Dos escombros da Palestina surgem os poetas combatentes Reviewed by Momizat on . Dos escombros da Palestina surgem os poetas combatentes  Ano VII, nº 50, fevereiro de 2009 Júlio Moreira* Dos escombros da Palestina surgem os poetas combatente Dos escombros da Palestina surgem os poetas combatentes  Ano VII, nº 50, fevereiro de 2009 Júlio Moreira* Dos escombros da Palestina surgem os poetas combatente Rating: 0

Dos escombros da Palestina surgem os poetas combatentes

Dos escombros da Palestina surgem os poetas combatentes

Dos escombros da Palestina surgem os poetas combatentes

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Ó meu povo, ó minha pátria, o que posso escrever e para quem? Espero não ter que escrever até a carta da vitória. Assoviem, ó balas e cala-te, lápis!”

Essas palavras foram encontradas no diário do guerrilheiro Mazin Abu Ghazzalah, que participou de uma ação da resistência palestina desencadeada em 30 de setembro de 1967. Após resistir por três dias, Mazin conseguiu cobrir a retirada de seus companheiros, e suas munições se esgotaram. Cercado por vários soldados, fez explodir duas granadas em suas mãos, morrendo ao mesmo tempo em que matava os inimigos.

No auge da aflição
uma divina luz iluminou cada dobra de seu coração
e em seus olhos acenderam-se brasas
fechou seu diário
Mazin, o grande valente se ergueu
levando o peso de seu amor
as penas de sua terra e de seu povo
e os espalhados estilhaços de esperança

Assim escreveu a poetisa Fadwa Tuqan. Nascida em 1º de março de 1917, na cidade de Naplusa, onde sua família tinha se estabelecido desde o início do século XX. Ela era irmã do poeta Ibrahim Tuqan, também conhecido e respeitado no mundo árabe.

Fadwa testemunhou os ataques de junho de 1967, quando sua cidade caiu sob a ocupação e domínio israelense. Sua expressão poética, nesse momento, passou de um sentimento de exílio e separação, para a poesia de resistência e combate.

Continuarei lutando
e gravarei na terra, nos muros
nas portas, nas janelas
no templo da virgem e nos mihrabs
nos sulcos, nos relevos e nas rodas
na prisão, na câmara de torturas, na forca
apesar das correntes, apesar da destruição das casas
apesar da mordida das brasas
continuarei gravando seu nome
até que a veja
estender-se sobre minha pátria e crescer
crescer, crescer
até cobrir cada polegada de sua terra
até que eu veja a liberdade vermelha abrir cada porta
a noite fugir e a luz destroçar as fortificações da névoa
Liberdade! Liberdade! Liberdade!

A década de 60 viu surgir uma geração de poetas palestinos comprometidos com seu povo, rompendo com o apego à forma e às paisagens que marcava a poesia palestina até então.

A Poesia Palestina de Combate representa uma frente de resistência ao genocídio sionista, um chamado à defesa da terra, um resgate da memória e da história do povo palestino, diante das investidas de Israel para anulação da cultura e da existência desse povo.

“Somos filhos deste povo árabe. Deixamo-nos penetrar por esses ritmos e esses poemas, por seus contos e lendas. Tomamos emprestado e nos expressamos com a ajuda deles. Nós os reutilizamos, os transformamos para chegar a nosso objetivo: ganhar o coração das massas populares e sensibilizá-lhes.

A causa palestina para mim é parte integrante do movimento de libertação árabe em seu conjunto e do movimento revolucionário mundial.

Para mim, a poesia quer dizer: “estou vivo, existo”. Não posso separar minha poesia de mim mesmo. “Impedir-me de escrever, para mim, é uma condenação à morte.”

São palavras de Samih Al Qassim, outro poeta palestino de grande projeção, além de professor. Após a publicação de sua primeira coletânea de poemas, foi excluído do exercício do magistério. Assim como os outros poetas de sua geração, sofreu a perseguição, a prisão, as torturas, a prisão domiciliar e o desaparecimento forçado.

“Os poetas participaram plenamente, de modo intelectual e fisicamente, das sucessivas batalhas políticas de seu povo”, diz o poeta marroquino Abdellatif Laâbi, responsável pelo resgate da Poesia Palestina de Combate, publicadas em livro com esse nome (1981 – edição em português pela editora Achiamé).

Ao ser preso, o poeta Salim Jabran ouviu do policial que lhe algemava: “Agora você já pode escrever poemas”. O poeta respondeu:

Sim
levarei minhas correntes
farei com que os prisioneiros ouçam os poemas
que eu bradava nas praças e nas ruas
as correntes oprimem minhas mãos
uma vergonha abrasa a consciência
sim… mas não a minha
abrasa o abjeto poder que te produziu
a ti
verdugo

Por mais que permaneçam os bloqueios econômicos, os muros da vergonha, a imposição da fome, a privação dos meios de sobrevivência, os ataques genocidas enfim, as tentativas absurdas de suprimir a existência de um povo, Tawfic Az-Zayad adverte ao Estado Sionista que a Palestina sempre resistirá.

Aqui
sobre vossos peitos
persistimos
como uma muralha
famintos
nus
provocadores
declamando poemas
[…]
Somos os guardiães da sombra
das laranjeiras e das oliveiras
semeamos as idéias como o fermento na massa
nossos nervos são de gelo
mas nossos corações vomitam fogo
quando tivermos sede
espremeremos as pedras
e comeremos terra
quando estivermos famintos
Mas não iremos embora
e não seremos avarentos com nosso sangue
Aqui
temos um passado
e um presente
Aqui
está nosso futuro

Os poetas sabem, por fim, qual é a paz de que necessitam. Cantam a volta aos territórios de onde foram expulsos diretamente para os campos de refugiados. Seus cantos dizem aquilo que o monopólio dos meios comunicação e a política de esquerda oportunista e demagógica ignora, ao lamentar sobre a dor e o sofrimento do povo palestino. A Palestina reage às tropas de ocupação. A Palestina é Resistência! A Palestina é Heróica! A Palestina é Intifada!

enquanto me reste. . . alento
gritarei de frente ao inimigo
gritarei, declaração de guerra
em nome de homens livres
operários, estudantes, poetas
gritarei. . . e que os parasitas
e os inimigos do sol
se fartem do pão da vergonha
enquanto me reste alento
e alento me restará
minha palavra será o pão e a alma
entre as mãos dos guerrilheiros (Samih Al Qassim)

 

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