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Será que o problema está no Islã?

Onda de protestos no Oriente Médio pedindo governos mais democráticos faz com que questionemos o por quê de as revoltas terem demorado tanto tempo

08 de março de 2011 | 0h 00

Nicholas D. Kristof*, do The New York Times – O Estado de S.Paulo

Um sábio visitante de outro planeta que tivesse pousado na Terra mil anos atrás poderia imaginar que a América acabaria sendo colonizada não pelos primitivos europeus, e sim pela civilização árabe, mais avançada. Mas, perto do ano de 1.200, o Oriente Médio mergulhou num prolongado intervalo: a região viveu uma estagnação econômica, sendo hoje marcada pelos altos índices de analfabetismo e pela presença dos regimes autocráticos.

 

Assim, enquanto estes países testemunham a erupção de protestos pedindo a democracia, vem à tona uma pergunta básica: por que demorou tanto? E a esta pode ser acrescentada uma pergunta politicamente incorreta: poderíamos atribuir o relativo atraso à presença do Islã? O sociólogo Max Weber e outros estudiosos defenderam que o Islã representa inerentemente uma base precária para o capitalismo. Mas isso não soa correto. Outros especialistas notam que sob certos aspectos o Islã se mostra mais predisposto aos negócios do que outras grandes religiões.

O Oriente Médio era um centro global de cultura e comércio no século 12, por isso, se o Islã sufoca os negócios hoje, por que não o fazia naquela época? Muitos árabes têm uma teoria alternativa para o motivo por trás do atraso da região: o colonialismo ocidental. Mas isso também soa suspeito e propõe uma sequência equivocada dos fatos. “Apesar do que dizem os descontentes, o período colonial trouxe transformações fundamentais para o Oriente Médio, e não a estagnação; houve uma melhoria na alfabetização e na educação, e não uma difusão da ignorância”, afirma Timur Kuran, historiador da Universidade Duke. Kuran oferece a melhor explicação já vista para os motivos que levaram ao atraso do Oriente Médio.

Depois de analisar antigos registros contábeis, ele defende que o grande obstáculo para o desenvolvimento do Oriente Médio não foi propriamente o Islã, nem o colonialismo, mas várias práticas legais islâmicas secundárias que atualmente perderam a relevância.

Um dos obstáculos foi a lei das heranças. Os sistemas ocidentais geralmente transmitiam toda a propriedade intacta ao filho mais velho, preservando assim as grandes fortunas. Em comparação, a lei islâmica estipulava uma partilha muito mais justa dos bens, mas isso significou a fragmentação de grandes propriedades. Como consequência, a acumulação privada de capital nunca atingiu as proporções necessárias para sustentar grandes investimentos e promover uma revolução industrial.

Estes impedimentos tradicionais não representam mais um problema no século 21. Assim, se o diagnóstico de Kuran estiver correto, a região pode estar prestes a viver dias melhores.

Mas um dos desafios é psicológico. Muitos árabes culpam os estrangeiros por seu próprio atraso, e enfrentam este sentimento por meio da recusa da modernidade e do mundo exterior. É uma tragédia que uma região antes conhecida pelos méritos de sua ciência e cultura seja hoje marcada pelo atraso no ensino.

A Irmandade Muçulmana costuma usar o slogan “O Islã é a solução”. E, para o Ocidente, a impressão nunca enunciada despertada pelo melancólico panorama do Oriente Médio tem sido: “O Islã é o problema”. A pesquisa de Kuran sugere que, ao menos com relação ao futuro, uma visão mais correta seria: o Islã não é o problema nem é a solução, mas apenas uma religião – o que significa que o intervalo acabou, não há mais desculpas, e chegou a hora de avançar novamente.
* É COLUNISTA
** TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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