Como vender guerra ‘ética’ e violar também os direitos civis dos israelenses Reviewed by Momizat on . Neve Gordon, Counterpunch, 16-18/1/2009 http://www.counterpunch.org/gordon01162009.html Neve Gordon é chefe do departamento de Política & Governo, na Ben-Gu Neve Gordon, Counterpunch, 16-18/1/2009 http://www.counterpunch.org/gordon01162009.html Neve Gordon é chefe do departamento de Política & Governo, na Ben-Gu Rating: 0

Como vender guerra ‘ética’ e violar também os direitos civis dos israelenses

Neve Gordon, Counterpunch, 16-18/1/2009
http://www.counterpunch.org/gordon01162009.html

Neve Gordon é chefe do departamento de Política & Governo,
na Ben-Gurion University do Negev e autor de
Israel’s Occupation (University of California Press, 2008).

Um dos meus alunos foi preso ontem e passou a noite na cadeia. O crime de R. foi protestar contra o ataque de Israel contra Gaza. Foi juntado a outros mais de 700 israelenses que foram detidos desde o início desse cruel ataque a Gaza: cerca de 230 (pelas mais recentes estimativas) continuam presos. No contexto israelense, essa estratégia para impedir qualquer protesto e qualquer tipo de resistência é novidade, e impressiona que a mídia internacional não veja aí qualquer assunto a noticiar.

Simultaneamente, a mídia em Israel serve o governo, em tal grau de servilismo, que nenhuma crítica à guerra foi ouvida em nenhum dos três canais de televisão locais. De fato, a situação é tão absurda, que repórteres e âncoras são até menos críticos do que os porta-vozes militares.

Na total ausência de qualquer análise crítica nos jornais e televisões, não surpreende que 78% dos israelenses, ou cerca de 98% de todos os judeus israelenses, apoiem a guerra.

E esconder todas as vozes críticas não é o único modo pelo qual garantir apoio à guerra. Inventar argumentação lógica também ajuda.

Um dos modos pelos quais a mídia, o exército e o governo de Israel têm convencido os israelenses a manifestarem-se a favor da carnificina é ‘declarar’ que Israel luta uma guerra moral contra o Hamás. A lógica, como Eyal Weizman observou em seu livro “Hollow Land” [Terra oca], é a lógica “da moderação” (Israel seria moderado, no sentido de auto-regulado, autocontido, equilibrado, ponderado).

Para destacar a política “da moderação”, a mídia aprofunda o abismo que separa o que o exército de Israel tem poder para fazer contra os palestinenses e o que efetivamente fez e faz. Aqui, alguns poucos exemplos dos slogans que se ouvem todos os dias, nos noticiários:

• Os jatos de Israel podem bombardear casas, sem qualquer aviso; mas o exército emite avisos – por telefone, acredite quem quiser – prevenindo os moradores de que têm 10 minutos para evacuar as casas que serão destruídas. O subtexto é aterrorizante: o exérctio pode destruir casas e matar civis dentro de suas casas, sem aviso; só não o faz (?) porque é exército humano e respeita os valores da vida humana.

• Israel condena o uso de bombas de fragmentação [“teaser bombs”] – aquelas que matam pessoas, mas não destróem casas –, o que não impede que minutos depois dispare mísseis letais; outra vez, para mostrar que o exército poderia matar muito mais palestinenses; não mata (?) porque não quer.

• Israel sabe que os líderes do Hamás estão escondidos no hospital al-Shifa. Assim o exército ‘declara’ que só não reduz o hospital a ruínas, sem deixar em pé uma única parede, porque não quer; quisesse, faria.

• Por causa da crise humanitária, o exército de Israel suspende os ataques durante algumas horas por dia e permite que comboios humanitários entrem na Faixa de Gaza. Outra vez, o que não se diz é que, se quisesse, Israel impediria a entrada de socorro humanitário.

A mensagem veiculada nessas frases repetidas incansavelmente tem dois significados, conforme o público-alvo.

Para os palestinenses, a mensagem é uma clara ameaça: a qualquer momento, Israel pode decidir ‘desmoderar-se’ e, assim, permanece sobre todos a ameaça de novos ataques e de ataques cada vez mais violentos.

Independente de o quanto já sejam letais, hoje, os ataques israelenses, a idéia é manter a população palestinense em estado de pânico, sempre à espera de ataques ainda mais brutais. Assim, a violência permanece sempre ativada, quando há ataques e quando não há, durante os combates e durante o cessar-fogo.

Para os israelenses, a mensagem visa o campo moral. Os generais poderiam, se quisessem, disparar sobre a Palestina todo um imensíssimo arsenal de morte e violência; mas, não, preferem não o fazer, porque, diferente do Hamás, o exército de Israel respeita vidas humanas.

Essa última idéia parece ecoar consideravelmente na sociedade de Israel. E baseia-se numa falácia moral.

O fato de que alguém mais brutal escolha não ser totalmente brutal não implica que o brutal seja moral.

O fato de o exército de Israel poder destruir toda a Faixa de Gaza, mas ter destruído ‘apenas’ 15% dos prédios, não torna moral a chacina.

O fato de o exército de Isral poder matar milhares de crianças palestinenses, mas matado ‘apenas’ 300, não torna ética a Operação ‘Cast Lead’.

Em resumo, a falsa moralidade que o exército e o governo de Israel têm reivindicado, como justificativa para suas ações na chacina de Gaza é falsa moralidade, é moralidade oca, é amoralidade.

Esse tipo de discurso revela que Israel não é capaz, ainda, de enfrentar a fonte original da violência essencial, em Israel. Essa violência não vem do Hamás. Essa violência vem da ocupação da Faixa de Gaza, da Cisjordânia e de Jerusalém Leste.

Meu aluno, R., e outros israelenses que protestam contra a chacina de Gaza parecem já ter entendido essa verdade evidente. Para impedir que eles falem e que essa verdade evidente ‘alastre-se’, o governo israelense viola também os direitos civis de seus cidadãos. E os mete na cadeia.

Tradução: Caia Fittipaldi

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