Entrevista Com José Saramago Reviewed by Momizat on .   02/06/2007 O colaborador da BBC na Cisjordânia, José Vericat, conversou em Ramala com o escritor português José Saramago, ganhador do prêmio Nobel de Lit   02/06/2007 O colaborador da BBC na Cisjordânia, José Vericat, conversou em Ramala com o escritor português José Saramago, ganhador do prêmio Nobel de Lit Rating: 0

Entrevista Com José Saramago

 

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02/06/2007

O colaborador da BBC na Cisjordânia, José Vericat, conversou em Ramala com o escritor português José Saramago, ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1998. Suas recentes críticas a Israel no conflito do Oriente Médio, comparando os territórios palestinos aos campos de concentração nazistas, têm desatado uma incendiada polêmica.

BBC – Que propósito teve sua visita à Palestina?

Saramago – “A intenção tem sido a de enviar aqui uma delegação de membros do Parlamento Internacional de Escritores para manifestar solidariedade aos narradores, poetas, dramaturgos palestinos”.

BBC – Que pode ter este conflito palestino-israelense de particular?

Saramago – “Vamos ver, isto não é um conflito. Poderíamos chamá-lo um conflito se se tratasse de dois países, com uma fronteira e dois estados, com um exército cada um. Trata-se de uma coisa completamente distinta: Apartheid. Ruptura da estrutura social Palestina pela impossibilidade de comunicação”.

BBC – Que pensa de Israel?

Saramago – “Um sentimento de impunidade caracteriza hoje o povo israelense e o seu exército. Eles converteram-se em financiadores do holocausto. Com todo o respeito pela gente assassinada, torturada e sufocada nas câmaras de gás. Os judeus que foram sacrificados nas câmaras de gás quiçá se envergonhariam se tivéssemos tempo de dizer-lhes como estão se comportando seus descendentes. Porque eu pensei que isto era possível; que um povo que tem sofrido deveria haver aprendido de seu próprio sofrimento. O que estão fazendo com os palestinos aqui é no mesmo espírito do que sofreram antes.

Eu creio que eles não conhecem a realidade. Todos os artigos que apareceram contra mim têm sido escritos por pessoas que não foram nunca saber como vivem os palestinos, quer dizer, eles não querem saber o que está passando aqui. Sería lógico que estivessem aqui os cascos azuis (soldados da ONU). Mas o governo israelense não o permite. O que me indigna, e não posso calar-me, é a covardia da comunidade internacional que se deixa calar. Nem sequer falo dos Estados Unidos, do lobby judeu, de tudo isso que é mais que conhecido. Falo da União Européia. Europa, o berço da arte, da grande literatura, tudo isso. E todos assistindo a isto, a este desastre, e ninguém intervém”.

BBC – Parece-lhe pertinente a analogia entre o sofrimento dos palestinos hoje em dia e o sofrimento dos judeus que teve lugar durante o regime nazista e em particular os campos de concentração?

Saramago – “Isso de Auschwitz foi evidentemente uma comparação forçada a propósito. Um protesto formulado em termos habituais quiçá não provocasse a reação que tem provocado. Claro que no há câmaras de gás para exterminar os palestinos, mas a situação na qual se encontra o povo palestino é uma situação concentracionária. Ninguém pode sair de seus povoados.

Eu o disse e dito está. Mas, se a vocês lhes molesta muito isso de Auschwitz, eu posso substituir essa palavra e em lugar de dizer Auschwitz, digo crimes contra a humanidade. Não é uma questão de mais vítimas ou menos vítimas, não é uma questão de mais trágico ou menos trágico, é o fato em si. Isto que está passando em Israel contra os palestinos é um crime contra a humanidade. Os palestinos são vítimas de crimes contra a humanidade cometidos pelo governo de Israel com o aplauso de seu povo”.

BBC – Não crê que suas declarações têm um efeito contraproducente?

Saramago – “Aqui não há nenhum efeito contraproducente. Há críticas e há críticas. Há críticas que são conhecidas e portanto não têm nenhum efeito, quer dizer, se fazem e se repetem infinitamente”.

BBC – O que o senhor escreveu que tenha mais relevância com este conflito?

Saramago “Uma novela que eu publiquei há cinco ou seis anos, Ensaio Sobre a Cegueira, que vendeu aqui sessenta mil exemplares. Até estes dias eu era aqui um bestseller. Agora meus livros estão sendo retirados das livrarias. É uma novela que narra como todo o mundo se torna cego. Porque minha opinião é que todos somos cegos. Cegos porque não temos sido capazes de criar um mundo que valha a pena. Porque este mundo como está e como é não vale a pena.

Esta sim que poderia ter [relevância] se os políticos se interessassem pela literatura. Se há algo sobre o que refletir é sobre a capacidade que temos, ou que não temos de inventar um modo de relação humana onde o imperativo seja o respeito humano e o respeito ao outro”.

BBC – Qual é o papel da literatura neste conflito?

Saramgo – “Nenhum. Essa idéia de que os escritores têm que salvar o mundo… Gostaríamos de fazê-lo, é claro. Se fosse pela arte e tudo o que temos feito de bonito no passado, se isso servisse para algo, não estaríamos como estamos. A intervenção que os escritores possam e devam ter é pelo simples fato de que são cidadãos. Claro que também são escritores. Se se nos pede algo, ou por iniciativa nossa temos algo para dizer, o escrevemos. Mas, além de ter o que tenhamos para dizer, também há o que temos para fazer. E o fazer é intervir na vida não só do país, de um senão também do mundo”. 

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