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Os 40 anos da Guerra dos Seis Dias 09/06/2007

Os 40 anos da Guerra dos Seis Dias

09/06/2007


5 de Junho de 1967 (1)

Quem tem 50 anos, ou mais, seguramente já ouviu falar dessa guerra famosa. Mesmo quem tem menos idade e gosta de história, especialmente do Oriente Médio ou história militar, sabe o que foi essa guerra. Era uma manhã de segunda-feira, 7h10 (há fontes que falam 7h45, mas isso não importa) do dia 5 de junho de 1967. No calendário judaico era o mês de “Sivan”.

O clima de tensão no Oriente Médio estava elevado. Faziam 19 anos que Israel havia sido criado pela ONU. Gamal Abdel Nasser, fundador do movimento Pan-Arabista, patriota árabe e nacionalista, que nacionalizou o Canal de Suez tirando-o das mãos da Inglaterra e dos americanos, havia tomado uma série de medidas duras no mês de maio. As massas árabes queriam participar. Nasser, em 16 de maio exige que a ONU retire todos os seus soldados (“capacetes azuis”) da Península do Sinai, onde estavam estacionados desde 1956. No dia 21, Nasser recupera e nacionaliza o balneário famoso, até os dias atuais, de Sharm El-Sheik. No dia seguinte, ele fecha o estreito de Tiran, a única passagem de Israel no Golfo de Áqaba, que dava acesso aos seus navios ao mar Vermelho e ao Oceano Índico.

Israel decide agir. O alto comando do estado do exército não tinha certeza de que seria vitorioso. Mas avaliava que se não agisse poderia perder a qualquer momento a um ataque fulminante dos egípcios. E sabia que deveria deter a aviação do Egito. Dito e feito. Em não mais do que duas horas, até meados daquela manhã ensolarada de 5 de junho, 300 dos 450 aviões egípcios estavam destruídos no solo sem que pudessem sequer levantar vôo além de dezenas de pilotos mortos. Um ataque mortal. Todas as pistas dos aeroportos foram bombardeadas, destruídas o que impossibilitou que os aviões que restaram ficassem impedidos de levantar vôo.

Os estudiosos militares falam que essa foi uma batalha das mais importantes da história. Israel derrotou de uma só vez, mesmo sendo numericamente menor em termos de quantidades de soldados, três dos maiores exércitos árabes: do Egito, da Síria e da Jordânia. E foi uma guerra de apenas e tão somente seis dias.

Veja o que ocorreu nesses dias de junho de 1967:

1º Dia – 5/6 – Quase toda a aviação egípcia fora destruída no solo sem que pudessem sequer alçar vôo para o combate por ar;

2º Dia – 6/6 – Israel conquista a faixa de Gaza, administrada pelo Egito desde 1948. Passa a atacar a Cisjordânia;

3º Dia – 7/6 – Pára-quedistas de Israel tomam a cidade velha de Jerusalém, conhecida como a parte “Oriental”, cidade velha e mais de 350 mil palestinos iniciam a fuga em massa (a segunda desde 1948). Israel conquista o Muro das Lamentações e outros pontos de peregrinação sagrados do povo judeu. A Jordânia aceita o cessar fogo proposto pela ONU;

4º Dia – 8/6 – Israel completa a tomada total da península do Sinai, chegando ao Canal de Suez. O general Sharon é um dos que lidera essa frente de combate. O Egito aceita o cessar fogo e tecnicamente, rende-se à Israel;

5º Dia – 9/6 – Tanques de Israel iniciam os combates ao norte do país, tentando dominar as Colinas de gola da Síria. Nasser acusa os EUA e a Inglaterra de apoiarem Israel;

6º Dia – 10/6 – Israel toma completamente as Colinas de Golã. A Síria aceita o cessar fogo. A guerra termina com uma vitória estrondosa de Israel e uma derrota momentânea dos árabes.

Israel vence uma batalha ou a guerra?

Todos conhecem o provérbio popular que diz “venceu uma batalha, mas ainda não venceu a guerra”. Nesta caso, fala-se que Israel venceu a Guerra dos Seis Dias. Tecnicamente isso talvez seja verdade. No entanto, devemos olhar as coisas em perspectiva histórica, dialeticamente, tendo em conta o movimento da vida real. E hoje, mesmo com toda a expansão que o Estado judeu teve em toda a sua história de quase 60 anos, nunca se viveu um período de tanta tensão na região como o de agora, em que pese terem passados 40 anos.

Não se pode falar em vitória israelense hoje, olhando em perspectiva. A população árabe herdada por Israel, de quase um milhão de pessoas (fora os quase um milhão obrigados a fugir para os países vizinhos), chega hoje a praticamente cinco milhões, o mesmo número de judeus que vivem nos territórios de Israel ampliado. A tensão em Jerusalém continua elevada, pois Israel insiste em dizer ao mundo que essa é uma cidade sagrada apenas para os judeus, desconsiderando os cristão e os muçulmanos.

Alguns judeus discordaram das atitudes, da agressão violenta, da subjugação de um povo pelo outro através das armas. Que isso não seria o objetivo histórico do povo judeu. Isso criou sérios problemas de fronteiras de Israel com todos os seus vizinhos árabes e mesmo tendo estabelecidos certos acordos de paz com a Jordânia e com o Egito, ainda esta tecnicamente em guerra com a síria com a qual se recusa a dialogar (os EUA estimulam que o diálogo não ocorra com a Síria, a quem acusa de financiar o terrorismo na região, especialmente o Hamas e o Hezbolláh).

A partir de setembro de 1967, começam a surgir na Cisjordânia dos primeiros assentamentos judaicos. Foi quando surgiu o Kfar Etzion. Hoje se estima que existam ainda nessa região pelo menos 200 assentamentos judaicos em terras palestinos onde vivem, segundo algumas fontes, até 300 mil judeus, os mais ortodoxos e contrários a qualquer acordo de paz com os palestinos.

O que se viu nos dias que se seguiram à expansão israelense, ao que alguns chamam da criação do Eretz Israel (Grande Israel, do Nilo ao Eufrates) foi uma forte euforia do lado dos judeus e uma profunda dor e humilhação do lado dos árabes e palestinos. Isso abriria feridas profundas nos relacionamentos entre os dois povos até hoje nunca cicatrizadas.

O contexto em que a Guerra dos Seis dias se deu foi a do auge da guerra fria. Os EUA apoiaram abertamente a decisão do governo israelense na invasão e expansão israelense, que se fortaleceu no cenário político internacional, criou fama de invencível com seu exército. Mas, a partir daí surgiu a OLP, Organização para a Libertação da Palestina, criada por Yasser Arafat. A ocupação e humilhação do povo palestino acabou dando a esse sofrido povo o sentido de necessidade de luta e de unidade nacional. Surge a resistência armada à ocupação, mas surge também, algumas décadas depois, os atentados violentos, homens bomba, ataques a alvos civis judaicos e surge o fundamentalismo islâmico em toda a região.

 

A mídia grande, completamente pró-Israel e anti-árabe e palestina tem mostrado em seus jornais destes primeiros dias de junho várias matérias e fotos da época da guerra. Interessante que mostram os tanques israelenses bombardeando e os soldados judeus vitoriosos. Mas pouco se mostra da humilhação dos árabes, de sua expulsão das suas terras, das suas moradias em acampamentos precários. Até soldados israelenses que ocuparam Jerusalém há 40 anos, são mostrados nas fotos atuais, já idosos nos mesmos locais onde estiveram nessa cidade sagrada. Mas, os palestinos são ignorados.

Pouco se fala da resolução unânime da ONU, de número 242, que exige a retirada israelense de todos os territórios palestinos ocupados. Que as fronteiras voltem a antes da Guerra dos Seis Dias de 1967. Essa é a chave para qualquer conversa de paz na região. A troca de terras pela paz. Ainda assim, faltará discutir a volta dos refugiados e o status de Jerusalém, que deve ter uma administração internacionalizada sob supervisão da ONU.

 Uma triste guerra que “comemora” em 5 de junho os seus 40 anos, um número “redondo”. Mas, para os palestinos, nada há a ser comemorado.

Nota

(1) Utilizamos dos seguintes artigos para escrever a presente coluna semanal: “Vitória de 1967 pesa sobre Israel”, de Marcelo Ninio, publicado na Folha de 3/6/07; “Seis dias de guerra, 40 anos de tensão”, de Christoph Schult, do Der Spiegel, publicado no Estadão de 03/06/07; “Guerra dos Seis Dias faz 40 anos”, publicado no Correio Popular de 4/06/07; “40 anos após guerra, tensão sobe em Israel”, de Marcelo Ninio, publicado na Folha de 05/06/07.
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Lejeune Mato Grosso, sociólogo da Fundação Unesp, arabista e professor. Vice-presidente do Sindicato dos Sociólogos, membro da Academia de Altos Estudos Ibero-árabe de Lisboa e da
International Sociological Association.

http://www.vermelho.org.br

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