Heráclio dos bizantinos a conquistar os persas. A Enciclopédia Judaica orgulhosamente se refere à Khazaria como tendo “um bem constituído e tolerante governo, um comércio florescente e um exército bem disciplinado.”

Judeus que haviam sido banidos de Constantinopla pelo governante bizantido Leo III acharam um lar entre estes khazares então pagãos e, em competição com os missionários maometanos e cristãos, converteu-os à fé judaica. Bulan, governante da Khazaria, se converteu ao Judaísmo por cerca de 740 d.C. Seus nobres e, um pouco depois, seu povo o seguiu. Alguns detalhes destes eventos estão contidos em cartas trocadas entre o Khagan Joseph da Khazaria e R. Hasdai Ibn Shaprut de Córdoba, doutor e quase ministro do exterior do Sultão Abd al-Rahman, o Califa da Espanha. Esta correspondência (cerca de 936-950) foi publicada pela primeira vez em 1577 para provar que os judeus ainda tinham um país próprio – nomeadamente, o Reino da Khazaria. Judah Halevi sabia das cartas até em 1140. Sua autenticidade foi desde então estabelecido além de dúvidas.

De acordo com estas cartas Hasdai-Joseph, Khagan Bulan decidiu um dia: “Paganismo é inútil. É vergonhoso para nós sermos pagãos. Vamos adotar uma das religiões divinas, Cristianismo, Judaísmo ou Islamismo”. E Bulan chamou três clérigos representando as três religiões e os fez discutir seus credos diante dele. Mas, nenhum clérigo conseguiu convencer aos outros, e ao soberano, que a sua religião era a melhor. Então o governante falou a cada um deles separadamente. Ele perguntou ao clérigo cristão: “Se você não fosse cristão ou tivesse que abandonar o Cristianismo, qual você iria preferir – Islamismo ou Judaísmo?” O clérigo falou: “Se eu fosse abandonar o Cristianismo, me tornaria um judeu.” Bulan então perguntou ao islamita a mesma questão, e o muçulmano também escolheu o Judaísmo. Assim Bulan escolheu o Judaísmo para ele mesmo e para o povo da Khazaria no século sétimo depois de Cristo, e a partir daí os khazares (às vezes se escreve cazares ou cozares) viveram de acordo com as leis judaicas.

Debaixo do comando de Obadiah, o Judaísmo ganhou força adicional na Khazaria. Sinagogas e escolas foram construídas para dar instrução sobre a Bíblia e o Talmud. Como o Professor Graetz escreve em sua História dos Judeus, “Um sucessor de Bulan que carregava o nome hebreu de Obadiah foi o primeiro a fazer esforços sérios para espalhar a fé judaica. Ele convidou sábios judeus a se estabelecerem em seus domínios, recompensou-os realmente… e introduziu um serviço divino modelado nas comunidas antigas. Após Obadiah veio uma longa série de Khagans judeus, pois de acordo com uma lei fundamental do Estado apenas aos governantes judeus era permitida a ascensão ao trono.” Mercadores khazares não trouxeram apenas seda e tapetes da Pérsia e do Oriente Próximo mas também sua fé judaica ao Vístula e ao Volga. Mas o Reino da Khazaria foi invadido pelos russos, e Itil, sua grande capital, caiu a Sviatoslav de Kiev em 969. Os bizantinos haviam se tornado temerosos e invejosos dos khazares e, numa expedição conjunta com os russos, conquistaram a parte khazariana da Criméia em 1016 (Criméia era conhecida como “Chazar” até o século 13). Os judeus khazarianos se espalharam através do que é hoje a Rússia e a Europa Oriental. Alguns foram levados ao Norte onde se juntaram à comunidade judaica estabelecida em Kiev.

Outros voltaram ao Cáucaso. Muitos khazares de re-casaram na Criméia e na Hungria. Os Cagh Chafut, ou “judeus da montanha” no Cáucaso e os judeus hebraile da Geórgia são seus descendentes. Estes judeus “ashkenazim” (como os judeus da Europa Oriental são chamados) cujos números foram aumentados pelos judeus que fugiram da Alemanha no tempo das Cruzadas e durante a Peste Negra, tem pouco ou nenhum traço de sangue semítico.

Que os khazares são os ancestrais lineares dos judeus da Europa Oriental é um fato histórico. Historiadores judeus e livros-texto religiosos reconhecem o fato, apesar de propagandistas do nacionalismo judaico consideram isso propaganda pró-árabe.Um pouco ironicamente, o Volume IV da Enciclopédia Judaica – porque essa publicação soletra khazares com “C” ao invés de “K” – é intitulado “Chazares para Dreyfus”: e foi o caso Dreyfus, conforme interpretado por Theodor Herzl, que fez os modernos judeus khazares da Rússia esquecer sua ascendência de convertidos ao judaísmo e aceitar o anti-semitismo como prova de sua origem na Palestina.

Até onde os antropólogos conhecem, a ascendência de Hitler pode ir até uma das Dez Tribos Perdidas de “Israel”; enquanto Weizmann pode ser um descendente dos khazares, os convertidos ao judaísmo que não estavam por nenhuma ligação antropológica relacionados com a Palestina. A casa para onde Weizmann, Silver e tantos outros sionistas ashkenazim tanto reclamaram para voltar muito provavelmente jamais foi deles. “Aqui temos um paradoxo, um paradoxo, o mais ingênuo paradoxo”: antropologicamente, muitos cristãos podem ter muito mais sangue hebreu-”israelita” do que muitos de seus vizinhos judeus.

Raça pode aplicar armadilhas engraçadas naquelas pessoas que fazem desse conceito a base de seus gostos e desgostos. Pessoas obcecadas pela raça podem se achar odiando pessoas que, de fato, podem ser de sua própria parentela.

Ilan Pappé: “A solução de dois Estados morreu faz uma década”

Ilan Pappé: “A solução de dois Estados morreu faz uma década”

ORIENTE MÉDIO

Escrito por Ilan Pappé

Dom, 06 de Outubro de 2013 13:46

Vinte anos depois da assinatura dos acordos de Oslo entre Israel e a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), acordos que deram origem à ANP (Autoridade Nacional Palestina) como bantustões[i] coloniais administrados pela OLP, volta à mesa a proposta da falsa solução dos “dois Estados” (um israelense e outro palestino) para a região palestina.

A LIT-CI se opôs a esta “solução”, por considerar que, por um lado, legitima de modo definitivo a usurpação básica do território histórico palestino, que significou a criação do Estado de Israel, em 1948, e, pelo outro, significa a criação de um mini-estado palestino inviável, que liquidaria a possibilidade de retorno dos milhões de palestinos exilados. Apresentamos a seguir um artigo de Ilan Pappé, historiador israelense, opositor ao sionismo e hoje exilado em Londres, onde atua como diretor do Centro Europeu de Estudos Palestinos na Universidade de Exeter, Reino Unido. É autor de numerosos livros, o mais conhecido deles chama-se “A limpeza étnica da Palestina”.[ii]

A recente tentativa de retomar as “conversações de paz” entre Israel e os palestinos tem tanta probabilidade de êxito quanto as tentativas anteriores. Ela ocorre 20 anos depois da assinatura dos “Acordos de Oslo” entre Israel e a OLP.

Os Acordos de Oslo foram um duplo evento. Houve uma Declaração de Princípios, assinada cerimoniosamente no jardim da Casa Branca, no dia 13 de setembro de 1993; e depois o menos conhecido e celebrado acordo de “Oslo II”, assinado em setembro de 1995, em Taba, no Egito, que delineou a implementação da Declaração de Princípios segundo a interpretação israelense.

Os israelenses interpretaram os Acordos de Oslo como mera ratificação, tanto internacional como palestina, da estratégia que os israelenses tinham formulado em 1967 a respeito dos territórios ocupados. Após a guerra de 1967, todos os sucessivos governos israelenses se empenharam em manter a Cisjordânia como parte de Israel. Para eles, a Cisjordânia era tanto o coração de sua antiga terra natal, como um ativo estratégico para evitar a divisão do Estado em dois, caso ocorresse outra guerra.

Ao mesmo tempo, a elite política israelense não queria outorgar a cidadania às pessoas que ali viviam, nem considerou seriamente sua expulsão. Queriam conservar o território, mas não o povo. A primeira Intifada palestina (1987), no entanto, demonstrou o custo que tinha a ocupação, o qual levou a comunidade internacional a exigir de Israel uma exposição mais clara de seus planos para o futuro da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Para Israel, os acordos de Oslo eram essa “declaração de interesses”.

Os Acordos de Oslo não eram um plano de paz para os israelenses; eram uma solução para o paradoxo que tinha preocupado Israel: querer o espaço físico sem os povos que o habitam. Esse foi o problema do sionismo desde o seu nadcimento: como tomar para si uma terra sem sua população nativa, em um mundo que já não aceitava mais o colonialismo e a limpeza étnica?

Os acordos Oslo II proporcionaram a resposta: empregar o discurso da paz, e, paralelamente, criar fatos consumados que levariam a população nativa ao confinamento em pequenos espaços, ao mesmo tempo em que as parcelas restantes do território seriam anexadas gradativamente a Israel.

Em Oslo II, a Cisjordânia foi dividida em três áreas. Só uma delas, a Área A, onde a população palestina vive em zonas densamente povoadas, não seria controlada diretamente por Israel. Tratava-se de um território não homogêneo, que constituía meros 3% da Cisjordânia em 1995, e cresceu até aproximadamente 18% em 2011. Os israelenses garantiam autonomia a essa área e criaram a Autoridade Nacional Palestina (ANP) para administrá-la. As outras duas áreas, B e C, seriam governadas diretamente por Israel, no primeiro caso, e supostamente em forma conjunta (mas também diretamente, na prática), no segundo.

Oslo foi concebido para permitir a Israel perpetuar essa matriz de partição e controle por um período muito longo de tempo. A segunda Intifada palestina, em 2000, mostrou que os palestinos não estavam dispostos a aceitar tais condições. A resposta israelense foi buscar mais um acordo de Oslo ‑ que talvez devêssemos chamar de “Oslo III” ‑ que lhes garantisse de novo aceitação internacional e palestina para a forma com que pretendem governar os territórios ocupados. Isto é, dar-lhes uma autonomia limitada nas áreas palestinas densamente povoadas e manter total controle israelense sobre o resto do território. Isto serviria como uma solução permanente, em que essa “autonomia” seria posteriormente chamada de “estabilidade”.

Mas alguma coisa mudou na visão israelense sobre os acordos de Oslo desde o ano 2000. Ainda no século passado, é possível que os líderes políticos de Israel fossem honestos em sua proposta de ceder a Área A da Cisjordânia e Gaza para o Estado palestino. No entanto, a elite política que tomou o poder neste início de século, ao mesmo tempo em que emprega o discurso dos dois estados, estabeleceu na prática ‑ sem declarar tal fato publicamente ‑ um único Estado israelense, no qual os palestinos e palestinas da Cisjordânia terão o mesmo status secundário que aqueles que vivem dentro de Israel. Também encontraram uma solução especial para a Faixa de Gaza: convertê-la em um gueto.

O desejo de manter o status quo como uma realidade permanente se converteu em uma estratégia bem definida com a ascensão ao poder de Ariel Sharon, no início deste século. A única dúvida que ele teve foi sobre o futuro da Faixa de Gaza; e logo que encontrou a fórmula da transformação da Faixa de Gaza em um gueto ‑em vez de governá-la diretamente‑, não sentiu necessidade alguma de mudar essa realidade de maneira significativa em nenhuma outra parte.

Essa estratégia está baseada na hipótese de que a longo prazo a comunidade internacional dará a Israel, senão legitimidade, ao menos indulgência para seu controle permanente sobre a Cisjordânia. Os políticos israelenses são conscientes de que essa estratégia isolou Israel frente à opinião pública mundial, convertendo-o em um Estado marginal aos olhos de grupos da sociedade civil em todo mundo. Mas, ao mesmo tempo, os israelenses ficam aliviados por saber que, até agora, essa tendência global teve pouco efeito sobre as políticas dos governos ocidentais e seus aliados.

Qualquer esperança de reanimar saídas positivas a partir das ideias originais que levaram os palestinos a apoiar os Acordos de Oslo em 1993 deixou de existir com o governo de Ehud Olmert, em 2007, quando foram enterrados, para todos os efeitos, tanto os Acordos de Oslo como a solução de dois estados.

Essa estratégia foi definida por Olmert como “unilateralismo”. O fundamento dessa política é que não haverá paz num futuro próximo ou previsível, e por isso Israel tem que decidir “unilateralmente” o destino da Cisjordânia. Os esforços diplomáticos neste século fizeram muito pouco para alterar a implementação dessa estratégia.

Atualmente, ela se desenvolve claramente sobre o teatro de operações. A Cisjordânia está dividida em dois espaços: um judeu, outro palestino. As áreas judias são mais ou menos equivalentes à “Área C”, de Oslo, onde Israel tem o controle total, mas também a partes da “Área B”, onde a ANP e Israel compartilham o controle. Juntas, conformam quase a metade da Cisjordânia.[iii]

Israel ainda não anexou oficialmente o território “judeu”, mas poderia fazê-lo no futuro. Por ora, a identidade étnica desse território está determinada por uma presença judaica massiva, junto com uma progressiva limpeza étnica dos habitantes palestinos nessas zonas, ou empurrando-os a enclaves estreitos dentro desse espaço “judeu”. O espaço “palestino”, por sua vez, é a “Área A”, controlada pela ANP, onde Israel se reserva o direito de entrar livremente com seus agentes secretos, unidades especiais e, se necessário, forças armadas em grande escala, sempre que considera necessário.

Para os principais políticos e generais israelenses responsáveis por formular as políticas, isto não é uma situação temporária, senão uma forma de vida que pode ser mantida durante muito tempo. Complementa-se com uma série de medidas que são de suma importância para qualquer pessoa comprometida na luta contra a ocupação. A primeira é econômica: o governo de Israel continua investindo imensas somas de dinheiro nas colônias, e, como resultado, essas colônias têm sofrido uma expansão urbana, com toda a infraestrutura moderna de uma nova metrópole. O dinheiro é utilizado principalmente para a construção civil dentro das colônias existentes, mas também para ampliar a área ao redor delas, de tal maneira que se converteram em uma característica permanente da paisagem.

A segunda medida é a perda contínua do caráter árabe da área da “Grande Jerusalém”: mais de 250.000 palestinos foram expulsos dessa área, que cobre quase um terço da Cisjordânia. Isto ocorre a partir da demolição de casas, as prisões por motivos políticos e, sobretudo, não permitindo aos palestinos regressar à área da Grande Jerusalém quando cometem o erro de sair dela.

A terceira medida é a rede de muros. Seu elemento mais visível é o famoso “Muro do Apartheid”, que dividiu a Cisjordânia em duas, para comprometer a integridade territorial de qualquer futuro Estado palestino. A rede também inclui as cercas e barreiras menores que isolam a maioria das aldeias e povoados palestinos, a fim de impedir qualquer desenvolvimento territorial para além dos limites nos quais o povo vive agora.

Em 2013, portanto, eis em que consiste o Estado de Israel: uma república sionista que se estende entre o Mediterrâneo e o rio Jordão, com um número quase igual de população palestina e judaica. Esta realidade demográfica coloca em risco, por enquanto, a identidade judaica do Estado, ou a “democracia” dos amos.

Não existem partidos políticos de importância em Israel que queiram mudar essa realidade. Também não existe um plano real do Ocidente para frear a consolidação deste Estado único na prática; muito menos para oferecer seriamente uma alternativa viável. Fatores tais como a fragmentação do lado palestino, a desintegração dos estados nacionais árabes vizinhos, e o apoio incondicional e contínuo dos EUA a Israel, atuam como um amortecedor que protege a sociedade judaica israelense de qualquer ameaça potencial a seu Estado expandido, racista, mas economicamente viável.

A validade moral deste novo Estado de Israel geopoliticamente expandido foi desgastada significativamente desde que a sociedade civil palestina lançou há alguns anos a vitoriosa campanha de “Boicote, Desinvestimento e Sanções” (BDS). As próprias ações de Israel têm contribuído para sua crescente perda de legitimidade frente aos olhos da sociedade civil de todo o mundo.

A luta passada do Ocidente contra o regime do apartheid na África do Sul demonstrou que a rejeição intencional à legitimidade de um regime é um processo crescente, e isso ainda pode acontecer com o novo Estado expandido de Israel. Portanto, o papel dos amigos e amigas da Palestina em todo o mundo não mudou, e é continuar pressionando seus governos com o mesmo compromisso e vigor para sancionar esse regime por suas políticas criminosas.

A estratégia para os povos que vivem na região também não mudou muito. Quanto mais cedo se derem conta de que já não podem lutar por uma Palestina independente dentro do “espaço palestino”, melhor. Poderiam então concentrar esforços para se unir à frente palestina e elaborar a estratégia de um plano de luta, junto com israelenses progressistas, para uma mudança de regime neste novo Estado único que se estabeleceu em 2001. Precisa-se urgentemente de uma nova estratégia para reformular a relação entre judeus e palestinos na terra de Israel e da Palestina.

O único regime razoável parece ser um estado democrático para todos e todas. Se isto não ocorrer, a tormenta nas fronteiras de Israel se acumulará com uma força ainda maior do que teve até agora. Por todas os lados no mundo árabe, os povos e os movimentos estão buscando formas de mudar os regimes e as realidades políticas opressivas. Certamente isto chegará também ao novo Estado de Israel; se não hoje, amanhã. Os israelenses podem ocupar o melhor camarote no Titanic, mas o navio continua afundando, de qualquer maneira.

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[i] “Bantustões” (“Bantustão”, no singular) eram Estados artificiais criados pelo regime do apartheid, na África do Sul, onde a população negra podia residir de maneira supostamente autônoma. Serviam sobretudo para manter os negros afastados das regiões habitadas pelos brancos e como fontes de mão de obra barata para o regime.

[ii] Artigo publicado originalmente em Information Clearing House (15-9-2013) http://www.informationclearinghouse.info/

Tradução para o espanhol de María Landi

http://mariaenpalestina.wordpress.com

[iii] Na realidade, os números são distintos: a maioria dos relatórios de organismos como a OCHA ou Pt (da ONU) sustentam que só a superfície da “Área C” constitui 62% da Cisjordânia, enquanto as Áreas “A” e “B” juntas constituem 38%. (Nota de María Landi.)

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LIT-CI – Liga internacional de los trabajadores – Cuarta Internacional

“A solução é um só Estado para israelenses e palestinos”

Internacional

Israel / Palestina

“A solução é um só Estado para israelenses e palestinos”

Para Jeff Halper, diretor do Comitê Israelense Contra a Demolição de Casas (ICAHD), derrubada de residências de palestinos é “campanha sistemática de limpeza étnica”

por Marsílea Gombata— publicado 18/11/2013 09:56, última modificação 18/11/2013 10:20

Marsílea Gombata

À esquerda, um assentamento judeu, mais rico e organizado. À direita, um assentamento palestino, marcado pela precariedade

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De Kfar Saba, Israel

A demolição de residências de palestinos nos territórios ocupados é parte de um processo deliberado e planejado para expulsar a minoria árabe do Estado de Israel, representando uma campanha sistemática de limpeza étnica. A afirmação é de Jeff Halper, diretor do Comitê Israelense Contra a Demolição de Casas (Icahd) em Jerusalém, organização que trabalha em campo contra a remoção de palestinos da Cisjordânia. Apesar de admitir que “nada pode deter a demolição de casas”, Halper diz em entrevista a CartaCapital acreditar que a sociedade civil pode criar fortes pressões para manter o assunto vivo e pressionar Israel.

Segundo o Icahd, os números estão atingindo um nível preocupante. Se em 2009 foram 275 estruturas demolidas e 643 árabes desalojados, em 2011 houve 622 demolições e 1094 pessoas que ficaram sem casas. Neste ano, até agora, os território ocupados foram palco de 550 estruturas demolidas, 900 pessoas desalojadas e mais de 3340 palestinos feridos nas operações de demolição perpetradas pelas Forças de Defesa de Israel. “A situação atual é insustentável. E o controle de Israel, por mais forte que seja hoje, não pode manter-se a longo prazo”, afirmou Halper. Para o ativista, indicado ao Nobel da Paz em 2006, a única saída possível para o fim do conflito é a solução baseada em um só Estado, no qual israelenses e palestinos viveriam juntos. “Apoio a ideia de um Estado binacional no qual todos os cidadãos têm o voto para um parlamento comum. Parece utópico agora, mas depois do colapso do status quo, que eu espero que ocorra em breve, novas possibilidades se abrirão.”

Confira os principais trechos da entrevista:

CartaCapital – Como o Comitê Israelense Contra Demolições (ICAHD) de Casas trabalha?

Jeff Halper – O ICAHD é uma organização não violenta, de ação direta e dedicada a dar fim tanto à ocupação de Israel quanto ao processo de paz entre israelenses e palestinos. Acreditamos que a ocupação dos colonos nos assentamentos está destruindo Israel assim como a sociedade palestina. O foco da nossa resistência é contra a política de ocupação de Israel de demolir de maneira sistemática a casa de palestinos na Cisjordânia. Desde 1967 cerca de 28 mil casas foram destruídas na Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental, deixando famílias desalojadas, destituídas, vivendo em meio a traumas e medo. Com foco nesse tipo de ação, de resistir de forma física a tais demolições e também de reconstrução dessas casas, queremos mostrar como a ocupação israelense funciona (contrariando a justificativa israelense de que trata-se de uma questão de “segurança”) e mostrando quais são as intenções de Israel (eliminar a solução de dois Estados) e qual o custo humanitário por trás disso. A partir do nosso trabalho em campo, somos capazes de desenvolver uma análise poderosa do conflito, o que pode levar o mundo a campanhas de sensibilização dirigidas à mobilização da sociedade civil internacional.

CC – Quantas famílias palestinas são desalojadas por ano pelos colonos judeus?

JH – Os números variam. Desde 1967, Israel demoliu cerca de 28 mil casas palestinas nos territórios ocupados, a maioria em invasões militares (na Operação Chumbo Fundido em Gaza em 2008/9, cerca de 4 mil casas foram destruídas), mas também porque Israel se recusa a conceder licenças de construção aos palestinos, e, assim, acaba destruindo suas casas “ilegais”. Até agora neste ano Israel demoliu mais de 550 estruturas – casas inacabadas, assim como inabitadas – e desalojou 900 pessoas. É importante entender que Israel destrói as casas de seus próprios cidadãos dentro do Estado de Israel (todos árabes, sejam cidadãos palestinos ou beduínos de Israel). A aldeia beduína de Al Arakib, no Negev, é a mais representativa, uma vez que teve 53 estruturas demolidas. As demolições representam uma campanha sistemática de limpeza étnica, e isso vem acontecendo em todo o país, de 1948 até o presente.

CC – Quais as histórias mais dramáticas com as quais o senhor se deparou?

JH – A família Shawamreh (Salim, Arabiya e seus sete filhos) teve sua casa na cidade de Anata, na Cisjordânia, perto de Jerusalém, demolida e reconstruída seis vezes. A história deles é uma das mais dramáticas sobre como famílias palestinas lutam para manter suas casas. [Depois de ser demolida pela primeira vez em julho de 1998, a casa da família Shawamreh foi reconstruída em agosto do mesmo ano. Em 2001, passou novamente por uma demolição e depois por uma reconstrução em abril. Passou pela terceira vez pelo mesmo processo em abril de 2003 e novamente pelo quarto em agosto daquele ano. Foi novamente demolida em janeiro de 2012 e reconstruída em agosto. Quatro meses depois, foi demolida pela sexta vez, para ser reerguida como Memorial de Demolição e Desalojamento em agosto de 2013.]

CC – O que poderia, na sua opinião, deter as demolições nos territórios ocupados? De que maneira o governo israelense poderia lidar com isso de uma maneia menos traumática?

JH – Nada pode parar a demolição de casas. Elas são parte de um processo deliberado e planejado em que palestinos e beduínos são confinados a pedaços minúsculos do país ou sujeitos a condições de vida tão miseráveis que simplesmente os obrigam a migrar. Fazer com que as demolições sejam um processo dramático é atualmente parte de uma estratégia que usa medo e intimidação para dissuadir os palestinos de construir suas casas e lhes dar a sensação de que nunca estarão seguros e nunca terão uma casa ou terra sua.

CC – Como o senhor enxerga o Muro da Cisjordânia, que separa territórios palestinos do restante do Estado de Israel?

JH – O Muro de Separação tem duas funções: 1. Ele define os três “cantões” palestinos (termo israelense) aos quais são confinados: norte, centro e sul da Cisjordânia, fora Gaza e parte de Jerusalém; 2. Também incorpora os principais blocos de assentamentos em Israel. Não tem, absolutamente, nenhuma função de segurança ou lógica envolvida. Na verdade, separa ainda mais palestinos de palestinos, e não palestinos de israelenses.

CC – No nível internacional, quem poderia pressionar o governo de Israel?

JH – Governos, incluindo o Brasil, poderiam forçar Israel a deixar os territórios ocupados e, assim, ajudar a salvar a solução de dois Estados. Mas, certamente, não farão isso. A vontade de pressionar Israel a se retirar é totalmente esvaziada – em parte porque ninguém quer entrar em uma briga com os EUA. Israel é, também, aliado da maioria dos países (vende armas e apoio técnico para da polícia para o Brasil). A União Europeia é o maior parceiro comercial de Israel e poderia pressioná-lo, mas não vai (como a própria Alemanha já antecipou). Nossa estratégia, portanto, é mobilizar a sociedade civil – sindicatos, igrejas, grupos universitários, de direitos humanos e organizações políticas etc –, a fim de mudar a opinião pública e colocar pressão sobre os governos. É por isso que buscamos trabalhar internacionalmente.

CC – Afinal, o processo de paz existe, na opinião do senhor?

JH – Não, não existe um processo de paz. Israel acredita que isso está superado, pacificou a tensão com os palestinos, eliminou a solução de dois Estados, incorporou os assentamentos para si, assumiu o controle permanente de todo o país, e que a comunidade internacional não fará nada para detê-lo. Se as “negociações” com o secretário de Estado americano, John Kerry, falharem (e irão), os EUA e os outros países aceitarão o status quo; eles nunca vão apoiar a solução de um Estado.

CC – Como a paz pode deixar de ser uma utopia?

JH – Eu acredito que, assim como com a África do Sul, a sociedade civil pode criar fortes pressões para forçar os governos a agir – ou pelo menos manter o assunto vivo para Israel não poder “ganhar” e fazer a pauta desaparecer. Isso é o que campanhas como a BDS [Boicote, Desivestimento e Sanções] e outras, como nosso advocacy [grupo de pressão] internacional, estão fazendo. Acredito que a situação atual é insustentável – e muito perturbadora. E o controle de Israel, por mais forte que pareça hoje, não pode se manter a longo prazo. Quando Kerry falhar, a Autoridade Palestina talvez colapse e Israel se veja obrigado a reocupar cidades palestinas (até mesmo Gaza). E, então, o mundo será forçado a agir.

CC – A paz pode ser alcançada com um acordo territorial? Como ele seria?

JH – A única saída possível é a solução baseada em um Estado. Apoio a ideia de um Estado binacional no qual todos os cidadãos têm o voto para um parlamento comum. Parece utópico agora, mas depois do colapso do status quo, que eu espero que ocorra em breve, novas possibilidades se abrirão.

*A repórter foi enviada por CartaCapital para Israel para participar do curso Os Meios de Comunicação em Zonas de Conflito, promovido pelo Ministério das Relações Exteriores israelense