A questão humanitária definitiva do nosso tempo Reviewed by Momizat on . Quando esta minha estreia como colunista na Fórum chegar às mãos do leitor, já estaremos em outra etapa deste ciclo da macabra escravização colonial imposta ao Quando esta minha estreia como colunista na Fórum chegar às mãos do leitor, já estaremos em outra etapa deste ciclo da macabra escravização colonial imposta ao Rating: 0

A questão humanitária definitiva do nosso tempo

Quando esta minha estreia como colunista na Fórum chegar às mãos do leitor, já estaremos em outra etapa deste ciclo da macabra escravização colonial imposta ao povo palestino. Essas “etapas” se repetem com absurda previsibilidade para quem acompanha o tema há décadas. No momento em que escrevo, faz um dia que opera um “cessar” das “atividades” de três semanas do exército israelense em Gaza, que deixaram mais de 1.200 palestinos mortos, 87% dos quais eram civis. Do imenso rastro de cadáveres, quase um terço são crianças. Elas constituem cerca de 50% da população de Gaza, a única do planeta a viver sob total cerco naval, terrestre e aéreo por exército estrangeiro. Evidentemente, a brutalidade do massacre deixa também centenas de milhares de seres humanos em estado de trauma irreversível.

As “etapas” são previsíveis porque as democracias ocidentais jogam o mesmo jogo hipócrita a cada ciclo dos crimes de guerra perpetrados por Israel contra o povo palestino. Neste caso, algumas datas são chave: junho de 2008 inaugura uma “trégua” com o Hamas, entendendo-se por “trégua” o que termo significa na Palestina Ocupada, ou seja, os palestinos concordam em não realizar nenhuma atividade hostil a Israel e este segue livre para manter a ocupação colonial, os assassinatos seletivos, os checkpoints, a construção do muro do Apartheid. Essa “trégua” se manteve, no entanto, durante meses, até que no dia 4 de novembro Israel invadiu a Faixa de Gaza e matou seis ou sete palestinos (há dúvida sobre o número, não sobre os assassinatos). A imprensa mundial simplesmente não noticiou. 4 de novembro? O dia em que o mundo observava os EUA elegerem seu primeiro presidente negro.

De olho em suas próprias eleições, no dia 10 de fevereiro de 2009, e na posse de Barack Obama, em 20 de janeiro, os líderes israelenses precisavam de qualquer desculpa para atacar o Hamas – ao mesmo tempo em que colocavam a culpa nos agredidos. A invasão militar seguida de assassinatos, conjugada com a manutenção do cerco militar, financeiro e comercial a Gaza, foi suficiente para provocar as respostas dos foguetes Qassam do Hamas, que não tinham sequer ferido qualquer israelense durante toda a “trégua”. Três semanas antes da posse de Obama, o exército de Israel invade Gaza e começa a perpetrar uma matança de proporções criminosas. Para quem acompanha a história dos massacres israelenses desde Shatila e Sabra (1982), não era difícil prever quanto tempo as forças de ocupação ficariam por lá.

Em um domingo, 18 de janeiro, as forças israelenses começam a sair de Gaza – não sem antes romper o cessar-fogo decretado por elas mesmas 12 horas antes – para a posse de Obama, que assume a presidência dos EUA já com o recadinho recebido. A cada ciclo, a grande imprensa ocidental (com raras exceções: The Guardian, as colunas de Robert Fisk no Independent) viaja também sobre a mesma estrada da hipocrisia. Repete boletins de imprensa de Israel como se fossem peças de jornalismo. Enfoca a guerra, mesmo quando a critica, do ponto de vista dos “objetivos” do exército ocupante, como se do outro lado não houvesse seres humanos. Pior de tudo, esquece a história do que ali vem acontecendo, tanto a história recente (digamos, os assassinatos de 4 de novembro, data real do fim da “trégua”) como a já longa história da expulsão (1948) e ocupação militar (1967) do povo palestino.

No caso das democracias ocidentais, a farsa se repete com previsibilidade ainda mais macabra. Os EUA lançam uma declaração de que “Israel tem o direito de se defender”, mesmo que o ataque seja contra um povo que não tem exército, marinha ou aeronáutica, e a proporção de mortos seja, como em Gaza, de 100 por 1. Os Estados europeus “pedem” um “cessar-fogo” de “ambos os lados” e a farsa se arrasta por vários dias, enquanto os líderes árabes jogam seu tradicional empurra-empurra da impotência. O Conselho de Segurança da ONU se reúne, tenta ao máximo uma declaração neutra o suficiente que agrade aos EUA e, no final, mesmo a farsesca petição de cessar-fogo de “ambos os lados” é boicotada pelos próprios EUA. Israel continua perpetrando o crime de guerra por algumas semanas, até que unilateralmente decide que é hora de parar e voltar à guerra de baixa intensidade contra o povo palestino, que é a ocupação “pura e simples”.

Na mais recente matança em Gaza, a lista de crimes de guerra cometidos por Israel incluiu: o uso de bombas de fósforo branco contra civis, a chacina dos membros de um clã numa casa à qual os havia levado o próprio exército israelense, os sistemáticos disparos contra ambulâncias, bombardeios contra universidades, a proibição da entrada de ajuda humanitária, bombardeios contra instalações das Nações Unidas (que sempre deram a Israel todas as suas coordenadas GPS), o uso da nova, terrorífica, Bomba de Metal Denso Inerte contra civis, entre outros. Mas com o completo sequestro do establishment político americano pelo lobby pró-Israel mais belicista, a inépcia da ONU e a covardia medrosa dos líderes árabes, o mundo mais uma vez – com raras exceções: Hugo Chávez, Evo Morales, o presidente turco Abdullah Gul – se calou ante essa que é mais justa das questões do nosso tempo, o direito dos palestinos viverem num estado viável e soberano em 22% das terras que historicamente foram suas.

Ao mesmo tempo em que se repetem, previsíveis, os movimentos farsescos do jogo político, os palestinos entram na quinta década de ocupação colonial. Sua história atravessa inúmeras distorções, falsificações, encobrimentos de indícios de limpeza étnica e uma massiva e poderosa campanha de propaganda do Estado sionista. Da expulsão de 750 mil palestinos de suas casas, acompanhada da destruição de centenas de vilas palestinas, em 1948, o mundo durante muito tempo não soube praticamente nada. Continua sabendo pouco, apesar do trabalho incansável de historiadores como Ilan Pappé, um israelense que, pela primeira vez com fontes árabes, documentou o que os palestinos chamam de Nakba, a catástrofe (a hostilidade a Pappé em Israel chegou a um ponto tal que o acadêmico decidiu se mudar para Londres).

Esse já documentado, mas virtualmente desconhecido, plano de limpeza étnica, levado a cabo na Palestina dos anos 40, foi durante décadas escondido com sofismas, falsificações ou distorções do tipo “não houve expulsão; os palestinos saíram voluntariamente”; “as propriedades foram compradas”; ou, a mais odiosa de todas, tratava-se de uma “terra sem povo”. Este último dogma, de papel central na mitologia que cerca a fundação de Israel, foi repetido sob diferentes formas, incluindo-se aí uma série de contorcionismos lógicos em torno do tema “o povo palestino não existe”, fórmula hoje já abandonada na desmoralização e só ressuscitada nas comarcas mais racistas.

Da realidade brutal da ocupação militar que se arrasta desde 1967 sobre as terras nas quais, segundo a lei internacional, deveria se constituir o Estado palestino, o mundo também sabe muito pouco. Tanto as palavras inglesas “settler” e “settlement” como as portuguesas “colono” e “assentamento” são precários eufemismos para descrever os 450 mil grileiros fortemente armados que, à margem de toda lei e com proteção extra do exército de ocupação, vão abocanhando cada vez mais terras palestinas na Cisjordânia e aterrorizando a região com um cotidiano de agressões e violência. Segundo cálculos de Robert Fisk, sem dúvida o jornalista ocidental que mais conhece essa realidade, entre 1967 e 1982, 21 mil colonos tinham se mudado para a Cisjordânia e para Gaza. Em 1990, o total era 76 mil. Em 2000, sete anos após os acordos de Oslo, o número estava em 383 mil, incluindo-se os colonos da Jerusalém Oriental anexada. A incessante colonização da terra palestina é a realidade da qual todo o demais é expressão, sintoma e reação. Mas a cada agressão israelense, a mídia ocidental se esquece desse pequeno “detalhe”: as forças de ocupação já estão em território palestino há 41 anos e esse é o contexto no qual tudo acontece.

Como já assinalaram muitas vezes as organizações palestinas e israelenses de direitos humanos, historiadores como Ilan Pappé, especialistas como Norman Filkenstein e Jennifer Loewenstein, além de verdadeiras consciências da sociedade israelense como Uri Avnery, nem esse último massacre nem qualquer um dos anteriores tinha nada que ver com terrorismo, foguetes, homens-bomba ou tráfico de armas. Não tinham nada a ver com o Hamas ou com o Fatah. Tudo na política externa israelense sugere que o país já é presa, ele próprio, da lógica bélica que determina que os palestinos serão agredidos e massacrados periodicamente por razões que têm a ver com o calendário eleitoral israelense, estadunidense, ou com qualquer outra conveniência das forças de ocupação – como a restauração do “poder de contenção do exército”, um eufemismo, como assinala Norman Filkenstein, para designar “a capacidade de Israel de semear pânico e morte em toda a região e submetê-la mediante a pressão das armas, da chantagem, do medo.”

Por isso, discutir o recente massacre do Estado sionista sobre Gaza a partir de um veredito sobre o Hamas é aceitar falar da febre como se ela fosse uma invenção do termômetro. Está amplamente demonstrada pela história que a atitude de Israel, ao longo da ocupação colonial, é a de destruir e desqualificar qualquer liderança política que os palestinos construam. Foi assim com a secular Organização para a Libertação da Palestina (que, durante muito tempo, foi a “terrorista” da vez, com a qual era “inaceitável” negociar) e está sendo assim com o Hamas. Essa história incluiu a sistemática destruição, sabotagem e cooptação da OLP por parte de Israel, além do apoio ao próprio Hamas, nos albores do grupo islamista.

A causa palestina não é somente, por todas as suas ramificações, a questão humanitária definitiva do nosso tempo. Considerando-se a carta branca que Israel tem historicamente recebido dos EUA, a monstruosa influência do lobby sionista mais bélico dentro do meio político estadunidense e a completa incapacidade das Nações Unidas, ela é também a de mais difícil solução. Um exame detalhado do mapa da Cisjordânia, picotado por gigantescos assentamentos colonizadores e por postos policiais de controle, retalhado pelo muro do Apartheid, mostra quão longe estamos do ideal de um Estado palestino viável. Sem qualquer força política que obrigue Israel a respeitar as leis internacionais – especialmente a resolução 242, de 1968, que determina o fim da ocupação do território palestino –, a tendência inercial é que a situação se arraste como está. Massacrar palestinos, desde que com a justificativa de combater o “terrorismo”, é uma fácil e eficaz plataforma eleitoral no Estado sionista, onde uma minoria lúcida ainda protesta, em condições cada vez piores.

A esquerda ocidental não pode se dar ao luxo da omissão. O trabalho deve ser incessante, começando-se pelo questionamento dos termos. Não é possível continuar chamando de “conflito israelo-palestino” uma sucessão de massacres contra uma população que não tem forças armadas. Não é possível continuar aceitando o rótulo “terrorista” para qualificar qualquer organização da resistência palestina, enquanto o estado de Israel diariamente perpetra, contra a população civil, crimes qualificáveis como terrorismo de Estado no sentido clássico. Não é aceitável consumir boletins de imprensa do exército israelense travestidos de “jornalismo” cada vez que as agências de notícias relatam um massacre como uma “operação” ou “incursão”, situando-se sempre, claro, não no lugar onde o massacre acontece, mas onde ele é planejado. Não é decente nem digno continuar repetindo mentiras como a tal “oferta generosa” que Yasser Arafat supostamente teria recusado em Camp David, em 2000, uma miragem de criação da imprensa e dos porta-vozes israelenses, naquilo que Robert Fisk chamou de “um dos maiores triunfos de relações públicas de Israel”.

Em meio à atrocidade absoluta, o dicionário também é um campo de batalha.

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