O SIONISMO E A TRAGÉDIA DO POVO PALESTINO Reviewed by Momizat on . Os “escravos enfurecidos” e o sermão da “complexidade”. Em Durban, por ocasião da Conferência internacional sobre racismo promovida pela ONU, três mil organizaç Os “escravos enfurecidos” e o sermão da “complexidade”. Em Durban, por ocasião da Conferência internacional sobre racismo promovida pela ONU, três mil organizaç Rating: 0

O SIONISMO E A TRAGÉDIA DO POVO PALESTINO

Os “escravos enfurecidos” e o sermão da “complexidade”.
Em Durban, por ocasião da Conferência internacional sobre racismo promovida
pela ONU, três mil organizações não governamentais provenientes de todo o mundo
condenaram com palavras candentes Israel por causa da opressão nacional e da
discriminação infligidas aos palestinos, da ferocidade de uma repressão militar que não
se detém nem mesmo diante de “atos de genocídio”. Mais timidamente agiram as
delegações oficiais. A perseverante cumplicidade da União Européia para com Israel
privou o documento final de muito de sua força. E, contudo, talvez pela primeira vez
na história, o Ocidente capitalista e imperialista foi obrigado de modo tão solene a
sentar-se no banco dos acusados, foi posto com força diante de algumas páginas de sua
história, constantemente recalcadas, que vão do tráfico dos escravos negros ao martírio
do povo palestino. A fuga indecorosa das delegações norte-americana e israelense selou
o ulterior isolamento daqueles que hoje são os responsáveis de crimes horríveis contra
a humanidade e os piores inimigos dos direitos do homem. Trata-se de um resultado de
importância extraordinária. E, contudo, até mesmo à esquerda não faltaram aqueles
que torceram o nariz. Dando-se ares professorais em relação aos palestinos, convidaram-
nos a moderar o tom: sim, a crítica a Israel pode ser justa, mas por que trazer à
discussão o sionismo e por que acusá-lo até de racismo? Em seu tempo Fichte, troçando
da leviandade de certos discursos relativos aos “excessos” da Revolução francesa,
exprimiu o seu desprezo por aqueles que, estando em segurança e continuando a gozar
de todas as comodidades da vida, pretendem pregar a moral aos “escravos enfurecidos”
e decididos a tirar dos ombros a opressão. Não contentes com a lição de moral, os
atuais professores do povo palestino pretendem também dar uma lição de epistemologia:
pôr em acusação o sionismo enquanto tal – eles sentenciam – significa perder de vista
O sionismo e a
tragédia do povo
palestino*
DOMENICO LOSURDO * *
* Publicado na revista italiana L’ERNESTO, 4/2001 de 01/07/2001. Tradução de Modesto
Florenzano.
* * Filósofo italiano; autor, entre outros, de Liberalismo. Entre civilização e barbárie; Democracia
ou bonapartismo; Gramsci. Do liberalismo ao “comunismo crítico”.
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a “complexidade” deste movimento político, caracterizado pela presença no seu interior
de correntes muito diversas entre si, de direita, de esquerda e até mesmo de uma
esquerda de orientação socialista e revolucionária. Na realidade, a se seguir de maneira
coerente a metodologia aqui sugerida, não é somente com relação ao sionismo que
seremos obrigados a calar. Em 1915, a intervenção da Itália no primeiro conflito mundial
foi por alguns círculos reivindicada com palavras de ordem explicitamente
expansionistas e imperialistas, por outros como uma contribuição à causa do triunfo
da democracia e da paz a nível mundial. Mas, pelo menos para os comunistas, não
deveria haver dúvidas sobre o fato de que se tratava de uma guerra imperialista em
todos os sentidos, não obstante as boas intenções e a sinceridade democrática e até
mesmo revolucionária dos seguidores do “intervencionismo democrático”.
Sirvamo-nos de outro exemplo. Não há dúvida de que o colonialismo em certos
casos assumiu um caráter explicitamente exterminador (que se pense em particular no
nazismo, mas também, anteriormente, aos que fizeram os aborígines australianos e
outros grupos étnicos desaparecer da face da terra), ao passo que outras vezes deteve-se
no limiar do genocídio. No fim do século XIX a expansão colonial do Ocidente na
África desenvolveu-se agitando a palavra de ordem da libertação dos escravos negros,
enquanto alguns decênios mais tarde Hitler promove a colonização da Europa oriental
com o objetivo declarado de obter a massa de escravos de que necessita a “raça dos
senhores” arianos. Se o Terceiro Reich, no curso de sua marcha expansionista, enaltece
as virtudes purificadoras e regeneradoras da guerra, o colonialismo, em certos momentos
de sua história (por ocasião da sanguinária expedição conjunta das grandes potências
para a repressão da revolta dos Boxers na China), não hesitou em se auto-celebrar
por sua contribuição decisiva para a causa da paz perpétua1.
Seria errado ignorar aqui a “complexidade” do fenômeno histórico em exame
e suas diferenças internas, as quais, contudo, não nos podem impedir de pronunciar
um juízo sobre o colonialismo enquanto tal: mesmo no caráter múltiplo e matizado
das suas manifestações, o colonialismo é sinônimo de pilhagem e de exploração, e
implicou em guerra, em agressão e na imposição em larga escala de formas de trabalho
forçado em dano das populações coloniais, mesmo quando se declarou movido
pelo intento humanitário de promover a realização da paz perpétua e a abolição da
escravidão, e mesmo quando alguns expoentes políticos ou alguns ideólogos das
grandes potências do Ocidente acreditaram sinceramente em tais boas intenções!
Sionismo e colonialismo
Não escolhi por acaso o exemplo do colonialismo. Uma pergunta logo se impõe:
existe alguma relação entre sionismo e colonialismo? Não há dúvida de que o
1 Vladimir Lênin, Opere Complete, vol. XXXIX, Editori Riuniti, Roma, 1955, p. 654.
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sionismo, mesmo na multiplicidade dos seus componentes, se caracteriza por uma
palavra de ordem inequívoca: “uma terra sem povo para um povo sem terra”! Estamos
em presença da ideologia clássica da tradição colonial, que sempre considerou res
nullius, terra de ninguém, os territórios conquistados ou cobiçados e sempre teve a
tendência a reduzir a uma grandeza insignificante as populações indígenas. Ademais
da ideologia, o sionismo toma de empréstimo da tradição colonial as práticas de
discriminação e opressão. Bem antes da fundação do Estado de Israel, já no curso da
Segunda Guerra mundial, quando se estabelecem na Palestina os sionistas programam
a deportação dos árabes. “Deve ficar claro que não há lugar para todos os dois
povos neste país”; faz-se necessário “transferir os árabes para os países confinantes,
transferi-los todos”: inequívoco é o programa enunciado no final de 1940 por um
dirigente de primeiro plano do movimento sionista. Sobre isso chama a atenção
Edward W. Said2; e se o iminente intelectual palestino devesse resultar suspeito,
tenha-se presente que, em outubro de 1945, Hannah Arendt condena com veemência
os planos – que, no entanto, depois do fim da Segunda Guerra mundial, se
tornaram muito concretos – de “transferência dos árabes da Palestina para o Iraque”3.
Aqui, com um gracioso eufemismo, fala-se de “transferência” ao invés de deportação.
Mas, três anos depois, Arendt descreve de modo preciso a violência terrorista
desencadeada contra a população árabe. Eis a sorte reservada a Deir Yassin:
“Esta aldeia isolada e circundada de território hebraico não tinha participado da
guerra e havia até mesmo proibido o acesso a bandos árabes que queriam utilizar
a aldeia como ponto de apoio. No dia 9 de abril [1948], segundo o New York
Times, bandos terroristas [sionistas] atacam a aldeia, que no decorrer dos combates
não representava nenhum objetivo militar, e matam a maioria da sua população
– 240 homens, mulheres e crianças; deixam uns poucos com vida para fazê-los
desfilar como prisioneiros em Jerusalém”.
Não obstante a indignação da grande maioria da população judaica, “os terroristas
se orgulham do massacre, tratam de lhe dar ampla publicidade convidando todos os
correspondentes estrangeiros presentes no país para verem os montes de cadáveres e a
devastação generalizada em Deir Yassin”4. Não há dúvida: nem todos os componentes e
os membros individuais do movimento sionista se comportam dessa maneira, e seja
como for a promover a fundação do Estado de Israel estão também sionistas com uma
2 Edward Said, La questione palestinese. La tragedia di essere vittima delle vittime, trad.
Italiana Gamberetti, Roma, 1995, pp. 103-6
3 Hannah Arendt, Ebraismo e modernitá, org. G. Bettini, Unicopoli, Milão, 1986, p. 83.
4 Hannah Arendt, Essays & Kommentare, orgs. E. Geisel e K. Bittermann, Tiamat, Berlim,
vol. II: Die Krise des Zionismus, 1989,.pp. 114-5.
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longa história de esquerda às costas; mas nenhum comunista, bem como nenhum democrata,
pensaria em justificar o comportamento da social-democracia alemã, por ocasião
do início e no curso da primeira guerra mundial, com o argumento das grandes lutas
populares conduzidas por esse partido no passado e do prestígio internacional por esse
modo acumulado. De resto, olhemos mais de perto a esquerda sionista, fiando-nos ainda
na análise e no testemunho de Arendt. Também ela faz referência ao “movimento nacional
judaico social-revolucionário”, e eis como o caracteriza: trata-se de círculos certamente
empenhados no prosseguimento de experiências coletivistas e de uma “rigorosa realização
da justiça social no interior de seu pequeno círculo”, mas, quanto ao resto, prontos a
apoiar os objetivos “chauvinistas”. No conjunto estamos em presença de um “conglomerado
absolutamente paradoxal de tentativas radicais e reformas sociais revolucionárias em
política interna, e de métodos antiquados e totalmente reacionários em política externa,
ou seja, no campo das relações entre judeus e outros povos e nações”5. No decorrer de sua
história, o movimento comunista sempre se recusou a considerar de esquerda esse “conglomerado”,
taxando-o sempre com o nome de social-chauvinismo. Tão pouco de esquerda
é esse entrelaçamento de expansionismo (em dano dos povos coloniais) e de
espírito comunitário (chamado para cimentar o povo dominante empenhado numa
difícil experiência de guerra), que uma grande personalidade judaica chega a ver nele até
mesmo um dos motivos de semelhança entre sionismo e nazismo6.
Sionismo e racismo
Chegamos, assim, ao ponto crucial. Aos hipócritas que se escandalizam com
as acusações de racismo dirigidas ao sionismo, pode-se contrapor o exemplo de
laicismo e de coragem intelectual de Victor Klemperer, acima citado. Quando
obrigado a se esconder para escapar à perseguição e à “solução final” que o Terceiro
Reich reservou aos judeus, ele não hesita em falar, a propósito dos escritos e da
ideologia de Herzl, de “extraordinário parentesco com o hitlerismo”, de “profunda
comunhão com o hitlerismo”. Pode-se talvez chegar a uma conclusão ainda mais
radical: “A doutrina da raça de Herzl é a fonte dos nazistas; são estes que copiam o
sionismo, não vice-versa”. Na associação entre nazismo e sionismo temos todavia
um “enfático norte-americanismo”, ou seja, o mito de um Far West a ser colonizado,
de um território virgem que o Terceiro Reich procura na Europa oriental e o
sionismo na Palestina. Não é o próprio Herzl que remete de maneira explícita ao
modelo do Far West? O único esclarecimento é que os sionistas pretendem proce-
5 Hannah Arendt, Ebraismo… 1986, pp. 85-8 e 92.
6 Victor Klemperer. Ich will Zeugnis ablegen bis zum letzten, vol. II: Tagebücher 1942-1945,
org. W. Nowojski, Aufbau, Berlim, Quinta edição, 1996, p. 146.
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der a uma “tomada de posse da terra” que não deixe nada à improvisação7. A
conclusões não muito diversas daquelas de Klemperer, chega Hannah Arendt. De
estímulo para a chacina de Deir Yassin houve uma mistura explosiva de
“ultranacionalismo”, “misticismo religioso” e pretensão de “superioridade racial”.
Assumindo “a linguagem dos nacionalistas mais radicais”, o sionismo configura-se
de maneira explícita como “pan-semitismo”8; mas por que razão o pan-semitismo
deveria ser melhor do que o pan-germanismo? Herzl está obcecado pela preocupação
de manter firme a identidade cultural e étnica do judaísmo: não declara ele
mesmo que o sionismo deverá procurar os seus “aliados” e os seus “amigos mais
devotos” entre os anti-semitas, eles mesmos desejosos de evitar contaminações entre
povos diversos na sua alma e na sua essência9 ? A partir disso Arendt chega a
uma conclusão radical: o sionismo “não é mais que a aceitação acrítica do nacionalismo
de inspiração alemã”. Ele assimila as nações a “organismos biológicos superhumanos”;
mas também para Herzl “não existiam mais do que agregados sempre
iguais de pessoas, vistas como organismos biológicos misteriosamente dotados de
vida eterna”10. E, novamente, remetendo ao “nacionalismo de inspiração alemã”,
cheio de motivos “biológicos”, somos reconduzidos ao nazismo ou, pelo menos, à
ideologia sucessivamente herdada e radicalizada pelo Terceiro Reich.
Utilizei até agora os artigos e as intervenções de Arendt anteriores à sua virada
anticomunista e antimarxista ocorrida com a eclosão da guerra fria. Mas é interessante
notar que, ainda em 1963, a filosofa não perdeu nada de sua carga desmistificadora.
Por ocasião do processo Eichmann, “o ministério público denunciou as infames leis de
Nuremberg de 1935, que tinham proibido os matrimônios mistos e as relações sexuais
de judeus com alemães”. Contudo, no próprio momento em que foi pronunciado esse
requisitório, em Israel tinha vigência uma legislação análoga, de modo que “um judeu
não pode casar com um não judeu”. E não é tudo. A “lei rabínica” comporta toda uma
série de discriminações de base étnica: “Os filhos nascidos de matrimônios mistos são,
por lei, bastardos (os filhos nascidos de pais judeus fora do vínculo matrimonial são
legitimados), e se alguém tem por acaso uma mãe não-judia, não pode se casar e não
tem direito ao funeral”. Sobretudo, Arendt chama a atenção sobre o entusiasmo suscitado,
no seu tempo, no criminoso nazista pelas teses expressas por Herzl no seu livro O
Estado judeu: “Depois da leitura deste famoso clássico sionista, Eichmann aderiu pron-
7 Theodor Herzl, “Der Judenstaat” (1896), in Theodor Herzl’s Zionitische Schrifen, org. L.
Kellner, Jüdischer Verlag, Berlin-Charlottenburg, vol. I, 1920, pp. 117-8.
8 Hannah Arendt, Ebraismo… 1986, pp. 101-2.
9 Hannah Arendt, Ebraismo… 1986, p. 30, nota 11 e p. 98.
10 Hannah Arendt, Ebraismo… 1986, pp. 107-8 e 131
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tamente e para sempre às idéias sionistas”11. Talvez, nesse caso, em Klemperer e na
própria Arendt, mais que uma exasperação polêmica, há um real excesso de simplificação:
é difícil atribuir ao sionismo as ambições de domínio planetário e de inversão
radical em sentido reacionário do curso da história que desempenham um papel central
na ideologia e no programa político de Hitler; além do mais não existe equivalência
entre racismo e contra-racismo (ou seja, racismo de reação). Mais equilibrada, revela-se
uma outra eminente personalidade judaica, o historiador George L. Mosse, o qual,
aliás, também chama a atenção para o fato de que o sionismo pensa a “nação judaica”
nos termos naturalistas propagados pelos turvos “ideais neogermânicos”, que se difundem
a partir do fim do século XIX, desempenhando um papel não insignificante no
processo de preparação ideológica do Terceiro Reich12. Sobre isso será preciso continuar
a raciocinar e a discutir, mas os gritos escandalizados surgidos por ocasião da Conferência
de Durban querem justamente impedir o raciocínio e a discussão. Contudo,
pelo menos um ponto resulta agora suficientemente claro. Sobre a abertura concreta
do sionismo, sobre as relações sociais e “raciais” vigentes atualmente em Israel, damos a
palavra a judeus de orientação democrática, esclarecendo que não se trata de nenhum
modo de extremistas, dado que publicam as suas intervenções no International Herald
Tribune. Pois bem, aqui podemos ler que, ainda que uma democracia, Israel é uma
“democracia de casta segundo o modelo da antiga Atenas” (que por fundamento tinha
a escravidão dos bárbaros), ou seja, segundo o modelo do “Sul dos USA” nos anos da
discriminação racial contra os negros. O quadro que Israel apresenta é claro: “A sua
minoria de árabes israelenses vota, mas tem um estatuto de segunda classe sob muitos
outros aspectos. Os árabes, sob seu governo na Cisjordânia ocupada, não votam e estão
privados quase de todo direito”13. A prática da discriminação contra os palestinos caminha
pari passo com a sua “desumanização”14. É um dado de fato: nos territórios de
uma maneira ou de outra controlados por Israel, o acesso à terra, à educação, à água, a
liberdade de movimento, o gozo dos direitos civis mais elementares, tudo depende do
pertencimento étnico. Somente os palestinos correm o risco de ter a propriedade
destruída, de serem deportados, de serem torturados (mesmo os que ainda são menores
de idade), de serem entregues aos esquadrões da morte: e, tudo isso, não na base em
11 Hannah Arendt, Eichamann in Jerusalem. A Report on the Banality of Evil (1963), tradução
italiana La Banalità del male. Eichmann a Gerusalemme (1964). Feltrinelli, Milano. V
edição. 1993, pp. 15-6 e 48.
12 George L. Mosse, The Crisis of German Ideology (1964), trad. Italiana Le origini culturali
del Terzo Reich, Il Saggiatore, Milão, 1968, p. 270.
13 Robert A. Levine, 2001. “The Jews of the Wide World Didn’t Elect Sharon”, in
International Herald Tribune, 5 de junho de 2001, p. 8.
14 Michael Lerner, “A Jew Gets Death Threats for Questioning Israel”, in International
Herald Tribune, 23 de maio de 2001, p. 9.
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uma sentença da magistratura, mas na base no arbítrio das autoridades policiais e
militares, ou seja, sob a decisão soberana do Primeiro ministro. Sharon “fala ainda com
orgulho da sua dura campanha contra os militantes palestinos em Gaza trinta anos
atrás, quando destruía com tratores as casas e deportava os pais dos adolescentes envolvidos
nos protestos”15. Assim, como no-lo informa a imprensa norte-americana, é possível
ser deportado não somente com base em uma suspeita, mas também a partir de
vínculos de parentesco com um jovem suspeito de ter lançado uma pedra contra um
soldado israelense. E corre-se este risco sempre e somente sendo palestino. Não é racismo
tudo isso? Por outro lado, enquanto rejeita com horror a reivindicação dos refugiados
palestinos de retorno à terra da qual foram expulsos pela violência, Israel convida
os judeus de todo o mundo a se estabelecerem no Estado judeu e encoraja a colonização
dos territórios ocupados, dos quais os palestinos continuam a serem expulsos. O
que é isso senão limpeza étnica?
As árvores e a floresta
Diante da terrível evidência da realidade, como parecem retrógrados os apelos
que uma certa esquerda dirige aos palestinos e árabes para que não se ocupem de
problemas muito “complexos” como o sionismo e o racismo de Israel, concentrandose
ao invés disso na crítica ou na condenação de Sharon! Mas, por parte da esquerda
ocidental, esta condenação está pelo menos à altura da situação? No fim de 1948, por
ocasião da visita de Begin aos EUA, Arendt apelava à mobilização contra o responsável
pela chacina de Deir Yassin, fazendo notar que o partido por ele dirigido resultava
“estreitamente aparentado com os partidos nacional-socialistas e fascistas”16. Por que a
esquerda ocidental não ousa exprimir-se com a mesma clareza com relação ao responsável
pelo massacre de Sabra e Chatila? Além do mais, ainda que a condenação de
Sharon estivesse à altura dos crimes, nem por isso o assunto poder-se-ia considerar
encerrado. Com a mesma lógica, com a qual uma certa esquerda convida a deixar de
lado a questão do racismo de Israel e do papel do sionismo, poderíamos nos perguntar:
por que não se limitar à denúncia do governo de Berlusconi (ou dos precedentes governos
Amato e D’Alema) ao invés de criticar o capitalismo? E por que não centrar fogo
sobre Bush filho (ou sobre Clinton ou sobre Bush pai) ao invés de trazer à discussão o
imperialismo? É a lógica dos reformistas mais medíocres e mais miúdos: estão dispostos
– bondade deles – a dar uma olhada nessa ou naquela árvore, mas ai de você se lhes
acenar para a existência de uma floresta! Contudo, se não se olha para a floresta será
impossível não só resolver positivamente a tragédia do povo palestino, como também
analisá-la de modo adequado. Esta tragédia não teve início com Sharon, ou com Barak,
15 Lee Hockstader, “Palestinian Authority described as ‘Terrorist’”, in International Herald
Tribune, 1 de março de 2001, p. 4.
16 Hannah Arendt, Essays & Kommentare… 1989, p. 113.
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e nem mesmo com os governos anteriores. De “injustiça perpetrada contra os árabes”,
Arendt17 fala já em 1946, e nessa mesma circunstância afirma que a fundação de Israel
“tem pouco a ver com uma resposta aos anti-semitas”. Com efeito, basta folhear ainda
que rapidamente Herzl, para dar-se conta que para ele a contradição principal é a que
contrapõe os “judeus fiéis à estirpe” aos judeus “assimilados”, acusados de fazer o jogo
de quantos gostariam do “ocaso dos judeus mediante miscigenação” e de praticar matrimônios
mistos (onde por matrimônios mistos estão compreendidos também aqueles
entre judeus convertidos e judeus “fiéis à estirpe” e à religião18). A ferocidade do
anti-semitismo (que culmina no horror de Auschwitz) tem indubitavelmente alimentado
de maneira poderosa o movimento sionista, mas os seus fundadores sempre declararam
de maneira aberta que a opção sionista é independente do anti-semitismo e
continuaria a ser válida “ainda que o anti-semitismo desaparecesse completamente do
mundo”19. Para dizê-lo com as palavras de Arendt, o sionismo está empenhado em
utilizar o anti-semitismo como “o fator mais saudável da vida judaica”, como a “força
motriz” primeiro da criação e depois do desenvolvimento do Estado judeu20. Particularmente
instrutiva é a recente visita de Sharon a Moscou. Ele observou o desenvolvimento
na Rússia da vida cultural e religiosa da comunidade judaica: é uma espécie de
“época de ouro”. Tudo bem, portanto? Ao contrário, porque o primeiro ministro israelense
assim prosseguiu: “Isso me preocupa, pelo fato de que nós temos necessidade de
um outro milhão de judeus russos”21. Para angustiar Sharon não está o perigo do antisemitismo,
mas, pelo contrário, o da assimilação. Tornam-se agora evidentes os resultados
desastrosos a que conduz a tendência a lançar o olhar às árvores tomadas isoladamente,
mas desinteressando-se da floresta no seu complexo. Critica-se a política de
colonização dos territórios ocupados, mas cala-se sobre o convite aos judeus russos (ou
norte-americanos ou alemães e de todo o mundo) para imigrar maciçamente a Israel:
como se entre as duas coisas não houvesse nenhum nexo! Se, ao contrário, queremos
captar tal nexo, devemos ousar olhar para a floresta. Esta floresta é o sionismo, o
colonialismo sionista, com as práticas racistas que toda forma de colonialismo comporta.
Refugiar-se na “complexidade” para evitar a obrigação intelectual e moral de
exprimir um julgamento sobre o sionismo, significa assumir uma atitude similar à do
revisionismo histórico, o qual também não se cansa de sublinhar a “complexidade”, no
17 Hannah Arendt, Ebraismo… 1986, p. 133.
18 Theodor Herzl, op. cit, pp. 52 e 49.
19 Max Nordau, Der Zionismus. Neue, vom Verfasser vollständig umgearbeitete und bis zur
Gegenwart fortgeführte Auflage, org. Wiener Zionistischen Vereinigung, Buchdruckerei
Hélios, Viena, 1913, p. 5.
20 Hannah Arendt, Ebraismo… 1986, p. 125.
21 William Safire, “Sharon in Moscow, Sword in Hand”, International Herald Tribune, 8-9
de setembro de 2001, p. 4.
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caso do fascismo, por exemplo. E não sem alguma razão, dado que, em seu tempo, foi
o próprio Palmiro Togliatti que alertou contra as simplificações apressadas, chamando
a atenção para o fato de que o fascismo é sim um movimento reacionário, mas um
movimento reacionário que, pelo menos por um certo período de tempo, graças também
à sua demagogia social, chegou a gozar de uma base de massa e até mesmo a atrair
intelectuais que sucessivamente iriam amadurecer uma nítida opção pela esquerda. É
uma lição de método que vai muito além da análise do fascismo. Remeter à complexidade
é legítimo e fecundo quando estimula uma articulação mais rica e concreta do
julgamento histórico, chamado a dar conta dos elementos de diferenciação e contradição
que sempre irrompem no curso do processo de desenvolvimento de um fenômeno
histórico complexo. Outras vezes, ao contrário, remeter à complexidade é uma fuga ao
julgamento histórico, é um abandonar-se à mística da inefabilidade: é expressão de
vontade mistificadora, ou seja, de assombro.
A causa anti-sionista dos palestinos e a causa dos judeus progressistas
Negar que o sionismo e a fundação do Estado de Israel sejam em primeiro
lugar a resposta ao anti-semitismo e afirmar que desde o início os palestinos sofreram
uma injustiça, significa que se deva lutar pela destruição do Estado de Israel? Como
fundamento dos EUA há um crime originário realizado contra os pele-vermelhas e
os negros. E, todavia, ninguém pensa em fazer retornar os brancos à Europa, os
negros à África e em despertar os que são de pele-vermelha do sono eterno. Desde os
seus inícios, Israel tratou os palestinos em parte como se fossem pele-vermelhas (privando-
os de suas terras e às vezes submetendo-os a dizimações), em parte como
negros, discriminados, torturados, humilhados, na melhor das hipóteses constrangendo-
os a ocupar os segmentos inferiores do mercado de trabalho. O reconhecimento
desse crime originário é o primeiro pressuposto para que possa haver justiça e
reconciliação. Mas uma crítica tão radical a Israel e ao próprio sionismo não corre o
risco de realimentar o anti-semitismo? Hannah Arendt fez troça do mito de um antisemitismo
eterno. É um mito que afunda suas raízes no sionismo. Pelo menos os
seus expoentes mais radicais, a partir de sua visão naturalista da nação, tendem a
instituir uma contraposição natural e eterna “entre os judeus e os gentis”. Ou seja, o
mito do anti-semitismo eterno afunda suas raízes em uma visão ela mesma densa de
humores racistas. Em todo caso, é evidente o componente chauvinista dessa visão.
Não afirma Herzl que “uma nação é um grupo de pessoas mantidas juntas por um
inimigo comum”? É a partir de tal “teoria absurda” – observa a corajosa pensadora de
origem judaica – que os sionistas cultivam o mito do anti-semitismo eterno22. São
observações que remontam a 1945, mas que hoje são mais atuais do que nunca.
22 Hannah Arendt, Ebraismo… 1986, pp. 90 e 97-8.
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Ainda depois de sua virada em sentido anticomunista e antimarxista, em 1963,
Arendt declara que o “anti-semitismo, graças a Hitler, ficou desacreditado, talvez não
para sempre, mas certamente pelo menos para a época atual”23. Por sua vez um conhecido
cientista político norte-americano escreveu que, em nossos dias, “na Europa ocidental
o anti-semitismo para com os judeus foi em larga medida suplantado pelo antisemitismo
para com os árabes”24. Na realidade, isso não vale somente para as metrópoles
urbanas na Europa Ocidental, mas também e sobretudo para o Oriente Médio. A
autenticidade do envolvimento contra o racismo mede-se não a partir da homenagem,
ainda que devida, para com as vitimas do passado, mas, a partir em primeiro lugar, do
apoio às vitimas atuais. Se não sabe tornar própria até o fundo a causa do povo palestino,
a luta contra o racismo é somente uma frase vazia. É para ficar então atônito
quando se lê em um “diário comunista” o convite para deixar “o anti-semitismo – antisionismo
de princípio – aos racistas”25. A autora dessa afirmação, ou melhor dessa
assimilação, ao mesmo tempo em que se recusa a levar em consideração a acusação de
colonialismo e de racismo dirigida ao sionismo, de fato não hesita em taxar de racistas,
entre outros, Victor Klemperer e Hannah Arendt. Quando esta última, em 1963,
publica Eichmann em Jerusalém, com as suas flechas contra o sionismo e contra a
tentativa de Israel de instrumentalizar o processo em sentido antiárabe, torna-se alvo de
acusação como anti-semita. Na França, o semanário Nouvel Observateur, ao publicar
trechos do livro (escolhidos com perfídia), pergunta-se sobre a autora: Est-elle nazie? É
nazista?26. Essa campanha não cessou, ainda que agora tenha em mira alvos considerados
mais cômodos. Das colunas do International Herald Times expoentes progressistas
da comunidade judeus norte-americana lançaram um grito de alarme: objetos de
“desumanização” não são somente os palestinos, mas também os judeus que exprimem
um julgamento crítico complexo sobre Israel, chegando às vezes a colocar em discussão
o sionismo enquanto tal. É uma atitude que lhes pode custar caro, porque, além dos
insultos, eles recebem repetidas ameaças de morte27. Aceitando acriticamente a equiparação
de anti-sionismo e anti-semitismo propalada pelos dirigentes de Israel, uma certa
esquerda trai não só a luta dos palestinos, mas também a dos judeus progressistas em
Israel e no mundo, sob certos aspectos, não menos difícil e não menos corajosa.
23 Hannah Arendt, Eichmann…, 1993, pp. 18-19.
24 Samuel P. Huntington, The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order,
1997, p. 293.
25 Rina Gagliardi, “Discutendo di sionismo e sinistra”, in Liberazione, 29 de agosto de 2001, p. 8.
26 Amos Elon, “The Case of Hannah Arendt”,

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