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Carta denúncia do Frei Martinho Penido-Burnier às autoridades brasileiras

 

Carta denúncia do Frei Martinho Penido-Burnier às autoridades brasileiras

Arquivo Histórico do Itamaraty

Missões Diplomáticas Brasileiras

Ministério das Relações Exteriores

Ofícios Recebidos

Beirute – 1.945 a 1.952

Volume 3/3/17 – Dez 1.945 e 1.948

N°. 154/1.948 – 5 de novembro de 1.948

Questão Palestina

 

 

A Sua Excelência, Senhor Embaixador Raul Fernandes, Ministro de Estado das Relações Exteriores.

A Legação dos Estados Unidos do Brasil em Beirute cumprimenta a Secretaria de Estado e tem a honra de remeter-lhe cópia de uma carta enviada a esta Legação por Frei Martinho Penido-Burnier, acompanhada de cinco anexos, sobre os atuais acontecimentos na Terra Santa.

 Trata-se de um religioso brasileiro que se especializou em assuntos bíblicos no Convento dos Dominicanos, em Jerusalém, onde residiu durante os meses mais críticos das hostilidades entre árabes e judeus.

 

Beirute, em 5 de novembro de 1948

 

 

 

Exmo. Senhor Ministro Thompson Flores,

 

Após estas duas rápidas viagens que acabo de realizar à Palestina, julguei ser meu dever submeter a Vossa Excelência algumas reflexões sobre o problema palestinense e sobre alguns fatos importantes mais recentes.

 

Rogo encarecidamente Vossa Excelência informe nosso Ministro das Relações Exteriores sobre o conteúdo desta carta, pois estas reflexões e estes fatos que exporei poderão certamente auxiliar nossos dirigentes para uma visão mais completa e objetiva do problema palestinense.

 

Creio não ser necessário realçar aqui a injustiça fundamental desta guerra da Palestina. Uma coisa é certa: injustificável é a ambição de certos elementos de apoderarem-se de um bem que lhes não pertence.

 

Da mesma forma, talvez não tenha eu credenciais suficientes para discutir e julgar esta decisão de tão graves conseqüências tomada há um ano pela Assembléia Geral das Nações Unidas e à qual nosso país deu seu beneplácito.

 

Todavia penso que minha estadia de dez meses na Palestina (de agosto de 1.947 a julho de 1.948) assim como meus estudos bíblicos, históricos e arqueológicos relativos a esta região do Oriente Médio me forneceram dados suficientes sobre o problema palestinense e me permitiram chegar a conclusões que serão talvez interessantes às autoridades de nosso país, para que estas possam agir com todo o acerto e toda a oportunidade, como compete a uma nação como a nossa.

 

Portanto, se me for dado algum direito para julgar o mérito da questão, direi que todos nós, sacerdotes e cristãos da Palestina ficamos aterrados com a decisão de 29 de novembro.

 

Primeiro porque esta decisão nos pareceu ir de encontro aos direitos inegáveis das comunidades religiosas e étnicas que se encontram na Palestina outras que a comunidade israelita. E em seguida, porque nos debates que precederam esta decisão pouco ou nada se fez em prol de um acordo pacífico entre as partes mais importantes no litígio.

 

Em suma, atribuíram-se a uma das partes litigantes, e com prejuízo de todas as outras, direitos que de forma alguma podem ser justificados, quer do ponto de vista religioso, quer do ponto de vista histórico, social e econômico.

 

E permita-me vossa excelência que expresse aqui a minha crítica sobre certos motivos que levaram algumas nações a adotarem a sustentarem uma tal decisão bem como o meu pesar de que em todos os debates esqueceu-se a consulta e negligenciou-se o parecer de sábios e outros homens de estudos, altamente competentes, que se encontraram em Palestina há longos anos, e cujos pareceres teriam sido oportuníssimos para uma solução equitativa de tão angustiante problema.

 

Por conseguinte para nós, especialistas em estudos bíblicos, históricos e étnicos, esta decisão da partilha da Palestina entre árabes e judeus nos parece por demais simplista e sem corresponder à verdadeira solução do problema que de fato existe. E portanto justa nos parece a intervenção armada dos exércitos árabes para impedir que invasores ambiciosos apropriem-se de um bem que lhes não pertence e nem lhes pode pertencer exclusivamente, a não ser pela violência. Mas até onde chegaremos se as nações civilizadas aceitam o princípio da força e da violência contra os do direito e continuam sustentando a política do “fato consumado”?

 

Desculpe-me Vossa Excelência expressar-me assim sobre esta decisão da Assembléia Geral das Nações Unidas, tanto mais que a exigüidade desta carta não me permite aduzir os argumentos de ordem histórica, religiosa e mesmo econômica sobre os quais nos fundamos em uma tal apreciação. Tomo porém a liberdade de enviar a Vossa Excelência como anexos a esta carta, alguns documentos significativos e interessantes e que poderão ser úteis para uma exata compreensão do problema.

 

E agora, permita Vossa Excelência que eu submeta ao seu conhecimento certos fatos que pude constatar pessoalmente, quer durante o período das hostilidades e da primeira trégua, quer ultimamente, por ocasião destas minhas últimas duas viagens a Jerusalém.

 

Quero aludir em primeiro lugar à conduta desta guerra pelas tropas e autoridades sionistas sobretudo no que diz respeito às atrocidades cometidas por eles sobre as populações civis e indefesas; aos saques sistemáticos e metódicos de aldeias inteiras ou de certos bairros cristãos de Jerusalém; aos roubos, saques e vandalismos de toda espécie praticados nos edifícios de instituições religiosas.

 

A lista destes desatinos é por demais extensa para que eu possa enumerar tudo aqui, e por isso contento-me com uma simples alusão aos principais destes fatos, que por sinal, já são assaz amargamente expressivos:

 

— o Convento de São Jorge, pertencente aos gregos ortodoxos, ocupado à mão armada em 15/5/1.948;

 

— a Hotellerie Notre-Dame de France, dos padres Assuncionistas, ocupada pelas tropas sionistas em 15 e 18/5/1.948 e sistematicamente saqueada e profanada (anexo III);

 

— o Hospital Francês, ocupado militarmente pelos sionistas em 15/5/1.948, apesar da presença das Irmãs de São José e dos enérgicos protestos do Dr. Baner, médico-diretor, e apesar das bandeiras francesas e da Cruz-Vermelha;

 

— o Convento das Irmãs de Marie Reparatrice, incendiado e demolido pelos sionistas em 15/5/1.948 e 25/5/1.948;

 

— o Hospital Italiano, colocado sob a proteção da Cruz Vermelha Internacional, ocupado pela Haganah e utilizado como fortaleza e base militar;

 

— o Palácio do Excelentíssimo Senhor Delegado Apostólico, bem como a Igreja e Mosteiro dos Padres Beneditinos alemães, ocupados com violência pelas tropas sionistas em 18/5/1.948, apesar da bandeira Pontifícia que os devia proteger;

 

— a Escola Inglesa do Monte Sião e o Convento de São João dos Gregos, ocupados igualmente na noite de 18/5/1.948.

 

E a lista poderia prolongar-se indefinidamente se nos puséssemos a enumerar todas as avarias causadas pelos obuses sionistas, propositalmente enviados sobre a Cidade Velha fora de qualquer objetivo militar. Assinalo simplesmente a título justificativo de minhas afirmações:

 

— a Basílica do Santo Sepulcro, cuja cúpula não foi somente atingida por estilhaços de obuses caídos nos santuários contíguos, dia 17/5/1.948, como também danificada por um obus sionista no dia 8/6/1.948;

 

— o Convento e Igreja de São Tiago dos Armênios Ortodoxos, que desde o começo das hostilidades receberam uma cintura de bombas que muitos estragos causou, assim como a morte de numerosos refugiados e clérigos que ali se abrigaram;

 

— o Seminário de Santa Ana (17/5 e 19/5) a Igreja de São Constantino e Santa Helena (17/5);

 

— o Patriarcato Sírio Ortodoxo (16/5);

 

— o Convento de São Jorge dos Gregos Ortodoxos (18/5);

 

— o Convento dos Coptos Ortodoxos (23/5/48);

 

— o Grande Convento dos frades franciscanos (19, 23, 24/5/1.948) bem como a Venerável Basílica de São Salvador;

— o Patriarcato Latino (23, 26, 27, 28/5/1.948);

 

— o Patriarcato Grego Melquita, a Igreja de Santa Verônica, bem como o Patriarcato Armênio Católico.

 

 

Se passarmos a falar da maneira sionista de conduzirem a guerra, temos a tristeza de constatar que eles rivalizam com os Nacional Socialistas da última guerra mundial, a ponto de que Mr. Neville, Cônsul Geral da França (pessoa todavia mais que insuspeita, dada a sua maior simpatia pelo movimento sionista, antes destas hostilidades) declarou solenemente que “vinte e oito dias de guerra e dezessete dias de trégua ensinaram-me mais sobre o Nacional Socialismo do que vinte anos de regime de Hitler.” (declaração proferida no nosso Convento de Santo Estevão, no dia 27/6/1.948 e por mim cuidadosamente anotada).

 

O nome de Deir Yassin ficará lamentavelmente, na história da Palestina, tão tristemente célebre quanto ao de Cachan ou de Bubhenwald na história da Alemanha. E se tivesse havido um só Deir Yassin!… mas infelizmente numerosos já são os casos semelhantes.

 

Porém, o que mais me entristeceu foi constatar, por ocasião destas minhas duas viagens a Jerusalém, as hediondas profanações de Igrejas e objetos de culto que os sionistas empreenderam como que sistematicamente.

 

Após as profanações das Capelas da Hotellerie Notre Dame de France transformadas pelos soldados da Haganah em Salão de baile e mesmo em dormitório (para soldados de um e outro sexo…) (anexo III) e da venerável Basílica dos Beneditinos do Monte Sião, igualmente transformada em “dancing” e agora empregada como depósito de lixo, vieram as abomináveis profanações do Ospizio de Haiffa, pertencente aos frades franciscanos, vergonhosamente saqueado sob as vistas e responsabilidade das autoridades sionistas e onde, não satisfeitos com os roubos e as profanações dos crucifixos e imagens sacras, chegaram a este paroxismo de ódio e profanação, de transformarem a Igreja em latrinas públicas, e até fazerem suas necessidades sobre os crucifixos e a estatua da SSma. Virgem horrivelmente mutilada (v. anexo IV).

 

E para que Vossa Excelência não pense que se tratam de atos de extremistas ou irresponsáveis ou ainda um ato de desvario assim por acaso, saiba Vossa Excelência que tais abominações foram praticadas ainda no Convento das Freiras de Sant’Ana, de Haiffa; nas Igrejas dos Gregos Ortodoxos e dos Gregos Melquitas de Haiffa, na Capela das Irmãs Franciscanas Missionárias do Egito, de Tiberíades, na Igreja dos Gregos Melquitas de Safet, etc. etc. (v. anexos IV e V).

 

Acrescente-se ainda o ocorrido em Tiberíades, na Igreja de São Pedro, do Convento dos Franciscanos e na Casa Nova dos Peregrinos; ou em Cafarnaum e suas vizinhanças, nos edifícios e santuários pertencentes aos Franciscanos e aos Beneditinos, e teremos um complemento de informação sobre a atitude dos sionistas e da Haganah (v. anexos IV e V).

 

Quanto à situação deplorável dos refugiados de guerra, eu mesmo pude constatar o quanto a realidade dos fatos ultrapassa tudo quanto sabíamos pela imprensa. São centenas e milhares de pessoas sem teto e alimento, mulheres, crianças e velhos expulsos impiedosamente de seus lares por invasores desalmados, ou fugindo horrorizados ante o espetáculo das crueldades praticadas pelos sionistas. Eu mesmo visitei um desses campos de refugiados e pude constatar a situação desesperada desses pobres coitados, e ouvir de muitos deles a dolorosa narrativa dos fatos que presenciaram.

 

Eis porque, Senhor Ministro, julguei ser meu dever chamar a atenção sobre todos estes fatos afim de que Vossa Excelência informe devidamente o nosso governo e que assim o nosso país não entre em conivência com tantos crimes e profanações e pelo menos procure salvaguardar os direitos dos cristãos na Terra Santa, tão perigosamente comprometidos pelos estabelecimentos dos sionistas.

 

Pois em fim de contas temos que nos inclinar à evidência dos fatos de que os Lugares Santos e os interesses dos cristãos na Palestina estão seriamente ameaçados pela invasão sionista, e por isso a responsabilidade dos países que se dizem cristãos é muito grande demais apesar das afirmações oficiais em sentido contrário para tolerarem tais acontecimentos ou tacitamente os aprovarem.

 

Esperando que a ação de Vossa Excelência seja eficaz junto a nosso governo para que este assuma uma atitude conforme à dignidade humana e à justiça, e defenda com hombridade e brio os direitos dos oprimidos,

 

subscrevo-me respeitosamente,

de Vossa Excelência o amigo e servo em J.C.

Frei Mart. Penido Burnier

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