O Comandante em Chefe enloqueceu Reviewed by Momizat on . 169 antes da guerra de Gaza, Heinrich Heine escreveu 12 versos premonitórios, sob o título de “An Edom” [para Edom]. O poeta judeu-alemão falava da Alemanha ou, 169 antes da guerra de Gaza, Heinrich Heine escreveu 12 versos premonitórios, sob o título de “An Edom” [para Edom]. O poeta judeu-alemão falava da Alemanha ou, Rating: 0

O Comandante em Chefe enloqueceu

169 antes da guerra de Gaza, Heinrich Heine escreveu 12 versos premonitórios, sob o título de “An Edom” [para Edom]. O poeta judeu-alemão falava da Alemanha ou, talvez de todas as nações da Europa cristã. Escreveu o seguinte (aqui, em tradução precária[1]):

“Por mil anos e mais / vivemos um pacto / Você me deixou respirar / Eu deixei sua loucura crescer // Às vezes, quando os dias são mais escuros / Você é tomado de desejos estranhos / E pinta as garras / Com o sangue da vida das minhas veias // Hoje nossa amizade é firme / Cada dia mais forte, dia a dia / Porque sua loucura já ruge em mim / Eu, cada dia mais, à sua imagem.”

O sionismo, que surgiu cerca de 50 anos depois de esses versos terem sido escritos, realizou plenamente essa profecia. Os israelenses nos tornamos nação idêntica a outras, e a memória do Holocausto, de tempos em tempos, nos faz agir como as piores nações. Poucos israelenses conhecem esses versos de Heine, mas Israel, como país, é encarnação deles.

Nessa guerra, políticos e generais têm repetido que “o dono da barraca enlouqueceu”, como gritam os feirantes, no sentido de “o dono da barraca enlouqueceu e está distribuindo tomates de graça.” Mas ao longo do tempo algo foi acontecendo e converteu-se em doutrina mortal que muito seguidamente aparece no discurso público, em Israel: para deter os inimigos de Israel, Israel terá de agir como louco, sem limite, matar e destruir o mais possível, sem limite, sem piedade.

Nessa guerra, a loucura tornou-se dogma político e militar: só se Israel matar a maior quantidade possível de “eles”, mil “eles” para cada dez “dos nossos”, então “eles” entenderão que não vale a pena meter-se “com Israel”. “Tem de entrar na consciência deles…” – é frase que se ouve muito, hoje em Israel. Daqui em diante, “eles” pensarão duas vezes antes de agredir Israel com Qassams, mesmo que em reação… ao que Israel faça a “eles”, seja lá o que for.

É impossível avaliar o quanto há de vicioso nessa guerra, sem pensar no contexto histórico: o sentimento de vitimismo, depois de tudo que os judeus sofreram ao longo dos anos, e a convicção de que, depois do Holocausto, os judeus teriam algum direito de fazer qualquer coisa, qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa, para defenderem-se, sem peias, sem limites nem legais nem morais.

Quando estava no auge a matança e a destruição em Gaza, aconteceu algo, nos distantes EUA, que nada teve a ver diretamente com a guerra, mas, ao mesmo tempo, é muito intimamente conectado com ela.

O filme israelense “Waltz with Bashir[2] recebeu um importante prêmio internacional. Os jornais, em Israel, festejaram o prêmio com orgulho, tanto quanto atentamente não ofereceram nenhuma informação sobre o filme. Só até aí, já foi fenômeno interessante: saudou-se o sucesso de um filme, tanto quanto não se informou sobre o tema do filme.

“Waltz with Bashir” é um importante filme-documentário-animação sobre um dos capítulos mais negros da história de Israel: o massacre de Sabra e Chatila. Durante a I Guerra do Líbano, uma milícia de libaneses cristãos, sob os auspícios do exército de Israel, massacrou centenas de refugiados palestinenses, encurralados num campo de refugiados, homens, mulheres, crianças e velhos. O filme narra essa atrocidade com acuidade meticulosa, sem omitir a participação de israelenses.

Nada disso se leu nos jornais de Israel, no noticiário sobre o prêmio. Na cerimônia de premiação o diretor do filme protestou contra o massacre de Gaza. Não se sabe exatamente quantas mulheres e crianças estavam sendo assassinadas no momento em que acontecia a cerimônia – mas não há dúvidas de que o massacre em Gaza foi ainda mais terrível que o de 1982. Naquela ocasião, 400 mil israelenses saíram de casa e protestaram, nas ruas, em protesto espontâneo, que ninguém convocou, em Telavive. Hoje, apenas 10 mil israelenses têm ido às ruas, quase diariamente, para protestar contra a matança em Gaza.

A comissão oficial de investigação do governo israelense que investigou os eventos do massacre de Sabra declarou que “Israel foi indiretamente responsável” pela atrocidade. Vários altos funcionários e oficiais foram suspensos. Entre eles, um comandante-de-divisão, Amos Yaron. Nenhum dos demais indiciados, do ministro da Defesa, Ariel Sharon, ao chefe do estado-maior, Rafael Eitan, jamais manifestou uma palavra de arrependimento, mas Yaron expressou algum remorso, em discurso aos seus comandados, e admitiu: “nossa sensibilidade estava obnubilada”.

Muitas sensibilidades continuam muito evidentemente obnubiladas, na guerra de Gaza.

A primeira guerra do Líbano durou quase 18 anos[3] e morreram mais de 500 soldados israelenses. Os arquitetos da segunda guerra do Líbano decidiram que a guerra seria mais curta, com menos israelenses mortos. Inventaram o princípio do “comandante louco”: destruir tudo, vilas, cidades, devastação total, destruir, até reduzir a ruínas a chamada “infra-estrutura”. Em 33 dias de guerra, já havia 1.000 libaneses mortos, praticamente todos civis – recorde que já foi batido em Gaza, no 17º dia.

Mesmo assim, houve muitas baixas, no exército de Israel, nos combates diretos; e a opinião pública que, então, de início, apoiara a segunda guerra tanto quanto apoiara a primeira, rapidamente mudou de direção.

Dessa vez, pairam sobre a guerra de Gaza os fumos da segunda guerra do Líbano. Em Israel, todos juraram que haviam aprendido as lições daquela guerra. Mas a principal lição que a segunda guerra do Líbano ensinou a Israel foi: não arriscar a vida de nenhum soldado. Uma guerra sem israelenses mortos. Como fazer? Usar um descomunal poder de fogo para pulverizar o que quer que haja, matar tudo que se mova, no campo de visão de… qualquer um. Matar. Matar os combatentes adversários e, também todos os seres humanos que haja à vista e que representem qualquer tipo de ameaça – mesmo que esteja identificado como médico ou como enfermeiro, mesmo que esteja dirigindo uma ambulância, mesmo que seja motorista de um caminhão que carrega comida. Destruir todos os prédios de dentro dos quais alguém possa, presumivelmente, atacar algum soldado israelense – mesmo que seja uma escola cheia de refugiados, doentes e feridos. Bombardear, com canhões e granadas todos os prédios, casas, mesquitas, escolas, comboios da ONU, até ruínas de túmulos onde tenham sido enterrados os mortos de ontem.

A mídia israelense devotou horas de atenção a um foguete Qassam que caiu sobre uma casa em Ashkelon, cujos três moradores levaram um susto, e alguns segundos às 40 mulheres e crianças assassinadas numa escola da ONU. As sobreviventes declararam que “atiraram contra nós a queima-roupa” – frase que a mídia em Israel imediatamente desqualificou como “evidente mentira”.

O poder de fogo foi usado para semear o terror – bombardear tudo, de um hospital a um armazém da ONU em que se guardava comida para distribuição e mesquitas. O pretexto? O de sempre: “os soldados israelenses foram atacados”.

Nada disso aconteceria, se toda a Israel já não estivesse com “a sensibilidade obnubilada”. Os israelenses já não se chocam ante a imagem de um bebê mutilado, ou ao saber que crianças passaram dias ao lado do cadáver da mãe, porque soldados israelenses impediam que saíssem das ruínas de sua casa. Ninguém se importa: nem os soldados, nem os pilotos, nem os jornalistas, nem os políticos, nem os generais.

A insanidade moral contaminou todos os israelenses. O principal agente da contaminação, expoente nacional da insanidade moral em Israel, é Ehud Barak. De fato, já está sendo derrotado, em quociente de insanidade moral por Tzipi Livni, que sorriu, na televisão, ao falar desses eventos horripilantes. Nem Heinrich Heine poderia ter imaginado tudo isso.

Os últimos dias foram dominados pelo “efeito Obama”.

Estamos num avião e, de repente, aparece à frente uma enorme montanha, num vazio entre as nuvens. Na cabine, pânico: como evitar a colisão?

Quem planejou a guerra escolheu cuidadosamente o timing: nos feriados de fim de ano, todos fora de suas bases, e Bush ainda por aí. Parecem tem esquecido que, dia 20/1, Obama assumirá a Casa Branca.

Essa data, agora, lança uma sombra de pressa sobre todos. O Barak israelense sabe que, se o Barak norte-americano se zangar, é desastre na certa. Conclusão: os horrores em Gaza têm de cessar antes da posse de Obama. Essa semana, esse é o único fato a ser considerado em todas as decisões políticas e militares. Esqueçam “os foguetes”, esqueçam “a vitória”, esqueçam “quebrar o Hamás”.

Com o cessar-fogo, surgirá a questão de decidir quem ganhou, quem perdeu.

Em Israel, só se fala sobre “o quadro da vitória” – não sobre alguma vitória; só se fala sobre “o quadro”. A metáfora é essencialmente importante, para convencer a opinião pública israelense de que foi bom negócio. Nesse momento, todos, milhares de jornalistas, até o menor deles, estão mobilizados para a missão de pintar o tal “quadro”.

Os líderes israelenses rugirão a propósito de duas “realizações”: o fim dos foguetes e o fechamento da fronteira Gaza-Egito (também chamado “corredor Filadelfo”). Os foguetes poderiam ter sido controlados sem essa guerra assassina, se o governo de Israel tivesse concordado em negociar com o Hamás, depois de o partido ter sido eleito na Palestina. Os túneis nem teriam sido escavados, antes de tudo, se o governo israelense não tivesse imposto o bloqueio mortal, na Faixa de Gaza.

Mas o principal sucesso de que se vangloriarão os senhores-da-guerra em Israel é, ao mesmo tempo, o ‘sucesso’ da selvageria e da barbárie impressas no próprio projeto de guerra: as atrocidades, do ponto de vista deles, terão “efeito de contenção”; e esse efeito, crêem eles, perdurará por muito tempo.

O Hamás dirá que obteve imensa vitória; que a evidência de que sobreviveram em luta contra a gigante Israel e sua máquina de guerra é, só ela, vitória; um pequeno Davi contra o gigante Golias. É vitória. Nos termos das definições clássicas, exército vencedor é o que continua no campo de batalha, depois da batalha. O Hamás lá está. O governo do Hamás continua vivo na Faixa de Gaza, contra toda a guerra que foi feita para eliminá-lo. É feito significativo.

O Hamás dirá também que o exército de Israel não ocupou facilmente as cidades da Palestina onde havia combatentes do Hamás. É verdade. O exército já informou o governo de que tomar a cidade de Gaza custará a vida de cerca de 200 soldados; ninguém aceitará pagar esse preço, às vésperas das eleições.

Evidente verdade é, também, que uma força de guerrilheiros, alguns milhares de combatentes armados só com armas leves, lutou durante longas semanas contra um dos mais poderosos exércitos do mundo e que, em vários sentidos, conseguiu, sim, deter-lhe o avanço. Isso será visto por milhões de palestinenses e por todos os árabes e muçulmanos – e não só por esses – como vitória importantíssima.

No final, haverá alguma espécie de acordo, que incluirá os termos óbvios. Nenhum país admitiria que seus cidadãos vivam expostos a foguetes disparados de fora das fronteiras. Nenhuma população admitiria viver para sempre sob bloqueio desumano. Então, (1) o Hamás terá de desistir dos foguetes; (2) Israel terá de abrir os pontos de passagem entre a Faixa de Gaza e o resto do mundo; e (3) terá fim a entrada de armas para a Faixa (na medida do possível), como Israel pede. Chegar-se-ia ao mesmo resultado, sem guerra, se o governo de Israel não tivesse boicotado o Hamás.

Seja como for, os piores resultados dessa guerra já são visíveis e continuarão visíveis por muitos anos: Israel imprimiu terrível imagem dela própria na consciência do mundo.

Bilhões de pessoas viram os israelenses como bestas-feras, de dentes pingando sangue. Nunca mais voltarão a ver Israel como Estado que busca paz, progresso e justiça. A Declaração de Independência norte-americana fala com aprovação e recomenda “respeito decente às opiniões da humanidade”. É sábio princípio.

Ainda pior é o impacto sobre as centenas de milhões de árabes que cercam Israel nessa parte do mundo: verão os combatentes do Hamás como heróis da nação árabe e, além disso, também verão seus próprios governos nacionais em plena nudez, como são: criminosos, venais, corruptos e traiçoeiros.

A derrota dos árabes na guerra de 1948 determinou, quase como consequência imediata, a queda dos regimes árabes de então e a ascensão de uma nova geração de líderes nacionalistas. De Gamal Abd-al-Nasser, por exemplo. A guerra de 2009 pode determinar a queda da atual safra de governantes árabes e a ascensão de uma nova geração de líderes – e podem ser fundamentalistas islâmicos que odeiam Israel e o ocidente.

Nos próximos anos, todos verão com clareza a absoluta loucura que foi a guerra de Gaza. O comandante-em-chefe enlouqueceu – no sentido literal das palavras.

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