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A INVENÇÃO DA ”TERRA DE ISRAEL”

A INVENÇÃO DA ”TERRA DE ISRAEL”

 

Professor de história contemporânea da Universidade de Tel Avivrefuta a ideia de que os judeus tivessem direitos sobre o território da Palestina,defendida pelos sionistas com base, segundo ele, na confusãoentre uma visão teológica e uma aspiração geopolítica
por
Mateus Soares de Azevedo
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hlomo Sand é, há mais de 20 anos, professor de histó-ria contemporânea da Universidade de Tel Aviv, a maisimportante de Israel. Ele é um homem corajoso, comoo título de seu livro mais recente,
 A invenção da Terra deIsrael
(Saraiva, 2014), indica. Mesmo assim, ele decidiuesperar até obter seu doutorado e sua estabilidade nauniversidade antes de começar a expor
urbi et orbe
suasteses, que põem em xeque tudo aquilo que o
establish-ment
nacionalista judeu tem sustentado desde a cria-ção do Estado de Israel, em 1948. No Brasil, seu primeiropetardo intelectual foi lançado em 2011, com
 A inven-ção do povo Judeu
. É a obra de autor israelense mais tra-duzida em todo o mundo, com uma vintena de ediçõesem diferentes línguas. Com as controvérsias que seuslivros criaram, Sand se tornou um pária da
intelligentsia
 israelense, sobretudo num momento em que o conflitocom os palestinos se acirra. Mensagens e telefonemasde ameaça não são uma experiência incomum para ele.Mas não é surpresa que seus livros recebam elogios ecríticas tão ácidas como extravagantes, especialmentedo mundo acadêmico e político israelense.
 A invenção da Terra de Israel
é uma obra extraordi-nária, brilhantemente escrita e argumentada. Começopelo fim do livro, cujo derradeiro capítulo é uma tocan-te homenagem a Cheique Muwannis, “tranquilo vilarejoque desapareceu como se nunca tivesse existido”, paradar lugar ao campus da universidade em que ShlomoSand atualmente dá aulas. Ele também mora na área(assim como moraram lá dois falecidos primeiros-minis-tros, Golda Meir e Yitzhak Rabin, além do ex-presidenteShimon Perez), de maneira que se justifica a dedicató-ria da obra à memória dos antigos moradores, “que hámuito tempo foram arrancados do local onde hoje vivoe trabalho”.Sand escreve: “Tanto meu apartamento como meulocal de trabalho estão localizados sobre as ruínas daaldeia árabe que deixou de existir em 30 de março de1948. Naquele dia, os últimos amedrontados morado-res seguiram a pé pela estrada de terra, levando comeles os pertences que conseguiram carregar, desapa-recendo lentamente da vista dos inimigos que haviamcercado a aldeia (…). Na fuga apressada, em terror, dei-xaram mobília, utensílios de cozinha, malas e trouxas, junto com o esquecido e confuso bobo da vila, que nãoconseguiu entender por que havia sido abandonado.
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Livros de Sando tornaram um“pária” nomundo acadêmicoisraelense
(…) Assim, os habitantes de Cheique Muwannis desapare-ceram das páginas da história da Terra de Israel e caíramnas profundezas do esquecimento”.Alguns dos habitantes foram parar nos campos de re-fugiados palestinos da Faixa de Gaza; outros vagaram peloOriente Médio; um pequeno grupo se exilou nos EstadosUnidos e no Canadá e a vila foi desapropriada pelas au-toridades israelenses. Aqueles poucos que conseguirampermanecer no país foram classificados como “ausentes”e destituídos de todos os direitos de propriedade sobreterras e casas. “Não é preciso dizer”, conclui Sand, “que ne-nhum dos aldeões recebeu qualquer indenização.”
400 ALDEIAS ARRASADAS
A história de Cheique Muwannis não é única. Maisde 400 aldeias palestinas foram arrasadas durante e de-pois de 1948. O local abriga hoje uma “curiosa e intrigan-te”, como classifica Sand, concentração de museus quecomemoram a história sionista. Nenhum deles diz nadasobre o milenar passado não judeu do lugar, já que aPalestina como um todo foi um território predominan-temente, mas não exclusivamente, árabe e muçulmanopor mais de 1.300 anos – desde que os conquistadoresdo Crescente derrotaram, não os judeus, mas os bizanti-nos/romanos, já na primeira metade do primeiro séculoda Hégira, o VII d.C., sendo que a minoria de cristãos e ju-deus religiosos que lá vivia sempre gozou de liberdade deculto sob o domínio maometano.Hoje, graças ao livro de Shlomo Sand, CheiqueMuwannis e seus antigos habitantes tiveram sua trágicahistória resgatada e voltaram a viver, ainda que literaria-mente. Sand acredita que “é obrigação do Estado de Israe
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 Tropasisraelenses emGaza durante aGuerra dos SeisDias, em junhode 1967:Sand apoia aexistência dosdois Estados
reconhecer a catástrofe que foi infligida a outros pelomero fato de sua criação (…) e que a universidade de TelAviv deveria afixar na entrada uma placa em memóriadaqueles que foram arrancados de Cheique Muwannis”.
FALSIFICAÇÕES IDEOLÓGICASE CONSTRUÇÕES MITOLÓGICAS
Relatada a justa homenagem, passemos ao cerneda obra. Não há dúvida que o autor de
 A invenção daTerra de Israel
 é um sujeito corajoso. Seu propósito nãopoderia ser mais ousado e arriscado, isto é, expor as“falsificações ideológicas e as construções mitológicas”que sustentam os pilares do moderno nacionalismo ju-daico, cujo rebento institucional é o Estado surgido daexpulsão da população nativa do território conhecidocomo “Palestina” desde a época da presença romana,há 2000 anos. Nas palavras de Sand: “Nunca pensei queos judeus tivessem direito histórico a esta terra (…). Osionismo se apoderou ilicitamente do termo religioso‘Terra de Israel’ e o transformou num termo geopolí-tico (…).
Eretz Israel
não é a pátria dos judeus, ela só setornou tal na passagem dos séculos XIX-XX, com o sur-gimento do movimento sionista”. Em outros termos, omoderno nacionalismo transformou a teologia em umprograma político.Não surpreende que o autor tenha de confrontarhoje a célebre
hasbará
, poderosa máquina de propa-ganda internacional formada pelo Estado e seus defen-sores mundo afora. Até mesmo em seu departamentona Universidade de Tel Aviv Sand percebe uma “crescen-te sensação de isolamento” em relação a seus colegasprofessores, como notou em entrevista recente.Nascido em 10 de setembro de 1946, em Linz, Áus-tria, de família judia polonesa que emigrou para Jaffa,Israel, em 1948, Shlomo Sand sustenta que a vinculaçãoe o apego dos judeus à mítica “Terra de Israel” é, histo-ricamente, uma fabricação, ou uma ‘’invenção’’. E ele fazisso oferecendo uma extensa e abrangente pesquisahistórica que, de fato, comprova que o elo dos hebreusda diáspora com a região foi, ao longo dos últimos 2000anos, frágil. Vinculação histórica nacional, dizemos, nãoligação religiosa e simbólica, que certamente existiu,mas que não pressupõe necessariamente a formaçãode uma entidade territorial nacional. Ou seja, Jerusaléme o espaço em torno da cidade santa para três religiõessempre foram predominantemente encarados comoterritório sagrado e simbólico, foco de anseios espiritu-ais, mas não necessariamente de anseios nacionalistasno senso moderno.O cerne da tese de Sand é expor a confusão intencio-nal, por parte do nacionalismo judaico, entre o conceitodo Israel bíblico e a noção de um território sob domíniode um grupo particular.
Eretz Israel
 é, originalmente, umconceito teológico, não a “terra pátria” dos nacionalistas.Historicamente, a Terra de Israel não tinha o significado eo papel que lhe são atribuídos pelo sionismo político mo
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Festival em NabiRubin, em 1935:uma dascomunidadespalestinasarrasadasem 1948
MATEUS SOARES DE AZEVEDO
é mestre em história das religiões pelaUSP e autor de
Homens de um livro só: fundamentalismo no Islã, nocristianismo e no pensamento moderno
 (Best Seller, 2008), entre outros
derno. Heinrich Heine, poeta alemão de origem judaica,protagonizou uma vez um episódio em que tomou umaBíblia nas mãos e disse: “Esta é a minha pátria portátil!”.Ele expressou assim o ponto de vista tradicional, no qual“Israel” assume um valor simbólico, não sendo necessa-riamente um lugar para viver, e certamente não exige acriação de um Estado para determinado povo.Mesmo, certamente, reconhecendo uma afinidadeentre os judeus e a Terra Santa, Sand argumenta queuma ligação religiosa com o lugar não pode basear di-reitos territoriais exclusivos. Ainda assim – e isto podeparecer contraditório –, ele apoia a existência de Israel.Não por uma razão histórica, mas meramente ‘’porqueo país hoje existe e porque tentar desconstruí-lo resul-tará em novas tragédias”. Nesse sentido, ele se conside-ra um ‘’pós-sionista”.
PÓS

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