Conflitos árabes são resultado de influência externa Reviewed by Momizat on . 17/09/2014 - 14:36hs Conflitos árabes são resultado de influência externa Em palestra realizada na Câmara Árabe, a historiadora Arlene Clemesha apresentou os pr 17/09/2014 - 14:36hs Conflitos árabes são resultado de influência externa Em palestra realizada na Câmara Árabe, a historiadora Arlene Clemesha apresentou os pr Rating: 0

Conflitos árabes são resultado de influência externa

17/09/2014 – 14:36hs

Conflitos árabes são resultado de influência externa

Em palestra realizada na Câmara Árabe, a historiadora Arlene Clemesha apresentou os processos de formação dos estados árabes desde a Primeira Guerra Mundial e as consequências do conflito na região.

Marcos Carrieri
marcos.carrieri@anba.com.br

São Paulo – A situação de instabilidade política por que passam muitos países árabes hoje têm origem no século 20 e são resultado da dominação estrangeira nos países do Oriente Médio e do Norte da África, segundo opinião da historiadora Arlene Clemesha. Em palestra realizada na noite de terça-feira (16) na Câmara de Comércio Árabe Brasileira, ela apresentou às cerca de 80 pessoas que assistiram ao evento, entre elas o presidente da instituição, Marcelo Sallum, alguns dos motivos que levaram às revoltas populares chamadas de Primavera Árabe, as razões dos conflitos na Palestina e os sucessivos confrontos em países da região, assim como o surgimento de grupos radicais.

 

Sergio Tomisaki/Câmara Árabe
Clemesha e Sallum: segunda palestra sobre povos árabes

 

Clemesha afirmou que muitos dos problemas atuais tiveram origem na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando Grã-Bretanha, França e a Rússia, governada pelos czares, discutiam sua influência mundo árabe. “O Oriente Médio foi palco da Primeira Guerra Mundial e diversas potências europeias tinham interesse no Império Otomano: França, Inglaterra e a Rússia dos czares. Eles tinham ideia das riquezas da região, como o petróleo do Irã, por exemplo”, disse.

Clemesha explicou os resultados da celebração do acordo secreto de Sykes-Picot, em 1916, desenhado por diplomatas da França e Reino Unido e que definia onde cada país exerceria sua influência. Os britânicos controlariam a parte sul do Iraque, do Kuwait e exerceriam influência sobre a Jordânia. Já os franceses se ocupariam da região norte, onde estão Síria, Líbano e o norte iraquiano. A Palestina não ficou com ninguém, no entanto alguns povos que viviam ali foram apoiados pelos franceses, outrospelos russos e outros, como os judeus, pelos ingleses. Esse acordo, no entanto, só ficou conhecido após a Revolução Bolchevique, na Rússia, em 1917.

Desde o fim da Primeira Guerra, a região do Oriente Médio e Norte da África, que já fora marcada por batalhas desde o século 07, passou a ser alvo de constantes disputas das potências europeias. A presença estrangeira resultou na expansão do islamismo como movimento político, religioso e cultural e do nacionalismo árabe. No Egito, a ascensão de Gamal Abdel Nasser ao poder levou à nacionalização, em 1956, do Canal de Suez, que é o principal elo na rota marítima entre Europa, África e Ásia.

As descobertas das reservas de petróleo na região, na maioria dos casos pelos ingleses, levou às declarações de independência dos países árabes e muçulmanos dominados pelos europeus. No Irã, que não é um país árabe, o petróleo foi descoberto em 1908. Na região do Curdistão, no Iraque, foram encontradas reservas em 1927, assim como em 1932 no Bahrein e em 1938 no Kuwait e no Leste da Arábia Saudita. Síria, Líbano e Jordânia se tornaram independentes em 1946. O Egito, em 1952. Vinte anos antes, a Arábia Saudita fora declarada um reino com apoio britânico.

 

Sergio Tomisaki/Câmara Árabe
Plateia assistiu às explicações e esclareceu dúvidas

Clemesha observou que a constante presença ocidental na região, assim como a crença dos europeus de que os árabes não estavam prontos para governar sozinhos, influenciou na formação de territórios como a Palestina. Um primeiro documento de partilha da Palestina apresentado pelas Nações Unidas na década de 1940 previa uma área maior do que a existente para os palestinos e também previa que Jerusalém seria um “corpus separatum”, ou seja, que não pertenceria a um território árabe ou judeu. A proposta não foi aceita.

Nacionalismo árabe

As constantes interferências na região, as invasões de territórios, as guerras e os acordos políticos secretos, observou a historiadora, levaram ao surgimento e à expansão do nacionalismo árabe e de grupos radicais.

Ainda assim, Clemesha explicou à plateia do evento a diferença entre alguns desses grupos. Hezbollah, que surgiu no Líbano, Irmandade Muçulmana, do Egito, e o Hamas, na Faixa de Gaza, têm representação política e costumam negociar com seus adversários. Mas há exemplos de facções radicais como a Al Qaeda, que resultou da invasão soviética ao Afeganistão em 1979; o Boko Haram, que atua na África, e o Estado Islâmico do Iraque e da Síria (Isis, na sigla em inglês).

“Muitos casos de islamismo político surgem a partir da dominação estrangeira na região. É o que ocorre com o Isis hoje. É resultado da presença dos Estados Unidos no Iraque desde 2003, e é um fenômeno historicamente constituído”, afirmou.

Ciclo de palestras

A palestra “O Oriente Médio, do século 20 ao 21: 100 anos de Sykes-Picot” deu continuidade a uma primeira apresentação feita por Clemesha. Em outubro de 2013, a historiadora e professora doutora do Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) apresentou à plateia, também na Câmara Árabe, a formação dos povos árabes.

“Foi produtivo apresentar mais da história árabe. O público se interessou pelo assunto, me ouviu falar por quase duas horas e fez questionamentos relevantes”, disse. A apresentação de Clemesha faz parte do ciclo de palestras promovido pela Câmara Árabe. A próxima está marcada para 14 de outubro.

Nela, a professora e coordenadora do curso de pós-graduação em Economia, Cultura e Cidades na Fundação Getúlio Vargas, Ana Carla Fonseca Reis, irá apresentar as cidades criativas, a forma como o espaço público se desenvolve nelas, a economia criativa que surge nestes centros urbanos e a gestão e governança destes municípios.

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