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Entrevista: Carlos Latuff, arte a serviço da transformação

 

Entrevista: Carlos Latuff, arte a serviço da transformação

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Lafuff cria desenhos de crítica à política do Estado de Israel.

Popular em muitos lugares do mundo, o chargista brasileiro Carlos Latuff ganhou o globo com suas charges de protesto. Entre as temáticas mais abordadas por ele no Brasil estão a causa indígena e a violência e extermínio que sofrem os jovens do país. No entanto, foram e continuam sendo os desenhos de crítica à política do Estado de Israel e sua adesão à causa palestina os que ganham adeptos e críticos ferrenhos, principalmente no Oriente Médio.

Thiago Silveira, via Adital em 17/4/2015

Carioca radicado no Rio Grande do Sul, Latuff conversou com a Adital, no último mês de março, por ocasião do debate “Palestina: notícias de um apartheid e de uma luta”, evento promovido pelo Sindicato dos Servidores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (Sindsifce). Bem humorado, o cartunista conta sua experiência quando visitou a Palestina, fala do engajamento de seu trabalho e da situação do Brasil atualmente com a onda de protestos contra o governo.

Ameaçado de morte e acusado de ser um dos maiores antissemitas do mundo, o cartunista acredita na arte como promotora de novas ideias e como contraponto à massa de informações alienantes, com as quais a população é bombardeada todos os dias. “A poesia, a arte chega no coração das pessoas. A arte pode ser um instrumento de manutenção das coisas como estão ou ela pode despedaçar esse estado de coisas, pode ajudar a criar rachaduras. É isso que eu acredito!”.

Adital – Você veio a Fortaleza para o debate “Palestina: notícias de um apartheid e de uma luta”. Você esteve na Palestina em 1998. Como começou a se dar essa relação?
Carlos Latuff – Quando eu estive lá, a situação ainda era “calma”, ou seja, não havia divisão entre Cisjordânia e Gaza; o Hamas não era governo em Gaza, era mais conhecido pelos atentados à bomba em Jerusalém e Tel Aviv; e não havia o muro de separação. Então, a situação lá era diferente da de hoje, mas, naquela época, também tinha a construção de assentamentos, a construção das chamadas “by pest worlds”, que são estradas por onde só passam colonos. E, para a construção dessas estradas, muitas vezes, é preciso demolir as casas palestinas. Você tinha os check points. As restrições de movimento.

O apartheid israelense era bastante claro já naquela época. Eu tive a oportunidade também de fazer um pouco essa coisa do jornalista, de ouvir as partes. Conversei com israelenses, em Tel Aviv, em Jerusalém; eu conversei com colonos em Hebron… Conversei com todo mundo para ter uma ideia mais realista do que estava acontecendo lá. Esses 15 dias que estive lá foram muito didáticos.

Adital – Ainda hoje, no Brasil, esse tema é muito superficial, falta entendimento do contexto em Israel, sobretudo na universidade. O que fazer?
CL – Eu acho que, no caso da academia, objetivamente em torno da academia, a gente pode reforçar a ideia do BDS (Boycott, Divestment and Sanction), que é o boicote acadêmico a Israel. Isto é uma coisa que a academia pode fazer. Pode suspender ou se negar a fazer contratos com empresas israelenses, com universidades israelenses.

Esse princípio do BDS deu certo contra o apartheid sul-africano e tem tido ações muito bem sucedidas pelo mundo em torno com o apartheid israelense. Eu penso que é uma boa oportunidade para isso se espalhar por todas as universidades no Brasil e, principalmente, esclarecer a opinião pública e impedir que as universidades façam negócio com um país que oprime e mata os civis palestinos.

Adital – Por conta do enfoque que você dá à causa palestina, você chegou a sofrer algumas ameaças. Como conseguiu lidar com essa situação? As ameaças continuaram?
CL – Não, não continuaram. A ameaça mais contundente foi em 2006, quando um site ligado ao Likud, que é o partido, inclusive, do Netanyahu, publicou um dossiê a meu respeito e conclamava os leitores a tomarem medidas contra mim, e dizia que Israel já deveria ter tomado conta de mim há muito tempo de um jeito ou de outro. E, depois que aconteceu isso, chegou uma informação aos meus ouvidos, passarinho verde me contou, que uma organização judaica no Brasil já estava ventilando a possibilidade de me assassinar através de meios menos ortodoxos, digamos assim.

Quando você pensa em um assassinato por questões políticas, você imagina um agente do Mossad (serviço secreto do governo de Israel) com uma arma, com silenciador; mas, não, estava se pensando em pagar um bandidinho de favela para me balear na esquina e dizer que era um assalto. Essa informação tinha chegado na época para mim e não se cumpriu, como você pode ver não é!?

Hoje, o que mais acontece são campanhas de difamação: associar críticas ao Estado de Israel, como antissemitismo, como ódio aos judeus. A última polêmica mais séria sobre isso foi quando uma organização, dita de direitos humanos, lá em Los Angeles, me classificou como o terceiro antissemita do mundo. Do mundo! Nem o esquimó lá no Alaska poderia ser mais antissemita do que eu.

Obviamente, que esse tipo de acusação vem perdendo a força. O Roger Waters — essa lista é anual — também foi tido como um dos maiores antissemitas do mundo por conta do seu apoio à causa palestina. Virou estratégia manjada associar ao antissemitismo, ao ódio contra os judeus, críticas ao Estado de Israel, e eu sempre deixei claro isso. As minhas críticas não são uma questão religiosa, étnica, ela é pura e simplesmente uma questão política.

Assim, como você criticar o presidente da Turquia, que é muçulmano, não é ser antimuçulmano. Você criticar o rei da Arábia Saudita, que é muçulmano, não é um ataque à fé islâmica. Da mesma maneira que criticar o Estado de Israel, as suas lideranças políticas ou mesmo seus militares não é ataque ao judaísmo, até porque Israel não representa a totalidade dos judeus, muito menos o judaísmo. Um Estado islâmico não representa o Islã. A Arábia Saudita é o Estado islâmico, inclusive é onde está Meca, Medina também, são os lugares mais sagrados para os muçulmanos, mas ela não representa os muçulmanos. Um Estado não representa a totalidade de um povo, muito menos de uma fé, de uma religião.

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Latuff em visita a Amã, capital da Jordânia.

Adital – E como começar a mudar o enfoque muitas vezes estigmatizado que as grandes empresas de comunicação costumam dar sobre os conflitos na região? Isso pode mudar ou, realmente, são os meios de comunicação alternativos que têm de dar outro enfoque?
CL – Eu acho que a mídia ocidental tem sido muito pró-Israel. Acho pouco provável que mude a posição da imprensa, mas eu acho que nós que temos a consciência, que conhecemos de perto a questão palestina, temos esse dever de contrapor esses clichês, esse lugar comum que a imprensa alimenta. Mas é interessante porque a imprensa não alimenta somente o lugar comum da Palestina, ela alimenta, por exemplo, a questão da violência policial, essas manifestações agora que estão acontecendo pedindo impeachment; a imprensa também tem interesse nisso. Ela tem um enfoque para um protesto, para uma greve, e tem um enfoque para um protesto que pede o impeachment da Dilma.

A imprensa corporativa, o mainstream media, tem lado. Inclusive, o sujeito que estuda jornalismo, geralmente os professores dizem que não têm lado, “bons jornalistas não têm lado”; isso é a pura mentira, ele pode não confessar o lado. A imprensa daqui ou de qualquer lugar no mundo tem lado; ela pode não confessar. Ela bate no peito e diz: “somos isentos”. Não existe isenção! Isenção é “meuzovo”, como se diz aqui. Ela tem lado e eu também tenho lado. Meu lado é do lado dos palestinos.

Adital – Depois do ataque ao Charlie Hebdo, em Paris, o tema “liberdade de expressão” veio mais uma vez veio à tona. O que você pensa sobre isso?
CL – “Liberdade de expressão” é um valor subjetivo. Por exemplo: eu xingar a sua mãe é liberdade de expressão? É! Eu tenho o direito de falar, de xingar sua mãe. Mas não posso achar que isso não vá ter repercussão. Eu não posso ser impedido de xingar a sua mãe, mas eu tenho uma responsabilidade. Eu poderia criticar a sua mãe. Quando eu digo: “você é um filho da puta”, isso não é discussão, isso não é debate, isso é uma ofensa gratuita.

O direito de fazer isso qualquer pessoa tem, ela não deve ter censura prévia. Agora, o problema é esse: não é uma charge. Foram sucessivas. Tem um histórico, desde 2006, fazendo charge sobre os muçulmanos da maneira mais pejorativa, da maneira mais ofensiva que se pode ter. Eu posso fazer um desenho aqui, agora, e colocar assim: “Alá”, e não é escrever “Alá”, é desenhar um sujeito de barba, ele poderoso lá no céu jogando um raio contra o islamofóbico. É uma charge positiva! Eu estou endeusando, eu estou homenageando, fazendo uma ilustração de Maomé. Só isso, mesmo elogiando, já é ofensivo.

Para o Islã, qualquer representação de um profeta, ou mesmo de Alá, já é ofensivo, independente se o desenho é bom e se é elogioso ou não. Quem fez a charge de Maomé de quatro faz uma crítica ao islamismo? É uma crítica sobre como o islamismo tem sido manipulado por lideranças políticas ou religiosas? Não! Isso é um ataque frontal ao muçulmano.

O cartunista não faz desenho por acidente; ele quer atingir um objetivo. Quando ele fez esse desenho, entre outros, ele queria atingir esse objetivo. E o objetivo é ofender. Gratuitamente! Liberdade para fazer isso eu defendo, mas para quê? Dentro de um contexto de islamofobia na Europa? Isso serve a que propósito? Mas o Charlie Hebdo é o paladino da liberdade de expressão. Isso aqui não está defendendo a causa da liberdade de expressão, está defendendo a pauta da extrema direita na Europa, que concorda com esse tipo de coisa. E o pessoal doCharlie Hebdo não é idiota, isso foi deliberado.

Agora: é justo ter entrado com uma kalashnikov e fuzilado todo mundo? Não! Agora, é aquele negócio, eu posso xingar sua mãe, mas achar que vai passar em brancas nuvens… Qual o limite? O limite é o bom senso. É a mesma coisa que você criticar as políticas do [Barack] Obama [presidente dos Estados Unidos] e chamá-lo de macaco. Eu posso, por exemplo, fazer críticas, trazendo para a realidade aqui do Nordeste, à oligarquia nordestina sem enveredar pelos estereótipos do nordestino. Então, tudo isso é questão de bom senso.

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Cartunista Carlos Latuff com criança palestina em um campo de refugiados na Jordânia.

Adital – Hoje, você mora no Rio Grande do Sul. Como se dá o seu ativismo nos movimentos sociais; ele consegue ir além do trabalho com as charges?
CL – Na verdade, eu não me entendo como um militante, propriamente dito. Existem pessoas que são realmente militantes. Eu sou uma pessoa, que eu costumo reduzir ao essencial: eu sou uma pessoa que faz desenhos e dá opiniões. Se for parar para pensar, é exatamente isso que eu faço. Tem gente que pode ser chamado de militante ou não. Eu sou um artista! Ou, como diria o Zeca Baleiro: “Um artista popular…”.

Adital – Você tinha falado antes que a repercussão do seu trabalho ganha proporções de alcance mundiais. Como você enxerga isso?
CL – Muito foda, cara. Muito foda! A rede social é um fenômeno, realmente, para o bem e para o mal. Hoje, o mainstream media chega a reproduzir as minhas charges. Era uma coisa impensável há 30 anos, jamais isso aconteceria. A Internet veio realmente para revolucionar a comunicação. Pena que a maioria das pessoas subtiliza a Internet. As redes sociais viraram uma arena da difamação, do escracho, do preconceito, do ódio. Mas isso não é culpa da rede social não! Isso é culpa da nossa mediocridade, que tem diante das mãos da gente um instrumento potente e… Não adianta você ter uma tecnologia da informação se você não tem o que comunicar. Agora, para mim, como chargista, a Internet tem sido fundamental.

Adital – Nós temos, no Brasil, um recorte da violência que tem cor, classe social, faixa etária e lugar, que tem causado um verdadeiro extermínio da juventude brasileira. Matamos mais que em países que estão em guerra ou já estiveram. Guardadas as devidas particularidades, temos semelhanças com Israel e seu conflito com o povo palestino?
CL –Você conhece o Titãs? O Titãs [grupo de rock brasileiro] tem uma música chamada “Miséria”: “Miséria é miséria em qualquer canto. Riquezas são diferentes. Índio, mulato, preto, branco. Riquezas são diferentes. Cores, raças, castas, crenças”. Eu lembrei dessa música quando entrei no campo de refugiados palestinos no Líbano. É a mesma coisa que entrar em uma favela carioca… a mesma coisa! Os gatos, os tijolos… a mesma coisa!

A sociedade humana é carregada de preconceitos. Você tem uma coleção. Você tem preconceito para dar e vender. Tem a questão de gênero, tem a questão racial, mas tem um negócio que a gente nunca pode esquecer: é a questão classe ou, como os comunistas gostam de dizer, o corte de classes. E eu aprendi isso. A questão palestina tem ingredientes religiosos, ela tem ingredientes raciais, ela tem ingredientes de gênero, mas é essencialmente uma questão de imperialismo, neocolonialismo.

Porque a gente, quando vai analisar os conflitos, como, por exemplo, o Estado Islâmico, a gente acaba enveredando por essa questão religiosa, mas a gente não pode perder de vista que a questão de classe é fundamental. Independente se é na Palestina, se é aqui. A questão de classe está marcada em todas as sociedades. Todas!

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Latuff exibe charge em que retrata o ex-presidente do Egito, Hosni Mubarak. Ilustração foi utilizada durante protestos nas ruas do país e o cartunista considerado um dos cronistas do processo egípcio.

Adital – Atualmente, o Brasil vive com as manifestações contra a presidenta Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores (PT) e onda pró-golpe militar, um cenário de incertezas e de riscos segundo vários especialistas. Estamos à beira de um golpe?
CL – Esta é a pergunta de US$1 milhão. É a pergunta que vale a entrevista inteira. A gente pode analisar essa conjuntura agora pelos mais variados ângulos. Por isso que eu te falo que eu não sou um militante, porque eu não sou comunista, por exemplo. As pessoas perguntam: “você é o quê? Você é socialista, você é comunista…”. Eu sou cartunista! Que já me dá bastante trabalho.

O que temos de concreto: primeiro, esse governo não é um governo de esquerda. Ele não é um governo, por exemplo, como o da Venezuela, capitaneado pelo Hugo Chavez, que chegou lá sem alianças com a direita. Eu sinto que o que está acontecendo no Brasil é uma disputa entre a direita. Não é entre a esquerda e a direita, é entre as direitas. A direita que está no governo com a direita que está fora do governo. Evidente que o perfil desses manifestantes que estão indo para a rua é um perfil semelhante ao da oposição venezuelana. O argumento, a retórica é praticamente importada da Venezuela, ou seja, a Dilma é comunista, o governo é comunista, existe uma ameaça comunista. Coloca-se no bojo a questão bolivariana, a questão do Foro de São Paulo, que é uma análise tosca.

Alguém que diga que a Dilma ou o governo é comunista, no mínimo, faltou às aulas de história. O que eu acho que está se tentando aqui é um golpe institucional nos moldes do que aconteceu em Honduras e no Paraguai. 64 [ano 1964, quando houve o golpe militar e instalou-se a ditadura civil-militar por 22 anos no Brasil] acho pouco provável, até porque banqueiro, multinacional não está tendo problema. Eu acho que o que está se tentando aqui é exatamente isso: essa direita capitaneada pelo PSDB [Partido da Social Democracia Brasileira], que quer dar o golpe na Dilma, ou seja, no final das contas, é uma questão meramente partidária.

Agora, a minha preocupação, não sei se você percebeu nas manifestações, é que existe um setor majoritário, que é o setor que quer o impeachment, e existe o setor minoritário, que quer a intervenção militar. A manifestação da manhã do dia 15 [de março de 2015] era do pessoal do impeachment. Na parte da tarde, a gente foi testemunha de um grupo de pessoas que — e esses grupos estão presentes em todo o Brasil — querem a intervenção militar.

Esse pessoal eu reputo como sendo a extrema direita. É o eleitor do [Jair] Bolsonaro [deputado federal brasileiro pelo Partido Progressista – PP], o cara que entende que as forças armadas são o bastião da defesa do cidadão. É um grupo mais fascista. O pessoal que vai para a rua pedindo o impeachment é o “coxinha” tucano.

O meu receio com essas manifestações é porque, na época da Marcha da Família [nova versão da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, de 1964, que foi realizada em 22 de março de 2014], ela foi inserida por meia dúzia. Em São Paulo, sempre tem muita gente, mas em outras partes do Brasil virou até “meme”, virou piada. Dessa vez as pessoas foram aos milhares para as ruas.

Aí que eu acho que a esquerda tem que fazer uma análise sobre isso, para além da Dilma. Essa Dilma é o detalhe que vai passar, a esquerda vai ficar. Ela nem a esquerda é! Ela nem a esquerda representa! Ela é a presidente da vez, ela é a peça de xadrez da vez. A gente tem que fazer uma análise de como esse tipo de organização, que é de direita, pode ameaçar futuramente — e não estou falando de um futuro distante, à esquerda. E como é que essa esquerda fragmentada, cooptada, engessada por anos de “Lulismo” e “Dilmismo” responde a esse tipo de organização.

Para o cidadão comum, antes do governo Lula, “esquerda” era o contraponto à “direita”. Agora, quando você faz o paralelo entre o governo FHC [ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso, de 1995 a 2002], vê que continua assim no governo Lula [Luís Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil entre 2003 e 2010], ele não vê diferença. Eu votei na Dilma. Eu votei na Dilma porque eu não queria que o Aécio [Neves, candidato à Presidência da República, em 2014, pelo PSDB] chegasse ao Planalto.

Aí, quando a Dilma ganha e escolhe o ministério e chama Kátia Abreu, uma ruralista para o Ministério da Agricultura e o [Gilberto] Kassab [ex-prefeito de São Paulo], que o PT sempre bateu em São Paulo, para o Ministério das Cidades, aí, realmente, fica claro que não adianta perder tempo. PT e PSDB são administradores da massa, eles são o síndico do prédio; não são donos do prédio, mas são síndicos, disputando quem vai estar na sindicância do prédio na próxima eleição.

A gente precisa fugir dessa polarização, que é muito norte-americana: republicana e democrática. Agora, a ameaça que eu acho que se apresenta nesse momento é a organização e a ida em massa da classe média branca, porque eu não vi preto na rua, essa lógica é bem venezuelana. Você vê os protestos na Venezuela: é só branco. Já os chavistas, é tudo moreno, negro. Você vê distinção de classes muito claramente. Aqui você também está vendo.

Existe um problema muito grande se a classe trabalhadora se juntar a esse pessoal por querer mudança. A esquerda, do jeito que ela está hoje, tem condição de dar resposta? Ela precisa! Ela tem que, rapidinho, fazer uma análise de conjuntura, uma análise desse momento, porque a imprensa vai botar lenha nessa parada; a direita saiu vitoriosa, foi para a rua, mesmo com as pautas mais absurdas.

Ou, então, vamos desenhar bem claramente uma divisão. Já que é luta de classe, vamos deixar essa coisa exposta. E a esquerda ir para a rua e dizer: estamos aqui! Porque as manifestações vão continuar. E elas vão continuar maiores. Em 2013, as pessoas iam para a rua sem uma pauta definida; agora tem, é o impeachment.

Na Primavera Árabe, o que fortaleceu os manifestantes no Egito foi derrubar o Mubarak. Quando derrubaram o Mubarak, não sabiam o que fazer. Do ponto de vista de governo, a derrubada da Dilma não vai trazer nenhuma mudança substancial no governo: vai ser o [Michel] Temer [vice-presidente da República], vai ser o PMDB [Partido do Movimento Democrático Brasileiro].

Será que o PMDB vai trazer a extrema direita? Como o PMDB navega por todas as ondas, para fazer uma aliança com a extrema direita não é difícil. Essas questões todas têm que ser levadas em consideração. Agora, não sei se, na atual conjuntura, a esquerda tem condições de dar uma reposta. A coisa está muito ainda na questão da Dilma, e eu estou falando que é irrelevante.

A Dilma é irrelevante. Ela nem sabe falar! Mandou o [Miguel] Rossetto [membro da coordenação de campanha que reelegeu Dilma Rousseff] falar por ela. E a análise é que ela mandou o Rossetto porque entenderam que, se ela falasse, iria alimentar os protestos, ou seja, ela é tão ruim que a fala dela alimenta o protesto. O Lula é muito mais articulado do que ela. Sinceramente, eu não sei o que vai acontecer.

Agora, se eu fosse a esquerda, botava logo a barbinha de molho, porque a coisa não está boa não. Se tivesse disposição, ela chegava e bancava isso tudo, peitava e convocava a esquerda, já que querem dar golpe. Mas aí você trepa com a direita e faz amorzinho com a esquerda? Você faz aliança com o [Paulo] Maluf [político e empresário brasileiro, ex-prefeito e ex-governador de São Paulo], com o [José] Sarney [ex-presidente do Brasil e ex-presidente do Senado Federal], com essa corja e aí, quando a corda está no pescoço, você chama a esquerda? Hoje, ela não tem sequer moral para isso.

Essa situação que a gente está enfrentando hoje é culpa do PT, porque fez aliança não com a população, mas com a oligarquia. Que chame a oligarquia para salvá-la agora. A Dilma e o PT vão passar, a esquerda não. A análise que eu acho que temos que fazer sobre esses protestos, sobre essa organização da direita é de como isso vai afetar o movimento social, porque os caras são paranoicos. Eles são contra feministas, contra gays, contra direitos humanos, contra comunistas, contra socialistas. E você tem associado a isso, o que é ainda pior, as igrejas evangélicas, os gladiadores da fé; e o argumento das igrejas evangélicas é o mesmo desses coxinhas.

E são milhões de pessoas. O [Silas] Malafaia [pastor pentecostal brasileiro líder do ministério Vitória em Cristo, ligado à Assembleia de Deus], o Edir Macedo [fundador e atual líder espiritual da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da Rede Record de televisão] e o RR Soares [fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus] não pregam para convertidos, eles falam para a massa. E a esquerda não fala pra massa. A esquerda chega para um sujeito na rua e fala de mais valia, de luta de proletariado, imagina que a gente está no czarismo. Um pastor desse prega o microfone e fala para milhares, para milhões, e todo mundo entende.

Adital – Para a gente finalizar, o que você diria para os novos artistas. Para os jovens que estão se aventurando pela sua área e por outros ramos da arte?
CL –
 O artista não tem a obrigatoriedade, a necessidade de ser engajado. O artista engajado 24 horas é chato. Mas também você não precisa ser o Romero Britto [pintor brasileiro radicado nos Estados Unidos]. Ele é a antiarte. Para mim, ele é o maior representante da antiarte. Ele, inclusive, se coloca como o novo Picasso. O artista não tem que ser 24 horas engajado, mas ele pode colocar parte do seu trabalho a serviço da transformação, ou, pelo menos, do questionamento.

O que eu tenho visto é que a arte tem sido utilizada muito pra endossar o status quo. Por exemplo, o grafite que tem uma raiz de contestação, no que se transformou: ele virou o Romero Britto dos muros. Indiscutivelmente, são artistas, mas o que eles pintam nos muros não te diz nada efetivamente, ele não meche com as suas certezas. E eu acho que o bom da arte é quando ela questiona sobre as suas certezas cristalizadas.

Em tempos de senso comum sendo despejado na cabeça das pessoas 24 horas pelo rádio, tevê, Internet etc., o papel do artista de quebrar essa lógica é muito importante. O que eu diria é o seguinte: incomode! Pise nos calos certos, crie um ruído nessa comunicação. E a arte é a melhor maneira de fazer as pessoas refletirem. Um desenho fala muito mais do que um panfleto, fala muito mais do que um texto, fala muito mais, às vezes, até do que ler um livro.

Quando as pessoas veem um desenho, uma pintura, uma escultura, aquilo chega a elas pelo coração, pelo sentimento. Existia, nos anos 1980, uma banda chamada Plebe Rude e tinha uma música fantástica que dizia assim: “Com tanta riqueza por aí, onde é que está, cadê sua fração, até quando esperar, até quando esperar a plebe ajoelhar, esperando a ajuda de Deus”. A poesia, a arte chega no coração das pessoas. A arte pode ser um instrumento de manutenção das coisas como estão ou ela pode despedaçar esse estado de coisas, pode ajudar a criar rachaduras. É isso que eu acredito!

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