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Herança de Edward Said: mito do ‘Oriente’ é criação ocidental

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Herança de Edward Said: mito do ‘Oriente’ é criação ocidental

Um dos maiores intelectuais palestinos, que morreu nesta quinta-feira (25), aos 67 anos, dizia que as representações do Oriente feitas pelos países ocidentais tinham pouca relação com a realidade. Na política, era defensor da causa palestina, mas acreditava que judeus e árabes deveriam conviver num mesmo país.

André Bueno e Giuliana Napolitano

São Paulo — Nascido em Jerusalém, berço das três maiores religiões monoteístas do planeta, e “exilado” desde a adolescência nos Estados Unidos – onde construiu uma sólida carreira acadêmica -, Edward W. Said foi com certeza o intelectual palestino de maior renome e influência no mundo.

E sua fama não veio apenas do fato de ter sido o defensor mais ardoroso das causas palestinas em território norte-americano. Foi, também, autor de livros que – mesmo tratando da temática árabe e “oriental” – não perdiam seu caráter universal, pois mostravam os mecanismos de dominação e de montagem de imagem que são e foram aplicados em todos os povos colonizados.

Edward Said morreu ontem, aos 67 anos, vítima de leucemia. O escritor nasceu em 1935, durante o mandato britânico na Palestina, e se mudou para o Cairo, no Egito, em 1947, quando uma resolução das Nações Unidas dividiu a cidade em áreas judaicas e palestinas. Em 1951, emigrou para os Estados Unidos e, desde a década de 1960, lecionava literatura na Universidade de Columbia, em Nova York.

O caráter universal de sua obra é observado na forma como abordou a história de povos colonizados – especialmente do Oriente Médio e da Ásia. Seu trabalho – principalmente o livro “Orientalismo”, lançado em 1979 – relançou as bases para pesquisas em disciplinas como Estudos Pós-Coloniais e Teoria Crítica das Raças.

“Orientalismo – o Oriente como invenção do Ocidente” (Companhia das Letras, 1989) se contrapõe às representações do “Oriente” de franceses e ingleses, predominantes até então.

Ao retomar a história dos povos orientais e a forma como suas imagens foram construídas, Edward Said revelou que a representação “ocidental” do que é o “Oriente” tinha pouco a ver com as culturas e os povos que de fato viviam naqueles locais; eram mais uma busca de diferenciação e uma tentativa de justificação do poder colonial do Ocidente sobre o Oriente.

Em outro livro de forte impacto – “Cultura e Imperialismo” (Companhia das Letras, 1995), que dá seqüência à temática de “Orientalismo” -, Said estende a sua análise a outras regiões colonizadas: Índia, África, Caribe, Austrália e outras áreas do planeta em que o “Ocidente” se fez presente seja na forma de imperialismo ou colonialismo formal. Ao fazer isso, revela o poder da cultura na dominação desses povos e as formas de resistência dos colonizados à dominação.

Said era um defensor da causa palestina. De 1977 a 1991, participou ativamente da Conferência Nacional Palestina, uma espécie de parlamento no exílio, como membro não-filiado. A maioria dos integrantes da Conferência pertencia também a outras organizações palestinas – a mais importante delas era a Organização pela Libertação da Palestina (OLP), liderada por Yasser Arafat.

Said foi confidente de Arafat durante anos, mas recentemente se tornou um dos maiores críticos do líder palestino. O estopim da mudança foi o Acordo de Oslo, fechado em 1993 entre a OLP e Israel. Para ele, o acerto foi desfavorável aos palestinos, porque deu à Autoridade Nacional Palestina (ANP) – antiga OLP – poucas terras e pouco controle sobre elas.

O escritor ficou famoso por chamar o acordo de “rendição” dos palestinos, que atrasaria ainda mais a reconciliação entre os dois povos. Ele chegou a pedir a renúncia de Arafat e, por isso, foi chamado de “opositor da paz” e de “pouco realista”.

Na verdade, Said acreditava que, com todas as dificuldades, a única solução para palestinos e israelenses seria se os dois povos aprendessem a conviver juntos, num mesmo país, com um regime democrático que desse representação aos dois grupos. Na avaliação do intelectual, não deveria haver territórios separados para israelenses e palestinos.

Além de “Orientalismo” e “Cultura e Imperialismo”, Edward Said tem outros três livros traduzidos para o português: “Cultura e Política” (Boitempo Editorial, 2003), “Reflexão sobre o Exílio e Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2003) e “Elaborações Musicais” (Imago, 1991).

Apesar de escrever sobre a temática islâmica, Said era cristão protestante, da Igreja Anglicana, e casado com uma Quaker, grupo protestante presente principalmente nos Estados Unidos. Ele foi casado duas vezes e teve dois filhos – Wadie e Najla
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