CRÔNICAS DA DOR PALESTINA Reviewed by Momizat on . Mahmud Darwish 1 Não há necessidade de lembranças O Caramelo está em nós E nas nossas pálpebras cresce a relva da Galiléia Não me diga: corramos, como um rio, a Mahmud Darwish 1 Não há necessidade de lembranças O Caramelo está em nós E nas nossas pálpebras cresce a relva da Galiléia Não me diga: corramos, como um rio, a Rating: 0

CRÔNICAS DA DOR PALESTINA

Mahmud Darwish

1
Não há necessidade de lembranças
O Caramelo está em nós
E nas nossas pálpebras cresce a relva da Galiléia
Não me diga: corramos, como um rio, ao seu encontro
Estamos na carne de nossa terra
Ela está em nós

2
Não éramos recém-nascidos antes de junho(*)
É por isto que nossa paixão
Não acabou nas cadeias
Já faz vinte anos disso, ó irmã
Não escrevemos somente poemas
Também lutamos

3
As sombras que se afogam nos teus olhos
São de um espírito divino
Vindo de junho
Para iluminar com o sol todas as testas
É a pele de um mártir
É o gosto de oração
Fazem-nos morrer ou ressuscitar
Doce dilema!

4
Os primeiros véus da noite caindo nos teus olhos
Caem também sobre mim
Como gotas de aurora
O que nos une, agora, aqui
É o caminho de volta
O retorno da era da velhice

5
Esta noite, tua voz
É o punhal, a ferida e o remédio
O sono que brota do silêncio das vitimas
Onde estão os meus?
Abandornaram os barracos do exílio e retornaram
Para serem novamente
Entregues à rapina

6
As palavras de amor não morreram
Mas meu amado
Está preso – ó meu amor, que me confiaste
As janelas que a ventania levou
As portas das casas
E os pecados
Só teus olhos
Preencheram meu coração
E a gora é a pátria
Que transborda do meu coração

7
Agora já sabemos
O que é que trnsforma o canto do pássaro
Em punhal que se agita frente aos conquistadores
Sabemos
O que transforma o silêncio dos cemitérios
Em apoteose de jardins e de vida

8
No entanto você cantava
Eu via como as janelas saíam das paredes
E a praça crescia até chegar às encostas das montanhas
Já não podíamos mais escutar a música
Nem entender as palvras
Um multidão de heróis
Enchia a sala

9
Meu sangue deu a seu rosto
O verão e a vida
Entrei na casa
Com medo
Ele caio morto… sobre minha ferida
Ele era o refúgio da noite de Natal
Ele era a espera
E agora colho a festa
No pomar da sua lembrança

10
Fogo e orvalho são seus olhos
Canta se me aproximo dele
Nos seus abraços se dissolvem o silêncio e a oração
Chame-o de mártir, se quiser
Muito jovem abandonou o acampamento
E depois voltou
Tinha a Express de um deus
Quando voltava

11
Esta terra que cola na pele dos mártires
Promete ao verão colheitas de trigo e de estrelas
Ame-a
Dentro dela, nós somos a água e o sal
E sobre ela, um doloroso abcesso
De resistência

12
As lágrimas sobem na minha garganta
E meus olhos ardem
Cheguei até o portão dos portões
Todos os que morreram
E os que vão morrer no amanhecer
Me abraçaram
E me transformaram
Em vulcão

13
O solar dos meus está deserto
Jaffa foi disfigurada até as raízes
E aquele que me procurava
Não encontrou nem sinal de mim
Me dê essa morte toda, irmã
Me dê todas as perdas
E farei com elas um estrela
Para que brilhe no céu de da derrota

14
O minha orgulhosa dor
Minha pátria não é uma mala
E eu não sou um passageiro
Eu estou louco
E esta terra
É a minha paixão

15
Se me abandono às lembranças
A grama do remorso cresce na minha testa
E sofro pelo inatingível
Se me abandono à saudade
Tomo para mim os mitos dos escravos
Por isso, eu escolhi fazer com minha voz uma pedra
E com a pedra, uma canção

16
Minha testa não tem sombras
E eu não vejo minha própria sombra
E estou na ribeira
Que não ilumina os domínios da noite
Guarda as lágrimas para a festa
Só derramaremos lágrimas de alegria
E que esta morte na areia
Seja promessa de vida

17
Eu cresci nas feridas
E não contei para minha mãe
Como, na noite, ela se transforma em campo de refugiados
Não joguei fora minha origem, meu endereço e meu amor
É por isto que eu vi
Mil estrelas brilhando sobre os despojos

18
Minha bandeira é preta
O porto é um túmulo
Minhas costas são uma ponte
O inverno do mundo correndo em nós
A primavera do mundo nascendo em nós
A flor é vermelha
O porto está aberto
E meu coração é uma árvore

19
Meu idioma
É o murmúrio D’água
No rio das tormentas
É o arabesco do sol e o trigo
No campo de batalha
Eu posso ter me expressado mal
Mas fui, sem dúvidas, genial
Quando troquei o dicionário pelo coração

20
Foram necessários os inimigos
Para saber que nós somos gêmeos
Foi necessária a tempestade
Para que morássemos noa troncos
Dos carvalhos
E se o Senhor Jesus Cristo não tivesse crescido
No trono da cruz
Teria sido covarde
Como uma criança que perdeu seu sofrimento

21
Vou te contar uma coisa
Que nunca disse a ninguém
A sombra da varanda invadui a lua
Meu país é uma epopéia
E eu tinha o papel de interprete
E agora me transformei
Numa das cordas do instrumento

22
O arqueologista tenta interpretar as pedras
Procura seus restos nos despojos das tendas
Para provar
Que eu sou um simples passageiros sem restos
Que nenhuma palvras testemunha minha presença
No livro da civilização
E eu apenas cuido do meu pomar, sem medo
E canto meu amor

23
A tempestade de verão que a derrota traz
Cancelou o discurso dos reis
Na corda dos milagres
Eu sou o assassinado, e o ressucitado na noite do crime
Minhas raízes
Se afundam na terra

24
Agora chega o momento
De passar das palavras à ação
Chega o momento
De aprovar meu amor
À terra e aos pardais
Nestes tempos, as armas massacram os violões
E eu
Assustei-me, no espelho
Quando uma árvore se levantou atrás de mim.

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