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Edward Said, a filologia e o tal relativismo

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No prefácio à edição de 2003 de Orientalismo, Edward W. Said tece longos elogios à filologia, de Goethe e Herder a Erich Auerbach. A ciência que introduziu Nietzsche a Dioniso é tratada como campeã do pluralismo, da abertura ao outro, da curiosidade democrática pelo que não se entende, mas se quer entender. E Said tem razão. O princípio do bom filólogo é que, para compreender de fato o que se escreveu em outras terras e outros tempos, primeiro cumpre reconhecer a alteridade por inteiro. Isso significa aceitar, mesmo que temporariamente, valores muito estranhos aos seus e ideias que parecem inconcebíveis. É preciso escapar à tentação de interpretar julgando, isto é, de impor a universos que nos são inteiramente alheios às convicções que desenvolvemos em nosso tempo, e não no deles; em nosso espaço, e não no deles.

Said contrapõe a humildade dos filólogos, que pacientemente se embebiam (ou ainda se embebem, enfim) de diferença e intercâmbio agonístico, ao discurso sedutor e imediatista dos “especialistas” de hoje. Esses que, na CNN e na Fox, em livros e entrevistas, em artigos na imprensa, em todo canto, se apresentam para introduzir na cabeça de quem se dispõe a crer uma infinidade de distinções claras, distintas, simples e, é claro, falsas. Escrito no calor da cruzada, ops, campanha de Bush pelo petróleo, ops, contra a ditadura iraquiana, o prefácio de Said vale para muitos outros campos. Ele tem toda razão ao apontar que o século começa mal: não queremos saber de colocar as coisas em perspectiva.

Fico me perguntando quantas vezes esse prefácio já não foi tachado de relativista. E já que toquei nessa palavra, paro nela. Existe um velho truque da retórica que consiste em encarnar a negação do seu argumento num inimigo fictício, transformá-lo numa caricatura (sem exagerar, para não ficar evidente demais), explorar à exaustão o ridículo de seu pensamento e, por fim, apresentar como redenção sua própria forma de pensar. Não costuma falhar. Goebbels, por exemplo, inventou a figura do judeu que era ao mesmo tempo financista, sionista e comunista. Em toda a Europa, quem não caiu, pelo menos balançou.

Hoje, para além da figura batida do árabe-terrorista-antiamericano, existe uma palavra guarda-chuva que não designa ninguém em particular e é, por isso mesmo, mais eficiente em sua missão de cobrir tudo que se queira desqualificar. O tal relativismo não tem rosto, como um indivíduo árabe (aquele que Bush deplora) ou judeu (que Goebbels denegria). Assim, não se pode apontar para o adversário, chamá-lo de feio e sair andando. Mas é por isso mesmo que qualquer coisa pode passar por relativismo, contanto que se oponha à convicção do orador.

Basta partir do começo de sempre, que é revelar, pela milésima vez, o erro de um enunciado bem batido: “tudo é relativo”. Ora, dirá o gênio da lógica: essa frase é uma contradição performativa, porque para que ele seja verdadeiro, é necessário que ao menos ele mesmo seja absolutamente verdadeiro. Mas nesse caso, ele seria falso, tendo afirmado que tudo é relativo. Partindo dessa denúncia notável em sua originalidade, pode-se acusar qualquer um de ser relativista. Basta tentar colocar as coisas em perspectiva, analisar o quadro teórico de um conceito ou buscar as raízes históricas de uma determinada conjuntura. Pronto, amigo… haverá um adversário esperto para apontar o seu relativismo. Afinal de contas, alguém que não corre para meter todo o universo sensível em compartimentos pasteurizados e perenes está sempre a um passo de afirmar que “tudo é relativo”, não é verdade?

A coisa se complica um pouco quando procuramos alguém que afirme, de fato, que “tudo é relativo”. Encontramos, sim, muita gente dizendo que “tudo está em relação”, que “tudo é relativo a algo” ou, no máximo, que “nenhuma verdade é absoluta”. Mas nada que não dê para contornar. Basta transformar tudo isso em sinônimo de “tudo é relativo”. E parece, não parece? Acontece que dizer “nenhuma verdade absoluta” é apenas o oposto de dizer “alguma verdade é absoluta”. Essa assertiva, sim, é que seria bem difícil de defender. O único indivíduo que poderia afirmar algo assim sem incorrer numa falácia seria um indivíduo absoluto, isto é, onisciente.

Ou seja, Deus. O que ajuda a explicar por que os papas são os primeiros a atacar o tal relativismo, já aproveitando para jogar no mesmo saco o ceticismo, o ateísmo, o secularismo e tudo que escape ao poder soi-disant espiritual do Vaticano. Aceitemos que o papa ainda tem uma certa margem de manobra para defender que “alguma verdade é absoluta”; afinal, segundo a mitologia que o sustenta, ele é infalível mesmo quando se contradiz. Isso não vale para nenhum outro ser humano, porém. Qualquer indivíduo, por mais fiel que seja, ao afirmar que “alguma verdade é absoluta” não está se colocando de acordo com o Deus em que acredita, mas no lugar do Deus em que acredita. Ele está afirmando saber, sem o menor pingo de dúvida, algo que caberia a Deus e a ninguém mais saber. Em outras palavras, alguém que afirme que “alguma verdade é absoluta” e em seguida der um exemplo, está, na melhor das hipóteses, blasfemando.

Mas se fosse privilégio do obscurantismo religioso, a criação do inimigo relativista não iria muito longe. O simples fato de autoridades pretensamente espirituais se verem forçadas a entrar num debate já atesta a obsolescência de sua teo-ontologia. Infelizmente, o barulho que fazem mascara sua verdadeira estratégia: ditar os termos do contraditório. Conseguindo estabelecer a “linha agonística”, seu grande triunfo é arrastar para a estrutura lógica deles as pessoas que deveriam estar em debates muito mais avançados.

Com isso, mesmo quem defende valores humanos, seculares, terrenos, acaba os defendendo errado. E esse é o maior perigo. O que não falta são especialistas (e seus acólitos) reunindo uma série de belos conceitos – tolerância, democracia, liberdade – num pacote de nome esquisito: “valores ocidentais”, para opor ao obscurantismo do adversário da vez, quais sejam, hoje, os árabes, muçulmanos, terroristas, enfim, escolha a palavra que lhe pareça mais chocante. Em que pese o termo “ocidental” ser dos mais presunçosos que haja, esse pacote de valores produz uma ideia de que todos esses belos conceitos são inerentes a uma parte do mundo (algo como um “povo escolhido”…). O “ocidente” seria, então, a gente (o século XIX diria “a raça”) que vislumbrou essas tábuas humanistas dos mandamentos, enquanto o resto do mundo, esses primitivos, segue incapaz de enxergar a Verdade.

Por um lado, conceber assim os valores da Declaração Universal dos Direitos Humanos (por exemplo) escamoteia todo um passado de lutas, disputas, sofrimentos e traições, guerras, revoluções, golpes palacianos e tratados redigidos, que permitiu o florescer dessas belas ideias. Nunca é demais lembrar que a primeira declaração dos direitos do homem (e do cidadão) foi fruto da mui pacífica Revolução Francesa; a segunda, essa mencionada no começo do parágrafo, foi uma resposta a nada mais, nada menos do que o holocausto e demais atrocidades no nazi-fascismo. Apontar os conceitos do humanismo como valores morais absolutos é fechar os olhos para seu maior mérito: a historicidade. Se hoje cremos que nada é mais sagrado do que uma vida humana, agradeça à história, à filosofia, à politica. Mas não a alguma espécie de fundamento metafísico. Por sinal, o postulado da sacralidade da vida humana é, no mínimo, relativo à existência de seres humanos. Crer nele como absoluto é nada mais que absurdo.

Por outro lado, ao campear no terreno do adversário, o humanista absolutizado entra numa batalha que não poderá jamais vencer. E teria sido tão fácil… Tomemos o exemplo da burqa, que qualquer humanista considera um acinte e um desrespeito aos direitos da mulher. Se apontar o dedo para o mulá mais próximo, acusando-o de violar o valor absoluto da igualdade entre os sexos, a eminência adversária dará de ombros. Quem disse que esse valor é absoluto?, ele perguntará. E prosseguirá: nós preconizamos a burqa como aplicação de um valor absoluto (a superioridade de um sexo sobre o outro) definido por um ser absoluto, que é Deus. Você chama de absoluto um valor escrito por uma assembleia parcamente internacional, há coisa de meio século.

Normalmente, o humanista poderia demonstrar com duas frases que quem instituiu esse tal “valor absoluto” não foi Deus, foi o próprio sacerdote. Que ele interpretou da maneira que quis um livro que ele mesmo definiu como santo. Que ele está se escudando atrás de um ser transcendente para poder encampar seus próprios preconceitos e seu próprio poder, um poder secular se passando por espiritual. Mas o humanista absolutizado ficará sem palavras, porque, de fato, não pode ser absoluto um código de valores que evolui com o tempo, que começou como uma afirmação dos direitos da burguesia no século XVIII e até hoje continua sendo emendado para incluir quem estava de fora: as mulheres, os negros, os deficientes físicos, as crianças, agora os animais e, a seguir algumas tendências bem contemporâneas, logo a natureza inteira.

* * *

Este texto é claramente uma longa digressão. Pretendo tratar o tema do “relativismo” em outro artigo, mas agora preciso voltar a Edward Said, senão vai parecer que ele foi só uma desculpa para fisgar o leitor (que, a essa hora, certamente já se mandou). Said aponta que, nas mãos dos especialistas imediatos e superficiais da mídia, perdemos a capacidade de mergulhar na realidade do outro. Verdade seja dita, essa capacidade nunca foi muito disseminada… Mas havia, pelo menos, os filólogos, dentre os quais Said põe uma coroa na cabeça de Auerbach (com muita justiça).

Pior ainda, eu acrescentaria que perdemos a capacidade de mergulhar em nós mesmos. Na pressa de estar “do lado certo”, estregamos o ouro nas mãos do bandido porque abandonamos o lento processo de estabelecimento das nossas conquistas – e ouso falar “nossas” porque me considero um humanista, um moderno, defensor de todos esses belos conceitos que enumerei acima. Muito sangue correu para que aprendêssemos a viver segundo princípios que não dependem de nenhum holismo, nenhuma transcendência, nenhuma imposição divina.

É uma vitória e, como toda grande vitória, precisa ser renovada a cada instante, diante de cada ameaça. Daí a pergunta da filologia: o que isso quer dizer? De onde veio? Como tomou corpo? É muito mais do que um esforço hermenêutico. É a construção das nossas convicções e dos nossos valores. Que são nossos, não são absolutos, felizmente.

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