ANONNI 27 ANOS III – UM LÍDER DO MST NA PALESTINA Reviewed by Momizat on . ANONNI 27 ANOS III - UM LÍDER DO MST NA PALESTINA PUBLICADO POR JOEL DE BRITO. PUBLICADO EM TERÇA, 30 OUTUBRO 2012 05:12   Mário Lill, dirigente gaúcho dos Sem ANONNI 27 ANOS III - UM LÍDER DO MST NA PALESTINA PUBLICADO POR JOEL DE BRITO. PUBLICADO EM TERÇA, 30 OUTUBRO 2012 05:12   Mário Lill, dirigente gaúcho dos Sem Rating: 0

ANONNI 27 ANOS III – UM LÍDER DO MST NA PALESTINA

ANONNI 27 ANOS III – UM LÍDER DO MST NA PALESTINA

PUBLICADO POR JOEL DE BRITO. PUBLICADO EM TERÇA, 30 OUTUBRO 2012 05:12

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Mário Lill, dirigente gaúcho dos Sem Terra viaja para a Palestina em abril de 2002 com um grupo de líderes camponeses liderados pela Via Campesina e entra no Quartel General de Yasser Arafat e serve de escudo humano no cerco dos israelenses ao líder palestino.

A foto de Mário Lill com a bandeira do MST foi vista em todo o mundo. Dez anos depois, ele concede entrevista exclusiva e fala sobre a experiência vivida na Palestina, sobre o MST e sobre a Fazenda Anonni cuja ocupação completa 27 anos na próxima segunda-feira, dia 29 de outubro. O agricultor é membro do MST desde 1985, quando participou da ocupação da Fazenda Annoni, no Rio Grande do Sul. É casado com Irene Manfio, de 38 anos, que conheceu nos cursos de formação do próprio movimento. O casal vive com os filhos Pedro, de 12 anos, e Tiago 6 anos no assentamento 16 de Março na Fazenda Anonni, na cidade de Pontão.

Mário Lill partiu da capital gaúcha no dia 23 de abril, rumo à cidade de Ramallah, na Cisjordânia, a convite da Via Campesina, uma Organização Não Governamental (ONG) que reúne movimentos sociais ligados à agricultura de diversos países. Lill fez parte de uma comitiva de 35 agricultores de vários países – sobretudo da Europa – que foram participar do Dia da Terra, comemorado em 30 de março, uma data sagrada para os palestinos. Todos os participantes hospedaram-se no Ramallah Hotel, onde ficaram sitiados por conta dos bombardeios israelenses.

Folha da Produção: Como um dos líderes nacionais do MST que participou da ocupação da Fazenda Anonni em 1985, como vê hoje o MST como força política?

Mário: o MST segue sendo uma força política grande. É verdade que a Reforma Agrária perdeu espaço no atual cenário econômico e político. Deixou de ser uma luta de todos, para ser uma luta e uma bandeira do MST. O que significa isto? Que hoje a sociedade acredita que o agronegócio tem condições de resolver os problemas da Agricultura Brasileira. No entanto hoje, segundo dados da FAO, uma de cada oito pessoas no mundo passam fome diariamente. O Brasil é o campeão mundial de consumo de agrotóxicos. Então vejamos o atual modelo, que é o do agronegócio, não garante comida de qualidade para todos e deixa um em cada oito seres humanos passando fome. Há dois modelos em disputa. O modelo da fome, do veneno, da concentração da terra, do êxodo rural. Nosso modelo é o modelo da agricultura camponesa. Com distribuição de terra, educação “no e do” campo, agroindústrias no campo, saúde e lazer no campo, diversificação da produção, com prioridade para a alimentação sadia. Habitação digna para todos. O campo deve ser um lugar bom de viver e trabalhar. O MST segue defendendo o modelo da agricultura camponesa. Mesmo que na mídia se criou a ilusão temporária que o agronegócio é a solução, o MST segue organizando a produção nos seus assentamentos, fazendo educação em todos os níveis. Formando: médicos, pedagogos, agrônomos, veterinários, advogados… enfim, nas mais diversas áreas do conhecimento humano. Isto é força também. Construímos e ampliamos nossas agroindústrias, melhoramos nossas condições de vida nos assentamentos.

Folha: Em abril de 2002 você esteve na Palestina em encontro com o líder da OLP Yasser Arafat e teve a vida em risco quando o escritório de Arafat foi atacado por Israel. Em algum momento você sentiu que sua vida estava em perigo?

Mário: em vários momentos sentimos nossas vidas em perigo. Difícil descrever um único. Tiveram vários momentos de tiroteio contra a sede da autoridade Palestina, helicóptero sobrevoando dando a sensação de um bombardeio a qualquer momento. Fome, sede…

Folha: Quando você e mais um grupo de representantes foram convidados para ir à Palestina, qual era o principal objetivo daquela viagem?

Mário: Aqui é importante dizer que o MST se articula com todos os camponeses do mundo, e a Via Campesina é este espaço de articulação. Sempre buscamos fortalecer a solidariedade e a troca de experiências, de conhecimento, de aprendizados. No caso da Palestina, dada a situação de guerra, tínhamos dois objetivos centrais: 1) Levar a solidariedade dos camponeses da Via Campesina ao povo Palestino e sua luta; 2) Participar das comemorações do Dia da Terra. Eles têm uma relação muito forte, muito bonita com a Terra. Nós fomos para ver qual este mistério, esta paixão pela terra do povo Palestino.

Folha: Arafat lutou por um estado palestino independente e buscava o que se pode chamar de “terra prometida” para os palestinos. Qual a semelhança entre a luta dos palestinos com as lutas do MST na década de 1980?

Mário: Temos a terra em comum. A luta é semelhante neste aspecto, ou seja, a Terra. Mas enquanto nós lutamos por um pedaço de terra na nossa pátria eles lutam por uma pátria. Esta é no fundo o que aproxima as lutas de todos os povos do mundo, as causas. As lutas dos povos sempre serão guiadas pela cultura de cada povo, pelos seus hábitos, pelas circunstâncias. Não se pode comparar a forma de fazer luta política dos palestinos com a do MST no Brasil. Nós vivemos sob uma frágil jovem democracia os Palestinos lutam para serem reconhecidos como uma nação, vivem sob a intervenção diária de Israel. São outros patamares. A busca por dias melhores para nosso povo se assemelha.

Folha: Yasser Arafat criou a Fatah, uma organização dedicada ao estabelecimento de um estado palestino independente. Com a luta armada contra Israel criou-se uma imagem negativa dele em boa parte do mundo. O MST realizava na década de 1980 muitas ações e mobilização e também teve uma imagem ruim criada por boa parte da imprensa. Qual a semelhança entre o modo de agir das forças comandadas por Arafat e as ações do MST?

Mário: Aos de baixo, sempre foi negado o direito de se organizar para subverter a ordem do dominante. A melhor forma para negar o direito a alguém é denegrir sua imagem. É criminalizá-lo. Ora qual o país do mundo que não tem seu exército? Por que a Palestina não pode ter? Alguém vai rapidamente dizer que eles são terroristas, são perigosos. Masquem não é perigoso com arma e poder na mão? Veja a questão da bomba atômica: os Estados Unidos negam a qualquer país do mundo o direito de ter bomba atômica, só eles podem ter. Mas quem soltou bomba sobre Yroshima e Nagasaki? Foram as únicas bombas usadas até hoje e justamente por quem tacha todo mundo de terrorista. É importante que se diga isto, não para defender a bomba atômica, mas para negar também ao opressor o direito de possuí-la. As forças de Arafat desenvolvem uma luta para o reconhecimento de sua pátria e esta luta se dá contra um império representado por Israel, mas com todo apoio político e militar dos Estados Unidos. Este império usou de todos os instrumentos para criar a imagem ruim, fica mais fácil derrotar militarmente. Os Palestinos têm uma dificuldade muito maior de fazer a luta de massas. Com isto em muitos momentos priorizam a luta militar. O MST sempre priorizou a luta de massas. Acho que o que nos assemelha é a convicção de que é possível construir uma pátria Palestina e uma Reforma Agrária no Brasil.

Folha: A população palestina em grande parte vive até hoje espalhada por vários países ou em campos de refugiados. No Brasil desde a criação do MST, há em vários países e também em Sarandi, acampamentos de Sem Terra. O que está faltando para que os palestinos tenham sua nação independente e os Sem Terra no Brasil acabem com os acampamentos e conquistem a terra definitiva?

Mário: Creio que não seja uma coisa simples que dependa da vontade de um ou outro. Faz parte da natureza da disputa. Quem tem a terra na mão não vai entregar facilmente para Reforma Agrária. Enquanto tivermos governantes que priorizam o agronegócio esta situação tende a não mudar. Seria necessária uma ampla mobilização social para sensibilizar os governantes da necessidade de fazer a Reforma Agrária. Hoje vivemos uma contra reforma. A terra está se concentrando cada dia mais na mão de uns poucos. O que é pior, as multinacionais são as compradoras de grandes extensões de terra com a conivência do Congresso Nacional e dos governos e o povo não sabe o que está acontecendo, pois isto não vira notícia, acontece na surdina.

Folha: Depois de voltar ao Brasil. Que contribuição ao MST foi dada com o conhecimento “in loco” da luta pela terra que você teve do povo palestino?

Mário: Nós ampliamos nossos laços de solidariedade, isto é muito importante. São laços recíprocos. Nós para com eles e eles conosco. Estas relações com os Palestinos e com os outros povos foram decisivas em momentos difíceis da nossa luta. Quando houve o massacre de Eldorado dos Carajás, por exemplo, a solidariedade internacional foi fundamental para luta seguir. A via Campesina passa a adotar o dia 17 de abril como o dia internacional da luta pela terra. Em todos os países do mundo se recorda, com luta, este dia e se pede aos governantes do mundo para não se repetirem massacres como este. Penso que evoluímos na nossa visão e relação com a terra. Os Palestinos têm uma relação carinhosa, afetuosa com a terra. A terra não é uma mercadoria. Ela é nossa mãe, ela nos alimenta, ela precisa ser cuidada. Aprendemos que o inimigo comum é o capital, em cada país ele tem a sua roupagem, mas é ele que explora a nós, camponeses, e enche a mesa da população urbana de venenos.

Folha: Em novembro de 2004, Yasser Arafat morreu sob suspeita de envenenamento ao longo dos últimos anos de vida. Você acredita que isso tenha ocorrido?

Mário: Tenho plena convicção que sim. No período que estive na sede da Autoridade Palestina, testemunhei a prepotência dos soldados Israelenses, quando alguém trazia um medicamento para o Arafat. Testemunhei seu estado de saúde, que embora dependente de medicação especial, tinha uma saúde de ferro. Uma saúde para durar muitos anos. Arafat era um líder muito carismático. Tinha muita simpatia do seu povo e principalmente uma capacidade de aglutinar, de juntar forças e de dividir. Era muito ponderado nas suas ações, não era radical ou extremista, mas conciliador, sempre defendendo seu povo. A intransigência era nas questões de interesse do seu povo. Esta liderança atrapalhava os planos e interesses do império e seu representante. Por isso acredito que Israel e os Estados Unidos queriam ver Arafat morto. E por isso tinham razões para envenená-lo.

Folha: Na época da viagem, alguns veículos da comunicação criticaram a ida para o Oriente Médio. Como foram custeadas as despesas de viagem dos representantes da Via campesina à Palestina em 2002?

Mário: As despesas foram custeadas pela solidariedade do camponeses Europeus da Via Campesina.

Acampamento da Anonni completou 27 anos no dia 29 de outubro.

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