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Palestina: a solução final e José Saramago

 

 

As imagens da força militar israelense vêm se transmitindo a todo o mundo. Soldados disparando na cabeça dos feridos. Tanques desmoronando as paredes das casas, dos escritórios e do quartel de Arafat. Centenas de crianças e homens com a cabeça coberta com capuchas enquanto são levados para campos de concentração à ponta de rifles. Helicópteros de combate destruindo mercados; tanques arrasando oliveiras, laranjeiras e limoeiros. As ruas de Ramallah devastadas. Mesquitas e escolas cheias de impactos de balas; os desenhos das crianças feitos em pedaços, crucifixos despedaçados, paredes com os grafites dos meliantes.

 

Milhares de palestinos cercados por tanques; com eletricidade cortada, água, serviço telefônico e comida. As tropas de assalto derrubam portas e destroçam móveis e utensílios de cozinha, tudo que for indispensável para a vida. Alguém pode ignorar que os israelenses estão praticando o genocídio contra um povo inteiro, amontoado nos porões sob as ruínas de suas casas? Aos sobreviventes, entre feridos e moribundos, deliberadamente são negados toda assistência médica, devido à decisão sistemática e metódica do Alto Comando israelense de bloquear todas as ambulâncias, prender, e inclusive disparar contra seus motoristas e médicos de emergência. Os descendentes do Holocausto reivindicam para si, com hipocrisia e rancor, o monopólio deste termo, que melhor descreve o ataque a todo um povo com a cumplicidade da maioria dos israelenses. Temos o duvidoso privilegio de ver e ler enquanto este horror ocorre e salvar algumas poucas almas valentes.

O público israelense, seus meios de comunicação, intelectuais e jornalistas se escandalizaram quando o autor português José Saramago, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, enfrentou-os com uma verdade histórica: “o que está sucedendo na Palestina é um crime que podemos comparar com o que ocorreu em Auschwitz”.

Em lugar de refletir acerca de suas ações violentas, a opinião pública de Tel Aviv se voltou contra Saramago por ter se atrevido a compará-la com os nazistas. Em sua cegueira moral, Amoz Oz, escritor israelense e algumas vezes pacifista (qualidade que subsiste até que seu país entre em guerra), acusou Saramago de “anti-semita” e de ter uma “incrível cegueira moral”. A profunda imoralidade de uma guerra contra toda uma população é um crime contra a humanidade. Não há exceções. São precisamente aqueles intelectuais israelenses e da diáspora, que dizem ser “progressistas”, que têm exposto sua própria cegueira nacional e covardia moral, encobrindo a apologia do terror israelense atual com os sudários das vítimas do Holocausto de 50 anos atrás.

Só há que se ler a imprensa israelense para entender a validez da analogia histórica de Saramago. Todos os dias, líderes respeitáveis e proeminentes, eleitos pelos eleitores israelenses, “bestializam” seus adversários palestinos, sobretudo para justificar sua própria violência desmedida. De acordo com o jornal Ma’ariv, citado por Robert Fisk, um oficial do exército sugere que suas tropas estudem as táticas adotadas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial: “se nosso trabalho é tomar campos de refugiados densamente povoados ou nos apoderar da Casbah de Nablus, um oficial deve tomar em conta as lições das batalhas passadas, inclusive analisar a maneira em que os alemães atuaram no gueto de Varsóvia”.

Quando a imprensa de Israel tachou Saramago de anti-semita, estava disposta a estender essa calúnia aos oficiais de seu exército, às suas tropas, por elas se basearem nas mesmas analogias? Acaso os oficiais israelenses dirão meramente que “cumpriam ordens” ao explodirem as edificações com mulheres, crianças e idosos dentro?

Nos foros mundiais, desde a União Européia até as Nações Unidas e o terceiro mundo, condena-se Israel por seus atos contra a humanidade. Os defensores de Tel Aviv verão que qualificar os críticos como “anti-semitas” já não intimida a ninguém. A opinião pública mundial tem visto e lido muito. Estamos nos dando conta que as vítimas podem se converter em vitimários; que a ocupação militar leva à limpeza étnica e às expulsões em massa; que os arranhões podem acabar em gangrena.

Como era previsível, Washington serve às organizações judias e aos militaristas da extrema direita; é o único governo no mundo que acolhe o terror do Estado israelense contra os líderes de confissão muçulmana e cristã, e que é contrario aos interesses das maiores companhias petrolíferas e seus aliados sauditas e kuwaitianos.

Embora grupos reduzidos de dissidentes israelenses protestem e muitos reservistas se recusem a servir no exército de ocupação, o comentário de Saramago acerca do público em geral de Israel também se aplica à maioria da diáspora que defende este país: “Um sentido de impunidade caracteriza hoje em dia a população israelense e seu exército. Tornaram-se financiadores do Holocausto”. Como um bom Estado-polícia, o governo de Tel Aviv retirou os livros de Saramago das livrarias e bibliotecas. Igualmente importante para empreender uma política de genocídio é proibir, como têm feito, a entrada de qualquer jornalista nos guetos palestinos, salvo os encarregados de escrever os boletins de imprensa do exército israelense.

Como na Alemanha nazista, juntam todos os homens palestinos entre 16 e 60 anos; a muitos arrancam as roupas até deixá-los nus, os algemam, interrogam, e torturam. Famílias dos combatentes da resistência palestina são seqüestradas e privadas de água, comida e eletricidade. Soldados israelenses saqueiam casas e roubam objetos de valor, destruindo os móveis. Como sucedia no regime nazista, deixam centenas de feridos palestinos morrerem, um vez que proíbem a passagem das ambulâncias. Centenas de milhares enfrentam a ameaça da desidratação e a morte por inanição, já que o fornecimento de comida e água foi cortado. Tropas, tanques e helicópteros israelenses irromperam nos povoados, cidades e campos de refugiados principais: Tulkarem, Al Bireh, Belém, Beit Jala, Qalqilya, Hebron.

Bastam descobrir um só combatente da resistência para culparem e castigarem de maneira coletiva: pais, filhos, tios e vizinhos são cercados e levados a estádios de futebol e parques de diversão para crianças, acondicionados como campos de concentração.

É evidente que a indignação israelense e judia provocada pela analogia que Saramago fez do terrorismo de Tel Aviv com Auschwitz tocou no ponto fraco: o ódio a si mesmos, dos verdugos que sabem que são discípulos de seus perseguidores do passado e que, a toda custa, devem negar isso. Até agora, todos os chamados dos moderados árabes a que Bush intervenha e ponha um fim ao massacre têm sido inúteis. Washington reiterou seu apoio a Sharon e à invasão e guerra contra os palestinos. Ninguém nos Estados Unidos pode alguma coisa contra o dinheiro e a influência do lobby israelense e seus poderosos aliados judeus. Em outras partes, no entanto, há esperança. Via Campesina e os seguidores de José Bové pediram o boicote internacional aos bens e serviços de Tel Aviv, cuja economia depende amplamente de suas exportações para a União Européia. Reduções nas transações de petróleo por parte dos países exportadores, particularmente Arábia Saudita, Kuwait, Iraque, Irã e Líbia poderiam provocar uma alta importante nos preços do petróleo e uma crise econômica nos Estados Unidos, Europa e Japão. Isto poderia produzir calafrios nos europeus e despertar a consciência do público estadunidense. O que está absolutamente claro é que enquanto Tel Aviv conserve seu peso no lobby judeu em Washington e com o apoio de Bush, as resoluções das Nações Unidas, as convenções de Genebra e os apelos da Europa continuarão sendo completamente ignorados.

Na mentalidade obtusa de Sharon e seus paranóicos seguidores, todos eles são anti-semitas, seguidores dos Protocolos de Sião, que tentam desmoralizá-los para impedir que realizem a missão bíblica da Grande Israel, de um povo, uma nação, um Deus, e expulsem a todos os palestinos de sua Terra Prometida. A opinião pública mundial não deve permanecer na passividade e permitir que a tragédia do Holocausto do século XX se repita no XXI. Ainda há tempo. Porém, quanto tempo mais consegue um povo, por mais heróico que seja, resistir sem água nem comida? A oferta que Sharon fez a Arafat “liberdade de ir embora sem possibilidade de volta” está projetada para todo o povo palestino.

[Artigo tirado sitio web ‘Indymedia-Brasil’7 de abril de 2002]

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